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Como matar a m e em 3 atos 1455 20140316 0381 Léo Kildare Louback escarafuncha relação entre mãe e filho para criar Como Matar a Mãe   3 Atos

Léo Kildare Louback: relação com a mãe passada a limpo no palco - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Ao ver os primeiros ensaios para o texto que dissecava parte da relação que tem com o filho, a mãe não gostou. Ficou um ano sem falar com o filho artista. O tempo passou, o projeto tomou corpo. Agora, só lhe resta sentar-se na primeira fila da plateia.

As nuances da relação muitas vezes difícil entre mãe e filho estarão no palco do Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a partir desta quinta (24), em Como Matar a Mãe - 3 Atos, texto do mineiro Léo Kildare Louback.

Aos 29 anos completados no último dia 20, ele é um dos mais inquietos artistas da nova geração teatral de Minas Gerais. Na obra debutante de sua Sofisticada Companhia de Teatro, divide direção e atuação com as atrizes Fabiane Aguiar e Soraya Martins, suas colegas de grupo.

Além de ator e dramaturgo, Louback é formado em letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, e atua ainda como tradutor de alemão. Atualmente, ainda faz pós-graduação em produção cultural.

Em conversa exclusiva com o Atores & Bastidores do R7, direto de Belo Horizonte, ele conta que o processo da peça foi difícil. "Investigamos limites entre ficção e memória. Nossas mães verdadeiras são tema, bem como mães da literatura e do teatro".

Como matar a mãe em 3 atos guto muniz Léo Kildare Louback escarafuncha relação entre mãe e filho para criar Como Matar a Mãe   3 Atos

Fabiane Aguiar, Soraya Martins e Léo Kildare Louback: Sofisticada Companhia de Teatro - Foto: Guto Muniz

O grupo está em processo desde julho de 2011. "Digo que esta peça foi a partir da minha mãe e das cartas não respondidas para meu pai", revela. Louback conta que nada foi fácil. "Minha mãe chegou a ver um esboço e ficou um ano sem conversar comigo. Mas, agora, já está mais tranquila. Tanto que ela e as mães das outras atrizes estarão na estreia".

Nome provocante

Sobre o provocante nome da obra, o ator e dramaturgo diz que vem da necessidade de "se livrar desse cordão umbilical eterno que aprisiona muitos". E ainda avançou em seu texto para uma visão da maternidade sem dogmas. "Queremos matar a ideia de amor romântico e humanizar essa mãe. Ela é uma pessoa e não um mito", define.

Trabalhar com memórias foi "superdramático" segundo o artista: "Porque mexe demais na caixa de pandora de cada um de nós". O cuidado também foi necessário na finalização, para não deixar "cenas muito fortes ou pesadas para as mães", já que sempre tiveram em mente convidá-las. "Sempre pensamos nelas, que elas estariam no palco se vendo retratadas", revela.

Em meio a tanto drama, a peça também guarda espaço para momentos bem-humorados, segundo Louback. "Há cenas muito cômicas, que diluem um pouco deste drama", entrega. E diz que, após BH, quer conquistar outras plateias: "Queremos viajar todo o Brasil".

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Cena da peça Como Matar a Mãe - 3 Atos: dramaturgia mistura realidade e ficção - Foto: Guto Muniz

Peça, festival e livro

Além de Como Matar a Mae - 3 Atos, Léo Kildare Louback estreia no dia 29 de abril no Rio a peça Carolina de Lorca, com sua autoria e direção. "É um trabalho que une dança, teatro e performance. Busquei inspiração na mulher misteriosa que foi Clarice Lispector".

carol Léo Kildare Louback escarafuncha relação entre mãe e filho para criar Como Matar a Mãe   3 Atos

Léo Kildare Louback também é autor e diretor de Carolina de Lorca, com Carolina Correa - Foto: Guto Muniz

A peça foi feita a partir de uma proposição da atriz Carolina Correa, que faz o monólogo escrito e dirigido por Louback. Esta havia sido mãe e vivia o dilema de tocar a carreira artística e cuidar do filho bebê. "Tem muita espera, dor e sofrimento desta mulher social obrigada a parir o menino, a ser mãe, atenciosa, competente e tudo o que o papel social pede, enquanto que, muitas vezes, ela gostaria de estar em algum outro lugar de existência", define o autor.

Após o Rio, a peça será apresentada em julho na Argentina, onde Kildare dará uma oficina de dramaturgia baseada em biografias.

Em maio, ele lança o livro de contos Sobrevoo ou a Literatura Nasce com a Morte de um Pássaro, pela Editora Scriptum. O conto que dá título à obra já virou peça dirigida pelo autor e também um curta-metragem em 2009, sob direção de Cardes Amâncio.

Sobre em navegar em tantas vertentes artísticas, Louback define, de forma direta e ao mesmo tempo profunda: "Tento compreender pela arte o colapso que me habita".

Como Matar a Mãe - 3 Atos
Quando: Quinta a sábado, às 20h30, e domingo, às 19h. De 24/04/2014 a 18/05/2014
Onde: Teatro João Ceschiatti - Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537, Belo Horizonte, tel. 0/xx/31 3236-7400)
Quanto: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Classificação etária: 16 anos

Carolina de Lorca
Quando: 29/4/2014, terça - Única apresentação
Onde: Solar de Botafogo (r. General Polidoro, 180, Botafogo, Rio, tel. 0/xx/21 2543-5411)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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philippe gaulier foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: “Gente séria é perigosa”, diz Philippe Gaulier, o mestre mundial dos palhaços

Philippe Gaulier, com seu chapéu e seu café: "Gente séria é muito perigosa" - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Bob e eu chegamos ao saguão do Hotel Intercontinental, na alemeda Santos, em São Paulo, pontualmente no horário marcado, às 14h da última segunda (7). Philippe Gaulier já nos aguarda, sentado em uma confortável poltrona, tomando café e com um charmoso chapéu panamá. O maior palhaço do mundo tem um ar sóbrio.

Mas, logo ganhamos intimidade tanto para as fotos quanto para esta exclusiva Entrevista de Quinta.

Nascido em Paris, em 4 de março de 1943, Gaulier dirige a escola que leva seu nome na capital francesa. É considerada a mais importante instituição de formação de palhaços do mundo. Foi discípulo de Jacques Lecoq [1921-1999], o grande mestre do clown francês, com quem trabalhou até fundar sua École Philippe Gaulier em 1980. A instituição funcionou também com sucesso em Londres, entre 1991 e 2002, até retornar à sua terra natal.

Gaulier está no Brasil a convite do Sesc São Paulo, para dar a disputada oficina gratuita O Clown Segundo Gaulier, ministrada a 50 artistas e pesquisadores de distintas regiões do Brasil no Sesc Belenzinho até o próximo sábado (12). Estão representados os Estados de São Paulo, Minas, Rio, Pará, Paraná, Santa Catarina, Alagoas, Mato Grosso, Maranhão e Rio Grande do Sul. Segundo o Sesc, a seleção de uma turma tão eclética é forma de espalhar os conhecimentos transmitidos por Gaulier a todo País. O artista também faz palestra grátis nesta quinta (10), às 20h, no Sesc Belenzinho (r. Padre Adelino, 1.000, metrô Belém). As 120 entradas serão distribuídas gratuitamente uma hora antes.

Mas, voltemos ao bate-papo. Nesta conversa com o Atores & Bastidores do R7, Philippe Gaulier falou sobre sua arte, sobre o que pensa de gente séria e ainda declarou seu amor a uma importante artista do clown brasileiro.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – O povo brasileiro tem fama de ser bem-humorado. Você acha que isso ajuda para que o brasileiro seja um bom palhaço?
Philippe Gaulier – Não. Eu penso que Espanha, Itália, França, Suíça, Inglaterra são países que têm tradição na arte clown. Os estudantes londrinos são muito bons. É um país com tradição clown muito forte. Já os alemães, não. Sem chance. O Brasil eu não sei... Apesar de que tive bons estudantes brasileiros de clown em Londres.

philippe gaulier foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Gente séria é perigosa”, diz Philippe Gaulier, o mestre mundial dos palhaços

Philippe Gaulier: "A função do palhaço é fazer a gente rir, gargalhar"- Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado – Esta é sua primeira vez no Brasil?
Philippe Gaulier – Já estive aqui em 1987. Vim para Porto Alegre, Rio e São Paulo. É um país fantástico, de pessoas fantásticas. Estou muito feliz em voltar. Algumas pessoas escolhem ser fantásticas, outras, tediosas. A Noruega, por exemplo, é um país tedioso.

Miguel Arcanjo Prado – Você foi aluno do também francês Jacques Lecoq [1921-1999], mas você acabou contestando seu mestre. Acha isso necessário em todo artista?
Philippe Gaulier – Acho que sim. O artista precisa contestar seu mestre. Antes de mais nada, tenho de dizer que ele era um professor fantástico. Não concordava com alguns pontos, É impossível se concordar com tudo. Não era idiota para concordar com tudo que meu mestre dizia. A vida sempre nos mostra coisas diferentes, além disso havia uma grande diferença de geração, 30 anos nos separavam. Acredito na necessidade da diversidade de experiências.

Miguel Arcanjo Prado – O bufão é mais perigoso que o palhaço?
Philippe Gaulier – Não é mais perigoso. É diferente. A função do palhaço é fazer a gente rir. Não sorrir apenas, mas rir bastante, gargalhar. É o trabalho dele. Já o bufão tem de dizer a verdade. Vem do gueto para falar a verdade. Mas não é mais perigoso. O [dramaturgo francês] Rabelais [1494-1553] foi criticado na França. [O dramaturgo francês] Moliére [1622-1673] também foi criticado, falavam que ele ria demais em seus textos. Ele mandou todo mundo para aquele lugar, e ainda disse que não fazia rir suficiente.

philippe gaulier foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Gente séria é perigosa”, diz Philippe Gaulier, o mestre mundial dos palhaços

Philippe Gaulier: "Se alguém fala 'eu sou sério', acho um grande tédio"- Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado – O que é preciso para ser bom palhaço?
Philippe Gaulier –  Cada geração tem dois ou três bons palhaços. É claro que tem de ser engraçado. Se não for engraçado, é melhor virar professor universitário. Porque para ser professor universitário tem de ser sério. E se alguém fala “eu sou sério”, eu acho um grande tédio. A universidade francesa está cheia de gente assim. Eles acham que são sérios, mas na verdade são um saco. É claro que, para ser palhaço, também é bom saber as regras. Aliás, primeiro vêm as regras, depois a imaginação e a descoberta. Mas, antes, as regras. Estudar muito é preciso.

Miguel Arcanjo Prado – Por que gostamos do ridículo que existe em todo palhaço?
Philippe Gaulier –  Porque não é todo mundo que está disposto a isso, a expor seu lado ridículo. Mas, o ridículo é a melhor parte de uma pessoa. Uma pessoa ridícula não tortura a outra. Mas, gente série pode ser muito perigosa. Você aí, virando a página deste seu bloquinho de papel improvisado... Isso é ridículo. Eu precisava lhe dizer isso. E isso é também seu grande charme. Se um dia você decidir falar que você é ridículo virando esta página de bloquinho, você pode vender isso, e quem sabe ser um caminho para você virar um palhaço. Todo mundo é ridículo. O palhaço ganha a vida sendo ridículo. Se você é sensível, você sempre é ridículo.

Miguel Arcanjo Prado – O que você gosta no Brasil?
Philippe Gaulier – Quando eu era jovem, eu via muitos filmes brasileiros, sobretudo os da década de 1960, do Cinema Novo. Também amo a música brasileira. Eu também amo a Cristiane Paoli-Quito [atriz, diretora e palhaça]. Adoro bossa nova. Acho o Brasil um país lindo.

Intérprete: Lana Sultani

Conheça mais sobre o trabalho de Philippe Gaulier

philippe gaulier foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: “Gente séria é perigosa”, diz Philippe Gaulier, o mestre mundial dos palhaços

Acompanhado da tradutora e discípula brasileira Lana Sultani, Philippe Gaulier conversa com Miguel Arcanjo Prado: "Você aí, virando a página deste seu bloquinho de papel improvisado... Isso é ridículo." - Foto: Bob Sousa

 

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beatriz aquino foto bob sousa 143 Conheça Beatriz Aquino, a beleza e o talento da musa do teatro que veio do mundo dos negócios

Beatriz Aquino, no palco do Espaço dos Satyros: musa do teatro - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Quem viu a peça Lou&Leo sabe que a atriz Beatriz Aquino é uma musa indiscutível. Chamou tanto a atenção nos palcos do Centro Cultural São Paulo e do Espaço dos Satyros 1 que foi eleita Musa do Teatro R7 pelos internautas do portal.

Cearense de Fortaleza, Beatriz teve o primeiro contato com a arte por meio da dança. Fã de Fernanda Montenegro, Pedro Paulo Rangel e Cassia Kiss, fazia balé e dança contemporânea nos tempos de pré-adolescência.

Sentiu pela primeira vez aquele frio na barriga do palco quando se apresentava em festivais. “Adorava aquela sensação”, confessa. Conta que herdou a sensibilidade da mãe, que é artesã. É caçula de oito irmãos. Em casa, “sempre foi uma bagunça”.

Com o crescimento veio a necessidade do trabalho. E a arte precisou ser deixada de lado. Mudou-se para São Paulo aos 17 anos e se formou em publicidade e propaganda pela Anhembi Morumbi, mas foi para o mundo dos negócios.

“Trabalhei durante anos como headhunter [caçadora de talentos coorporativos] em consultorias internacionais”. Conta que morou em lugares como Paris, Milão e Nova York. Mas não se sentia completa. “As relações eram muito frias, sempre voltadas ao business e à produtividade”.

Mesmo com dinheiro no bolso, se sentia “sufocada”. Decretou, então, uma revolução em sua vida; não queria mais aquilo, mas não sabia direito como recomeçar.

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Beatriz Aquino é de Fortaleza, morou em Paris, Nova York e Milão, e hoje vive em São Paulo - Foto: Bob Sousa

“Nesse processo de autoconhecimento, me lembrei da sensação que tinha quando dançava”, revela. Ainda em Paris, se matriculou em um centro cultural. Fez dança do ventre, capoeira, dança moderna e yoga. Com sede de aprendizado, fez workshop com a turma do Theatre du Soleil.

Assim que voltou ao Brasil, em 2010, se matriculou na Escola de Teatro Macunaíma: “Ali, nos palcos, realmente me encontrei”. Viveu “anos mágicos” no contato com professores e colegas artistas. Teve contato com textos profundos, como de Federico García Lorca.

Em 2012, estreou profissionalmente como atriz, no espetáculo A Flor de Varsóvia, texto de Luccas Papp e direção de Jacy Lage. E foi um grande desafio, já que fazia a antagonista, uma psiquiatra francesa que enlouquece ao perder os filhos na 2ª Guerra Mundial.

Sede de aprendizado

Foi ao ver a peça Luis Antonio – Gabriela, da Cia. Mugunzá, que decidiu que queria trabalhar com o diretor Nelson Baskerville. A montagem era sobre o irmão travesti do diretor. Um sucesso de público e de crítica. “Ele consegue tirar sensibilidade e beleza de um mundo ainda muito marginalizado. Acho que esse é o papel da arte no mundo. Dar voz a quem não tem”, define.

Ao saber que Baskerville dirigiria Lou&Leo, a peça biográfica sobre Leo Moreira Sá, que nasceu mulher e se tornou um homem, ela se ofereceu para dar assistência na peça. “Estava disposta a fazer qualquer trabalho desde que pudesse estar perto do Nelson, aprendendo”.

No dia a dia de leituras e ensaios ganhou a personagem Gabi, par romântico do protagonista. “No início, o Nelson não queria que a Gabi fosse personificada, mas durante o processo foi surgindo muita coisa e a Gabi nasceu”.

Para ela, a personagem é “quase um ser etéreo, meio anjo, meio demônio”. No palco, foi desafiada mais uma vez. “Tive de repensar minha relação com o corpo, pois, na peça, eu tirava a parte de cima da roupa”. E ainda cantava, conquistando de vez o público.

Em 2014, sonha em conseguir uma personagem de forte carga dramática. Acaba de voltar de Florença, na Itália, onde estudou o teatro italiano. Mergulhou em Pirandello e na comédia dell’arte.

Sem depender do tônus da pele

Revela que lida bem com a beleza. E confessa que se acha bonita, sim. “Não todos os dias, claro”, diz, sorrindo.

— Senti isso quando trabalhava no mundo corporativo. É aquela velha história, você tem que provar em dobro que é bom. Mas hoje já mudou. No Teatro não tem espaço pra isso. Você tem que estar entregue. Se for ali pra se exibir, leva uma rasteira na hora! É por isso que me apaixonei, pois posso fazer teatro até ficar velhinha, sem depender do tônus da minha pele [risos].

No futuro, quer fazer muito teatro e cinema. Num futuro mais distante, sonha em montar uma escola de teatro para crianças, em uma cidadezinha do interior de Minas ou de São Paulo.

Por conta de sua conexão com o mundo espiritual, diz que perdeu os medos. E cita Elis Regina para definir o que lhe deixa completa.

— “Eu quero uma casa no campo, onde eu passa ficar do tamanho da paz”. Este é meu conceito de felicidade.

beatriz aquino foto bob sousa 142 Conheça Beatriz Aquino, a beleza e o talento da musa do teatro que veio do mundo dos negócios

Beatriz Aquino: seu ideal de felicidade é "uma casa no campo" - Foto: Bob Sousa

 

Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba!

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entredentes foto © Bob Sousa DSC 8852 “É uma idiotice, é um horror!”, diz Gerald Thomas

Gerald Thomas (ao centro) posa com elenco de seu novo espetáculo, Entredentes: Maria de Lima, Ney Latorraca e Edi Botelho; estreia dia 10 no Sesc Consolação, em SP - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

Gerald Thomas é um dos nomes mais inventivos e polêmicos do teatro. Sem medo de dizer o que pensa, ele mantém a verve nesta entrevista exclusiva ao Atores & Bastidores do R7.

Apesar de ter cancelado sua participação no Festival de Teatro de Curitiba, o diretor fará a estreia mundial de sua nova peça, Entredentes, no próximo 10 de abril, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. No enredo, o encontro de um islâmico radical com um judeu ortodoxo no Muro das Lamentações, em Jerusalém, Israel.

A montagem marca a volta dele ao território nacional. E ainda comemora o reencontro do diretor com dois atores amigos: Ney Latorraca, que completa 50 anos de carreira, e Edi Botelho, o ator que mais trabalhou com Thomas. Completa o elenco a portuguesa Maria de Lima, pincelada num dos muitos testes que o diretor fez. Thomas diz que é “uma gigantesca atriz”.

Na conversa, o diretor explica por que não foi a Curitiba. E fala o que pensa da burrice do brasileiro, das manifestações, dos black blocks, do conflito no Oriente Médio, da invasão da Rússia na Ucrânia e até do protesto da atriz Fernanda Azevedo no último Prêmio Shell de Teatro de São Paulo, que não tomou conhecimento, mas opinou mesmo assim. Algumas coisas classificou como "idiotice". Outras preferiu a palavra "horror".

Porque como bom artista que se preze, Thomas não tem medo de perguntas. Nem de respostas.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quando e por que você teve a ideia de Entredentes? Quanto tempo levou desde o começo de tudo até a estreia?
GERALD THOMAS – Olha, a ideia surgiu durante a tournée com a  minha London Dry Opera Company (viajávamos com Gargolios) e passei pelo Rio pra visitar o Ney e o Edi, em abril de 2012. No terraço da casa deles, ficamos horas vendo o trânsito absurdamente engarrafado na lagoa Rodrigo de Freitas. Esbocei um texto. E lá surgiu. É fascinante como as coisas são. A peça estreia exatamente dois anos depois de ser concebida.

Entredentes toca em um assunto sempre polêmico, que é a disputa entre judeus e palestinos. Qual o recado da peça para este conflito?
GT – O recado é que um simples beijo de amor entre os dois poderia resolver. Uma simples troca de vestimenta/figurino, faz de todas essas disputas, uma enorme idiotice. Mas claro, estou no campo da utopia. Como conheço o território (Israel, Gaza e Cisjordânia) e países do Oriente Médio, sei que o buraco é mais embaixo. Milenar: sunitas contra xiitas contra aloitas contra itas e itas. Uma peça de teatro sublinha algumas questões e levanta milhares de outras. Essa questão tribal entre seres humanos é uma triste metáfora às inversas sobre uma falsa ideia de “globalização” que só veio pra reforçar a ideia de nacionalismos e xenofobias acirradas e cada vez piores. Não serei eu a resolver. Fico feliz que Nelson Mandela tenha sido um herói na questão de reconstruir seu país de uma ruína racial e horrenda. Não pretendo tanto! Mas a peça não fala de palestinos e sim de islâmicos radicais e ortodoxos radicais, como os judeus hassidicos (a Palestina está incluída).

Como Ney Latorraca reagiu ao convite? Como é voltar a trabalhar com ele?
GT- Ah, é uma delicia. O Ney é uma delicia porque ele “saboreia e se delicia no palco”. Para quem é rato de teatro como eu, tenho de me vigiar pra não ter acessos de riso durante o ensaio: o ideal mesmo seria fazer um Being Ney Latorraca. Diferentemente de John Malkovich, o Ney faz com que todos nós, em volta… Diz assim a atriz Maria de Lima na peça: “Como vocês brasileiros dizem Ney no plural?” E o Ney responde: “NeyS, com S”. Ano que vem, serão 20 anos de amizade e trabalho com o Ney. Nos visitamos na minha casa em Londres e em Nova York (mas Quartett também foi ensaiado no palco do grupo Dogma 95, com quem eu fiz Chief Butterknife, em Copenhagen, 1996).

Por que, além do Ney, você escolheu os outros dois artistas do elenco, Edi Botelho e Maria de Lima?
GT- O Edi está comigo desde 1987 (Trilogia Kafka) e viajou o mundo comigo, às vezes no papel principal, como em M.O.R.T.E 2 em Taormina (Sicília, Zurique, Roma e Munique). Além do mais, onde está o Ney, está o Edi. Eu o amo. Além disso, o Edi viajou o mundo comigo durante a Trilogia Kafka (New York no La MaMa, 1988) e o Wiener Festwochen (Festival de Viena, 1989) e participou da minha montagem italiana de Said Eyes of Karlheinz Ohl (Os Ditos Olhos Tristes de Karlheinz Ohl) feito com a Cia. do Grotowski em Pontedera, Italia, em 1990. Quanto a Maria de Lima, a descobri durante os árduos testes em Londres em 2010, pra Throats, a primeira peça da London Dry Opera. É uma gigantesca atriz, algo fenomenal. Você verá em cena: é de arrepiar.

Você tem opinião formada sobre a atriz Fernanda Azevedo, que virou alvo de polêmica na classe artística por discursar contra a Shell [dizendo que a empresa apoiou a ditadura] ao receber o Prêmio Shell de melhor atriz na semana passada?
GT- Desculpa, mas não sei quem é e do que se trata. Mas posso falar da idiotice desses prêmios. Eu mesmo deixei cair (de propósito) a estatueta do Molière (ganhei dois, acho, e achei ridículo aquilo tudo). Caiu e virou cal, giz em pó. Acho o Oscar uma besteira, o Globo de Ouro outra besteira e assim por diante. Não podemos ser endossados pela classe média. Estamos à frente deles. Se nos endossam é porque endossamos os valores deles e quero que se fodam. Sigo o exemplo do meu mestre (com quem trabalhei) Samuel Beckett que não deu a mínima pro Nobel que ganhou em 1969 e nem foi recebê-lo.

Você acha que os artistas de teatro estão mais caretas hoje em dia? Por quê?
GT- Claro que estão. A resposta está em vários lugares: não se ousa mais em teatro e temos a TV e a internet que discutem os assuntos antigamente “fritos” somente nas frigideiras teatrais. E com essa fritura vinha um enorme risco. Hoje todos querem sucesso. Não entendo isso. Eu amo o risco! O mundo deu uma encaretada horrenda. Sou filho dos anos 60 e demonstrei nas ruas de Nova York contra a Guerra do Vietnã, militei na Amnesty International em Londres, na década de 70, e fui a Woodstock antes da industrialização de tudo! Eu lia a coluna de Bernard Levin no Guardian e… Não, não sou nostálgico: sei que um Schoenberg surgira dessas cinzas atuais [risos].

Por que Entredentes foi anunciado no Festival de Teatro de Curitiba 2014 e depois caiu da programação?
GT- Porque adiei a estreia em São Paulo. Eu não pude chegar no Brasil pra continuar os ensaios no dia marcado (coisas a ver com o La MaMa em Nova York) e não via sentido em fazer tudo corrido e mal feito. Pra quê? É a volta do Ney aos palcos depois do piripaque, o coma, que sofreu por 67 dias, e minha primeira produção com atores brasileiros em palcos daqui desde 2008 (Kepler, The Dog). Pra que apressar? Então transferimos a estreia pro dia 10 de abril [no Sesc Consolação, em São Paulo], e o Festival de Curitiba já terá acabado nessa data.

Quais grandes diretores do teatro brasileiro você gostaria de convidar para ver Entredentes? Por quê?
GT- Olha, eu não convido ninguém. Nem brasileiros e nem sei lá de onde. Não acredito mais em nacionalidades. E não acredito em teatro com bandeiras nacionais de país algum. São todos bem-vindos.

Qual sua opinião sobre a invasão da Rússia na região ucraniana da Crimeia?
GT- Essa região do mundo tem definições ambíguas. O que é russo e o que é ucraniano e o que é polonês é uma questão de 300 anos. Somos nós, os ocidentais, que criamos fronteiras e decidimos que o Iraque será o Iraque, que o Irã será o Irã e assim por diante. Se voltarmos aos povos babilônicos ou a Constantinopla, depende do império em vigor, essas fronteiras mudam. Essa Rússia de Putin e dos filhos da Putin só existe desde a Perestroika de Gorbachov/Reagan. O “império soviético” ainda esta de pé. E, economicamente, o Putin fez milagres para que a Rússia se recuperasse do fracasso soviético e de Boris Yeltsin. Então, é como o território do Acre ou o Alaska. Um já foi da Bolívia e o outro, da Rússia e, em 20 anos, não estaremos sequer lembrados do que foi o quê. Alguém, por acaso, sabe que a Alemanha só foi unificada por Bismark e faz (relativamente) pouco tempo? Ainda vai rolar muito sangue.

Qual sua opinião sobre as recentes manifestações no Brasil desde junho de 2013?
GT - Achei lindo. Lindo. Pena que foi esvaziada por um bando de imbecis (os black blocs) e virou violência. Tinha o potencial de ser uma manifestação pacífica, reclamando por direitos básicos num país que não cuida de sua infraestrutura, mas constrói estádios de futebol e endossa a corrupção (Mensalão, entre outras). Pena.

O golpe militar no Brasil completa 50 anos. O que o Brasil ainda não aprendeu com sua própria história?
GT - E nunca aprenderá porque o governo quer manter o povo emburrecido. Aliás, o próprio povo parece querer continuar emburrecido. Como aqui estamos “retumbando as margens plácidas do rio Ipiranga” há tanto tempo, retumbaremos por mais uns séculos: levantes, revoluções são feitas com sangue e não com o chopp na praia e o jogo do Flamengo aos domingos ou essas novelinhas das 13h, 14h, 15h, 16h, 17h, 18h, 19h, 20h, 21h, 22h, 23h, 24horas. É um horror!

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 Entrevista de Quinta: Vendemos mais ingresso que o Rock in Rio, diz Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba

Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba: mesmo sem Metallica na programação, ele tem mais público que o Rock in Rio: tem 220 mil contra 80 mil do concorrente musical - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de DANIEL SORRENTINO/Clix

Há 23 anos, esta época do ano é tempo de ver o teatro se espalhar por todas os cantos da capital paranaense no Festival de Teatro de Curitiba. O evento começou no último dia 25 e vai até 6 de abril com mais de 450 espetáculos, dos quais 66 têm entrada gratuita. E quem está à frente de tudo é o curitibano Leandro Knopfholz.

Na última terça (25), o empresário se viu diante de uma situação delicada. Um acidente, o primeiro grave em 23 anos de evento, marcou a festa de abertura no Expo Renault Barigui, quando uma peça de isopor da decoração caiu na cabeça do ator gaúcho Fagner Zadra, de 30 anos, que segue internado em um hospital paranaense. Leandro, que é amigo do artista ferido, acompanha de perto o caso, além de ter se responsabilizado por toda a assistência médica ao jovem. Após o ocorrido, definiu seu estado ao R7 como "Triste, muito triste".

Apesar da tristeza em seu início, o festival segue no ritmo de sua programação vertiginosa. Leandro comanda um contingente de mais de 500 postos de trabalho diretos, além dos mais de 1.000 indiretos que o evento gera. Só para se ter uma ideia da quantidade de gente envolvida, neste ano são 216 profissionais envolvidos com cenários, 65 maquinistas, 15 camareiras, 12 motoristas, 60 técnicos de luz, 40 técnicos de som, 68 produtores, 22 fotógrafos, 30 montadores e mais de 60 jornalistas vindos dos quatro cantos do País.

Apesar de ter transformado o teatro em sucesso comercial e de público: o Festival de Teatro de Curitiba tem orçamento de R$ 6,5 milhões e público de 220 mil pessoas, Leandro Knopfholz também já se acostumou a ouvir críticas. Mas, diante delas, não se fecha. Diz que está aberto a quem quiser procurá-lo.

Nesta exclusiva Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, concedida antes da abertura do festival, ele dá detalhes de bastidores do principal evento das artes cênicas no Brasil e também comemora ter público maior do que o Rock in Rio, que vende 80 mil ingressos. Leandro faz questão de reforçar que isso se dá sem ter a banda Metallica entre suas atrações; o que ele tem a oferecer são espetáculos teatrais.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Esta 23ª edição do Festival de Teatro de Curitiba está com 450 espetáculos e é a maior de todas. Como consegue crescer tanto?
Leandro Knopfholz — É que tudo cresce. A cidade de Curitiba cresceu e o teatro brasileiro também. Temos apenas de nos adequar. O festival tem uma característica que é descobrir e reinventar novas salas para a cidade. Nossa premissa é essa. No Fringe [a mostra paralela] garantimos espaço para todos que quiserem vir. Nossa regra é essa. A gente busca sala de teatro até em colégios antigos e salões paroquiais.

Qual característica você tem para fazer o festival dar certo há tanto tempo?
Eu estava pensando nisso esses dias. O festival me deu habilidade de relacionamento com as pessoas. Estamos suscetíveis a uma serie de situações que transcendem o evento. A gente trabalha com uma característica diferente: porque é gente para todos os lados. Não é uma fábrica com produto. Convivemos com muitas variáveis. Acho que uma característica que desenvolvi foi entender os tempos e os momentos de cada um. Porque o ego sempre está presente nas negociações. E precisamos conciliar tudo isso com nossa limitação logística, técnica e financeira.

Por que este ano o Festival não investiu em coproduções como no ano passado?
Em 2013, tínhamos uma situação diferente, com outros envolvidos. Estabelecemos parcerias como com o Sesc São Paulo e o Itaú Cultural. Agora, sozinho fica mais complicado produzir. Mas a gente não abandonou totalmente a produção. Para viabilizar a vinda de 2 x Matei estamos construindo o cenário aqui. Quem Tem Medo de Virginia Woolf? também estamos construindo o cenário, assim como o do The Rape of Lucrece e Sonata de Outono. O que abrimos mão neste ano foi pegar uma ideia do zero e transformar em um espetáculo, porque isso não depende só da gente.

Por que o Festival de Teatro de Curitiba é tão popular quando comparado aos outros festivais?
Não temos a pretensão de sermos o melhor. Mas temos três pessoas que assistem teatro no Brasil e no mundo o ano inteiro. Queremos fazer um recorte da produção nacional e internacional, dando prioridade sempre a companhias estáveis do teatro brasileiro e prestando atenção aos novos dramaturgos da cena contemporânea. Neste ano, temos um viés de histórias pessoais que viraram dramaturgia, como em BRTrans e Se Fosse Fácil Não Teria Graça. Também gostamos de peças que incorporam tecnologia à cena. Tentamos trazer representantes de tudo que vimos. Isso não quer dizer que trazemos os melhores. Trazemos aqueles que conversam com nosso discurso curatorial. Não somos melhores do que ninguém, só queremos fazer o nosso.

A Nany People apresentava há dez anos o Risorama, que é o maior sucesso de público do festival com suas noites de stand-up. Por que ela deixou o evento neste ano?
Aconteceu porque não chegamos a um acordo comercial que agradasse a ambas as partes. A Nany é madrinha do Risorama, começou na primeira edição. Isso ninguém vai mudar. Ela faz parte da história do evento. Ela continua super bem-vinda. Como não fechamos com ela, estamos com o Marcio Ballas de mestre de cerimônias neste ano. Teve um ano em que a Nany precisou faltar alguns dias e substituímos pela Dani Calabresa. A falta da Nany é uma perda enorme. Ela tem espaço para voltar quando quiser. Inclusive a chamamos para vir nem que fosse um dia, mas ela preferiu não. Quem sabe no próximo ano ela está de volta?

 Entrevista de Quinta: Vendemos mais ingresso que o Rock in Rio, diz Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba

O empresário curitibano Leandro Knopfholz transformou o teatro em um grande negócio e administra orçamento de R$ 6,5 milhões no Festival de Teatro de Curitiba: "Passo o fim de semana buscando promoção de passagem aérea barata na internet" - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Por que tanta gente fala mal do Festival de Teatro de Curitiba? É inveja?
Sinceramente, não sei porque falam mal. O que a gente pretende é ser aberto a todo mundo e coerente com nossa proposta. Conversando muito com nosso público. Chamar a gente de comercial ou entretenimento para mim é elogio, não é ofensa. Temos 200 mil lugares para vender. O Rock in Rio tinha 80 mil entradas, mas tinha o Metallica de atração e é um evento casado com uma grande emissora. Nós, não. Somos independentes e fazemos teatro. E mesmo assim vendemos mais ingresso que o Rock in Rio. Se tem gente que acha que nos tachando de comerciais faz insulto, está nos fazendo um grande elogio na verdade.

O que o evento tem de bom e de ruim?
Em relação a organização, temos evoluído em todos os sentidos. Questões técnicas é difícil reclamarem. Somos conhecidos por entregar bastante as necessidades técnicas, mas existe uma reclamação do Fringe, que ele é grande e não dá apoio. Que no Fringe é cada um por si, mas essa é a proposta. A gente quer continuar crescendo. Existe gente mais acomodada, acostumado a outro modelo. Eu acho que as pessoas têm o direito e muitas vezes tem razão de criticar, não tenho pretensão de ser perfeito. Pretendo usar as críticas para melhorar cada edição. Gosto que a critica seja feita direta à gente. Eu sou um cara acessível. Ninguém precisa falar pelas costas. Se alguém tem um incômodo, pode me ligar que eu vou escutar. Estou aberto a entender as reclamações e tentar ajeitar tudo.

Chegou a circular o boato de que você sairia do Festival de Teatro de Curitiba e alguém de sua família assumiria. Isso é verdade?
Teve esse boato? Isso não é verdade. Não procede. O que eu adoraria é que, cada vez mais, o festival fosse menos personificado em mim e que, cada vez mais, pudesse ter profissionais dedicados ao evento trabalhando nele. Tenho esse plano de tentar achar mais gente que possa assumir situações. Só que estes gestores precisam ter características específicas.

[interrompendo] Que só tem quem faz o festival há 23 anos...
Pois é... Mas, a ideia ainda é trazer pessoas para fazer comigo. Mas eu te garanto, Miguel, que num prazo dos próximos três ou quatro anos eu não me vejo fora do Festival de Teatro de Curitiba.

Qual o orçamento do Festival de Curitiba?
Ele está orçado em R$ 6,5 milhões em gasto financeiro. Só que as coisas ficariam na realidade bem mais caras se não houvesse uma boa gestão. Contamos com permutas e negociações comerciais. Passo o fim de semana buscando promoção de passagem aérea na internet. Se não fossem coisas assim, o orçamento seria o dobro.

Qual a importância do curitibano para o sucesso do Festival?
O curitibano se acostumou bastante com o teatro e com o Festival. Hoje, em termos de produção teatral, Curitiba só perde para São Paulo e Rio. Só no ano passado foram produzidos 120 espetáculos na cidade. Além disso, cada vez mais na TV temos artistas saídos de Curitiba, que também foram ajudados pela visibilidade que o Festival traz aos artistas da cidade. O Festival de Teatro de Curitiba traz luz e visibilidade para a cena curitibana. Ele encurta caminhos de muitos profissionais e promove muitos encontros. Além disso, é fundamental na formação de público teatral. Hoje, para o curitibano médio, teatro é uma linguagem familiar. Não é mais mitificada.

Você tem muitos olheiros nesta edição?
Só de olheiros de emissoras de TV temos seis. Fora olheiros do Sesc, do Sesc e 25 diretores de festivais internacionais. De jornalistas, temos mais de 60 vindos de todos os cantos do País, como você. Temos jornalistas de Manaus a Porto Alegre.

Como é esta época do ano para você: no meio do festival acontecendo?
Quer que eu seja sincero? É o período do ano que eu mais sofro. O dia mais feliz para mim é quando o Festival de Teatro de Curitiba termina e eu vi que deu tudo certo.

 Entrevista de Quinta: Vendemos mais ingresso que o Rock in Rio, diz Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba

Com 450 espetáculos em 13 dias e público de 220 mil pessoas, Festival de Teatro de Curitiba, dirigido por Leandro Knopfholz, é o maior evento teatral do Brasil - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba!

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lee nac bob sousa5 Entrevista de Quinta – Lee Taylor divide direção com Luiz Claudio Cândido e quer foco no ator

Luiz Claudio Cândido e Lee Taylor: direção a quatro mãos em LILITH S.A. - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Nada mais natural que dois atores lapidados por um dos mais exigentes diretores da história do teatro brasileiro fossem também exigentes e focados no trabalho da atuação quando na direção. Lee Taylor e Luiz Claudio Cândido, que passaram pelo CPT (Centro de Pesquisa Teatral) de Antunes Filho no Sesc Consolação, dizem que o foco agora é o trabalho do ator.

Eles dirigem a quatro mãos LILITH S.A., peça que estreia na próxima segunda (24) no Espaço Beta do Sesc Consolação, em São Paulo, e que marca o reencontro dos dois com o espaço fundamental em suas respectivas formações. A montagem é a primeira peça teatral do NAC (Núcleo de Artes Cênicas) fundado por Lee há cerca de um ano.

O espetáculo mostra uma empresa à beira da falência justo quando comemora seu centenário. Na festa de comemoração, os funcionários revelam desejos mais ocultos. O texto, produzido pela equipe com colaboração dramatúrgica de Michelle Ferreira, partiu do mito de Lilith, cujas lendas dizem ter sido a primeira mulher de Adão.

No elenco, estão Camila de Maman Anzolin, Fernando Oliveira, Frann Ferraretto e Renata Becker. Fran Barros, que acaba de ganhar o Prêmio Shell de melhor iluminação por Vestido de Noiva, assina a luz. Hercules Morais faz a assistência de direção.

Numa tarde nos arredores do Sesc Consolação, Lee e Luiz conversaram com o Atores & Bastidores do R7 para esta Entrevista de Quinta. Falaram sobre o espetáculo e planos para o futuro.

Leia com toda a calma do mundo.

lee nac bob sousa41 Entrevista de Quinta – Lee Taylor divide direção com Luiz Claudio Cândido e quer foco no ator

Amizade no teatro: Lee Taylor e Luiz Claudio Cândido fizeram artes cênicas juntos na USP - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Como vocês se conheceram?
Luiz Claudio Cândido – A gente se conheceu no curso de graduação em Artes cênicas, na USP.
Lee Taylor – Fomos da mesma turma de graduação na ECA [Escola de Comunicações e Artes] em 2002. Chegamos a realizar alguns trabalhos juntos na época, antes da minha entrada no CPT [Centro de Pesquisa Teatral, dirigido por Antunes Filho], e agora retomamos a parceria. Já o Hercules Morais, assistente e artista pedagogo do NAC, foi participante de um dos CPTzinhos em que ministrei aulas.

Como é dirigir a quatro mãos? Vocês brigam muito?
Lee – Antes de mim, o Luiz já tinha passado pelo CPT e esse é um fator bem importante para a afinidade artística entre nós no trabalho realizado no NAC, pois além da USP, também temos o CPT como experiência em comum. Acho a proposta de uma direção compartilhada bastante desafiadora, que vai ao encontro do espírito de coletividade inerente ao teatro. No caso de LILITH S.A., todo o processo de criação de cenas partiu dos atores, a direção trabalhou para potencializar, estruturar, alinhavar, dar condições e estimular a autoria de cada integrante do elenco. Uma ou outra criação de cena partiu da direção, porém apenas para dar corpo à encenação. Acredito que múltiplas visões tornaram o trabalho mais complexo e rico de camadas. Tivemos liberdade absoluta para interferir e modificar no que fosse necessário para a obra, e isso só foi possível porque colocamos a obra e a coletividade em primeiro lugar. O embate criativo é natural, pois todos buscam contribuir com sua sensibilidade e singularidade para a criação do trabalho, mas o diálogo artístico se estabeleceu em alto nível com bastante maturidade. O grande diferencial desse trabalho e o nosso diferencial (meu e do Luiz), é usar a encenação como processo artístico-pedagógico. Em LILITH S.A. nosso trabalho está a serviço dos atores e não o contrário. Acima da encenação e dos diretores está o aprendizado dos atores ao passar por essa experiência.
Luiz – É um exercício constante, desafiador e profundamente valoroso, de olhar para si e para o outro. Não é só ir lá e dirigir e pronto. Não, você tem que se encontrar consigo mesmo e com o outro. E é deste encontro que surge algo vital para os dois: no nosso caso, tudo aquilo que está no nosso espetáculo. É necessário que você preste atenção tanto em você mesmo quanto no outro e isso, nos dias de hoje, já dá bastante trabalho. Aprender a ouvir, a ceder, a se posicionar, a respeitar as fragilidades de cada um, etc., etc. É um exercício de alteridade. Com o desenrolar do processo criativo a gente foi afinando tanto a relação um com o outro que começamos a entender até aquilo que não era dito com palavras, mas com um olhar, um movimento da cabeça, uma respiração… Ah! E tudo isso, claro, mergulhado em muito, muito trabalho diário de séria e rigorosa pesquisa teatral. Por mais incrível que possa parecer, não me lembro de ter brigado com o Lee. Tivemos muitos embates criativos nos quais cada um defendeu suas ideias, seus pontos de vistas, suas escolhas estéticas, mas briga nunca. O Lee é generoso, inteligente e sensível, qualidades fundamentais em um artista.

lee nac bob sousa31 Entrevista de Quinta – Lee Taylor divide direção com Luiz Claudio Cândido e quer foco no ator

Lee Taylor e Luiz Claudio Cândido: embate criativo, mas sem brigas - Foto: Bob Sousa

Por que mexer com o mito da criação da humanidade?
Luiz – Para mim, vem de uma inquietação, de uma vontade de olhar mais atentamente para a humanidade em si, diante do contexto histórico atual: quais são os valores que estão nos norteando? Como estes valores regem as relações entre os seres humanos, entre estes e a natureza? O que é a humanidade hoje? Olhar para a humanidade não como algo natural, mas construído historicamente e que, portanto, pode ser modificada, reinventada.
Lee  – É uma oportunidade de problematizarmos a condição humana e olharmos com estranhamento para certos paradigmas que aparentemente estão sendo descontruídos, mas que ainda carecem de tempo para se consolidarem. Além disso, a configuração do elenco, composto por três mulheres e um homem, influenciou bastante na escolha do mito de Lilith. De alguma forma o mito se manifestou nas primeiras improvisações anteriores a escolha de Lilith como material de criação. O preponderante no espetáculo é a questão da insatisfação da mulher quando colocada em uma posição de submissão em relação ao homem. O confronto, fruto dessa tensão, é um tema extremamente contemporâneo e que merece ser discutido por uma perspectiva dialética, para isso recorremos ao universo shakespeariano.

Lee, como é voltar ao Sesc Consolação sem ser do CPT?
Lee – Eu me sinto em casa, conheço praticamente todos os funcionários, o Sesc Consolação é um espaço privilegiado em São Paulo. Fiz questão de estrear o primeiro espetáculo da primeira turma do NAC no Espaço Beta e agradeço ao Felipe Mancebo [gerente do Sesc Consolação] e a sua equipe por acreditar no trabalho.

O Antunes já cruzou contigo nos corredores, como foi?
Lee – Sempre nos cruzamos, praticamente toda semana, estou sempre no Sesc, nada mudou na nossa relação depois de um ano da minha saída do CPT. O Antunes não gosta muito de ir às estreias, por isso ele já combinou comigo que vai aparecer no decorrer da temporada.

O que vocês planejam para o NAC neste ano?
Lee – Este ano será fundamental para a consolidação do NAC como espaço de pesquisa teatral continuado em São Paulo. Em breve estarão abertas as inscrições para o processo seletivo do curso Poética do Ator. No ano passado tivemos quase 500 inscritos para 20 vagas e já temos mais de 600 interessados cadastrados pelo site do NAC aguardando a seleção da nova turma. Logo após a estreia do espetáculo divulgaremos as novidades para esse ano.

Qual é o objetivo do NAC?
Lee – Para além das palavras e das ideias bem intencionadas, o objetivo do NAC está sendo esboçado na prática e pode ser visto neste espetáculo. Tivemos a oportunidade de promover um processo que favoreceu a emancipação artística de cada um dos atores envolvidos. Se esses quatro atores não se tornarem grandes atores no futuro, pois já demonstraram essa potencialidade durante os ensaios, serão no mínimo pessoas com uma sensibilidade diferenciada e mais conscientes de si próprias. O espetáculo é um desafio para todos os envolvidos, é bastante radical e arriscado nesse sentido, pois tudo depende da sensibilidade dos atores na cena. Mas o elenco realiza cenas de grande dificuldade de maneira sublime e com muita sensibilidade. Essas últimas semanas, Luiz e eu viramos espectadores e ficamos comovidos com atuações extremamente poéticas desempenhadas por cada um dos atores. Não quero gerar expectativas, mas acredito que o público que puder conferir o espetáculo vai se surpreender com uma atuação de alto nível.

Como vocês selecionaram o elenco do espetáculo?
Luiz – Assisti o exercício final do Módulo 1 de todos os participantes do curso do NAC. Depois teci meus comentários com o Lee e fomos realizando a difícil tarefa da seleção. Difícil porque o nível dos artistas era muito bom, eles estavam muito bem preparados técnica e sensivelmente. Mas era necessária a seleção e acredito que fizemos ótimas escolhas.
Lee – Foi uma etapa bastante difícil que demandou dias de discussões entre mim, o Hercules e o Luiz. Depois de três meses de curso todos os 20 atores que ingressaram no NAC demostraram grande capacidade e interesse em participar da montagem, mas, infelizmente, por uma questão de aprofundamento do trabalho já prevíamos a escolha de poucos atores para a construção do espetáculo. Levamos em consideração toda potencialidade artística e singularidade dos envolvidos além do desempenho de cada um durante a primeira etapa do curso. Outro fator importante foi uma busca por reunir atores que pudessem se configurar como um coletivo forte e criativo. No entanto, o principal fator foi a disponibilidade do elenco em se arriscar artisticamente num trabalho que não faz concessões, no qual o foco principal é o desenvolvimento do trabalho do ator, e que, por esse motivo, exige dos atores um posicionamento crítico e artístico além de uma plena responsabilidade pela criação e um amplo compromisso com o espetáculo como um todo.

Lee, como vai o mestrado [em artes cênicas] na USP?
Lee – Restam apenas alguns meses para a conclusão da dissertação sobre pedagogia do ator que venho desenvolvendo sob orientação da professora doutora Maria Thais. Por conta da finalização do espetáculo do NAC não tenho conseguido me dedicar o quanto gostaria, mas a partir da próxima semana pretendo voltar a dar prioridade à escrita.

O que vocês pretendem no futuro?
Lee – Tenho recebido alguns convites para atuar em teatro, cinema e televisão, mas nada até agora me deu mais prazer artístico do que fazer parte desse processo que estamos desenvolvendo no NAC, por isso pretendo continuar dando prioridade a esse trabalho.
Luiz – Aqui no NAC a gente vivencia muitas coisas durante o processo de criação. É um processo artístico e pedagógico que nos transforma como artista e como Homem. Não tem como sairmos do mesmo jeito que entramos. É muito estudo, rigor, horas e horas de dedicação ao trabalho, muitas e muitas cenas criadas e abandonadas e recriadas e retomadas e muitas vozes discutindo, pensando arte coletivamente. E isso é completamente apaixonante, alegre, celebrativo. O que eu pretendo é que venham outros processos criativos no NAC tão ricos quanto o da LILITH S.A. Vida longa ao NAC!

LILITH S.A.
Quando: Segunda e terça, 20h. 60 min. Até 29/4/2014
Onde: Espaço Beta do Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, metrô Santa Cecília, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 10 (inteira); R$ 5 (meia-entrada); e R$ 2 (comerciários e dependentes)
Classificação etária: 12 anos

lee nac bob sousa6 Entrevista de Quinta – Lee Taylor divide direção com Luiz Claudio Cândido e quer foco no ator

Lee Taylor e Luiz Claudio Cândido: eles querem colocar o NAC no mapa teatral - Foto: Bob Sousa

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MG 273411 Exclusivo   Fernanda Azevedo, atriz que protestou no Prêmio Shell de Teatro, diz: “As pessoas não querem se comprometer com discurso político”

Fernanda Azevedo, da Kiwi Cia. de Teatro: ela levou o Prêmio Shell de melhor atriz e discursou contra a petrolífera multinacional - Foto: Paduardo/AgNews

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fernanda Azevedo foi o grande destaque do 26º Prêmio Shell de São Paulo, entregue nesta terça (18). Ao receber o troféu de melhor atriz, ela protestou contra a multinacional petrolífera, e lembrou que a Shell contribuiu com a ditadura. A peça de Fernanda é Morro como um País - Cenas sobre a Violência de Estado, que volta ao cartaz no próximo dia 26 no CIT-Ecum, em São Paulo [veja serviço ao fim]. O espetáculo faz uma ponte entre os dias atuais e os tenebrosos tempos do regime ditatorial militar no Brasil. Fernanda conversou com o Atores & Bastidores do R7 com exclusividade sobre a atitude corajosa, e a repercussão de seu discurso. Leia com toda a calma do mundo.

MG 2418 Exclusivo   Fernanda Azevedo, atriz que protestou no Prêmio Shell de Teatro, diz: “As pessoas não querem se comprometer com discurso político”

Renata Sorrah entrega a Fernanda Azevedo o Prêmio Shell de melhor atriz - Foto: Paduardo/AgNews

Miguel Arcanjo Prado — Como surgiu a ideia do discurso?
Fernanda Azevedo — Tudo que a gente faz, todas as ações da Kiwi Cia. de Teatro são discutidas em equipe.  Nós discutimos o quanto era importante falar sobre a participação da Shell junto a regimes opressores. Porque isso é coerente com o trabalho artístico da nossa companhia. Principalmente o atual, Morro como um País, que traz à tona como os regimes violentos de Estado repercutem até hoje. E que contaram com apoios de empresas como a Shell. Nada mais natural do que, ao receber um premio de uma empresa que contribuiu com regime totalitários, que a gente fale sobre isso.

Como você encarou o silêncio de boa parte da plateia formada por artistas quando você fez seu discurso?
Acho natural. As pessoas podem ter receio de se comprometer com discurso que não fariam.  Teve metade de silêncio, mas teve também uma parte que aplaudiu. Infelizmente, vivemos num tempo que as pessoas não querem se comprometer com um discurso político como esse. Isso não me espanta. O importante é que recebemos apoio de grupos muito próximos a nós, que veem o teatro como uma ferramenta de transformação da sociedade. Existem muitos destes grupos em São Paulo. Muitos outros fariam este mesmo discurso. O próprio Rogério Tarifa, da Cia. do Tijolo, fez um discurso contra a militarização da polícia. Não estamos sozinhos.

Houve pessoas da classe artística que criticaram seu discurso. O diretor Ruy Filho, por exemplo, escreveu em uma rede social que “Denunciar é fácil e positivo. Coerente é negar o prêmio. Mas aí não é tão fácil assim”. Como você encara isso?
A classe artística é uma coisa muito ampla.  Existem muitos setores. O Ruy Filho tem um discurso contrário à nossa defesa há muito tempo, como as críticas que ele faz à Lei do Fomento ao Teatro, que nós defendemos. Não me espanta nem um pouco ele falar isso. Vivemos num ambiente bastante conservador, e a classe artística está incluída nisso. Não estamos fora do mundo. Da mesma forma como eu tenho o direito de expressar meu pensamento, as pessoas têm o direito de expressar o pensamento delas. O importante é termos direito a falar o que pensamos e dialogar. Estamos vivendo em um tempo em que não dá para ficar muito calado. E acho que o teatro tem tudo a ver com isso. A gente vive neste mundo. Nós da Kiwi não vamos nos calar porque tem pessoas que não concordam conosco. Com relação ao prêmio, não somos favoráveis a premiações. Gostaríamos que o País tivessse políticas públicas de cultura concretas. Acho que o Prêmio Shell é um reconhecimento ao trabalho, mas não é ele que vai fazer com que nossa companhia mude nosso pensamento.

Vocês vão fazer nova temporada de Morro como um País?
Vamos voltar com Morro como um País agora no CIT-Ecum,  de 26 de março a 17 de abril. É uma temporada muito importante, já que teremos a data dos 50 anos do golpe-civil militar. Ficaremos quartas e quintas, 21h. Na estreia, no dia 26, teremos o Cordão da Mentira tocando sambas de protesto conosco.

O que é o Cordão da Mentira, que estava inclusive escrito em sua camisa no Prêmio Shell?
É um cordão carnavalesco criado há três anos, formado por artistas e ativistas, com um desfile criativo para discutir a falta de Justiça no Brasil, fazendo relação da violência de ontem com a violência de hoje. O Cordão da Mentira vai sair no dia 1º de abril, às 17h30, em frente ao antigo DOPS [prédio de tortura durante o regime militar], onde hoje é a Estação Pinacoteca, na Luz, e vamos percorrer as ruas do centro levando nosso samba crítico e intervenção teatral para discutirmos a sociedade que queremos 50 anos após o golpe civil-militar.

Vocês vão viajar com Morro como um País?
Vamos, sim. Estreamos em 23 de abril no Rio, onde ficamos até 2 de maio na Sede das Companhias, na Lapa. Depois, faremos turnê pelo Nordeste e por Brasília. Este será um ano muito importante para a Kiwi Cia. de Teatro.

MG 2430 Exclusivo   Fernanda Azevedo, atriz que protestou no Prêmio Shell de Teatro, diz: “As pessoas não querem se comprometer com discurso político”

A atriz Fernanda Azevedo durante seu discurso no Prêmio Shell - Foto: Paduardo/AgNews

Leia a cobertura completa do Prêmio Shell de Teatro de SP

Morro como um País - Cenas sobre a Violência de Estado
Quando: Quarta e quinta, 21h. 90 min. De 26/3/2014 a 17/4/2014
Onde: CIT-Ecum (rua da Consolação, 1623, metrô Paulista, São Paulo, tel.0/xx/11 2122-4070)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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serroni foto bob sousa1 Entrevista de Quinta   J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

J.C. Serroni: um dos maiores cenógrafos da história do teatro brasileiro - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Foto de Bob Sousa

O livro Cenografia Brasileira – Notas de um Cenógrafo [Edições Sesc] foi lançado nesta quarta (27), na livraria Martins Fontes, em São Paulo. A obra de 376 páginas, apresenta um panorama da cenografia brasileira no século 20, feito por um dos maiores nomes da área: José Carlos Serroni, ou J.C. Serroni, como ele assina.

O arquiteto formado pela FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP (Universidade de São Paulo) traçou um panorama da sua profissão a partir de apontamentos pessoais e também da trajetória de 31 cenógrafos brasileiros, no maior levantamento já feito nesta área.

Serroni, que criou sua própria escola, o Espaço Cenográfico de São Paulo, e coordena os cursos de cenografia e figurino da SP Escola de Teatro, conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta sobre este seu novo trabalho.

Leia com toda a calma do mundo:

serroni capa Entrevista de Quinta   J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

Capa do livro Cenografia Brasileira, lançado pelas Edições Sesc por J.C. Serroni - Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Como surgiu o livro?
J.C. Serroni – A ideia do livro é antiga. Logo que acabei o livro sobre os teatros do Brasil [Teatros – Uma Memória do Espaço Cênico no Brasil], há dez anos, já comecei a pensar nisso. Sempre nos meus cursos, meus alunos entrevistaram cenógrafos e fui guardando este material, porque achava importante um dia fazer um livro que fosse um panorama da cenografia brasileira. Tínhamos livros que mostravam a trajetória de um cenógrafo, mas não tínhamos um com o panorama geral.

Você demorou muito para fazer o livro?
Organizei o projeto há cinco anos. Acabei mandando para o Sesc, instituição com a qual tenho relação muito grande. Depois de quase um ano, aprovaram o livro. Acho que escrevi e levantei o material em um ano e dois meses. Contudo, fiquei quase três anos para conseguir as autorizações de imagens.

Foi difícil?
Acho que é justo que se cuide do direito autoral, mas é um trabalho insano. Elenquei 31 cenógrafos e tem umas 300 imagens... Tem de ter autorização do autor, do fotógrafo, do retratado... Muita gente já morreu, muitas famílias moram no exterior... Por essa dificuldade, eu acabei fazendo ilustrações a partir do que via, de fotos, para conseguir fechar o livro.

serroni autografa Entrevista de Quinta   J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

Serroni autografa seu livro durante a noite de lançamento em São Paulo nesta quarta (27) - Foto: Divulgação

O que você fala no livro?
É um panorama da cenografia brasileira. Falo das Quadrienais de Praga [maior evento da cenografia mundial], que eu acompanhei pelo menos sete, e levantei 20 exposições na área da cenografia. Claro que no início faço uns apontamentos sobre a cenografia e apresento o trabalho destes 31 cenógrafos. É isso. Foram quase quatro anos e todos com uma base anterior, de coisas que vi, de cenógrafos que trabalhei junto. Efetivamente, o trabalho foi feito.

Qual a importância para a história do teatro de um livro como o seu?
Acho que é da maior importância este tipo de livro. Fazer um panorama do último século, que é o período que a cenografia existiu no Brasil realmente. Tive dificuldades em levantar o material, porque as imagens estão muito ruins. Já estava atrasado este livro. Dei uma contribuição para tentar minimizar essa dificuldade. Pretendo pensar em outro projeto, um livro mais didático, com técnica e projeto. Ultimamente temos muitos livros documentando o teatro. Isso é muito bom.

Por que você virou cenógrafo?
Eu diria um pouco que foi sem querer. Eu sou de São José do Rio Preto [interior de São Paulo]. Lá, até 18, 19 anos, não tinha ninguém da área artística na família. Só tinha visto teatro no circo que era montado em frente à minha casa. Mas aos 14, 15 anos, eu comecei a pintar. Eu tinha uma professora que me estimulou muito. Comecei a participar de exposições na praça lá em Rio Preto [risos].

E como veio a cenografia?
Aí o [José Eduardo] Vendramini me convidou para pintar uns telões para uma peça dele; eram cinco de quatro por oito metros. A partir daí fui fazendo adereço, entrei para o grupo, fui ator pela primeira, última e catastrófica vez [risos], mas vi que queria fazer cenografia de teatro. Vim para são Paulo e entrei na faculdade de arquitetura.

serroni foto cristiane camelo sp escola de teatro Entrevista de Quinta   J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

Noite de autógrafos: J.C. Serroni recebeu amigos como os atores Eric Lenate e Cléo De Páris, colegas na SP Escola de Teatro na livraria Martins Fontes, em São Paulo - Foto: Cristiane Camelo/SP Escola de Teatro

Você já entrou na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo] pensando em ser cenógrafo?
Sim. Ainda na USP, entrei para a TV Cultura, onde conheci o [Antonio] Abujamra e o Antunes [Filho]. Vim para a arquitetura porque me falavam que eu deveria fazer arquitetura ou artes plásticas para ser cenógrafo. Até hoje, só fiz uma casa para meu irmão em Rio das Outras. Hoje, me especializei em arquitetura de teatro. Tenho feito muitos projetos.

Como era a FAU no seu tempo de estudante?
Peguei um período da FAU muito interessante, se formava de tudo, menos arquiteto [risos]. A gente tinha Claudio Tozzi, o Flávio Império dando aulas. Era tudo muito aberto na década de 1970. Formavam-se artistas. Na minha turma, tinha o Guilherme Arantes, que depois virou cantor, o Tales Pan Chacon, que virou ator, o Gal Oppido, que virou fotógrafo, o Felipe Crescenti, que exerce a arquitetura.

serroni Entrevista de Quinta   J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

Serroni trabalhou por 11 anos com Antunes Filho e fez cenários de importantes obras como Paraíso Zona Norte - Foto: Divulgação

Quais são os cenários que você mais gostou de fazer e por quê?
Falo muito para meus aprendizes que temos de exercitar o desapego. Porque cenógrafo não é ator que fica no espetáculo. Você faz e entrega. Agora, tem projetos que marcam. Todos os que fiz com o Antunes são espetáculos muito significativos, o mais curto que a gente fez lá durou oito, nove meses de processo. Tenho Paraíso Zona Norte que considero muito importante porque foi marcante. Sou um cenógrafo que me envolvo muito. Gosto de ver ensaio, acompanhar o processo.

Você trabalhou no Carnaval no começo da carreira?
Sim, isso foi lá atrás. Quando tinha acabado de me formar, o José Roberto Arduim, meu amigo que é de Rio Preto também, havia entrado na arquitetura em Santos e se envolveu com a escola de samba X-9. Ele me chamou para trabalhar com ele. Fizemos cinco Carnavais e ganhamos quatro. Fiquei muito envolvido na época, cheguei a ir para o Rio, acompanhei o trabalho da [carnavalesca] Rosa Magalhães... Foi uma experiência interessante. Hoje, o Carnaval mudou muito, você precisa ser quase um contratado exclusivo da escola, então não dá mais para fazer. Foi só uma experiência mesmo. Meu foco sempre foi o teatro.

Qual dica você dá para jovens cenógrafos?
A gente tem muito problema de formação. Sempre achei importante pensar no outro lado da cenografia. Da infraestrutura, da formação, de melhorar o nível de nossos espaços teatrais. Sempre me envolvi muito com isso e trabalhei neste sentido. Foram muitas turmas. Onze anos com o Antunes, dez no Espaço Cenográfico e agora estou há cinco anos na SP Escola de Teatro. Tem de ter paixão pela profissão, porque ela é muito dura. São noitadas, fim de semana, viagens. E também saber que cenografia e teatro são artes conjuntas. Você quer ser um artista que assina sua obra de imediato não vem fazer teatro. Isso só vem com o tempo. É preciso ter a generosidade para ouvir muito, porque senão não vai para frente. É preciso estudar muito, exercitar o olhar, ver de outra maneira a cidade e a natureza. É preciso ter muita força de vontade, porque as oportunidades não são muitas, embora você tenha muito trabalho hoje. Só depende de saber que tipo de cenógrafo você quer ser. Mas, antes de tudo tem de ser apaixonado pela coisa. No teatro isso é muito latente, ele mexe muito com as relações humanas. Se não é apaixonado você não aguenta aquele ensaio que dura seis horas e nada acontece [risos].

serroni e mulher ana paula foto cristiane camelo sp escola de teatro Entrevista de Quinta   J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

J.C. Serroni posa com a mulher, Ana Paula, no lançamento do livro - Foto: Cristiane Camelo/SP Escola de Teatro

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Retratos do Teatro CAPA bob sousa Entrevista de Quinta   Bob Sousa lança Retratos do Teatro e diz: Fotografei quase todo mundo

Em primeira mão, a capa do livro Retratos do Teatro, de Bob Sousa, com o ator Thiago Lacerda, de costas: o livro do fotógrafo será lançado dia 27, no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado

Diante de tantos rostos fotografados, Bob Sousa escolheu a imagem de um ator de costas, voltado para a sala de teatro, à espera do público, para ilustrar seu livro. O personagem em questão é Thiago Lacerda, e o retrato foi realizado no Tuca, em São Paulo, durante temporada de Hamlet, de William Shakespeare, uma das principais obras do teatro mundial em montagem dirigida por Ron Daniels.

Bob Sousa é parte de nosso teatro brasileiro. Fotógrafo dedicado ao registro de espetáculos e dos artistas que o fazem na contemporaneidade, é figura conhecida nos palcos paulistanos pelo cotidiano de seu trabalho.

Trabalho este que agora é imortalizado no livro Retratos do Teatro [Editora Unesp], que será lançado às 20h da próxima quarta (27), em encontro para convidados no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo.

A pedido do autor, que quer ver a memória do teatro preservada, o livro será gratuito e terá uma versão digital disponibilizada na internet no site da editora.

Nas 240 páginas da obra, 169 nomes cruciais do teatro paulistano aparecem em 164 imagens garimpadas por Bob ao longo de quatro anos, período no qual visitou cerca de 300 montagens, em projeto orientado por Alexandre Mate, pesquisador de teatro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde o fotógrafo faz mestrado. O livro traz desde nomes consagrados até atores que dão seus primeiros passos na carreira, mostrando o olhar abrangente e perspicaz.

Aos 41 anos, o paulistano que mantém a coluna semanal O Retrato do Bob aqui no Atores & Bastidores do R7, conversou sobre este momento importante de sua carreira nesta Entrevista de Quinta.

Leia com toda a calma do mundo:

bob sousa Entrevista de Quinta   Bob Sousa lança Retratos do Teatro e diz: Fotografei quase todo mundo

Bob Sousa, em pose para a filha, Isabela Sousa: 169 personalidades do teatro brasileiro retratadas

Miguel Arcanjo Prado – Bob, o que representa para você lançar este livro?
Bob Sousa – Olha, Miguel, você sabe: é a realização de um sonho. Sempre achei algo muito distante do cotidiano da minha fotografia a ideia de lançar um livro, mas, de uns tempos pra cá, resolvi focar nessa atividade e buscar uma possibilidade de realização. Também tive muito apoio da classe teatral. As pessoas torceram muito por isso, para que o livro virasse realidade. Em cada teatro por onde passei, recebi palavras de incentivo.

Como você escolheu a capa?
Eles estavam ensaiando Hamlet no palco e fiz várias imagens. Quando fui editar, percebi que esta imagem, com o ator de costas, remetia a uma ideia que busquei para o livro: quem são estes retratados do livro? Abra e veja. A segunda, é que a figura do Thiago Lacerda ficou parecendo apenas um tecido que flutua no palco. E me lembrei na hora de uma frase de A Tempestade, de Shakespeare, que diz: "Somos do tecido de que são feitos os sonhos". Era a capa.

Quem são os seus fotografados?
Dizer que fotografei todo o teatro paulistano é uma utopia, mas cheguei bem perto [risos]. Fotografei quase todo mundo!

Por que você fotografou desde nomes já consagrados até principiantes?
Procurei ser o mais abrangente possível nas escolhas e eleger ao menos um representante das várias vertentes teatrais praticadas na cidade de São Paulo. O recorte apresenta 164 retratos de 169 pessoas. Também tenho a grande sorte de ter o Alexandre Mate como orientador do meu mestrado no Instituto de Artes da Unesp. Segui meus instintos, é claro, mas também contei com a orientação dele.

Qual importância você acha que seu livro terá no futuro?
Acho ainda prematuro fazer essa análise... Mas acho que o caráter documental e artístico do projeto pode abrir várias possibilidades para a obra. Porque não tem nada parecido com o Retratos do Teatro. E, como será doado para bibliotecas e escolas de teatro, penso que possa ser usado como fonte de consulta. Tenho muito orgulho de ter aberto essa porta. E é bom lembrar que pesquisa continua.

Por que você se interessa pelas pessoas mais do que pelos personagens?
Passei grande parte da minha carreira fotografando espetáculos. Os retratos surgiram da necessidade de me aproximar dos artistas, trocar ideias, falar de teatro. Foi um mergulho intenso no universo teatral da cidade. Não sou mais o mesmo do início da pesquisa.

Qual é a cara da sua fotografia?
Minha fotografia é simples. Sempre foi. Retratos são encontros. O resultado desses encontros está revelado na fotografia. Cada um dá o que tem.

Como será o lançamento do livro?
Recebi um convite maravilhoso do Sesc, grande parceiro na minha trajetória, e a festa será no Teatro Anchieta, templo sagrado do teatro brasileiro. Teremos uma mesa de bate-papo sobre a "A importância da documentação iconográfica (fotográfica) para a construção da memória histórico/cultural da produção teatral paulistana e brasileira". Espero que todos os retratados possam comparecer para brindarmos esse momento. Estou muito feliz. Tenho de agradecer à turma do Sesc Consolação, que tanto me apoiou: Felipe Mancebo, Tiago de Souza e Adriana Macedo.

É verdade que seu livro será disponibilizado gratuitamente para todos; foi uma escolha sua?
Sim. O livro não será vendido. Ele será doado para os retratados, bibliotecas e escolas de teatro. Como a tiragem é limitada, teremos uma versão on-line no site da Editora Unesp. Essa foi a forma encontrada para que a obra pudesse ser apreciada por um número maior de pessoas. Sempre foi a premissa básica do projeto a socialização desse trabalho.

Marcos  Caruso bob sousa Entrevista de Quinta   Bob Sousa lança Retratos do Teatro e diz: Fotografei quase todo mundo

Marcos Caruso: retrato foi feito em clima descontraído por conta de uma foto do passado - Foto: Bob Sousa

Conte uma história de bastidor dos retratos...
O livro é repleto de histórias maravilhosas. Encontros fantásticos. Poderia escrever um livro sobre essas histórias... [pensativo] Uma que me marcou foi a do Marcos Caruso. Levei para ele um exemplar do livro do César Vieira [dramaturgo e pesquisador teatral], que tem o Caruso na capa. Quando ele viu a foto, com ele cabeludo há mais de 40 anos, ele ficou bem emocionado. Depois disso, foi ótimo fazer a foto dele. Outra foto que não me esqueço foi a do Antunes Filho. Na época, ainda tínhamos um relacionamento incipiente, mas, apesar disso, nosso encontro artístico me emocionou muito. Ele gostou tanto do ensaio que solicitou uma das imagens depois para ilustrar uma entrevista que deu. A do Danilo Santos de Miranda também foi interessante. Ele foi bem humilde, e me perguntou por que ele? Falei era porque ele apoiava muito o teatro! [risos]

Qual retrato deu mais trabalho para fazer e qual foi o mais fácil?
Algumas pessoas não se sentem confortáveis com uma lente apontada para si. Alguns retratos foram mais demorados, mas nenhum foi difícil. Um bem fácil foi o da Nathália Rodrigues. Ela foi modelo e é uma pessoa maravilhosa. Foi tudo muito fácil. Difícil foi escolher um entre tantos retratos bacanas. E você foi um dos que mais me enrolou para fazer [risos].

É que em casa de ferreiro o espeto é de pau... [risos] Mas, me conta, foi muito difícil fazer a seleção final do livro?
A pior parte é a edição. A edição do recorte, do momento, do ângulo na hora do clique e a escolha da imagem final. Mas o instinto sempre aponta para uma imagem derradeira. A imagem que vai representar aquele encontro. A experiência ajuda bastante.

Quem lhe ajudou para que o livro virasse realidade?
Tenho uma lista imensa para agradecer, gastaria toda a sua Entrevista de Quinta [risos]. Mas, claro, preciso agradecer a todo mundo da Editora Unesp: José Castilho Marques Neto, Jézio Bomfim, Leandro Rodrigues, Célia Demarchi, Jennifer Rangel e Luciana do Vale. Ao pessoal da Fundação Vunesp na figura da presidente Sheila Zambello de Pinho.

Eita, teve muita gente nos bastidores, hein?
O livro já é um agradecimento ao teatro paulistano, mas destacaria, fundamentalmente, minha esposa, Daniela, meus filhos, Isabela, Letícia e Pedro, e toda a equipe de produção, representada nas figuras da Renata Araújo, produtora do livro, e do Camilo Vannuchi, que editou tudo. Tem também o Oscar D'Ambrosio, Marcelo Carneiro, o Tiago Cheregati, o Adriano Castro, a Nanci Roberta, a Laura Salerno e a Fernanda Moura. Formamos um grupo muito bom. Tenho muito orgulho dessa equipe.

Quem não saiu neste terá outra chance de estampar um livro de Bob Sousa?
O projeto continua. Foram feitos mais de 400 retratos pra esse trabalho. Penso em lançar outros volumes. Vamos ver até onde o fôlego aguenta.

Por que você fotografa os artistas de teatro?
É o meu mundo. Minha paixão de infância. A fotografia e o teatro. Sou um privilegiado em poder unir essas duas paixões. Lewis Hine, fotógrafo americano que passou grande parte da vida fotografando injustiças sociais, dizia: “Se eu pudesse contar a história com palavras, não precisaria carregar uma câmera”. Essa é a minha história. Vamos em frente.

autorretrato bobsousa Entrevista de Quinta   Bob Sousa lança Retratos do Teatro e diz: Fotografei quase todo mundo

Bob Sousa, em autorretrato: ele conta a história do teatro contemporâneo com suas fotos

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tais araujo foto bob sousa 20133 Taís Araújo mergulha no caótico do coletivo teatral em busca de identidade e autonomia artística

Intimista: Taís Araújo está em cartaz com Caixa de Areia no CIT-Ecum - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Assim que Bob e eu chegamos ao CIT-Ecum percebemos que os primeiros preparativos para a estreia de Caixa de Areia, de Jô Bilac e dirigida por ele com Sandro Pamponet, na noite deste sábado (9), estão sendo tomados. É fim de tarde de sexta-feira (8). O som das buzinas do trânsito que para na descida da rua da Consolação invade a coxia do teatro, onde o contrarrega Marcel Formiga termina de pintar uma escada de preto.

Logo, Taís Araújo surge detrás do vidro da entrada, sob o sol forte, voltando do almoço. Eu mesmo vou abrir a porta. “Olha você aí, Miguel. Quanto tempo!”, ela diz, abrindo o sorriso. Corre para deixar a bolsa no camarim e volta pronta para nossa entrevista. Porque no teatro as coisas são bem mais simples. E verdadeiras. Não faz falta o glamour fabricado das estrelas da TV.

E Taís Araújo já entrou para a história da televisão. Prestes a completar 35 anos no próximo dia 25, aos 17 foi a primeira atriz negra a protagonizar uma novela, Xica da Silva, exibida pela Manchete em 1996 e depois sucesso em diversos países. Repetiu também o feito na Globo, em Da Cor do Pecado, folhetim de 2004.

Mas, aqui, ela é apenas uma atriz de teatro. Pede para subirmos ao café, no segundo andar, que está vazio, para o papo fluir com mais calma. Escolhe uma cadeira onde bate o sol. Assim começamos esta entrevista exclusiva.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Taís, nossa última conversa foi em 2007, quando você fazia O Método Gronholm, no Teatro das Artes, e Os Solidores, com o André Fusko, no Espaço dos Parlapatões, aqui em São Paulo...
Taís Araújo – É verdade, faz um tampão. Eu me lembro que você tinha acabado de chegar em São Paulo, né?

Pois é... E por que ficou tanto tempo longe de São Paulo?
Acho que foi por conta da correria, mesmo. A peça Amores, Perdas e Meus Vestidos só veio para Santo André, mas não fizemos São Paulo. Eu já estava com sete meses do João Vicente [filho da atriz com o marido, o ator Lázaro Ramos] e não podia viajar mais de avião. Mas eu nem me lembrava que fazia tanto tempo assim...

Qual sua relação com o teatro de São Paulo?
Olha, sempre que venho, com exceção da peça que fiz com o Fusko, venho com atores do Rio. Eu sou carioca. Mas o que fica de São Paulo sempre é essa riqueza cultural. Tem teatro para todos os tipos de público. E aqui as pessoas assistem ao teatro e gostam. Acho que ir ao teatro faz parte dos paulistanos.

Como você foi parar nesta turma do Jô Bilac, que faz um teatro mais alternativo no Rio?
A aproximação rolou porque eu queria fazer um espetáculo antes de voltar a fazer novela [ a última da atriz foi Cheias de Charme, em 2012]. Aí, minha produtora me apresentou ao Jô Bilac. Eu já tinha visto peças dele e gostado muito. Ele me falou dessa história de Caixa de Areia, sobre uma crítica que reencontra sua história. O que mais me pegou foi que ele propôs ir escrevendo a peça conformes fôssemos ensaiando. No começo, só havia três páginas de texto.

E você gostou desse processo colaborativo?
Adorei. É importante fazer coisas diferentes. No nosso processo, todo mundo teve voz ativa. É caótico isso, mas também todo mundo é dono. Você ganha autonomia, exercita o lado criativo.

tais araujo foto bob sousa 20131 Taís Araújo mergulha no caótico do coletivo teatral em busca de identidade e autonomia artística

Taís Araújo: no caótico do grupo teatral ela ganha mais autonomia - Foto: Bob Sousa

Você acha o diálogo no teatro mais livre que na TV?
Olha, na televisão existe diálogo. Eu sempre criei meus personagens com ajuda do diretor, da figurinista... Não é tão solitário como muita gente pensa. Pelo menos para mim, eu sempre preciso do coletivo. A diferença do teatro é que aqui a voz de todo mundo tem o mesmo peso, não tem a hierarquia da TV.

Por que vocês escolheram o CIT-Ecum?
A nossa maior preocupação era ir para o teatro certo. A peça é intimista. Quem conhece as pecas do Jô Bilac já sabe o que vai encontrar. Esse teatro encaixa com a gente. Todo mundo fala muito bem daqui. Que é o teatro perfeito para nosso espetáculo.

Você vai ficar morando em São Paulo por um tempo?
Não. Venho toda sexta e volto toda segunda, porque aqui o horário de teatro no domingo é mais tarde, né? Vocês em São Paulo fazem às oito da noite. O Lázaro vai vir aos fins de semana sempre que puder e o João Vicente também.

Como é sua personagem?
Faço a Marisa, que é mãe da Ana. A peça conta a história da Ana, personagem que a Julia Marini e a Cris Larin dividem. A Ana é uma crítica de arte que passa a analisar a vida dela. E nisso volta às relações do passado. E a Marisa é o oposto da Ana. É verborrágica, não quer se aprofundar em nada, vive na superficialidade. Então, elas têm uma relação desencaixada. Quando é jovem, a Ana tem aversão pela mãe. Mas com a idade, lança um olhar mais generoso para a mãe. Começa a compreender.

Você que escolheu a personagem?
Na verdade eu não quis nada. Ela pulou para mim com os olhos fechados [risos]. Foi no processo. O Jô falou, “eu pensei de você ler hoje isso”, e ela foi se estabelecendo nos ensaios.

Qual a importância para você, uma atriz de televisão conhecida no mundo todo, fazer uma peça assim?
Fazer uma peça assim é muito importante para mim, Miguel. Um é que eu não estou acostumada a isso e isso é muito bom. Eu entro em contato com outro lugar, outro tipo de atores, outras realidades. Eu estou produzindo também. Compartilho isso com eles. É enriquecedor e delicioso o nosso processo caótico de liberdade.

Mas muitos por aí pensariam que você poderia estar fazendo um teatro comercial, enorme, e não um teatro pequeno, alternativo.
Mas eu faço justamente porque não acho pequeno. Acho este teatro que estou fazendo de um valor gigantesco. Eu tenho nos últimos dez anos intercalado teatro e novela. Estou querendo produzir mais teatro.

Por quê?
Por que quero trabalhar como atriz o resto da minha vida. Eu comecei muito cedo, Miguel, você sabe. Sempre fui muito receosa com minha profissão. Quando fiz 28, 29 anos, naquela época que a gente se conheceu, eu falei para mim: “É isso. É minha profissão. Tenho de investir cem por cento nela”. O teatro me ajuda a construir essa atriz que eu quero ser. Quero ser uma atriz diversa, que consiga brincar com vários gêneros. E o teatro sempre foi muito generoso comigo neste sentido.

tais araujo foto bob sousa 2013 2 Taís Araújo mergulha no caótico do coletivo teatral em busca de identidade e autonomia artística

Taís Araújo conversa com Miguel Arcanjo Prado no CIT-Ecum: "Quero ser uma atriz diversa" - Foto: Bob Sousa

Caixa de Areia
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 20h. 70 min. Até 15/12/2013
Onde: CIT-Ecum (r. da Consolação, 1623, metrô Paulista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3255-5922)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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