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cleo de paris bob sousa3 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

A atriz Cléo De Páris, gaúcha radicada em SP: "Ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha" - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Cléo De Páris está atarefada ainda em sua sala na SP Escola de Teatro quando chego. Tanta um lugar tranquilo na escola para conversamos. Não consegue. A sala já está ocupada por aulas. Propõe irmos a uma padaria perto, dessas bem comuns, na República, bairro do centro paulistano. Antes, pergunta se chove. Enquanto ela vai pegar o guarda-chuvas, dou uma olhada na recepção no folheto da peça que ela está em cartaz, Ludwig e Suas Irmãs, no Centro Cultural São Paulo [veja serviço ao fim].

Cléo chega. Guardo o papel no bolso. Saímos. A chuva é bem fina. Entramos na padaria. É começo da tarde. São Paulo corre, apressada, ao redor. Ocupamos uma mesa no canto, de frente à parede de vidro que descortina o movimento da rua. Peço um café com leite, ela, água. Na parede do outro lado, uma TV ligada mostra o ator Miguel Falabella em sua volta ao programa Vídeo Show. Rimos disso. Falo que vou ligar o gravador. Ela dá o ok. Miro em direção a seus profundos olhos azuis. Começa sua primeira Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Leia com toda a calma do mundo.

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Cléo De Páris: "Continuo querendo plantar flores. As pessoas não se olham, sempre estressadas" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A última vez que nos encontramos, você falava que queria um dia largar tudo e ir plantar flores. E hoje?
CLÉO DE PÁRIS — Continuo querendo plantar flores [risos]. Estou numa fase que não sei mais para onde ir. Essa loucura da cidade, essa opressão, essa violência, nem sempre direta, mas indireta também, mexe com a cabeça da gente. As pessoas não se olham, vivem no frenesi, sempre estressadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sairia de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Tem aquela coisa de ir para o interior, mas ter de conviver com pessoas de cabeça fechada, conservadoras, com homofobia... Acho que o problema é sempre as pessoas [risos]. Só sendo um eremita em cima de uma montanha meditando... [risos]

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem quanto tempo de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Uns 12 anos. Sou me confundo com o tempo. Como estou no Satyros há 11 anos, devo estar em São Paulo há 12. Minha medida é o Satyros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você falou do Satyros. A pergunta que não quer calar é: você está no Satyros ou saiu do grupo?
CLÉO DE PÁRIS — Olha, eu me afastei, mas é um grupo que ainda é meu. Eu tenho amores lá, minha história, então, possivelmente, mais dia, menos dia, eu volte. O Ivam [Cabral, ator e dramaturgo do Satyros] foi ver minha peça, falou que está orgulhoso. O Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] não foi ainda porque viajou para a Suécia. E eles querem que eu volte a fazer peça com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda é do grupo? Na ficha-técnica ainda tem seu nome?
CLÉO DE PÁRIS — Eu sou do grupo. Tem. O que acontece é que primeiro fiquei um ano sem fazer teatro depois de Édipo na Praça, no Satyros, e Nosferatu, que já foi sem o Satyros. Foi uma fase que queria descansar, porque também trabalho na SP Escola de Teatro. Estava fazendo jornada dupla, muito estressada. Falei para mim: eu não preciso disso, não vou salvar o mundo fazendo teatro sem parar, eu posso me dar um tempo para me reciclar inclusive.

cleo de paris bob sousa41 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris no camarim do Satyros, durante a peça Cabaret Stravaganza: "Ninguém vai ocupar meu lugar" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fazia uma peça atrás da outra.
CLÉO DE PÁRIS — Sim, estava há muito tempo sem parar. O artista precisa desse respiro. Li uma entrevista do Daniel Day-Lewis, que é o ator mais extraordinário do mundo, e ele contava que uma vez parou quatro anos e foi ser sapateiro numa cidadezinha do interior. Ele dizia que o artista que morava nele precisava daquilo. Isso me tocou profundamente. Eu pensei, eu preciso arrumar meus sapatos, meu caminho, onde vou pisar a partir de agora, foi uma metáfora muito bonita para mim o que ele disse.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua ausência nas peças do Satyros gerou um burburinho na classe teatral e no público. Muitos internautas me mandaram mensagem falando para eu descobrir o que havia acontecido e por que você não estava nas peças novas do Satyros.
CLÉO DE PÁRIS — Chegou um momento que minhas intenções artísticas e estéticas não estavam de acordo com o que o grupo estava fazendo. Não que não gostasse. Até porque fiz muito teatro performativo, que o Rodolfo é referência. Estava sentindo falta de personagem, de quarta parede, do teatrão clássico. E o grupo estava com outra pegada e eu queria descansar. Juntou a falta de fome com a falta de vontade de comer.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou de o Satyros voltar agora ao Marquês de Sade? Foi ver Juliette?
CLÉO DE PÁRIS — Não consegui ver porque estou em cartaz. Mas quero ver. Acho fundamental [a volta a Sade], porque toda pesquisa do grupo tem muito a ver com isso. Com essa questão de mexer em valores sociais burgueses através do Sade. E o Rodolfo foi bem fundo nisso, sem pudor algum. Acho que o grupo faz muito bem isso. Montar Juliette vai dar um ar novo a essa trajetória do Sade. Mas acho muito especial remontar A Filosofia na Alcova e Os 120 Dias de Sodoma, que é a minha preferida.

cleo de paris bob sousa cabaret stravaganza Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris ao lado de Ivam Cabral, na peça Cabaret Stravaganza, de 2011, do Satyros - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o público adora essas peças.
CLÉO DE PÁRIS — Eu me pergunto muito que tipo de teatro que o público quer. E acho que esse é um teatro que o público quer ver. Tem de ser feito. É sempre um sucesso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem medo de dar esse tempo e ter alguém lá no Satyros querendo ser a nova Cléo De Páris?
CLÉO DE PÁRIS — A gente tem que se movimentar, sair da zona de conforto e tentar outras possibilidades. Mas ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha. E, talvez, essa gente nova que está lá nem queira ser igual a mim, talvez nem saibam que eu existo. Teatro é muito efêmero...

cleo de paris bob sousa Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Parece que está tudo mais careta" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que acha dessas peças do Sade neste novo contexto político do País que parece mais conservador do que quando as peças foram montadas pela primeira vez?
CLÉO DE PÁRIS — É triste, porque parece que está tudo mais careta. A gente está retrocedendo. Essa questão toda de conservadorismo, de gente brigando porque Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro se beijaram na novela e aceitando todo tipo de violência como se fosse normal. O mundo está ficando muito triste. Acho mesmo que agora pode ser que choque muito mais. Parece inconcebível. A gente deveria evoluir, mas estamos retrocedendo. As pessoas aceitam menos agora. Parece que é um horror alguém ficar nu em cena. Mas no Carnaval pode ter um monte de gente pelada na televisão de manhã e à tarde, para as crianças verem. Mas não pode fazer topless na praia. É tudo tão hipócrita. Não faz sentido para mim.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A gente está ficando amargo demais ou o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura?
CLÉO DE PÁRIS — Acho que o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura. E a gente precisa se defender de algum jeito. Acho que a gente acaba ficando [amargo]. Eu sinto que estou muito amarga. E eu não era assim. Mas, senão, você fica uma “Pollyanna”. Você tem de arrumar um jeito de se impor, de se colocar e de se defender disso tudo. Nem sei se é o melhor movimento, mas é o que a gente consegue.

DSC00620 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em cena de Ludwig e Suas Irmãs: "Trabalhar com o Eric Lenate me jogou com tudo em minha fragilidade e aprendi que ser frágil tem seus encantos" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de Ludwig. Como você entrou na peça?
CLÉO DE PÁRIS — O Eric Lenate [diretor da peça] queria montar há seis anos, desde que entrou em contato com o texto no CPT [Centro de Pesquisa Teatral]. Ele juntou Lavinia Pannunzio, Jorge Emil e eu há um ano para fazer uma leitura e todos nós gostamos muito. Ele disse que teria de ser com nós três, que era o elenco ideal. Ganhamos o ProAc e tivemos só dois meses de ensaio. Foi muito difícil.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo de trabalhar com outras pessoas, com uma outra forma de se fazer teatro?
CLÉO DE PÁRIS — Foi muito difícil. Pensei até em sair da peça durante o processo. Eu estava trabalhando há muito tempo com o teatro performativo, que te dá certas liberdades. Acho que meu rendimento nos ensaios no começo ficou aquém, porque fiquei travada. E o Eric é muito exigente, muito. E a gente tem muita intimidade. Então, chegou um momento que ficou um processo mais difícil do que prazeroso para mim. Tivemos muitos atritos, a gente não chegou a brigar, assim, mas acho que ele me tratava muito mal nos ensaios. Eu falava: você não trata os outros atores como você me trata. Foi muito difícil trabalhar com ele, muito mesmo. É muito complicado. Não sei se vou repetir. Trabalhei muito tempo com o Rodolfo, que é uma doçura, tem outra pegada. Não estou falando que um seja melhor ou pior. São diferentes. Mas o resultado foi o lugar que queria chegar, sinto que tive um progresso como atriz. Mas eu nunca gosto dessa coisa os fins justificam os meios, sabe? Sabe aquelas pessoas que trabalham com o Lars von Trier e nunca mais falam com ele? Não estou falando que foi nesse nível, mas foi complicado para mim. Não foi fácil, mas o Eric consegue ótimos resultados, isso é uma realidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual análise você faz disso tudo?
CLÉO DE PÁRIS — Trabalhar com o Eric me jogou com tudo em minha fragilidade e eu aprendi que ser frágil tem seus encantos e tem força bruta, porque abre um mar de possibilidades. E que acho que serei grata um dia por viver esse desespero.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o texto da peça?
CLÉO DE PÁRIS — É muito difícil, complexo, impiedoso. Tem um formato enlouquecedor. Ele faz um ato inteiro só com as duas irmãs contando que o irmão vai chegar do sanatório. É um ato inteiro preparando a chegada do Ludwig. E depois são dois atos com ele, com uma demência maravilhosa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É difícil fazer a peça?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. Muito. Acho que só quando fiz uma cega tive um desafio assim. É um estado de presentificação muito grande. E é difícil ficar em cena sem texto, só reagindo, é mais difícil do que fazer uma ação ou dando texto. É um desafio muito louco essa peça.

Ludwig e suas irmãs 23 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris, Jorge Emil e Lavínia Pannunzio em Ludwig e Suas Irmãs: "Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. Apesar de vociferarem, não fazem nada" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Os personagens são todos loucos?
CLÉO DE PÁRIS — Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. O Eric linkava muito essas histórias às manifestações que a gente teve. Porque o texto acaba com tudo, com o mecenato da arte, com a burguesia, não deixa pedra sobre pedra. Apesar de eles vociferarem e falarem coisas lúcidas, eles não fazem nada. Ficam naquela casa, lendo biografias de artistas e tomando chazinho. Eles não fazem nada para mudar, só gritam. O Eric falava: esses personagens são as pessoas que foram reclamar pelo aumento de 20 centavos e depois aumentou 50 centavos e não fizeram nada. Então, era só pelos 20 centavos mesmo. Eles queriam dizer: aumentem direito se é para aumentar, porque 20 é muito pouco. Os personagens falam, falam, mas não saem do lugar. O Ludwig é um tsunami que, quando chega à praia, recua. Só ameaça, mas não faz nada. Tem muita munição e não dá em nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É um texto de desesperança. Acho que voltamos ao começo da nossa conversa. É um problema da nossa geração?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. É uma desesperança. Acho que o mais triste porque é uma desesperança que nem é conformista. Eles não se conformam, mas não fazem nada. Não é: tudo bem como está e vou levar minha vida. Não se conforma, mas não faz nada. Isso é mais triste. Não se conformar e não reagir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o público está reagindo?
CLÉO DE PÁRIS — Acho engraçado tratar o público como essa massa uniforme. Mas é engraçado, isso acontece mesmo, de as pessoas quando estarem juntas terem uma mesma intenção. Estreamos numa Sexta-feira Santa e está indo muito bem. Até porque o teatro é enorme. Se você tem cem pessoas tem um terço do teatro. No Satyros era só 40! E o público está ótimo, mas não sei se ele entende o que está acontecendo lá. Se não embarca, não consegue aproveitar. O que o Thomas Bernhard faz ali é muito específico, mexe com padrões no conteúdo e na forma... O texto não é palatável, mas a gente não quer fazer O Rapto das Cebolinhas. Você falou para mim que viu o documentário do David Bowie. Então, o David Bowie hoje apareceria hoje no Faustão? Não. E graças a Deus! Então, vamos continuar sendo David Bowie.

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Cléo De Páris com Alberto Guzik na peça Liz, do Satyros, em 2009: "O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas", diz a atriz - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro te deu e o que ele te tirou?
CLÉO DE PÁRIS — Ele me tirou o convívio com minha família. Eu quero ver o Ian, meu sobrinho crescer. Tem o aniversário dele em setembro, nesse dia, mesmo se for uma apresentação para o Papa eu não vou fazer. Eu quero ver o primeiro dentinho dele. Eu acho que eu não tive filho porque me dediquei muito ao teatro. Não é uma desculpa, mas minha paixão pelo teatro foi muito intensa. Agora, ela está esmorecendo, mas talvez o fundo do poço tenha porão e eu pegue impulso e volte, como diz uma amiga. Eu vivi e respirei teatro o tempo todo nos últimos dez anos. Passei mais tempo no teatro do que em casa e com muito prazer. Só que agora, quando olho para trás, às vezes eu penso: será que não era melhor ter tido uma vidinha mais pacata? Será que eu deveria ter tido um filho e deixar de pensar: não, agora, porque eu vou para a Suécia, não depois, porque eu vou fazer peça em Cuba... O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas. Ninguém colocou um revólver na minha cabeça, falando: faça teatro 24 horas por dia. Se foi uma escolha errada, eu tenho de ver daqui para frente e lidar com isso. Mas o teatro também me deu amigos, pessoas importantes que eu posso confiar. Ele conseguiu extrair de mim sabedoria, coragem, sensibilidade. Inclusive para fazer essa escola maluca que a gente fez, a SP Escola de Teatro. E me deu coragem também para desistir, para parar uma hora, porque eu sou gente.  E é ainda uma resistência nossa levar as pessoas para verem gente. Tirar o público de casa para ir lá ver outra pessoa igual a ela. Isso está muito difícil, né? As pessoas querem olhar umas para as outras por meio das fotos lindas trabalhadas com filtros no IPhone. No palco, não temos filtro, estamos parados ali, sem rede de proteção, passíveis de erro, de sermos execrados ou amados. E a gente continua fazendo isso. Meu medo é que isso se perca um dia. As pessoas estão cada vez mais isoladas, não param de construir prédios na cidade, cada vez mais minúsculos, para as pessoas viverem sozinhas, em seu compartimento, interagindo com outras pessoas através de máquinas, de computadores.

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Cléo De Páris: "O teatro que faço tem que me dar prazer" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual futuro você pensa para você?
CLÉO DE PÁRIS — Estou contaminada por esse clima de desesperança. Mesmo no teatro não sei o que quero fazer depois de Ludwig. Espero que essa peça tenha ainda uma vida grande. E se eu voltar a fazer outra peça, quero que seja devagar. Com um período mais longo entre um trabalho e outro. Não quero me sacrificar mais pelo teatro. Eu me sacrificaria mais pelas flores do que pelo teatro. Estou muito desiludida com a humanidade. É tão violento o ato criativo que não sei se compensa. E não estou falando de compensação financeira, mas afetiva mesmo. É uma energia grande que você dá e não sei se a balança é favorável. Ainda estou digerindo o processo dessa peça, que foi rápido, intenso e difícil. Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos. Porque nunca me coloquei como “a atriz”. Eu fui fazendo trabalhos... Não quero ficar famosa, não é minha pegada, recusei muita coisa na TV por isso. Porque gosto de ter meu anonimato, vou na contramão disso. É claro que gosto de ter prestígio, que as pessoas valorizem o que faço, de conversar com você, nesta entrevista, mas não gosto de uma coisa que possa alterar minha vida. Tudo certo para quem consegue lidar com isso, não acho que é ruim fazer, mas não é a minha pegada. Não tenho essa vaidade de ser famosa, de ganhar prêmio. Então, o teatro que faço tem que me dar prazer e me mostrar que eu faço diferença em algum lugar. Senão, não faz sentido para mim. Tenho avaliado se tudo isso vale a pena para eu ser fiel a mim mesma.

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Cléo De Páris em ensaio para divulgação da peça Ludwig e Suas Irmãs: "Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos" - Foto: Laerte Késsimos

Ludwig e Suas Irmãs
Quando: Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h. 80 min. Até 17/5/2015.
Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1.000, metrô Vergueiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-4002)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Leia também: Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

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Leandro Knopfhoz, no centro de Curitiba: "Festival de Teatro de Curitiba olha para dentro do Brasil e é a principal vitrine dos palcos no País; já temos três patrocínios para 2016", garante o diretor do maior evento teatral da América Latina - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos DANIEL SORRENTINO/Clix

Em ano de crise econômica, o Festival de Teatro de Curitiba fecha sua 24ª edição neste domingo (5) com público de 200 mil pessoas, informa seu diretor, Leandro Knopfholz, ao Atores & Bastidores do R7. O número de 2015 é menor que os 230 mil de 2014, mas é 47% maior do que as 136 mil pessoas que foram ao festival de música Lollapalooza, realizado em São Paulo nos dias 28 e 29 de março último. O que faz o teatro superar a música, arte que é muito mais popular no País.

Se comparado a outro festival teatral, o número de público do Festival de Teatro de Curitiba é 13 vezes maior do que o de seu principal concorrente, a MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), cuja segunda edição foi realizada no mês passado e que fechou com público de 15,2 mil espectadores em suas peças.

A comparação é inevitável, já que a MITsp abocanhou parte do patrocínio que o banco Itaú dava a Curitiba. Mesmo assim, a direção do evento paranaense, que teve orçamento de R$ 6 milhões em 2015, garante sua próxima edição em 2016, quando celebrará 25 anos de trajetória.

"Já temos três patrocinadores fechados para 2016, Tradner, UEG Araucária e Copel. E teremos uma conversa próxima com o Itaú. Curitiba segue com seu peso nacional. É a mais importante vitrine para o teatro brasileiro", afirma o diretor do Festival de Teatro de Curitiba, Leandro Knopfholz.

O executivo diz não temer a concorrência da MITsp. "Quanto mais se falar de teatro melhor", afirma. E reitera que seu objetivo é "entender a cena brasileira, diferentemente da MITsp, que olha para fora do Brasil". Em sua visão, "Curitiba olha para dentro do Brasil".

Além de teatro, o Festival de Curitiba teve a Gastronomix, mostra gastronômica que serviu 27 mil refeições a um público de 9.300 pessoas no Museu Oscar Niemeyer com 25 chefs de todo o Brasil.

5.700 pessoas envolvidas e impacto de R$ 15 milhões

Segundo Knopfholz, em 2015, o Festival de Teatro de Curitiba gerou 900 empregos diretos e 1.500 indiretos. "Além disso, foram 2.700 artistas no Fringe e 600 na Mostra Oficial", revela. Tudo somado dá 5.700 pessoas envolvidas no evento, número que impacta a economia em tempos de recessão. "Segundo um estudo da Secretaria Municipal de Turismo de Curitiba, a movimentação que o Festival faz na economia da cidade é de R$ 15 milhões".

Por conta da crise, o evento cortou drasticamente a lista de jornalistas convidados. "Antes, chamávamos 40 veículos de todo o Brasil, mas com a diminuição orçamentária, tivemos que reduzir esse número para 15 veículos. Mas, esperamos que seja uma situação momentânea, porque gostamos de dialogar com todo o País", afirma.

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Leandro Knopfholz fala sobre globais x artistas do teatro do Fringe: "A gente não diferencia ninguém, todos são artistas e tem o mesmo peso", afirma - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Peças globais e artistas de longe

Sobre a qualidade questionável de alguns espetáculos da Mostra Oficial deste ano, Knopfholz afirma que "tem uma comissão curadora responsável por isso" e que "a programação reflete o que tem nos palcos".

"Sempre pergunto para os curadores, quem você acha que ficou de fora e poderia ter estado aqui? O Festival traz um apanhado, tem ano que as pessoas se identificam mais, menos, mas é um retrato do momento", diz. Os curadores deste ano foram Lúcia Camargo, Celso Curi e Tania Brandão.

Curitiba tem a dicotomia de ter peças com atores famosos geralmente lotadas na Mostra Oficial, e ao mesmo tempo ter peças vindas de todos os lugares do Brasil disputando atenção do público e da mídia no Fringe, a mostra paralela com quase 400 obras. Um dos exemplos foi o espetáculo piauiense Geleia Geral, do grupo Conexão Street, que investiu R$ 5.000 do próprio bolso dos artistas em sua vinda para Curitiba com a peça sobre a vida e obra do compositor Torquato Neto.

Para Knopfholz, ambos tipos de montagens têm peso na receita do Festival, que contou este ano com 422 espetáculos. "Todo mundo tem peso, o caldeirão é o interessante do festival. É claro que é mais difícil colocar 30 pagantes no espetáculo vindo do Piauí do que 2.000 pessoas na plateia da peça do Marco Nanini ou outra figura conhecida da televisão", considera.

Mas afirma não fazer diferenciação de artistas. "A função do Festival é colocar todos no mesmo patamar. Mas a gente não diferencia ninguém, todos são artistas e têm o mesmo peso na divulgação no site ou no nosso livro de programação. Também não fazemos diferenciação de preço. A ideia é deixar o público escolher", declara.

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Leandro Knopfholz: "O que a gente aprendeu nestes 24 anos é se relacionar" - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Lugar para todos?

Chamou a atenção a baixa quantidade de peças curitibanas na Mostra Oficial - este ano foi só Cinderela, dança do Balé Teatro Guaíra, que entrou no lugar de uma peça norte-americana cancelada de última hora. Na programação nobre do evento, reinaram produções vindas do eixo Rio-São Paulo.

Knopfholz admite que pode ser interessante buscar maior aproximação com a cena teatral local curitibana, para que possam estrear montagens no Festival, bem como também com grupos de outros lugares do Brasil. "O Festival tem um trabalho com a cena local, de apoio às mostras locais, que é importante e traz bastante retorno", justifica, dizendo que vai pensar em como integrar melhor a cena local e a nacional fora do eixo Rio-SP na programação da Mostra Oficial.

25 anos em 2016

Para o diretor do Festival de Teatro de Curitiba, lidar com pessoas distintas durante o evento é o grande desafio anual. "Às vezes o diretor é mais preciosista para afinar uma luz. O que a gente aprendeu nestes anos é se relacionar. Vamos comemorar isso na 25a edição, no ano que vem", promete.

Knopfholz afirma que considera que se o Festival fosse realizado no eixo Rio-São Paulo teria maior apoio de parte da mídia nacional. "Parte do charme e da elegância do festival é porque ele é realizado em Curitiba, mas é claro que se fosse feito do mesmo jeito no Rio ou em São Paulo, ele teria mais projeção".

Com o Festival chegando ao fim, ele já pensa no futuro. "Tivemos todos os patrocinadores presentes e esperamos fechar todos os patrocínios para 2016 até maio. Agora, vamos fechar os números e fazer uma avaliação do que aconteceu e pensar no próximo, que com certeza acontecerá e será de uma edição festiva, celebrando nossos 25 anos. Muitas pessoas ficaram amigas aqui em Curitiba, quero todos que fizeram parte do Festival voltem para celebrar conosco", finaliza.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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16962528566 35b287e331 k 1024x683 Ator busca raízes japonesas em peça no Festival de Curitiba

Eduardo Okamoto em cena da peça OE no Festival de Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

O ator Eduardo Okamoto, que já ganhou um Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) pelo desempenho na peça Recusa, resolveu estrear no Festival de Teatro de Curitiba 2015 e ao mesmo tempo acertar as contas com seus antepassados. Isso com seu novo espetáculo: o monólogo OE, apresentado no palco do Sesc da Esquina.

O nome do espetáculo é uma referência ao autor japonês no qual a peça se inspira, Kenzaburo Oe, atualmente com 80 anos.

Ao Atores & Bastidores do R7, Okamoto conta que a peça nasceu de um desejo de construir uma relação artística com a cultura de seus ascendentes, os japoneses.

"Meu avô paterno era japonês e meu pai foi a primeira geração que nasceu no Brasil. Meu pai queria que eu fosse brasileiro, porque sabia que havia muito preconceito com orientais no Brasil", recorda.

Há quatro anos, o ator resolveu comprar em uma livraria paulistana o livro Jovens de um Novo Tempo, Despertai, do autor japonês Kenzaburo.

"O livro tem um aspecto de pai e filho, também presente na obra e, de uma certa forma, na minha viagem ao Japão", conta.

Okamoto viajou para Yokohama, no Japão, onde esteve no Kazuo Ohno Dance Studio, hoje conduzido pelo filho de Kazuo, Yoshito Ohno. "Queria sabe como é o corpo lá", afirma.

A peça é dirigida por Marcio Aurelio e tem dramaturgia assinada por Cassio Pires. Este conta que "não foi uma adaptação, foi uma recriação".

Pires afirma ao R7 que fez "um poema para a cena" que partiu do romance, "uma série de pequenas narrativas que produzem imagens dispostas de uma maneira não linear". Ele enxugou as 400 páginas do livro em 14 páginas do texto cênico.

Okamoto diz que a peça "é o fluxo da vida, da verdade". Para ele, é "a vida se fazendo em nós, a forma como a vida grande vai atravessando a nossa vida particular".

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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Peça OE é inspirada por livro do autor japonês Kenzaburo - Foto: Annelize Tozetto/Clix

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IMG 5762 1024x682 Exclusivo   Ator Fagner Zadra fala sobre acidente no Festival de Curitiba que o deixou tetraplégico

Guerreiro: diagnosticado tetraplégico, um ano depois o ator Fagner Zadra toma café sozinho enquanto conversa com o R7 em Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

Na festa de abertura do Festival de Teatro de Curitiba do ano passado, uma peça de isopor da decoração se desprendeu do teto e caiu na cabeça do ator gaúcho Fagner Zadra.

Ele ficou consciente o tempo todo e revela que, naquele momento, percebeu que havia perdido os movimentos dos braços e pernas. Diante da constatação, seu objetivo era se manter vivo. "Na hora fiquei desesperado, mas depois pensei: eu tenho de continuar respirando para manter a oxigenação do meu cérebro", revela em entrevista exclusiva ao Atores & Bastidores do R7.

Um ano depois do acidente, Zadra, de 31 anos, conta com a juda de enfermeiro e fisioterapeuta, além do apoio fundamental de sua família, de Leandro Knopfholz (diretor do Festival de Teatro de Curitiba) e do carinho do público.

Resolveu enfrentar a situação de estar em uma cadeira de rodas com humor: voltou a fazer seu espetáculo solo no último dia 8 de março, no Teatro Positivo, onde foi aplaudido de pé assim que entrou na plateia.

Nesta conversa, o artista, que estudou engenharia civil na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e agora estuda cinema, fala sobre o acidente, como vem se recuperando e afirma que nunca pensou em processar o Festival. Prefere encarar o que aconteceu como uma fatalidade.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você conseguiu superar o acidente?
FAGNER ZADRA - Cara, você tem que ter uma meta na vida. A minha primeira meta era ficar vivo. Depois, voltar para meu trabalho, fazer o que gosto. Isso, mais a força, mais os cuidados, o Festival me cuidou muito, minha mãe, minha família, o público. Isso tudo e uma força de vontade imensa me fez voltar. Um ano depois, já estou aí trabalhando, com peças lotadas no Festival.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Seu acidente aconteceu na festa de abertura do Festival no ano passado. Você chegou a pensar em processar o Festival?
FAGNER ZADRA - Não, em nenhum momento. Ate porque o Leandro [Knopfholz, diretor do Festival de Curitiba] é meu amigo. Surgiram boatos, mas eram todos falsos. Isso de processar nunca existiu em nenhum momento.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você buscou culpar alguém pelo que aconteceu ou acha que foi uma fatalidade?
FAGNER ZADRA - Não adianta culpar ninguém. O que aconteceu aconteceu. Culpar o quê? Eu acho que era para acontecer, não adianta ficar olhando para trás. É olhar o que vou fazer com isso agora. Ficar procurando culpado para quê? Já estou eu ferrado, para que vou ferrar mais alguém também?

MIGUEL ARCANJO PRADO - Qual foi seu diagnóstico?
FAGNER ZADRA - Teoricamente eu fiquei tetraplégico. Pelo meu nível de lesão eu não deveria estar aqui. Deveria estar só na cama, mexendo só a cabeça [o ator deu a entrevista em um café curitibano, e bebia sozinho seu café sem ajuda de terceiros]. Minha medula ainda está muito inchada. Minhas evoluções não deveriam ter acontecido tecnicamente. Mas a minha vida sempre foi excêntrica.

IMG 5754 682x1024 Exclusivo   Ator Fagner Zadra fala sobre acidente no Festival de Curitiba que o deixou tetraplégico

Fagner Zadra: um ano após o acidente, ele já está de volta aos palcos - Foto: Annelize Tozetto/Clix

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você rompeu qual vértebra?
FAGNER ZADRA - A C5, C6, C7 e T1, foi bem extensa a lesão. Geralmente, quem tem uma lesão dessa só começa a mexer os braços após um ano. E eu já estou aí, na rua, independente.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Quem te deu mais apoio?
FAGNER ZADRA - A minha família, a minha mãe, meu pai, o Leandro, do Festival, que nunca me deixou. Meus amigos também, meu tio Geraldo, que mora aqui também. Minha mãe veio do Rio Grande do Sul no dia do acidente e nunca mais voltou. Fica grudada comigo como se fosse o primeiro dia do acidente.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você está namorando?
FAGNER ZADRA - Não.
MIGUEL ARCANJO PRADO - Você botou uma cadeira de rodas no símbolo do seu show; fazer piada com isso é uma forma de superar?
FAGNER ZADRA - A minha vida inteira, meus textos e shows foram baseados em mim, nas minhas desgraças e minhas vitórias. No humor, sempre tem que ter um alvo. Acho mais fácil atirar em mim mesmo. Lógico que faço piada do cotidiano, mas agora que estou nessa condição, faço piada disso. Por que não fazer? Não fazer seria uma forma de exclusão. Quando estreei meu show no Teatro Positivo, no dia 8 de março agora, havia muitos tetraplégicos. Eles adoraram. Porque ninguém brinca com eles. E não brincar com isso também é uma forma de discriminação.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você tem uma empatia muito grande dos moradores de Curitiba pelo sucesso do Tesão Piá, que ironizava os curitibanos. Como foi a reação do público?
FAGNER ZADRA - É fantástico. As pessoas vêm na rua para me dar um abraço. Cheguei em Curitiba com uma mala e 20 reais no bolso sem saber o que iria fazer. Sou de Sarandir, no Rio Grande do Sul. E dez anos depois eu vejo a cidade me abraçar. Isso me emociona muito. Quando voltei com meu solo, eu fui aplaudido de pé. É um carinho que nem tenho como retribuir.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Qual humorista é seu ídolo?
FAGNER ZADRA - O Chico Anysio, que trabalhou e criou personagens até o fim. Ele é o maior referencial.

MIGUEL ARCANJO PRADO - O que você espera para o futuro?
FAGNER ZADRA - Estou estudando cinema, penso em continuar fazendo humor, dirigir. Também estou cuindando do canal Foca no Circo, no YouTube, além do meu próprio canal. Quero fazer as pessoas rirem até onde der. Até porque não sei se no dia de amanhã vai cair alguma coisa na minha cabeça de novo. Vai saber, né [risos]. Quero levar felicidade e alegria para a galera. Agora, eu vejo a vida por outra forma. Não só pela altura, né. Tenho 1,80 metro, mas agora vejo todo mundo na altura do glúteo [risos].

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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IMG 2292 682x1024 Público fica excitado em Curitiba, diz Marco Nanini

Marco Nanini no Festival de Curitiba: "Público fica excitado" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

O ator Marco Nanini celebra estar mais uma vez na programação da Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, o mais importante do País. Ele apresenta no evento a peça Beije Minha Lápide, após temporadas de sucesso no Rio e em São Paulo.

A obra de Jô Bilac e dirigida por Bel Garcia fala de um homem que é preso por tentar romper a barreira de vidro para beijar o túmulo do escritor Oscar Wilde. A última apresentação da peça no evento é nesta segunda (30), às 21h, no Teatro Positivo.

Em conversa exclusiva com o Atores & Bastidores do R7, Nanini conta que sempre fica emocionado ao participar do Festival.

"É um festival eclético e o público fica muito excitado em Curitiba. Então, é uma ótima relação. Esta é a terceira vez que venho", diz.

Nanini ama tanto o teatro que tem o seu próprio, o Galpão Gamboa, no Rio.

"Ao lado do Fernando Libonate e do César Augusto fazemos várias temporadas de outras companhias no espaço. Trabalhamos com a formação de plateia", explica.

O ator se despediu há pouco tempo de Lineu, o pai no seriado A Grande Família, que ficou no ar 14 anos com sucesso. "Fiz o Lineu 14 anos, a peça Irma Vap fiz por 11 anos. Sou ator de personagens que duram muito. Acho que tinha de ter uma vida mais comprida", brinca o ator de 66 anos.

Comida mineira e Oscar Wilde

Ele conta que, após Curitiba, viaja com a peça, indo inclusive para Belo Horizonte, onde morou na infância no Hotel Amazonas, no qual seu pai foi gerente. "Estou me preparando, porque a gente engorda em Minas", diz, bem-humorado. "Minhas funcionárias lá em casa são mineiras que nem você, aí você já viu a comida boa que elas fazem".

Nanini gosta de fazer teatro: "Sempre fiz, mesmo com A Grande Família no ar, porque o palco recicla o ator. Teatro é artesanal, tem público ao vivo, é outra conversa".

Foi Nanini quem desejou abordar o universo de Oscar Wilde no palco. "Sempre tive um interesse muito grande nele. Oscar Wilde tem uma obra brilhante e uma vida trágica", afirma.

Para o futuro, além de circular com a peça Beije Minha Lápide, prepara uma montagem de Ubu Rei e deve voltar em breve à televisão: "No final do ano devo começar uma novela, mas a Globo não decidiu ainda qual será", finaliza.

IMG 2362 682x1024 Público fica excitado em Curitiba, diz Marco Nanini

Sucesso da TV, Nanini não abandona o teatro: "Palco recicla o ator" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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leandro knopfholz annelize tozetto Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba, na manhã desta terça (24): "Não é um evento só para a classe teatral, é para o grande público também" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos ANNELIZE TOZETTO e
DANIEL SORRENTINO/Clix

Se o número de público acumulado em 24 edições o transformasse em uma cidade, o Festival de Teatro de Curitiba seria a terceira maior do Brasil. Já levou 5 milhões de pessoas ao teatro, número menor apenas do que as populações de São Paulo e do Rio. A própria Curitiba com seu 1,8 milhão de habitantes ficaria em nono lugar na mesma lista. Já se a brincadeira fosse transformar cada peça apresentada no Festival em uma cidade, o Festival de Teatro de Curitiba, com suas mais de 7.000 peças encenadas até hoje, ganharia fácil do próprio Brasil, que só teria 5.570 municípios a oferecer.

É com esta mistura de grandiosidade e tradição que começa nesta terça (24) e vai até o próximo 5 de abril a 24ª edição do maior e mais importante festival das artes cênicas no País: o Festival de Teatro de Curitiba, o maior da América Latina.

Curitiba teve público de 230 mil na última edição

Em tempos de crise econômica e com a concorrência de outros eventos do tipo, como a MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), Curitiba exibe seus números na batalha cênica. Só em 2014, o festival paranaense levou 230 mil pessoas ao teatro com um orçamento de R$ 6,5 milhões e quase 500 espetáculos.

Para se comparar, a MITsp deste ano, com orçamento de R$ 3,2 milhões para 12 peças, teve 17,5 mil pessoas de público em números prévios, já que o balanço final do festival paulista não foi divulgado pelos seus organizadores até o fechamento desta reportagem, nove dias após A MITsp acabar.

Ainda comparado à recente MITsp, o Festival de Teatro de Curitiba tem retorno de público maior: 13 vezes mais espectadores. E também leva mais gente ao teatro gastando menos. O gasto por espectador em 2014 em Curitiba foi de R$ 28,26. Já a segunda edição da MITsp, neste ano, gastou 653% a mais com cada espectador: R$ 182,85 por pessoa.

festival de curitiba publico daniel sorrentino clix picnik Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Fila gigante de público no centro histórico curitibano para ver uma peça de teatro: 230 mil pessoas foram ao Festival de Teatro de Curitiba em 2014 - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

O orçamento do Festival de Teatro de Curitiba em 2015 é de R$ 6,5 milhões, o mesmo número de 2014 — mas que vale menos, já que a inflação foi alta nos últimos 12 meses e o dólar subiu a níveis estratosféricos. O número é distante dos R$ 8 milhões de 2013, ano de orçamento recorde. Mas, o evento segue firme com uma receita simples.

O R7 apurou que, para seguir grandioso mesmo com os cortes, a direção do evento conta com a colaboração de artistas, empresários, produtores e parceiros de longa data, que toparam renegociar valores. É assim que Curitiba segue apostando na diversidade de estilos e também numérica como receita de seu sucesso.

Nos 13 dias de evento deste ano serão 422 espetáculos ao todo: 29 na Mostra Oficial e 393 no Fringe, a tradicional mostra paralela, onde se pode ver de tudo um pouco, como é desejável no ambiente artístico democrático. E há novidades. Este ano serão sete estreias nacionais e quatro espetáculos internacionais: A House in Asia, Double Rite, Surfacing e Numax. A peça Dias de Luta, Dias de Glória, com a trajetória de Chorão, da banda Charlie Brown Jr. é um dos destaques também.

dias de gloria luis franca Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

O roqueiro Chorão será homenageado no palco do Festival de Teatro de Curitiba: Dias de Luta, Dias de Glória, peça sobre sua vida e sua música, está na programação - Foto: Luis França/Divulgação

O Festival de Teatro de Curitiba movimenta a economia não só da capital paranaense como a nacional também, sobretudo a área ligada aos transportes, serviços e hotelaria. Afinal, cerca de 1.500 artistas do País e de fora dele rumam para a cidade para participar de espetáculos (fora os turistas apaixonados pelo teatro que programa férias para o período em Curitiba), o que o torna o um festival definitivamente de peso e de repercussão nacional como nenhum outro.

Quem recebe toda essa gente a partir desta terça-feira (24) é Leandro Knopfholz, fundador e diretor geral do festival. Em tempos de crise, faz questão de agradecer os patrocinadores: a apresentação do Banco Itaú e Tradener, e os patrocínios da Renault do Brasil, da Petrobras, da Copel, da Fundação Cultural de Curitiba/Prefeitura de Curitiba e da UEG Araucária, além do apoio da Itaipu Binacional.

Direto de Curitiba, Knopfholz conversou, com exclusividade, com o Atores & Bastidores do R7 sobre o evento e seu atual cenário na manhã desta terça (24).

Leia com toda a calma do mundo.

leandro knopfholz annelize tozetto2 Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Leandro Knopfholz: "Festival de Curitiba não esconde informações, somos transparentes" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o Festival de Teatro de Curitiba reage à forte concorrência de outros festivais, como a MITsp?
LEANDRO KNOPFHOLZ — O Festival de Teatro de Curitiba tem a proposta de conversar com o público. É seu grande diferencial. O teatro é a manifestação mais antiga que a gente conhece. Desde que o homem sentou-se em volta da fogueira para contar com um graveto que um bicho grande corria atrás dele, fazia teatro de alguma forma. O teatro continua sendo uma forma envolvente de se contar uma história. Isso é simples, mas é muito. A gente vive o momento em que a atenção das pessoas está cada vez mais dividida, as pessoas conversam com você e param para ver o celular. A atenção está dispersa por uma série de tecnologias, mas hoje você não tem só mais o graveto. Tem diversas formas de se contar a história. Mas, antes de tudo, ela precisa se comunicar. O festival entende teatro como uma arte que se comunica com o público, com espetáculos impactantes e que tocam as pessoas em diversas camadas, racional e emocionalmente.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Festival de Teatro de Curitiba desmistifica o teatro?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Sim. O Festival entende o teatro como uma arte que comunica. Ele convida o público para ir ao teatro de uma maneira corriqueira, como se fosse ao cinema. Não sei por que o teatro ainda tem uma cara mais solene. Se eu te convido para ir ao cinema, a gente sai do trabalho e vai. Já o teatro tem aquela coisa de ir para a casa antes e se arrumar todo. A gente quer desmistificar o teatro, mostrar que ele é uma coisa bacana, fácil, não precisa criar barreiras formais para ir ao teatro. O teatro é fácil, direto, se comunica e é envolvente.

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Espaço para o teatro de rua: Festival de Teatro de Curitiba tem boa relação entre investimento e retorno de público - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando a comparar vocês com a MITsp, Curitiba tem público de 230 mil pessoas contra 17,5 mil do festival paulista em números prévios. Como vocês conseguem atingir tanta gente?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Acho que um dos nossos diferenciais é o Fringe, a nossa mostra paralela democrática, que faz com que os números fiquem muito maiores e que oneram menos o festival do que uma mostra internacional. E acho que a gente busca o público. Pensamos: quanto mais cheia a sala mais barato fica o espetáculo. Se a casa fica vazia, uma peça pode custar R$ 10 mil por pessoa, se você enche, esse valor pode cair  para R$ 10. Por isso, a gente vai atrás do público.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O orçamento é o mesmo do ano passado, mas o cenário atual é de crise econômica e alta do dólar. Como vocês lidam com isso?
LEANDRO KNOPFHOLZ — A gente diminuiu a programação de 38 para 29 peças na Mostra Oficinal e cortamos uma série de coisas. Tivemos de cortar custos, sim. Diminuímos convidados e outra série de questões. Renegociei com alguns fornecedores. A tradição nos ajudou, isso sem dúvida. A credibilidade e o carinho com o evento foram coisas importantes para realizar esta edição. O festival sem dúvida tem um patrimônio que é sua história e sua tradição, que são as relações criadas, que transcendem o contato puramente comercial. O festival é ume esforço conjunto de todos os envolvidos. E isso é muito importante.

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Público vê peça gratuita do Festival de Curitiba: "A cidade, em todas as suas camadas, está envolvida no evento; e você só pode ser global se você é forte local", diz Leandro Knopfholz - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Festival de Teatro de Curitiba sempre faz questão de divulgar seu balanço em seu último dia de evento. Outros festivais seguram os números ou sequer os divulgam. O balanço da MITsp por exemplo não sai até esta nossa conversa, nove dias após o término. Qual a importância para você de um evento deste porte ser transparente com a imprensa, os artistas e o público?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Respeitamos muito o público, a imprensa, os artistas, os produtores e os patrocinadores. Eu acho que o mundo é cada vez mais transparente. Na TV digital que meu pai comprou você vê a espinha da apresentadora do telejornal. É impossível você esconder qualquer coisa. O cidadão está com o dedo no nariz e alguém tira uma foto e coloca na rede social. O mundo é online, a TV é digital. A informação circula muito rápido. Não tem como maquiar ou distorcer. A gente tem uma filosofia aqui de administrar por indicadores. Para você administrar você tem de medir. Como trabalhamos com muitos fornecedores e parceiros, a gente tenta fazer com que essa informação flua da maneira mais rápida, precisa e transparente possível. A gente não esconde nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o Festival de Teatro de Curitiba tem que os outros festivais não têm?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Tem uma história de 24 edições e isso leva a tudo: às relações interpessoais consolidadas, à tradição, ao carinho e ao orgulho que a classe teatral de todo o País e o curitibano tem do evento. O envolvimento das pessoas com o evento no dia a dia é incrível. Ontem, por exemplo, fui pegar meu carro estacionado, e a moça da zona azul do trânsito viu que eu era “o cara do festival” e veio me pedir se eu tinha o livrinho da programação, porque ela queria se programar. Isso é uma percepção que a cidade, em todas as suas camadas, está envolvida no evento. E você só pode ser global se você é forte local. Por isso, o Festival de Teatro de Curitiba é o maior e o mais importante festival de teatro do Brasil, conhecido em todo o mundo. Porque o Festival de Teatro de Curitiba não é um evento só para a classe teatral, é para o grande público também.

sorrentino Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Público lota arquibancadas na peça chilena El Hombre Venido de Ninguna Parte, em 2014, na praça Santos Andrade, uma das principais de Curitiba - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

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releasereneramos1 Vídeo   Peça mistura fúria no trânsito com mitologia grega; veja entrevista com ator Rene Ramos

Rene Ramos em cena de Ulisses e Odisseu: caos urbano e mitologia - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator Rene Ramos encara o monólogo Ulisses e Odisseu, que estreia nesta quinta (12), às 21h, no Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 94938-3862). A temporada será toda quinta, 21h, até 30 de abril. Na obra, Ramos faz um paralelo entre o mundo estressante de hoje com a mitologia grega. Nesta entrevista, ele conta mais sobre a montagem, que também conta com direção e dramaturgia assinadas por ele. Veja o vídeo com reportagem de Miguel Arcanjo Prado, produção e imagens de Robert Mathias.

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MIT CANCAO DE MUITO LONGE FOTO Jan Versweyveld 3 MITsp cobra ingresso depois de prometer gratuidade; diretor explica o porquê da mudança

Cena da peça Canção de Muito Longe, da Holanda, do diretor Ivo van Hove; obra tem estreia mundial na MITsp, que coproduziu a peça - Foto: Jan Versweyveld

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

“A MITsp vai continuar no ano que vem. E gratuita. A segunda edição será de 6 a 15 de março de 2015 e terá uma novidade: a única atividade que vamos cobrar ingresso vai ser o Cabaré”. Esta é a declaração de Guilherme Marques, diretor da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), na Entrevista de Quinta publicada neste blog em 12 de junho de 2014.

O executivo do teatro se referia à edição de 2015, segunda da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que será realizada entre 6 e 15 de março, com peças da Rússia, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Ucrânia, Holanda, Itália, Israel e Brasil. Contudo, houve uma mudança importante na declaração dele: o festival agora cobra entrada na maioria de seus espetáculos — R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia-entrada, à venda desde o último dia 5.

A cobrança de ingresso vem no momento em que o festival aumentou seu orçamento de R$ 2,8 milhões em 2014 para R$ 3,2 milhões em 2015. O festival conseguiu neste ano um grande patrocinador: o Itaú Unibanco. Além disso, tem correalização de Sesc em São Paulo e de dois órgãos públicos, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

A MITsp ainda conta com dinheiro público vindo das Leis Estadual e Federal de Cultura e do Fundo Nacional de Cultural. Até ano passado, a direção da MITsp pensava que, justamente por contar com verbas do Estado, seria ético não cobrar ingresso do público.

Fato é que o sucesso da primeira edição se deu justamente pela junção de uma programação de alta qualidade internacional à gratuidade, o que gerou filas gigantescas em todas as apresentações. Setores da classe teatral louvaram o fato de a população fazer filas para ver teatro. Outra parte da mesma classe, criticou a gratuidade, que em sua visão gerava filas demoradas.

O Atores & Bastidores do R7 quis saber do diretor do evento, Guilherme Marques, o porquê da mudança de sua opinião sobre a gratuidade na entrada da MITsp. Ele concedeu a entrevista exclusiva abaixo:

guilherme marques bob sousa3 MITsp cobra ingresso depois de prometer gratuidade; diretor explica o porquê da mudança

Guilherme Marques, diretor da MITsp, que passou a cobrar ingresso no festival: "Houve muita reclamação, muita mesmo, de gente que não podia passar tarde inteira na fila" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que garantiu que a segunda edição da MITsp seria gratuita e agora há cobrança de ingresso? Por que voltou atrás?
GUILHERME MARQUES — Naquele momento, em 2014, era um desejo – não uma garantia – muito forte nosso, da equipe da MITsp, que a Mostra continuasse gratuita, porque pudemos ver o interesse enorme da população pelo tipo de programação que propusemos. Foi arrebatador ver aquelas filas em torno de espetáculos de diretores que nunca haviam estado no Brasil. Entretanto, houve muita reclamação, muita mesmo, de gente que não podia passar uma tarde inteira na fila, esperar 4 ou 5 horas pelo ingresso. E outra reclamação foi a de que não conseguíamos garantir entrada para gente de fora do Estado de São Paulo, nem do Brasil, porque como a pessoa sairia de seu Estado sem saber se entraria nos espetáculos? Então, decidimos cobrar ingressos populares (20 e 10 reais) o que permitiria acesso a todos, gente de São Paulo e de fora. Porém , é importante lembrar que dois espetáculos da mostra (Arquivo e As Irmãs Macaluso) farão sete sessões totalmente gratuitas à população. Todas as atividades reflexivas (Olhares Críticos, Encontros Formativos e Reflexões Estético-Políticas) são totalmente gratuitas.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Qual o valor total do orçamento da segunda edição da MITsp? Qual foi o valor total do orçamento da primeira edição da MITsp? Se ele cresceu, por que cobrar ingresso agora?
GUILHERME MARQUES — O valor da MITsp em 2014 foi de 2.850.000,00 (dois milhões, oitocentos e cinquenta mil reais), o valor total da MITsp em 2015 é 3.279.872,00 (três milhões, duzentos e setenta e nove mil, oitocentos e setenta e dois reais). O que determinou a cobrança de ingressos não foi o valor que pode vir a ser arrecadado pela bilheteria, mas sim o acesso maior a pessoas do País inteiro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o montante de verba pública dentro deste orçamento (nas duas edições)?
GUILHERME MARQUES — Em 2015, 70% são de recursos públicos (via Proac e Pronac) e 30% de serviços e permutas. Em 2014, 100% foi de recurso público, via Pronac e Proac.

MIGUEL ARCANJO PRADO —  As verbas provêm de quais órgãos/recursos públicos?
GUILHERME MARQUES — Pronac/IR, Proac/ICMS e recurso direto do Município de São Paulo, via Secretaria Municipal de Cultura.

MIGUEL ARCANJO PRADO — As grandes filas de 2014 na MITsp foram encaradas como um problema pelo festival? Por quê?
GUILHERME MARQUES — As filas foram ao mesmo tempo uma satisfação e uma dor de cabeça. Explico. Era a primeira edição de uma mostra que não sabíamos o que poderia dar, se atingiria o público que queríamos, então, em um primeiro momento, ver a fila nos dava a certeza que o caminho era esse. Ao mesmo tempo, se víamos que uma parte da população poderia estar ali naquela fila, uma outra parte, também significativa, não poderia, pelos motivos acima apresentados. E as reclamações, todas justíssimas, nos fizeram rever o esquema dos ingressos. Para tanto, um fator primordial foi estabelecer como critério nessa mudança, o valor de ingresso a preço popular (10 e 20 reais).

MITsp 2015 Woyzeck 16 foto de Vladimir Lupovskoy coletiva1 MITsp cobra ingresso depois de prometer gratuidade; diretor explica o porquê da mudança

Woyzeck, dirigido por Andriy Zholdak, representa a Ucrânia na MITsp 2015 - Foto: Vladimir Lupovskoy

MIGUEL ARCANJO PRADO — O fato de o evento cobrar ingresso em sua segunda edição não o torna menos inclusivo do que foi em sua primeira edição, quando foi gratuito? Por quê?
GUILHERME MARQUES — Se considerarmos que agora, em 2015, existem pessoas de Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, enfim, de vários estados brasileiros se organizando para vir a MITsp, com os ingressos comprados, na mão, e que em 2014 não havia essa possibilidade, desse ponto de vista achamos que houve inclusão de uma parcela de pessoas interessadas em teatro, não necessariamente de São Paulo, que pode agora ter acesso ao evento. Além disso, o fato de trabalharmos com ingressos populares garante a continuidade de um acesso mais democrático.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A venda de ingressos de forma antecipada não pode tornar a MITsp um festival voltado mais para a classe artística? Não se corre o risco de que quando o grande público souber do evento não haja mais ingressos à venda? Por quê?
GUILHERME MARQUES — Anunciamos a data dessa MITsp quando terminamos a edição de 2014. Estamos falando publicamente sobre a programação dessa Mostra desde dezembro de 2014, quando divulgamos os espetáculos que viriam. E, desde então, a grande imprensa tem noticiado o evento, portanto, acreditamos que, como em qualquer evento artístico, as pessoas podem se programar para conseguir o ingresso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O dinheiro público investindo no evento não deveria garantir uma maior democratização do mesmo, com a gratuidade dos ingressos? Por quê?
GUILHERME MARQUES — Justamente. O dinheiro público é o que garantiu o acesso a espetáculos gratuitos e a preços populares e a todas as ações reflexivas (mesas redondas, debates e conferências, além de outras ações reflexivas) gratuitas, além de uma série de workshops e aulas, também gratuitos.

Conheça a programação e saiba como tentar vaga nos cursos da MITsp

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 Somos o maior do Brasil e vamos continuar sendo, diz Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba

Leandro Knopfholz: confiança na tradição de 24 anos de história para manter o Festival de Teatro de Curitiba na liderança, como o maior e mais importante do Brasil em sua área - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto DANIEL SORRENTINO/Clix

O Festival de Teatro de Curitiba faz em 2015 uma edição menor do que a apresentada 2014. O motivo foi a queda de patrocínio para o mais tradicional festival de teatro do Brasil. Mas, nem por isso, o evento abandonou sua fartura cênica.

Mesmo com o cinto apertado, Curitiba segue gigante. Se em 2014 foram mais de 450 peças, em 2015 serão 422 espetáculos apresentados na capital do Paraná nos 13 dias de evento entre 24 de março e 5 de abril: 29 na Mostra Oficial (que em 2014 teve 35 peças) e 393 no Fringe, a mostra paralela. Os números fazem da 24ª edição do evento o maior festival teatral do Brasil em 2015.

Leandro Knopfhoz, diretor geral do evento e seu idealizador, ao lado de Carlos Eduardo Bittencourt, conta que desde que o festival foi fundado, em 1992, mais de 7.000 espetáculos foram apresentados, levando 4,8 milhões de pessoas ao teatro. "Número imbatível", ele reforça.

— Todos os anos reunimos 1.500 profissionais do teatro em Curitiba. O Festival de Teatro de Curitiba é o maior do Brasil, é a maior plataforma de lançamento de espetáculos do País. Neste ano, mesmo com um cenário econômico complicado no País, não será diferente. O Festival de Teatro de Curitiba continua o maior do Brasil. E vai continuar sendo.

O orçamento do evento este ano é de R$ 6 milhões, dos quais apenas R$ 4 foram captados, valor menor do que os R$ 6,5 milhões de 2014 e R$ 8 milhões de 2013. Knofpholz confirma ao R7 os números e o reajuste orçamentário, mas parece confiante na trajetória do evento para sustentar sua grandeza.

— Mesmo o Festival de Teatro de Curitiba tendo de se adaptar às atuais circunstâncias do momento econômico do País, os 24 anos de nossa história nos permitem dizer que estaremos sempre com um evento que é o retrato do teatro brasileiro a cada ano. Isso não mudará.

forces Somos o maior do Brasil e vamos continuar sendo, diz Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba

Forces, da norte-americana Elizabeth Streb, abrirá o Festival de Teatro de Curitiba 2015 - Foto: Divulgação

Cinco peças estrangeiras

Sete estreias nacionais e cinco atrações internacionais (mesmo número de 2014) garantem o peso da Mostra Oficial. As brasileiras são SPon SPof Spend, Post Scriptum, OE, Abnegação 2, Meu Saba, Fishman e Ensaio para um Adeus Inesperado. Já as peças gringas são A House in Asia, Double Rite, Surfacing, Numax e Forces. Esta última, da Cia. Elizabeth Streb, dos EUA, abrirá o festival no Teatro Guaíra, mais tradicional palco paranaense.

pessoas perfeitas 3 Somos o maior do Brasil e vamos continuar sendo, diz Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba

Ivam Cabral em cena de Pessoas Perfeitas, do Satyros: peça estará em Curitiba - Foto: André Stéfano

Sucessos recentes nos palcos brasileiros também darão as caras em Curitiba, como Pessoas Perfeitas, do grupo Os Satyros, Gotas D'Água sobre Pedras Escaldantes, com Gilda Nomacce e Leonardo Chirolli, e Beije Minha Lápide, com Marco Nanini, habitué do evento.

O Fringe permanece como reflexo da diversidade teatral produzida no Brasil. Dez mostras especiais elencam espetáculos em blocos para o público, das quais cinco são inéditas, como a Mostra de Teatro Universitário Grutum, com peças acadêmicas, e a I Mostra Pernambucana de Teatro para a Infância.

Os eventos paralelos foram mantidos: o Gastronomix, com chefes renomados fazendo pratos concorridos, o Guritiba, com peças para os pequeninos, o Mish Mash, com o mundo da mágica, e o Risorama, a mostra de stand-up do Festival de Teatro de Curitiba que sempre é o campeã de público.

Os ingressos para a 24ª edição começam a ser vendidos nesta terça (10). Em 2014, o Festival de Teatro de Curitiba teve público de 230 mil pessoas – 160 mil ingressos foram vendidos e 77 espetáculos foram gratuitos.

Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba em 2014!

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entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 3 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

O jornalista Miguel Arcanjo Prado, autor do blog Atores & Bastidores - Foto: Eduardo Enomoto

Por BRUNA FERREIRA*
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Antes que você se pergunte o que está acontecendo, sim, esta é uma Entrevista de Quinta com o dono da casa. Encontramos ele na janela lateral do quarto de dormir. Gritamos um “oi” da rua de paralelepípedo e ele respondeu prontamente: “Entra! Vou passar um café”.

Bom, não foi isso o que aconteceu, mas é sempre assim que imagino o Miguel Arcanjo Prado, recebendo suas visitas todas, em uma cidade mineira incrustada numa cadeia de montanhas, suas cachoeiras e seus papos no portão.

Jornalista, colunista de teatro, editor de Cultura do R7, formado pela UFMG e pós-graduado pela USP, ele é também crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Miguelito, como é chamado pelos amigos, defende o teatro como defende o jornalismo.

Aqui, para começarmos o ano nos sentindo em casa, ele conta um pouco de sua trajetória e do Atores & Bastidores: uma aventura cheia de Paulos, Fernandonas e até uma entrevista sentado na privada.

Leia com toda a calma do mundo.

BRUNA FERREIRA — Quando você começou a cobrir teatro?
MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi logo que entrei para fazer estágio na TV Globo Minas, em 2005. Pedi ao meu chefe de então, o Paulo Valladares, para entrevistar para o site da emissora os artistas que iam divulgar suas peças no telejornal MGTV 1ª Edição. Foi assim que entrevistei nomes como Marco Nanini, Paulo Autran, Marília Gabriela e Lilia Cabral antes mesmo de me formar. Quando me formei, me mudei no começo de 2007 para São Paulo, porque havia passado no Curso Abril de Jornalismo, da Editora Abril. Tive aulas com nomes como Mônica Bergamo, Carlos Tramontina, JR Duran, Roberto Civita e Thomaz Souto Corrêa, que é o meu grande padrinho na minha chegada em São Paulo — as madrinhas são Wania Capelli e Alice Cruz, que também trabalhavam na Abril. Depois, fui trabalhar de repórter na Contigo!, onde a Denise Gianoglio, editora-chefe, me deu a coluna de Teatro, que na época tinha duas páginas semanais. Depois fui pra Ilustrada da Folha Online, e mais uma vez o teatro apareceu. O então editor da Ilustrada, Sergio Ripardo, me convocou para cobrir o Festival de Teatro de Curitiba, onde acabei me enturmando com o pessoal do teatro de vez e passei a escrever críticas. Depois, fui para o jornal Agora São Paulo e, ao saber que gostava de teatro, a editora do caderno Show me deu a coluna de teatro, com críticas, notas e entrevistas, que saía toda sexta-feira. E aí veio o R7 e a história se repetiu... Geralmente, o teatro acaba ganhando cobertura nos veículos quando tem um jornalista na redação que é apaixonado por ele, como é o meu caso.

BRUNA FERREIRA — É verdade que você quase não virou jornalista?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
É verdade, por pouco eu virei geógrafo! Minhas disciplinas preferidas eram Geografia e História. Quando fiz o vestibular de 2001, passei em História na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e Geografia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Escolhi a UFMG porque era em BH, minha cidade. Acho que Geografia foi importante porque me deu uma base de conhecimentos gerais que me ajudou no jornalismo. Mas, quando fui chegando à metade do curso, percebi que não estava feliz. Fui fazer uma disciplina optativa no curso de Comunicação Social, chamada História do Jornalismo Brasileiro, com a professora Ângela Carrato. Ao ouvi-la, fiquei encantado e resolvi que aquela seria minha profissão. Troquei de curso e, no começo de 2003, começava Comunicação Social. Às vezes penso em terminar Geografia... Parece brincadeira, mas eu já estudei muita rocha nos trabalhos de campo no interior de Minas para a disciplina Geomorfologia Climática Estrutural! [risos]

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 2 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

"Gosto da forma como os mineiros enxergam o mundo", diz Arcanjo - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — Acho engraçado que você sempre se apresenta como um “jornalista mineiro”. Por quê?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Como diz o Drummond, Minas é sempre um retrato na parede. E, ai, como dói! [risos] Na verdade, mesmo lá em BH, eu tinha uma amiga do curso de Geografia, a Luiza Barros, que dizia que eu era “um anjo barroco mineiro com alma baiana e jeito carioca”. Acho que só sobrou o barroco mineiro [risos]. Gosto da "mineiridade", da forma como os mineiros enxergam o mundo, do alto da montanha, sempre com calma, sem essa afobação paulistana. Em Minas, o tempo é outro. E, modéstia à parte, mineiros costumam ser bons jornalistas e bons escritores [risos]. Meu primeiro texto publicado na imprensa, em 2003, no jornal O Pasquim 21, foi apresentado por um mineiro, o Zélio Alves Pinto, irmão do Ziraldo. Era uma crônica sobre um garotinho chamado Lucas, que conheci no bandejão da Faculdade de Direito da UFMG, na praça Afonso Arinos... Quer coisa mais mineira?

BRUNA FERREIRA — Sem sair de Minas Gerais, você tem uma mania que quem te conhece já ouviu: adora citar um conhecimento antigo, um ditado, que aprendeu com sua mãe ou outra pessoa de sua família [risos]. Eles são muito importantes na sua formação?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Minha mãe gosta de dizer: é de pequeno que se torce o pepino. Os ditados populares sempre fizeram parte da minha vida. Minha avó Oneida, nascida em Ouro Preto, sempre tinha um ditado para cada situação. E minha mãe, Nina, também tem até hoje. Acabo nem percebendo quando uso esse tipo de expressão. Sai de forma natural mesmo, uai... [risos].

BRUNA FERREIRA — Quando o blog Atores & Bastidores nasceu, lembro de que foi uma conquista. Como isso aconteceu?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
O blog foi um projeto que desenvolvi com muito carinho. Era um sonho antigo poder me dedicar integralmente à cobertura cultural e, sobretudo, à cobertura teatral, depois do começo da carreira dividido com o jornalismo de celebridades, com o qual aprendi muito. Fiquei muito feliz quando o Antonio Guerreiro, o diretor do R7 e grande amante do teatro, aprovou a ideia, que logo recebeu apoio também do diretor de conteúdo do portal, o Luiz Pimentel. Outra grande incentivadora do blog foi a Fabíola Reipert, que é uma jornalista de coração enorme, divertidíssima e que senta-se ao meu lado na redação. O blog vai completar três anos em 1º de março de 2015. É um dos mais lidos do portal e é campeão nacional em sua categoria. Hoje, tem o respeito do público, da imprensa e da classe artística. Isso é fruto de trabalho árduo diário e me enche de orgulho.

BRUNA FERREIRA — Na estreia do blog, você recebeu palavras de incentivo de pessoas importantes da classe artística. Alguém em especial te impressionou com as palavras?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Muitos foram generosos e deram lindos depoimentos para a abertura do blog. Gente querida como o Manoel Carlos, o Aguinaldo Silva, o Gilberto Braga, o Alcides Nogueira, a Beth Goulart, o Antunes Filho, a Beatriz Segall, o Ivam Cabral... Mas um depoimento foi marcante, porque foi dado pessoalmente. Logo antes de o blog estrear, me encontrei com a Fernanda Montenegro na saída do Teatro João Caetano, na praça Tiradentes, no Rio. Parei para conversar com ela e comentei do blog que estava para sair e disse que adoraria ter um depoimento dela abrindo. Ela falou: "Pode anotar aí". E completou: "Quanto mais se falar de teatro e, principalmente, por meio de seu blog, melhor para todos nós. Com este novo espaço, Miguel Arcanjo nos ajuda e muito. Desejo um resultado lindo e que o teatro seja sempre o foco dessa brilhante iniciativa". Fiquei emocionado. Foi assim que o Atores & Bastidores estreou com pé direito, tendo Fernanda Montenegro como madrinha.

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 1 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado já recebeu ligação de Paulo Autran, agradecendo uma matéria - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — O blog terá novidades em 2015?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Neste janeiro, voltei da folga de Réveillon em Minas e entrei em uma correria desatada. Já tenho dois blogs: o Atores & Bastidores e o R7 Cultura, que nasceu há poucos meses e também já é um dos mais lidos do portal. Além disso, estou fazendo até o dia 26 deste mês o blog da Fabíola Reipert, que saiu de férias e me pediu para segurar as pontas até sua volta. Mas, assim que conseguir um respiro, quero pensar coisas novas. Penso em dar mais voz ao internauta e investir mais em perfis e ensaios dos artistas do teatro, além de manter as críticas e as colunas que são sucesso: O Retrato do Bob, Entrevista de Quinta, Por trás do pano - Rapidinhas Teatrais, Dois ou Um e Domingou. E quero continuar trabalhando com os dois melhores fotógrafos do mundo: Eduardo Enomoto e Bob Sousa. Além de ter a inteligência do Átila Moreno no Rio. E ter o luxo de ter você, Bruna Ferreira, me substituindo quando eu entrar de férias. Mas isso ainda vai demorar alguns meses... Ah, quero também cobrir mais festivais de teatro neste ano. Pode convidar que eu vou.

BRUNA FERREIRA - Alguma situação lhe marcou muito na cobertura teatral?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Sim. Todos os meus contatos com o Paulo Autran. A primeira vez que o entrevistei, ainda era estagiário da TV Globo Minas, e ele estava em Belo Horizonte para fazer a peça Adivinhe Quem Vem para Rezar. Lembro que ele foi muito carinhoso comigo e falou que eu era muito novinho [risos]. Depois, nos reencontramos em São Paulo em 2007, quando já estava fazendo a coluna de teatro da revista Contigo!. Ainda era novinho, tinha 25 anos [risos]. Fiz uma matéria com ele sobre a inauguração do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. No dia em que a revista saiu, o telefone da redação tocou e Shirley Souza, da secretaria, falou: "Miguel, tem um Paulo querendo falar com você". Quando atendi, para minha surpresa, do outro lado da linha era o Paulo Autran, dizendo que havia comprado a revista na banca, lido e gostado muito da minha matéria com ele. Falou que sabia que eu devia estar muito ocupado e que não se estenderia muito, que só havia ligado para agradecer. Fiquei boquiaberto com o gesto humilde dele. Pouco tempo depois ele morreu.... Infelizmente, artistas assim não existem mais...

BRUNA FERREIRA — Falando nos mestres, já dividi com você a responsabilidade de cobrir algumas tristes despedidas para a classe artística: Cleyde Yáconis, Walmor Chagas, Paulo Goulart... Nunca esqueço do cuidado que você tem com o texto, a foto... Por quê?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Olha, Bruna, no país sem memória, fazer uma despedida à altura do artista que morreu é uma obrigação do jornalismo cultural, cada vez mais maltratado e jogado no escanteio. Acho que cobrir com cuidado e carinho e, sobretudo, com ética, é o maior tributo que podemos prestar a estes artistas em sua partida. A profissão de jornalista tem muita responsabilidade neste momento. E o público sempre reconhece e valoriza uma cobertura bem feita. Você é testemunha disso.

BRUNA FERREIRA — O internauta que entra em seu blog já se acostumou com as votações que você promove. Musas, musos e até os melhores do ano. Você se surpreende com os resultados?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Claro! O Muso e a Musa do Teatro foi uma brincadeira que eu propus, e a classe artística teve o bom humor em embarcar. O teatro tem de parar de querer ser essa coisa sisuda, antiga, chata, cheirando a museu. O teatro é vivo, é feito também por gente jovem, descolada. Por que não um pouco de bom humor? O jornalismo não pode perder o bom humor. Agora teve esse atentado horroroso lá em Paris, que é um atentado contra a imprensa como um todo, contra a liberdade de expressão. Não podemos aceitar. Eu comecei em O Pasquim 21, um semanário bem humorado e politizado. E tento manter isso sempre. A coluna Por Trás do Pano - Rapidinhas Teatrais também tem esse clima, é meio que uma homenagem aos grandes colunistas que o Brasil já teve, com texto cheio de personalidade, gente como Ricardo Amaral e o Zózimo Barrozo do Amaral. Já na votação dos Melhores do Teatro R7, o fotógrafo Bob Sousa, meu fiel companheiro na cobertura teatral, e eu indicamos sete nomes em cada categoria. Depois, é o público quem decide. Quem consegue conquistar mais votos leva. É democrático.

BRUNA FERREIRA — Nestes últimos anos, li muitas entrevistas no blog. A Entrevista de Quinta já virou uma marca. Se tivesse que escolher as mais marcantes, quais seriam?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Entrevista boa é aquela que o entrevistado expõe seu pensamento sem medo, sem culpa. O público não aguenta mais artista querendo ser certinho, politicamente correto. Eu me inspirei nas entrevistonas do Pasquim para fazer a Entrevista de Quinta. Hoje, é um dos poucos espaços que restam na grande imprensa para o artista do teatro expor seu pensamento. Não é uma materinha com uma aspa por e-mail no meio. É uma conversa de verdade! As mais marcantes, ambas na companhia do Bob Sousa, sem dúvida, foram a do Antunes Filho, que me deu exclusividade sobre sua última peça, Nossa Cidade, que depois ganhou todos os prêmios, e, claro, a do Zé Celso Martinez Corrêa, que resolveu me dar entrevista no banheiro de seu apartamento e me colocou sentado na privada! Essa entrou para a história do teatro nacional e repercute até hoje. Muitos coleguinhas vêm zoar, perguntando o que eu fui fazer com o Zé Celso no banheiro [risos]!

BRUNA FERREIRA — Quando você faz uma crítica de peça, nem sempre o que tem a dizer sobre o espetáculo é bom. Já passou perrengue na hora de falar mal de uma peça?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Aprendi com meu professor de crítica teatral, o Kil Abreu, que "a crítica não deve ser o exercício da maldade". Acho essa frase ótima. Sempre que vejo uma peça vou de coração aberto. Agora, é claro que quando não gosto, preciso expor meu pensamento. É meu trabalho. Mas minhas críticas são respeitosas e sempre argumento o porquê de não ter gostado. Muitos artistas têm maturidade para respeitar. Claro que sempre tem aquele que leva no pessoal, vai no Facebook desabafar, ataca o crítico, faz baixaria. Acho isso lamentável. O artista tem de estar preparado para o diálogo com o outro. E, sobretudo, para ouvir o que o outro tem a dizer. Se ainda não está preparado para respeitar o crítico, é melhor não convidá-lo. Melhor ainda: faz o espetáculo em casa, para a mãe e a avó. Assim, só vai ouvir elogios.

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 4 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado: "O teatro está mais vivo do que nunca" - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — Três perguntas bem rápidas: qual sua peça favorita? O que está lendo? O que anda ouvindo?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Vou falar as que mais me marcaram: primeiro, O Mistério da Feiurinha, que vi ainda criança no Teatro Sesi Minas, lá em BH. A segunda, vi no fim da adolescência, também em BH: Todas as Belezas do Mundo, da Cia. Clara, dirigida pelo Anderson Aníbal e que tinha a Grace Passô no elenco, ainda começando a carreira, mas já uma grande atriz. Para terminar, uma de São Paulo: Luis Antonio - Gabriela, da Cia. Mugunzá, que foi muito emocionante. Vi a estreia no porão do Centro Cultural São Paulo e lembro-me que fiquei impactado. De livro, sempre estou lendo algo. Li muita coisa da pós-graduação, Bauman, Jung, Thompson, Kellner, mas, de romance, li recentemente Boquitas Pintadas, uma novela do escritor argentino Manuel Puig. Ando ouvindo muito os discos do Caetano nos anos 1970, em especial Cinema Transcendental, Transa, Bicho e Joia. E também o novo disco do cantor uruguaio Jorge Drexler, Bailar en la Cueva. É ótimo e tem uma música que se chama Bolívia, que me faz lembrar da nossa amiga boliviana Elba Kriss. Ah, também ouço muito Fito Paez e Fabiana Cantilo, roqueiros argentinos. Além da turma do Clube da Esquina, porque mineiro de verdade nunca deixa de ouvir.

BRUNA FERREIRA — Recentemente você fez especialização na USP?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Pois é, agora sou especialista em Mídia, Informação e Cultural pela ECA. Chique, né? [risos] Mas você, Bruna, é mais chique, porque já está na metade do mestrado [risos]. Minha dissertação foi a cobertura atual dos grupos Os Satyros e Oficina nos jornais Folha e Estadão. Meu recorte pegou o período das manifestações de junho de 2013 e ambas companhias levaram a questão política para o palco. Foi uma pesquisa muito prazerosa e instigante e tive um orientador ótimo, o Dr. Danilo Oliveira, que é jovem e gosta de teatro. Gostei muito de retomar a vida acadêmica e quem sabe entro no mestrado em 2015?

BRUNA FERREIRA — Nestes dez anos de cobertura teatral, o que conseguiu encontrar?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Encontrei muitas pessoas interessantes. Muitos artistas instigantes. Zé Celso, Antunes Filho, Phedra D. Córdoba, Marba Goicochea, Zé Henrique de Paula, Yara de Novaes, Pedro Granato, Eva Wilma, Leopoldo Pacheco, Amanda Acosta, Angelo Antonio, Paulo Autran, Ivam Cabral, Rodolfo García Vázquez e tantos outros... Todos dialogaram comigo de alguma forma. E também muita gente bacana nos bastidores, como a Célia, a Beth, a Dani e a Selma, da Morente Forte, a Adriana Balsanelli, o Renato Fernandes, a Eliane Verbena, o Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba, o Michel Ferrabbiamo, produtor cultural lá de Ipatinga, os meninos do Magiluth, de Recife, o Phillipe Serra, leitor fiel do blog que mora no Espírito Santo... É tanta gente do bem! Costumo dizer que prefiro cobrir teatro a TV porque os artistas do teatro são mais inteligentes. É claro que tem gente inteligente na televisão também, mas os do teatro costumam ser mais verdadeiros, menos marqueteiros, sabe? Eu gosto de gente de verdade. Esse negócio de pose, de ar blasé, não faz muito meu estilo. E tem muita gente batalhando neste país para fazer teatro. Apesar de sempre quererem a morte dele, o teatro está mais vivo do que nunca. Acho que o que mais me motiva neste trabalho é dar voz a estes artistas. Deixar essa turma mandar seu recado. E acho que o teatro é parceiro do blog porque entendeu que ele joga luz, traz um glamour, uma vida nova ao mundo dos palcos. Com uma pitada de mineirice, é claro! [risos].

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado.

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