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MIT CANCAO DE MUITO LONGE FOTO Jan Versweyveld 3 MITsp cobra ingresso depois de prometer gratuidade; diretor explica o porquê da mudança

Cena da peça Canção de Muito Longe, da Holanda, do diretor Ivo van Hove; obra tem estreia mundial na MITsp, que coproduziu a peça - Foto: Jan Versweyveld

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

“A MITsp vai continuar no ano que vem. E gratuita. A segunda edição será de 6 a 15 de março de 2015 e terá uma novidade: a única atividade que vamos cobrar ingresso vai ser o Cabaré”. Esta é a declaração de Guilherme Marques, diretor da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), na Entrevista de Quinta publicada neste blog em 12 de junho de 2014.

O executivo do teatro se referia à edição de 2015, segunda da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que será realizada entre 6 e 15 de março, com peças da Rússia, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Ucrânia, Holanda, Itália, Israel e Brasil. Contudo, houve uma mudança importante na declaração dele: o festival agora cobra entrada na maioria de seus espetáculos — R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia-entrada, à venda desde o último dia 5.

A cobrança de ingresso vem no momento em que o festival aumentou seu orçamento de R$ 2,8 milhões em 2014 para R$ 3,2 milhões em 2015. O festival conseguiu neste ano um grande patrocinador: o Itaú Unibanco. Além disso, tem correalização de Sesc em São Paulo e de dois órgãos públicos, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

A MITsp ainda conta com dinheiro público vindo das Leis Estadual e Federal de Cultura e do Fundo Nacional de Cultural. Até ano passado, a direção da MITsp pensava que, justamente por contar com verbas do Estado, seria ético não cobrar ingresso do público.

Fato é que o sucesso da primeira edição se deu justamente pela junção de uma programação de alta qualidade internacional à gratuidade, o que gerou filas gigantescas em todas as apresentações. Setores da classe teatral louvaram o fato de a população fazer filas para ver teatro. Outra parte da mesma classe, criticou a gratuidade, que em sua visão gerava filas demoradas.

O Atores & Bastidores do R7 quis saber do diretor do evento, Guilherme Marques, o porquê da mudança de sua opinião sobre a gratuidade na entrada da MITsp. Ele concedeu a entrevista exclusiva abaixo:

guilherme marques bob sousa3 MITsp cobra ingresso depois de prometer gratuidade; diretor explica o porquê da mudança

Guilherme Marques, diretor da MITsp, que passou a cobrar ingresso no festival: "Houve muita reclamação, muita mesmo, de gente que não podia passar tarde inteira na fila" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que garantiu que a segunda edição da MITsp seria gratuita e agora há cobrança de ingresso? Por que voltou atrás?
GUILHERME MARQUES — Naquele momento, em 2014, era um desejo – não uma garantia – muito forte nosso, da equipe da MITsp, que a Mostra continuasse gratuita, porque pudemos ver o interesse enorme da população pelo tipo de programação que propusemos. Foi arrebatador ver aquelas filas em torno de espetáculos de diretores que nunca haviam estado no Brasil. Entretanto, houve muita reclamação, muita mesmo, de gente que não podia passar uma tarde inteira na fila, esperar 4 ou 5 horas pelo ingresso. E outra reclamação foi a de que não conseguíamos garantir entrada para gente de fora do Estado de São Paulo, nem do Brasil, porque como a pessoa sairia de seu Estado sem saber se entraria nos espetáculos? Então, decidimos cobrar ingressos populares (20 e 10 reais) o que permitiria acesso a todos, gente de São Paulo e de fora. Porém , é importante lembrar que dois espetáculos da mostra (Arquivo e As Irmãs Macaluso) farão sete sessões totalmente gratuitas à população. Todas as atividades reflexivas (Olhares Críticos, Encontros Formativos e Reflexões Estético-Políticas) são totalmente gratuitas.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Qual o valor total do orçamento da segunda edição da MITsp? Qual foi o valor total do orçamento da primeira edição da MITsp? Se ele cresceu, por que cobrar ingresso agora?
GUILHERME MARQUES — O valor da MITsp em 2014 foi de 2.850.000,00 (dois milhões, oitocentos e cinquenta mil reais), o valor total da MITsp em 2015 é 3.279.872,00 (três milhões, duzentos e setenta e nove mil, oitocentos e setenta e dois reais). O que determinou a cobrança de ingressos não foi o valor que pode vir a ser arrecadado pela bilheteria, mas sim o acesso maior a pessoas do País inteiro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o montante de verba pública dentro deste orçamento (nas duas edições)?
GUILHERME MARQUES — Em 2015, 70% são de recursos públicos (via Proac e Pronac) e 30% de serviços e permutas. Em 2014, 100% foi de recurso público, via Pronac e Proac.

MIGUEL ARCANJO PRADO —  As verbas provêm de quais órgãos/recursos públicos?
GUILHERME MARQUES — Pronac/IR, Proac/ICMS e recurso direto do Município de São Paulo, via Secretaria Municipal de Cultura.

MIGUEL ARCANJO PRADO — As grandes filas de 2014 na MITsp foram encaradas como um problema pelo festival? Por quê?
GUILHERME MARQUES — As filas foram ao mesmo tempo uma satisfação e uma dor de cabeça. Explico. Era a primeira edição de uma mostra que não sabíamos o que poderia dar, se atingiria o público que queríamos, então, em um primeiro momento, ver a fila nos dava a certeza que o caminho era esse. Ao mesmo tempo, se víamos que uma parte da população poderia estar ali naquela fila, uma outra parte, também significativa, não poderia, pelos motivos acima apresentados. E as reclamações, todas justíssimas, nos fizeram rever o esquema dos ingressos. Para tanto, um fator primordial foi estabelecer como critério nessa mudança, o valor de ingresso a preço popular (10 e 20 reais).

MITsp 2015 Woyzeck 16 foto de Vladimir Lupovskoy coletiva1 MITsp cobra ingresso depois de prometer gratuidade; diretor explica o porquê da mudança

Woyzeck, dirigido por Andriy Zholdak, representa a Ucrânia na MITsp 2015 - Foto: Vladimir Lupovskoy

MIGUEL ARCANJO PRADO — O fato de o evento cobrar ingresso em sua segunda edição não o torna menos inclusivo do que foi em sua primeira edição, quando foi gratuito? Por quê?
GUILHERME MARQUES — Se considerarmos que agora, em 2015, existem pessoas de Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, enfim, de vários estados brasileiros se organizando para vir a MITsp, com os ingressos comprados, na mão, e que em 2014 não havia essa possibilidade, desse ponto de vista achamos que houve inclusão de uma parcela de pessoas interessadas em teatro, não necessariamente de São Paulo, que pode agora ter acesso ao evento. Além disso, o fato de trabalharmos com ingressos populares garante a continuidade de um acesso mais democrático.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A venda de ingressos de forma antecipada não pode tornar a MITsp um festival voltado mais para a classe artística? Não se corre o risco de que quando o grande público souber do evento não haja mais ingressos à venda? Por quê?
GUILHERME MARQUES — Anunciamos a data dessa MITsp quando terminamos a edição de 2014. Estamos falando publicamente sobre a programação dessa Mostra desde dezembro de 2014, quando divulgamos os espetáculos que viriam. E, desde então, a grande imprensa tem noticiado o evento, portanto, acreditamos que, como em qualquer evento artístico, as pessoas podem se programar para conseguir o ingresso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O dinheiro público investindo no evento não deveria garantir uma maior democratização do mesmo, com a gratuidade dos ingressos? Por quê?
GUILHERME MARQUES — Justamente. O dinheiro público é o que garantiu o acesso a espetáculos gratuitos e a preços populares e a todas as ações reflexivas (mesas redondas, debates e conferências, além de outras ações reflexivas) gratuitas, além de uma série de workshops e aulas, também gratuitos.

Conheça a programação e saiba como tentar vaga nos cursos da MITsp

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 Somos o maior do Brasil e vamos continuar sendo, diz Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba

Leandro Knopfholz: confiança na tradição de 24 anos de história para manter o Festival de Teatro de Curitiba na liderança, como o maior e mais importante do Brasil em sua área - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto DANIEL SORRENTINO/Clix

O Festival de Teatro de Curitiba faz em 2015 uma edição menor do que a apresentada 2014. O motivo foi a queda de patrocínio para o mais tradicional festival de teatro do Brasil. Mas, nem por isso, o evento abandonou sua fartura cênica.

Mesmo com o cinto apertado, Curitiba segue gigante. Se em 2014 foram mais de 450 peças, em 2015 serão 422 espetáculos apresentados na capital do Paraná nos 13 dias de evento entre 24 de março e 5 de abril: 29 na Mostra Oficial (que em 2014 teve 35 peças) e 393 no Fringe, a mostra paralela. Os números fazem da 24ª edição do evento o maior festival teatral do Brasil em 2015.

Leandro Knopfhoz, diretor geral do evento e seu idealizador, ao lado de Carlos Eduardo Bittencourt, conta que desde que o festival foi fundado, em 1992, mais de 7.000 espetáculos foram apresentados, levando 4,8 milhões de pessoas ao teatro. "Número imbatível", ele reforça.

— Todos os anos reunimos 1.500 profissionais do teatro em Curitiba. O Festival de Teatro de Curitiba é o maior do Brasil, é a maior plataforma de lançamento de espetáculos do País. Neste ano, mesmo com um cenário econômico complicado no País, não será diferente. O Festival de Teatro de Curitiba continua o maior do Brasil. E vai continuar sendo.

O orçamento do evento este ano é de R$ 6 milhões, dos quais apenas R$ 4 foram captados, valor menor do que os R$ 6,5 milhões de 2014 e R$ 8 milhões de 2013. Knofpholz confirma ao R7 os números e o reajuste orçamentário, mas parece confiante na trajetória do evento para sustentar sua grandeza.

— Mesmo o Festival de Teatro de Curitiba tendo de se adaptar às atuais circunstâncias do momento econômico do País, os 24 anos de nossa história nos permitem dizer que estaremos sempre com um evento que é o retrato do teatro brasileiro a cada ano. Isso não mudará.

forces Somos o maior do Brasil e vamos continuar sendo, diz Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba

Forces, da norte-americana Elizabeth Streb, abrirá o Festival de Teatro de Curitiba 2015 - Foto: Divulgação

Cinco peças estrangeiras

Sete estreias nacionais e cinco atrações internacionais (mesmo número de 2014) garantem o peso da Mostra Oficial. As brasileiras são SPon SPof Spend, Post Scriptum, OE, Abnegação 2, Meu Saba, Fishman e Ensaio para um Adeus Inesperado. Já as peças gringas são A House in Asia, Double Rite, Surfacing, Numax e Forces. Esta última, da Cia. Elizabeth Streb, dos EUA, abrirá o festival no Teatro Guaíra, mais tradicional palco paranaense.

pessoas perfeitas 3 Somos o maior do Brasil e vamos continuar sendo, diz Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba

Ivam Cabral em cena de Pessoas Perfeitas, do Satyros: peça estará em Curitiba - Foto: André Stéfano

Sucessos recentes nos palcos brasileiros também darão as caras em Curitiba, como Pessoas Perfeitas, do grupo Os Satyros, Gotas D'Água sobre Pedras Escaldantes, com Gilda Nomacce e Leonardo Chirolli, e Beije Minha Lápide, com Marco Nanini, habitué do evento.

O Fringe permanece como reflexo da diversidade teatral produzida no Brasil. Dez mostras especiais elencam espetáculos em blocos para o público, das quais cinco são inéditas, como a Mostra de Teatro Universitário Grutum, com peças acadêmicas, e a I Mostra Pernambucana de Teatro para a Infância.

Os eventos paralelos foram mantidos: o Gastronomix, com chefes renomados fazendo pratos concorridos, o Guritiba, com peças para os pequeninos, o Mish Mash, com o mundo da mágica, e o Risorama, a mostra de stand-up do Festival de Teatro de Curitiba que sempre é o campeã de público.

Os ingressos para a 24ª edição começam a ser vendidos nesta terça (10). Em 2014, o Festival de Teatro de Curitiba teve público de 230 mil pessoas – 160 mil ingressos foram vendidos e 77 espetáculos foram gratuitos.

Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba em 2014!

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entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 3 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

O jornalista Miguel Arcanjo Prado, autor do blog Atores & Bastidores - Foto: Eduardo Enomoto

Por BRUNA FERREIRA*
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Antes que você se pergunte o que está acontecendo, sim, esta é uma Entrevista de Quinta com o dono da casa. Encontramos ele na janela lateral do quarto de dormir. Gritamos um “oi” da rua de paralelepípedo e ele respondeu prontamente: “Entra! Vou passar um café”.

Bom, não foi isso o que aconteceu, mas é sempre assim que imagino o Miguel Arcanjo Prado, recebendo suas visitas todas, em uma cidade mineira incrustada numa cadeia de montanhas, suas cachoeiras e seus papos no portão.

Jornalista, colunista de teatro, editor de Cultura do R7, formado pela UFMG e pós-graduado pela USP, ele é também crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Miguelito, como é chamado pelos amigos, defende o teatro como defende o jornalismo.

Aqui, para começarmos o ano nos sentindo em casa, ele conta um pouco de sua trajetória e do Atores & Bastidores: uma aventura cheia de Paulos, Fernandonas e até uma entrevista sentado na privada.

Leia com toda a calma do mundo.

BRUNA FERREIRA — Quando você começou a cobrir teatro?
MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi logo que entrei para fazer estágio na TV Globo Minas, em 2005. Pedi ao meu chefe de então, o Paulo Valladares, para entrevistar para o site da emissora os artistas que iam divulgar suas peças no telejornal MGTV 1ª Edição. Foi assim que entrevistei nomes como Marco Nanini, Paulo Autran, Marília Gabriela e Lilia Cabral antes mesmo de me formar. Quando me formei, me mudei no começo de 2007 para São Paulo, porque havia passado no Curso Abril de Jornalismo, da Editora Abril. Tive aulas com nomes como Mônica Bergamo, Carlos Tramontina, JR Duran, Roberto Civita e Thomaz Souto Corrêa, que é o meu grande padrinho na minha chegada em São Paulo — as madrinhas são Wania Capelli e Alice Cruz, que também trabalhavam na Abril. Depois, fui trabalhar de repórter na Contigo!, onde a Denise Gianoglio, editora-chefe, me deu a coluna de Teatro, que na época tinha duas páginas semanais. Depois fui pra Ilustrada da Folha Online, e mais uma vez o teatro apareceu. O então editor da Ilustrada, Sergio Ripardo, me convocou para cobrir o Festival de Teatro de Curitiba, onde acabei me enturmando com o pessoal do teatro de vez e passei a escrever críticas. Depois, fui para o jornal Agora São Paulo e, ao saber que gostava de teatro, a editora do caderno Show me deu a coluna de teatro, com críticas, notas e entrevistas, que saía toda sexta-feira. E aí veio o R7 e a história se repetiu... Geralmente, o teatro acaba ganhando cobertura nos veículos quando tem um jornalista na redação que é apaixonado por ele, como é o meu caso.

BRUNA FERREIRA — É verdade que você quase não virou jornalista?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
É verdade, por pouco eu virei geógrafo! Minhas disciplinas preferidas eram Geografia e História. Quando fiz o vestibular de 2001, passei em História na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e Geografia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Escolhi a UFMG porque era em BH, minha cidade. Acho que Geografia foi importante porque me deu uma base de conhecimentos gerais que me ajudou no jornalismo. Mas, quando fui chegando à metade do curso, percebi que não estava feliz. Fui fazer uma disciplina optativa no curso de Comunicação Social, chamada História do Jornalismo Brasileiro, com a professora Ângela Carrato. Ao ouvi-la, fiquei encantado e resolvi que aquela seria minha profissão. Troquei de curso e, no começo de 2003, começava Comunicação Social. Às vezes penso em terminar Geografia... Parece brincadeira, mas eu já estudei muita rocha nos trabalhos de campo no interior de Minas para a disciplina Geomorfologia Climática Estrutural! [risos]

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 2 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

"Gosto da forma como os mineiros enxergam o mundo", diz Arcanjo - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — Acho engraçado que você sempre se apresenta como um “jornalista mineiro”. Por quê?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Como diz o Drummond, Minas é sempre um retrato na parede. E, ai, como dói! [risos] Na verdade, mesmo lá em BH, eu tinha uma amiga do curso de Geografia, a Luiza Barros, que dizia que eu era “um anjo barroco mineiro com alma baiana e jeito carioca”. Acho que só sobrou o barroco mineiro [risos]. Gosto da "mineiridade", da forma como os mineiros enxergam o mundo, do alto da montanha, sempre com calma, sem essa afobação paulistana. Em Minas, o tempo é outro. E, modéstia à parte, mineiros costumam ser bons jornalistas e bons escritores [risos]. Meu primeiro texto publicado na imprensa, em 2003, no jornal O Pasquim 21, foi apresentado por um mineiro, o Zélio Alves Pinto, irmão do Ziraldo. Era uma crônica sobre um garotinho chamado Lucas, que conheci no bandejão da Faculdade de Direito da UFMG, na praça Afonso Arinos... Quer coisa mais mineira?

BRUNA FERREIRA — Sem sair de Minas Gerais, você tem uma mania que quem te conhece já ouviu: adora citar um conhecimento antigo, um ditado, que aprendeu com sua mãe ou outra pessoa de sua família [risos]. Eles são muito importantes na sua formação?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Minha mãe gosta de dizer: é de pequeno que se torce o pepino. Os ditados populares sempre fizeram parte da minha vida. Minha avó Oneida, nascida em Ouro Preto, sempre tinha um ditado para cada situação. E minha mãe, Nina, também tem até hoje. Acabo nem percebendo quando uso esse tipo de expressão. Sai de forma natural mesmo, uai... [risos].

BRUNA FERREIRA — Quando o blog Atores & Bastidores nasceu, lembro de que foi uma conquista. Como isso aconteceu?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
O blog foi um projeto que desenvolvi com muito carinho. Era um sonho antigo poder me dedicar integralmente à cobertura cultural e, sobretudo, à cobertura teatral, depois do começo da carreira dividido com o jornalismo de celebridades, com o qual aprendi muito. Fiquei muito feliz quando o Antonio Guerreiro, o diretor do R7 e grande amante do teatro, aprovou a ideia, que logo recebeu apoio também do diretor de conteúdo do portal, o Luiz Pimentel. Outra grande incentivadora do blog foi a Fabíola Reipert, que é uma jornalista de coração enorme, divertidíssima e que senta-se ao meu lado na redação. O blog vai completar três anos em 1º de março de 2015. É um dos mais lidos do portal e é campeão nacional em sua categoria. Hoje, tem o respeito do público, da imprensa e da classe artística. Isso é fruto de trabalho árduo diário e me enche de orgulho.

BRUNA FERREIRA — Na estreia do blog, você recebeu palavras de incentivo de pessoas importantes da classe artística. Alguém em especial te impressionou com as palavras?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Muitos foram generosos e deram lindos depoimentos para a abertura do blog. Gente querida como o Manoel Carlos, o Aguinaldo Silva, o Gilberto Braga, o Alcides Nogueira, a Beth Goulart, o Antunes Filho, a Beatriz Segall, o Ivam Cabral... Mas um depoimento foi marcante, porque foi dado pessoalmente. Logo antes de o blog estrear, me encontrei com a Fernanda Montenegro na saída do Teatro João Caetano, na praça Tiradentes, no Rio. Parei para conversar com ela e comentei do blog que estava para sair e disse que adoraria ter um depoimento dela abrindo. Ela falou: "Pode anotar aí". E completou: "Quanto mais se falar de teatro e, principalmente, por meio de seu blog, melhor para todos nós. Com este novo espaço, Miguel Arcanjo nos ajuda e muito. Desejo um resultado lindo e que o teatro seja sempre o foco dessa brilhante iniciativa". Fiquei emocionado. Foi assim que o Atores & Bastidores estreou com pé direito, tendo Fernanda Montenegro como madrinha.

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 1 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado já recebeu ligação de Paulo Autran, agradecendo uma matéria - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — O blog terá novidades em 2015?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Neste janeiro, voltei da folga de Réveillon em Minas e entrei em uma correria desatada. Já tenho dois blogs: o Atores & Bastidores e o R7 Cultura, que nasceu há poucos meses e também já é um dos mais lidos do portal. Além disso, estou fazendo até o dia 26 deste mês o blog da Fabíola Reipert, que saiu de férias e me pediu para segurar as pontas até sua volta. Mas, assim que conseguir um respiro, quero pensar coisas novas. Penso em dar mais voz ao internauta e investir mais em perfis e ensaios dos artistas do teatro, além de manter as críticas e as colunas que são sucesso: O Retrato do Bob, Entrevista de Quinta, Por trás do pano - Rapidinhas Teatrais, Dois ou Um e Domingou. E quero continuar trabalhando com os dois melhores fotógrafos do mundo: Eduardo Enomoto e Bob Sousa. Além de ter a inteligência do Átila Moreno no Rio. E ter o luxo de ter você, Bruna Ferreira, me substituindo quando eu entrar de férias. Mas isso ainda vai demorar alguns meses... Ah, quero também cobrir mais festivais de teatro neste ano. Pode convidar que eu vou.

BRUNA FERREIRA - Alguma situação lhe marcou muito na cobertura teatral?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Sim. Todos os meus contatos com o Paulo Autran. A primeira vez que o entrevistei, ainda era estagiário da TV Globo Minas, e ele estava em Belo Horizonte para fazer a peça Adivinhe Quem Vem para Rezar. Lembro que ele foi muito carinhoso comigo e falou que eu era muito novinho [risos]. Depois, nos reencontramos em São Paulo em 2007, quando já estava fazendo a coluna de teatro da revista Contigo!. Ainda era novinho, tinha 25 anos [risos]. Fiz uma matéria com ele sobre a inauguração do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. No dia em que a revista saiu, o telefone da redação tocou e Shirley Souza, da secretaria, falou: "Miguel, tem um Paulo querendo falar com você". Quando atendi, para minha surpresa, do outro lado da linha era o Paulo Autran, dizendo que havia comprado a revista na banca, lido e gostado muito da minha matéria com ele. Falou que sabia que eu devia estar muito ocupado e que não se estenderia muito, que só havia ligado para agradecer. Fiquei boquiaberto com o gesto humilde dele. Pouco tempo depois ele morreu.... Infelizmente, artistas assim não existem mais...

BRUNA FERREIRA — Falando nos mestres, já dividi com você a responsabilidade de cobrir algumas tristes despedidas para a classe artística: Cleyde Yáconis, Walmor Chagas, Paulo Goulart... Nunca esqueço do cuidado que você tem com o texto, a foto... Por quê?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Olha, Bruna, no país sem memória, fazer uma despedida à altura do artista que morreu é uma obrigação do jornalismo cultural, cada vez mais maltratado e jogado no escanteio. Acho que cobrir com cuidado e carinho e, sobretudo, com ética, é o maior tributo que podemos prestar a estes artistas em sua partida. A profissão de jornalista tem muita responsabilidade neste momento. E o público sempre reconhece e valoriza uma cobertura bem feita. Você é testemunha disso.

BRUNA FERREIRA — O internauta que entra em seu blog já se acostumou com as votações que você promove. Musas, musos e até os melhores do ano. Você se surpreende com os resultados?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Claro! O Muso e a Musa do Teatro foi uma brincadeira que eu propus, e a classe artística teve o bom humor em embarcar. O teatro tem de parar de querer ser essa coisa sisuda, antiga, chata, cheirando a museu. O teatro é vivo, é feito também por gente jovem, descolada. Por que não um pouco de bom humor? O jornalismo não pode perder o bom humor. Agora teve esse atentado horroroso lá em Paris, que é um atentado contra a imprensa como um todo, contra a liberdade de expressão. Não podemos aceitar. Eu comecei em O Pasquim 21, um semanário bem humorado e politizado. E tento manter isso sempre. A coluna Por Trás do Pano - Rapidinhas Teatrais também tem esse clima, é meio que uma homenagem aos grandes colunistas que o Brasil já teve, com texto cheio de personalidade, gente como Ricardo Amaral e o Zózimo Barrozo do Amaral. Já na votação dos Melhores do Teatro R7, o fotógrafo Bob Sousa, meu fiel companheiro na cobertura teatral, e eu indicamos sete nomes em cada categoria. Depois, é o público quem decide. Quem consegue conquistar mais votos leva. É democrático.

BRUNA FERREIRA — Nestes últimos anos, li muitas entrevistas no blog. A Entrevista de Quinta já virou uma marca. Se tivesse que escolher as mais marcantes, quais seriam?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Entrevista boa é aquela que o entrevistado expõe seu pensamento sem medo, sem culpa. O público não aguenta mais artista querendo ser certinho, politicamente correto. Eu me inspirei nas entrevistonas do Pasquim para fazer a Entrevista de Quinta. Hoje, é um dos poucos espaços que restam na grande imprensa para o artista do teatro expor seu pensamento. Não é uma materinha com uma aspa por e-mail no meio. É uma conversa de verdade! As mais marcantes, ambas na companhia do Bob Sousa, sem dúvida, foram a do Antunes Filho, que me deu exclusividade sobre sua última peça, Nossa Cidade, que depois ganhou todos os prêmios, e, claro, a do Zé Celso Martinez Corrêa, que resolveu me dar entrevista no banheiro de seu apartamento e me colocou sentado na privada! Essa entrou para a história do teatro nacional e repercute até hoje. Muitos coleguinhas vêm zoar, perguntando o que eu fui fazer com o Zé Celso no banheiro [risos]!

BRUNA FERREIRA — Quando você faz uma crítica de peça, nem sempre o que tem a dizer sobre o espetáculo é bom. Já passou perrengue na hora de falar mal de uma peça?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Aprendi com meu professor de crítica teatral, o Kil Abreu, que "a crítica não deve ser o exercício da maldade". Acho essa frase ótima. Sempre que vejo uma peça vou de coração aberto. Agora, é claro que quando não gosto, preciso expor meu pensamento. É meu trabalho. Mas minhas críticas são respeitosas e sempre argumento o porquê de não ter gostado. Muitos artistas têm maturidade para respeitar. Claro que sempre tem aquele que leva no pessoal, vai no Facebook desabafar, ataca o crítico, faz baixaria. Acho isso lamentável. O artista tem de estar preparado para o diálogo com o outro. E, sobretudo, para ouvir o que o outro tem a dizer. Se ainda não está preparado para respeitar o crítico, é melhor não convidá-lo. Melhor ainda: faz o espetáculo em casa, para a mãe e a avó. Assim, só vai ouvir elogios.

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 4 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado: "O teatro está mais vivo do que nunca" - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — Três perguntas bem rápidas: qual sua peça favorita? O que está lendo? O que anda ouvindo?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Vou falar as que mais me marcaram: primeiro, O Mistério da Feiurinha, que vi ainda criança no Teatro Sesi Minas, lá em BH. A segunda, vi no fim da adolescência, também em BH: Todas as Belezas do Mundo, da Cia. Clara, dirigida pelo Anderson Aníbal e que tinha a Grace Passô no elenco, ainda começando a carreira, mas já uma grande atriz. Para terminar, uma de São Paulo: Luis Antonio - Gabriela, da Cia. Mugunzá, que foi muito emocionante. Vi a estreia no porão do Centro Cultural São Paulo e lembro-me que fiquei impactado. De livro, sempre estou lendo algo. Li muita coisa da pós-graduação, Bauman, Jung, Thompson, Kellner, mas, de romance, li recentemente Boquitas Pintadas, uma novela do escritor argentino Manuel Puig. Ando ouvindo muito os discos do Caetano nos anos 1970, em especial Cinema Transcendental, Transa, Bicho e Joia. E também o novo disco do cantor uruguaio Jorge Drexler, Bailar en la Cueva. É ótimo e tem uma música que se chama Bolívia, que me faz lembrar da nossa amiga boliviana Elba Kriss. Ah, também ouço muito Fito Paez e Fabiana Cantilo, roqueiros argentinos. Além da turma do Clube da Esquina, porque mineiro de verdade nunca deixa de ouvir.

BRUNA FERREIRA — Recentemente você fez especialização na USP?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Pois é, agora sou especialista em Mídia, Informação e Cultural pela ECA. Chique, né? [risos] Mas você, Bruna, é mais chique, porque já está na metade do mestrado [risos]. Minha dissertação foi a cobertura atual dos grupos Os Satyros e Oficina nos jornais Folha e Estadão. Meu recorte pegou o período das manifestações de junho de 2013 e ambas companhias levaram a questão política para o palco. Foi uma pesquisa muito prazerosa e instigante e tive um orientador ótimo, o Dr. Danilo Oliveira, que é jovem e gosta de teatro. Gostei muito de retomar a vida acadêmica e quem sabe entro no mestrado em 2015?

BRUNA FERREIRA — Nestes dez anos de cobertura teatral, o que conseguiu encontrar?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Encontrei muitas pessoas interessantes. Muitos artistas instigantes. Zé Celso, Antunes Filho, Phedra D. Córdoba, Marba Goicochea, Zé Henrique de Paula, Yara de Novaes, Pedro Granato, Eva Wilma, Leopoldo Pacheco, Amanda Acosta, Angelo Antonio, Paulo Autran, Ivam Cabral, Rodolfo García Vázquez e tantos outros... Todos dialogaram comigo de alguma forma. E também muita gente bacana nos bastidores, como a Célia, a Beth, a Dani e a Selma, da Morente Forte, a Adriana Balsanelli, o Renato Fernandes, a Eliane Verbena, o Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba, o Michel Ferrabbiamo, produtor cultural lá de Ipatinga, os meninos do Magiluth, de Recife, o Phillipe Serra, leitor fiel do blog que mora no Espírito Santo... É tanta gente do bem! Costumo dizer que prefiro cobrir teatro a TV porque os artistas do teatro são mais inteligentes. É claro que tem gente inteligente na televisão também, mas os do teatro costumam ser mais verdadeiros, menos marqueteiros, sabe? Eu gosto de gente de verdade. Esse negócio de pose, de ar blasé, não faz muito meu estilo. E tem muita gente batalhando neste país para fazer teatro. Apesar de sempre quererem a morte dele, o teatro está mais vivo do que nunca. Acho que o que mais me motiva neste trabalho é dar voz a estes artistas. Deixar essa turma mandar seu recado. E acho que o teatro é parceiro do blog porque entendeu que ele joga luz, traz um glamour, uma vida nova ao mundo dos palcos. Com uma pitada de mineirice, é claro! [risos].

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado.

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cleiton pereira Vídeo: Contadores de Mentira recebe Eugenio Barba e Julia Varley do Odin Teatret em Suzano, SP

Cleiton Pereira, do grupo Contadores de Mentira, no estúdio do R7 - Foto: Divulgação

O grupo Contadores de Mentira, de Suzano, na Grande São Paulo, vive um momento importante de sua trajetória. Entre 28 de novembro e 1º de dezembro, a trupe recebe a visita do diretor Eugênio Barba, um dos maiores nomes do teatro mundial, e da atriz Julia Varley, do Odin Teatret. Cleiton Pereira, diretor do Contadores de Mentira, companhia que completa 20 anos em 2015, fala nesta entrevista ao colunista e editor de Cultura do R7 Miguel Arcanjo Prado sobre a ação do projeto Intercâmbio Ofícios e Raízes. Veja o vídeo:

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quatroloscinco foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

Quatroloscinco - Teatro do Comum (a partir da esq.): Maria Mourão, Rejane Faria, Ítalo Laureano, Assis Benevenuto e Marcos Coletta: quatro espetáculos e duas oficinas em São Paulo - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

As nuvens estão carregadas e "o céu [parece estar] a cinco minutos da tempestade", para citar o título de uma peça da dramaturga mineira Silvia Gomez. Afinal, a tarde é mesmo de conversa mineira na velocidade paulistana.

A luz cai enquanto cinco integrantes do grupo Quatroloscinco - Teatro do Comum chegam ao Memorial da América Latina, recém saídos da estação de metrô da Barra Funda. Apressados, correm para as fotos velozes de Eduardo Enomoto, antes da entrevista.

Os mineiros conquistam a maior cidade do Brasil com o teatro que fazem há sete anos. Até o fim deste mês, fazem a Ocupação Quatroloscinco no Sesc Belenzinho, um dos mais importantes espaços teatrais de São Paulo, apresentando quatro espetáculos (Get Out!, É Só uma Formalidade, Humor e Outro Lado), além de duas oficinas para trocar experiências com artistas e público paulistano.

O Quatroloscinco é formado pelos atores Ítalo Laureano, Rejane Faria, Marcos Coletta, Assis Benevenuto e Maria Mourão, esta última na função de produtora.

quatroloscinco italo laureano foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

O ator Ítalo Laureano: "O Quatroloscinco funciona em rede" - Foto: Eduardo Enomoto

Ítalo Laureano, mineiro nascido e criado em Bom Despacho, conta que ainda se assusta com São Paulo. "Acho uma cidade fria, as pessoas correm muito, é tudo muito tumultuado. As pessoas te empurram, não te olham. Isso me dá um pouco de medo".  Formado em artes cênicas pela UFMG, ele será pai no começo de 2015 de uma menina, fruto do relacionamento com a atriz Carla Duque. Já escolheu o nome da primeira filha: Nina.

Conta que hoje consegue viver de atuar, que, "de uns três anos para cá o grupo conseguiu uma estrutura boa". Mas sabe que ainda há muito a batalhar, "pois teatro ainda não atinge o grande público neste País, infelizmente". Fala que gostam de trabalhar em rede, com outros grupos brasileiros e também dentro do próprio grupo, em um sistema colaborativo. Andam viajando muito: "São Paulo é nosso oitavo estado neste ano", revela. E diz que o maior objetivo da trupe é "estabelecer um lugar de afeto com o público".

quatroloscinco rejane faria foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

A atriz Rejane Faria: "Agora, a gente já se sente colocado, mas isso só aconteceu porque o Quatroloscinco conquistou o seu lugar no cenário teatral" - Foto: Eduardo Enomoto

Rejane Faria, belo-horizontina que hoje prefere morar em um sítio em Esmeraldas, nos arredores de Belo Horizonte, conta que o teatro chegou mais tarde em sua vida, mas o agarrou com unhas e dentes. Ela o descobriu já funcionária dos Correios, onde ainda trabalha, quando foi convocada para o grupo teatral da instituição. Levou tanto a sério que resolveu estudar artes cênicas na UFMG. Foi lá que criou com os colegas um grupo de estudos para pesquisar o teatro latino-americano. Assim nasceu o Quatroloscinco. O nome veio de uma reunião na qual constaram que dos cinco participantes, sempre faltava um em algum encontro.

Sobre o lugar de reconhecimento que o grupo ocupa hoje na cena nacional, afirma: "Agora, a gente já se sente colocado, mas isso só aconteceu porque conquistamos nosso lugar". Diz que "o artista tem uma voz muito forte na sociedade, é um ofício com grande responsabilidade". Afirma que para um grupo teatral sobreviver é preciso muito planejamento, muita união. "Hoje ainda temos atividades paralelas, mas um dia a gente quer viver só de teatro", espera.

quatroloscinco maria mourao foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

A atriz e produtora Maria Mourão: "Fazer teatro de grupo é como abrir uma empresa a cada ano" - Foto: Eduardo Enomoto

É Maria Mourão quem corre atrás da produção do grupo. Ela é mineira de Divinópolis radicada em Belo Horizonte. Herdou a arte de família: a mãe produzia e dirigia espetáculos infantis. Acabou fazendo o curso de jornalismo na Fumec, faculdade privada de BH, mas acabou entrando no Teatro Universitário da UFMG, o TU. Foi chegando no Quatroloscinco aos poucos. "Fui ficando", explica, com um sotaque mineiro gostoso de se ouvir.

Acabou assumindo as rédeas da produção. "Fiz pós-graduação em produção cultural na PUC-Minas, aprendi a fazer sonoplastia e iluminação". É um pacote completo nos bastidores. Sobre a continuidade do grupo conta que este é o maior desafio. "Vivemos um ano de cada vez, por enquanto temos nossa vida programada até março do ano que vem. Depois, é começar tudo de novo. Ter um grupo de teatro é como ter de abrir uma empresa nova a cada ano".

Com essa vida dinâmica e frenética, prefere não fazer planos para o futuro. "A Maria de 30 e poucos anos parou de pensar nisso [de como será a Maria dos 50 e poucos]. Sou muito ansiosa. Então, preferi relaxar e viver". E ela não tem vontade de voltar para o palco? Ela pensa, sorri, tímida, e responde, com muita calma: "Quem sabe... Acho que sim, mas para eu ir para o palco é preciso encontrar alguém para fazer tudo que eu faço! [risos]".

quatroloscinco marcos coletta foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

O ator Marcos Coletta: "A política começa nas pequenas relações" - Foto: Eduardo Enomoto

O ator Marcos Coletta, belo-horizontino criado no bairro do Padre Eustáquio, descobriu seu amor pela arte ainda na escola. Tanto que aos 16 anos entrou para o Teatro Universitário da UFMG. Conta que ainda era muito menino e nunca tinha ouvido falar até então de Stanislavski. Do curso técnico, emendou para a graduação em artes cênicas na mesma universidade. E ainda fez mestrado, orientado por Fernando Mencarelli, no qual pesquisou o ator no teatro de grupo tendo como base o Grupo Galpão, referência em Minas e no País, e o seu Quatroloscinco.

Conta que a luta do grupo foi árdua para se estabelecerem. "Foram três anos até a gente ganhar o primeiro edital". Além do Galpão, cita outros grupos mineiros um pouco mais velhos como referências: "Tem o Espanca!, o Luna Lunera...". E diz que o que lhe chamou a atenção nestes últimos sempre foram peças jovens, autorais, que dialogam com sua geração.

Nunca teve medo de se colocar na vida. E gosta que o grupo o faça. "A gente pensa política não só no macro como também no micro. A política começa nas pequenas relações", diz. Para o futuro, só espera estar ativo nas artes: "Espero que daqui a 20 anos o Quatroloscinco exista ainda".

quatroloscinco assis benevenuto foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

O ator Assis Benevenuto: "O teatro que fazemos é consequência da nossa persistência" - Foto: Eduardo Enomoto

Assis Benevenuto também é de Belo Horizonte, mas a família é de Rio Pomba, no interior mineiro, mas também já morou em outras cidades, como Muriaé e Juiz de Fora, em Minas, e Vila Velha, no Espírito Santo. Retornou à capital mineira no fim da adolescência, "para prestar vestibular para medicina ou veterinária". Acabou fazendo o curso livre de teatro e abandonou as pretensões de estudos na área de ciências biológicas.

Fez vestibular para letras na UFMG, curso que concluiu, e entrou para o curso técnico de atuação do Cefar Palácio das Artes. Entrou para o Quatroloscinco acompanhando os ensaios dos amigos. Quando percebeu, já fazia parte. Sonha que um dia o grupo conquiste espaço próprio. "Hoje, a gente só tem um quartinho para guardar nossos cenários em um espaço coletivo", conta. E emenda: "O teatro que fazemos é consequência da nossa persistência. É um sufoco, é mandar 80 projetos por ano e ser aprovado em dez no melhor dos casos. Das quatro peças que montamos, só uma foi por meio de edital. Tudo deu muito trabalho".

Acha que o atual sistema de produção teatral no país, com toda a sua burocracia, exigências e contrapartidas "está muito viciado". Na hora de explicar por que escolheu fazer disso seu destino, ele pensa e responde: "O teatro já virou a minha vida, é a nossa vida".

quatroloscinco 3 foto eduardo enomoto Quatroloscinco conquistam SP com teatro mineiro

Integrantes do grupo mineiro de teatro Quatroloscinco - Teatro do Comum posam no Memorial da América Latina, em São Paulo, onde fazem temporada de repertório no Sesc Belenzinho em novembro de 2014 - Foto: Eduardo Enomoto

Agradecimento: Memorial da América Latina

Conheça o site do Quatroloscinco e veja o serviço das peças e oficina deles no Sesc Belenzinho, em São Paulo!

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ze celso julia chequer r7 Zé Celso se recusa a pagar multa por cena de peça; no Fórum Criminal, atores do Oficina pedem paz

Zé Celso prestou depoimento no Fórum Criminal por conta de cena de peça - Foto: Julia Chequer/Arquivo R7/7-4-2010

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Integrantes do Teat(r)o Oficina fizeram um ato artístico em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, na tarde desta quarta (5). A ação ocorreu durante depoimento do diretor José Celso Martinez Corrêa, do Zé Celso, 77 anos, e da produtora do Oficina, Ana Rúbia, e dos artistas Tony Reis e Mariano Mattos Martins, à Justiça.

O Oficina está sendo acusado de “crime contra a paz pública” por conta de uma encenação artística — um trecho da peça Acordes, inspirada em Bertolt Brecht — em novembro de 2012 na PUC-SP. Um padre se sentiu ofendido pela peça e deu queixa contra o grupo. Zé Celso considera a ação judicial de um “ato contra a liberdade de expressão”.

O R7 esteve no local e acompanhou a movimentação de fora. O depoimento não pôde ser coberto pela imprensa.

"Arte não é crime"

Segundo relato dos artistas, a Promotoria acusou os integrantes do Oficina de se esconderem atrás da arte que fazem para poderem incitar o crime contra a paz pública. O promotor propôs que o Oficina pagasse uma multa de um salário mínimo ao padre. Os artistas recusaram a proposta, por entenderem que esta ofendia toda a classe artística.

Para eles, aceitar o pagamento da multa implicaria em concordar que toda a arte possa ser criminalizada se alguém da plateia se sentir ofendido por algo dito em cena. O que feriria a liberdade de expressão garantida na Constituição e o próprio sentido da arte.

Zé Celso ficou indignado com o que ouviu na audiência, como contou ao R7 assim que saiu do Fórum Criminal.

— Ele [o promotor] ofereceu pagarmos um salário mínimo e ficar isso tudo por aí. O que eu ouvi do promotor é um crime contra a arte. Ele diz que nós nos escondemos na arte para dizer impropérios e incitar o crime contra a paz pública. Isso para mim é um crime contra a arte. A arte é livre!

O diretor do Oficina lembrou que muitos lutaram durante a ditadura pela liberdade de expressão artística e pelo fim da censura.

— Ninguém se esconde atrás da arte. Cacilda Becker quando vai ao DOPS acusada de fazer propaganda soviética por ler Pablo Neruda, ela diz: "Meu único partido é o teatro". Esta cena está em Walmor y Cacilda 64: Robogolpe [peça do Oficina em cartaz]. O promotor acha que a arte é um biombo que se usa. É importante ser divulgado que estão querendo tirar a liberdade da arte. Nós não somos criminosos, os artistas lutaram muito pela liberdade e a cultura livre no Brasil e, em 2014, apesar desse movimento de ódio, a censura ainda é livre. Isso que está acontecendo é uma ofensa a todos os que lutaram pela liberdade na ditudura! Não podemos aceitar.

Mariano Mattos Martins, artista que também esteve na audiêcia, falou ao R7 que " a arte está sendo colocada como o crime; a ditadura acabou faz tempo, mas parece que não."

— A gente não aceitou isso [de pagar a multa]. A gente vai continuar, porque não aceitamos ser criminosos por fazer arte. Querem colocar a cultura e os artistas na marginalidade e diminuir o poder e a importância da arte teatral.

ze celso martinez correa julia chequer r7 Zé Celso se recusa a pagar multa por cena de peça; no Fórum Criminal, atores do Oficina pedem paz

O diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, foi intimado a depor nesta quarta (5) no Fórum Criminal de SP por conta de um trabalho artístico feito com o Teatro Oficina em novembro de 2012 na PUC-SP - Foto: Julia Chequer/Arquivo R7/7-4-2010

Ato artístico

Na calçada do Fórum, na avenida Doutor Abraão Ribeiro, os artistas fizeram um discurso de paz enquanto os integrantes do Oficina prestavam esclarecimentos à Justiça. Eles entoaram o cântico que traz os seguintes versos: “Paz, amor e paz. E muito mais”. A música faz parte da trilha da peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, no momento em que a atriz Cacilda Becker dá depoimento ao DOPS nos anos de chumbo da ditadura.

Nesta cena, a personagem Maria Della Costa, interpretada pela atriz Juliane Elting, diz a seguinte frase: “Não achamos lógico, neste momento ilógico, nós, por personagens vividos, sermos... punidos!”.

A atriz Camila Mota, integrante do Oficina, falou com o editor de Cultura do portal R7, Miguel Arcanjo Prado, durante o ato artístico em frente ao Fórum Criminal. Veja a entrevista no vídeo abaixo:

+ Zé Celso é chamado para depor no Fórum Criminal; diretor ataca marcha a favor da ditadura militar

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janaina Vídeo: Diretora do grupo de Molière faz Não se Brinca com o Amor; Janaína Suaudeau fala da peça

Miguel Arcanjo Prado entrevista a atriz Janaína Suaudeau, da peça Não se Brinca com o Amor

A atriz Janaína Suaudeau idealizou e está em cartaz na peça Não se Brinca com o Amor, que encerra temporada neste fim de semana no Teatro Aliança Francesa (r. General Jardim, 182, metrô República), em São Paulo, com ingresso a preço popular (R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia-entrada). A obra fala do amor entre dois primos. Tem sessão sexta (24) e sábado (25), 20h30, e domingo (26), 18h. Ela convidou a diretora francesa Anne Kessler para comandar a obra escrita por Alfred de Musset, de quem Janaína é fã. Anne é atriz da Comédie-Française, grupo fundado por ninguém menos do que Molière. As apresentações fazem parte das comemorações dos 50 anos do Teatro Aliança Francesa. Veja o vídeo com a entrevista de Janaína Suaudeau:

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fernanda carvalho miguel arcanjo Vídeo: Livro do vestibular, Til de José de Alencar vira peça; veja entrevista com Fernanda Carvalho

Miguel Arcanjo Prado conversa com a atriz Fernanda Carvalho, da peça Til - Foto: Reprodução

A atriz Fernanda Carvalho esteve no R7 para falar da peça Til. Baseada no romance homônimo de José de Alencar, a obra se passa em Campinas (SP), no século 19. Versátil no palco, Fernanda interpreta três personagens. Til tem sessão toda quarta, às 20h, até o mês de dezembro, no Teatro Bibi Ferreira (av. Brigadeiro Luís Antônio, 931, no Bixiga), em São Paulo. Veja o vídeo:

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nash laila foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila: musa do novíssimo cinema brasileiro e também do Oficina - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A pequenina Nash Laila é dona de um talento gigante. Quem a vê no palco do Teat(r)o Oficina sabe muito bem. Quem viu seus filmes também. É atriz intensa e potente.

Tanto que começou cedo e logo se destacou no cinema brasileiro, em longas como Deserto Feliz — com o qual levou o prêmio de melhor atriz do Festival do Cinema Brasileiro em Paris —, Amor, Plático e Barulho — que lhe rendeu o Troféu Candango de melhor atriz coadjuvante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — e Tatuagem, melhor filme no Festival de Gramado.

É uma das musas do novíssimo cinema nacional de qualidade.

Em São Paulo, esta pernambucana filha da cabeleireira Cida Silva e do transportador Carlos Medeiros assumiu as rédeas da própria vida.

Dona do próprio nariz, deu esta Entrevista de Quinta ao R7 na plateia do Oficina, lugar no qual se sente livre.

Falou sobre sua trajetória e ainda desabafou: "O mundo está muito caretão". Tem razão.

Leia com toda a calma do mundo.

nash laila foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila está vivendo há dois anos e meio em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você está há quanto tempo em São Paulo?
Nash Laila — Há dois anos e meio. Fiz o filme Tatuagem, do Hilton Lacerda, e achei que era o momento de dar uma virada e me mudar para cá.

Miguel Arcanjo Prado —Você é de Recife?
Nash Laila — Cresci em Jaboatão, que fica do lado. Morava no bairro Sucupira, com rua de terra, perto da mata. Adorava roubar fruta na árvore, passei a infância brincando na rua. Com 16 anos, fui morar em Olinda.

Miguel Arcanjo Prado — Nesta época já pensava em ser atriz?
Nash Laila — Desde criança eu queria ser atriz. Fazia sempre o auto de Natal [risos]. Aos 13 anos, entrei em um curso de teatro. Depois fui trabalhar com o diretor Jorge Clésio. Fiquei três anos com ele, dos 15 aos 18. Saí para fazer meu primeiro filme, Deserto Feliz.

Miguel Arcanjo Prado — Foi neste que você virou musa do Festival do Rio?
Nash Laila — Foi muito engraçado, porque concorria com um monte de famosa e o povo devia pensar: quem é essa. Foi muito bacana. O filme era muito forte, era uma menina que sofria exploração sexual e terminava se apaixonando por um alemão.

nash laila foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila foi criada brincando na rua, subindo em árvore para pegar fruta - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Foi difícil para você fazer este filme tão novinha?
Nash Laila — Foi um susto. Mas diante do abismo, eu pulei. O Paulo Caldas [diretor do filme] me ouvia muito. Foi um trabalho que me marcou. Viajei bastante por conta do filme. Um ano depois de terminar de filmar este filme estávamos no Festival de Berlim. Foi muito doido. Muita responsabilidade. Cinema é um processo de várias mãos. No teatro, é a gente e o público. Cinema é edição, montagem, o olhar do diretor...

Miguel Arcanjo Prado — E aí você virou a garota do novo cinema pernambucano?
Nash Laila — Pois é [risos]... Eu fiquei dois anos divulgando o filme. Já estava meio que na correnteza, sabe? Agora, vai, pensei. Aí eu passei no vestibular da UFPE [Universidade Federal de Pernambuco], para artes cênicas e fui fazer um intercâmbio na França, em Clermont-Ferrand. Foi ótimo, uma experiência incrível. Mas, voltei e senti um certo vazio.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Nash Laila — Recife é muito cultural, mas, ao mesmo tempo, é muito paradona em determinadas épocas. Aí eu fiz a minissérie Santo por Acaso e uma participação em O País do Desejo. Aí surgiu o Tatuagem.

Miguel Arcanjo Prado — Como você entrou para o elenco?
Nash Laila — Logo que voltei da França, fiz a o processo de seleção com o Hilton Lacerda [diretor de Tatuagem]. Eu estava com muita vontade de fazer o filme. Acabou dando certo. O processo foi todo colaborativo. Então, esse núcleo, do Chão de Estrelas, meio que carregava o filme consigo.

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Nash Laila ainda tem jeito de menina, apesar de já ser uma atriz potente - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha do cinema fora do eixo Rio-São Paulo?
Nash Laila — Acho maravilhoso. Essa galera de Recife, Ceará, Minas, está buscando seu lugar no cinema brasileiro e quebrando muitos tabus. Recife é uma cidade com artistas que estão buscando seu lugar, sua própria produção. Já tem a Escola de Cinema da UFPE, uma lei para o setor.

Miguel Arcanjo Prado — Depois de Tatuagem você fez outro filme?
Nash Laila — Fiz Amor, Plástico e Barulho, da Renata Pinheiro, que tinha feito a direção de arte de Tatuagem. Esse é um filme de mulher: dirigido por mulher, montado por mulher.

Miguel Arcanjo Prado — Como você foi parar no Oficina?
Nash Laila — Em 2007, vi Os Sertões lá em Recife. E isso mudou minha vida. Eu precisava fazer isso. Eu fui fazendo amigos. Depois que acabou o Tatuagem, ficou aquele clima... Então, resolvi arriscar. No Oficina, comecei sendo público e isso modificou o rumo das minhas escolhas. Estar aqui hoje é como uma síntese das coisas.

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"O Oficina é o lugar onde me sinto à vontade", diz atriz Nash Laila - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Nash Laila — No Teat(r)o Oficina me sinto à vontade. É um lugar no qual consigo me libertar no teatro, me identifico com muita coisa. A música aqui é muito forte, impulsiona. O Oficina mistura tudo o que eu gosto. Estou no Oficina desde 5 de maio de 2012. Já fiz seis peças com o Zé [Celso, diretor do Oficina].

Miguel Arcanjo Prado — Como é lidar com tantos artistas no Oficina?
Nash Laila — A grande força do Oficina é o coro, isso que me arrebatou. O Zé é muito ligado nas pessoas. Ele é muito sensível ao presente. Toda vez que ele saca que a pessoa está presente, ele vai junto.

Miguel Arcanjo Prado — Como é sua relação com São Paulo?
Nash Laila — É muito louca. De desde quando falava: jamais moro em São Paulo. Até agora que grande parte dos meus amigos moram aqui. Fui criando uma rotina, um jeito de viver. Antes, morava com meus pais. Aqui, eu me vi sozinha, tendo de fazer minhas coisas. Hoje, em São Paulo eu me sinto em casa. Claro que estou cansada do barulho, sinto saudade do mar... Acho que sou um peixinho. São Paulo para mim é maravilhosa, desde que eu vá e volte.

nash laila foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila, com Cacilda ao fundo, no Oficina: "Tento me colocar o máximo" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Você fez no Oficina papeis importantes, como a Cacilda menina.
Nash Laila — O Zé fala de atuadores. Essa palavra tem um grande símbolo. O atuador se coloca mais do que o ator. Tanto nas escolhas quanto no processo eu tento me colocar o máximo.

Miguel Arcanjo Prado — O que você quer da vida?
Nash Laila — Eu? Tanta coisa... A gente está vivendo um momento muito sensível. O mundo está muito caretão. A gente tem que quebrar tudo, para ter um pouco de afeto. No nosso trabalho, mexemos com fogo. Gente é uma coisa que amo e odeio.

nash laila foto bob sousa7 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

"O mundo está muito caretão. Tem que quebrar tudo, para ter afeto", diz Nash - Foto: Bob Sousa

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jaime lorca Entrevista de Quinta: “Teatro não precisa ser difícil para ser bom”, diz chileno Jaime Lorca no Mirada

O ator e diretor chileno Jaime Lorca: teatro simples, sensível e inteligente no Mirada; sua peça Otelo é um dos destaques do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos - Foto: La Segunda/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

O ator, dramaturgo e diretor chileno Jaime Lorca fuma tranquilamente seu cigarro na calçada em frente ao Teatro Guarany, no centro histórico de Santos, litoral paulista. Afinal, precisa de um pouco de calma após viver um turbilhão de emoções no palco com Otelo. A peça que já é apontada como um dos grandes destaques do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, promovido pelo Sesc São Paulo e que nesta terceira edição homenageia o teatro do Chile, com sete obras deste país na programação.

Enquanto conversa com o Atores & Bastidores do R7, nesta Entrevista de Quinta, o importante nome do teatro chileno precisa parar a fala várias vezes para agradecer aos gestos espontâneos do público, que não se cansa de parabenizá-lo.

Sua versão de Otelo é simples e sofisticada. O texto clássico de William Shakespeare sobre o marido que desconfia da mulher até um fim trágico ganha novas nuances, novas miradas.

Em cena, ele e a atriz Teresista Iacobelli manipulam marionetes com precisão técnica aliada a muita emoção, criando uma história na qual é impossível não mergulhar. Isso acrescido da companhia da música de José Salinas, do figurino de Loreto Monsalve e da luz de Tito Velásquez, num conjunto harmonioso.

Na conversa, Lorca falou sobre seu teatro simples e inteligente ao mesmo tempo e ainda do sucesso no Mirada com a peça de sua Cia. Viajeinmóvil.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como vocês conseguem criar esta atmosfera tão impressionante como vista em Otelo?
Jaime Lorca – Fazemos sempre teatro com objeto, somando atores e marionetes. Até porque somos, antes de tudo, uma companhia de teatro. Os atores estão no centro.

Miguel Arcanjo Prado – Ficou impressionado com o aplauso tão caloroso, com direito a muitos gritos de “bravo” nas sessões de Otelo no Mirada?
Jaime Lorca – Foi uma reação muito linda. Eu creio que o público recebe a obra muito bem porque ela fala de temas que estão muito perto de cada um de nós. Shakespeare é universal, é próximo. Para entendê-lo, não é necessário ter antes uma gama de conhecimentos. Daí sua genialidade. Otelo é como um instrumento musical que tem todas as notas, desde aquelas mais difíceis e sublimas àquelas mais fáceis. Teatro não precisa ser difícil para ser bom.

Miguel Arcanjo Prado – Teatro pode ser inteligente e descomplicado?
Jaime Lorca – Sim! Claro. É bom lembrar que colocaram Shakespeare em um lugar difícil hoje em dia que não é o lugar dele. Ele escrevia suas peças nos anos 1600. Nessa época ninguém sabia ler e escrever. E ele se comunicava com todos. Por isso causa tanta comoção seus textos.

Miguel Arcanjo Prado – A obra tem múltiplas leituras?
Jaime Lorca – Sim. Muitas questões estão detrás de Otelo. No Chile, por exemplo, é muito associada ao femicídio, que é quando companheiros matam suas mulheres. É muito atual. Chegamos a apresentar a peça em uma prisão feminina e as detentas tinha reações muito fortes, comentavam a peça do começo ao fim. Gritavam, emocionadas: “assassino”, “estuprador”. Foi realmente muito impressionante. Fazer essa analogia com o homem de hoje é a nossa ideia.

Miguel Arcanjo Prado – É impressionante a sintonia sua com a companheira de cena, Teresita Iacobelli. Como vocês conseguem tamanha afinidade?
Jaime Lorca – A ideia da peça é fazer um jogo com os dois atores. Teresita e eu trabalhamos juntos há oito anos e desenvolvemos juntos essa técnica que você viu no palco.

Miguel Arcanjo Prado – A peça já viajou muito?
Jaime Lorca – Sim. No Brasil, já estivemos no Festival de Teatro de Curitiba, e também em Florianópolis e vamos para Belo Horizonte. Já viajamos muito. Agora, vamos começar uma turnê longa. Vamos passar por Argentina, Espanha, Portugal, México, Peru, Estados Unidos, Hungria e Bolívia.

Miguel Arcanjo Prado – Você não vai sair do avião...
Jaime Lorca – [risos] Isso mesmo... Nós gostamos muito do que fazemos. É artesanal. No Chile, também sempre percorremos o país de ponta a ponta. Teatro não é divertimento, é educação. Por isso, nossa peça quer dialogar com o público. Quero que as pessoas completem os espaços vazios. Não dá para comer pipoca no teatro.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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