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lydia1 930x523 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

Lydia Del Picchia: atriz e diretora do Galpão por acaso do destino - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Com 30 anos de história e o respeito da classe teatral de todo o País, o Grupo Galpão quer saber de cantar.

No musical De Tempo Somos, em cartaz até 12 de julho no Sesc Santana, em São Paulo, os atores de Belo Horizonte entoam músicas que marcaram a trajetória da trupe mais popular de Minas Gerais.

Nesta Entrevista de Quinta, o Atores & Bastidores do R7 conversa com Lydia Del Picchia, diretora do espetáculo na companhia de Simone Ordones e atriz do grupo há duas décadas.

Ela lembra sua formação artística, que começou em São Paulo, ainda menina, da relação com a dança em Belo Horizonte, e de sua entrada repentina para o Galpão, que a abocanhou sem opção de volta.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem uma formação meio mineira, meio paulista? Como assim?
LYDIA DEL PICCHIA —
Meus pais são músicos, meu pai é violinista e maestro e minha mãe é pianista e educadora. Eles viveram em SP a maior parte da minha infância, onde considero que iniciei meus estudos nas artes, pois tenho muito vivas as lembranças das aulas de musicalização e rítmica na Fundação das Artes de São Caetano do Sul – e de fato elas foram a base de todo meu aprendizado mais tarde. Mas foi quando me mudei para Belo Horizonte, aos 12 anos,  é que pude me dedicar integralmente à dança, no Transf.orma – Centro de Dança Contemporânea. Lá fui aluna, professora, bailarina, assistente artística e coreógrafa, enfim, uma formação bastante diversificada. E tive a oportunidade de trabalhar com vários artistas da dança, da música e diretores de teatro também.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ser filha de artistas facilitou ou piorou as coisas?
LYDIA DEL PICCHIA —
Bem, no meu caso facilitou, sempre tive o apoio e incentivo dos meus pais e da família para minhas escolhas profissionais.

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Lydia (ao centro), em cena do musical De Tempo Somos, do Grupo Galpão - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você estudou música e dança até chegar ao teatro. Qual a importância destas primeiras formações?
LYDIA DEL PICCHIA —
A música foi mais na infância mesmo, e logo depois me interessei pela dança. Estudei no Trans-Forma por dez anos, durante os quais comecei também a dar aulas na escola e participar do grupo. A Nena [Marilene Martins], diretora da escola e do grupo, sempre foi uma artista antenada e à frente do seu tempo. Ela é a grande responsável, não só pela minha formação como artista, mas também de muita gente bacana em BH – Dudude Herrmann, Arnaldo Alvarenga, Lucia Ferreira, Rodrigo, Miriam e Pedro Pederneiras, Paola Rettore, Tarcísio Homem. Ela sempre foi muito criteriosa e cuidadosa em como passava os conteúdos para os professores da escola, em como iríamos conduzir as aulas e o programa. Além disso, pelo Trans-Forma passaram importantes nomes não só da dança, mas de música e teatro como Klauss e Angel Vianna, Ivaldo Bertazzo, Eid Ribeiro, Graciela Figueiroa, Paulo Cesar Bicalho, Rufo Herrera, José Adolfo Moura, Fred Romero, Sônia Mota, Rolf Gelewski, Bettina Bellomo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como eram as aulas?
LYDIA DEL PICCHIA —
Tínhamos aulas de improvisação, composição, didática, rítmica, apreciação musical, enfim, um mundo além das técnicas de dança, e isso abriu o olhar de quem passou por ali. Eu sou atriz integrante do Grupo Galpão desde 1995 e coordenadora pedagógica do Galpão Cine Horto desde 2004, e tenho certeza de que foi essa minha formação que me permitiu o trânsito para o teatro de uma maneira tranquila, é essa experiência que me orienta ainda hoje.

MIGUEL ARACANJO PRADO — Mas quando você entrou no Galpão?
LYDIA DEL PICCHIA —
Entrei no Galpão num momento em que estava querendo dar um tempo do trabalho com a dança, estava me desligando do Grupo 1º Ato, onde estive por três anos, e sem projetos concretos. Aí, na mesma semana, o Eduardo me ligou dizendo que estavam precisando de alguém para substituir a Simone em “A Rua da Amargura”. Ela estava grávida e teria que parar de atuar por uns seis meses. Acho que fui indicada pela Babaya, que fazia a preparação vocal do Galpão e estava também trabalhando com o 1º Ato naquele momento. Eu já havia trabalhado com o Grupo num espetáculo dirigido pela Carmen Paternostro, Triunfo – Um Delírio Barroco, com a Cia. De Dança do Palácio das Artes, onde eu fui assistente durante 10 anos. A gente já se conhecia, tínhamos afinidades. Foi uma delícia fazer aquela substituição, já tinha assistido ao espetáculo na estreia e brinquei com eles dizendo que quando precisassem de alguém poderiam me chamar... Durante a temporada do espetáculo em São Paulo, o grupo decidiu encarar a remontagem do Romeu e Julieta, eu fui convidada a participar também, e acabou que os seis meses viraram 20 anos...

De Tempo Somos 1611 20141127 0813 Guto Muniz1 1024x590 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

Galpão resolveu recuperar canções que marcaram as três décadas do grupo - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro tem de especial em relação à dança e à música para você?
LYDIA DEL PICCHIA —
Minha formação foi na dança teatro, éramos todos apaixonados por Pina Baush... No Galpão, sempre trabalhamos com a criação dos atores sobre os personagens, ou temas, antes de definir a linguagem/estética que vamos perseguir. Não que a gente trabalhe com técnicas de dança, mas sempre tivemos práticas corporais na criação e manutenção dos espetáculos. Meus companheiros de grupo já sabem que a minha primeira abordagem, seja de um texto, ou de um personagem, vem sempre a partir do corpo, da musicalidade, do trabalho no espaço, essa é uma característica minha, minha maneira de entender o que eu faço. A partir daí consigo me relacionar com os outros atores e propor alguma coisa para o coletivo. Nesse espetáculo que estamos fazendo, De Tempo Somos, que dirigi junto com a Simone, a encenação é toda baseada em jogos de espaço, de dança, me senti muito à vontade para propor coisas ao grupo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gosta de morar em Belo Horizonte, por quê?
LYDIA DEL PICCHIA —
BH é um ótimo lugar para se morar e trabalhar, e a oferta relacionada à cultura – exposições, shows, espetáculo, teatros e eventos – cresceu muito nos últimos dez anos! Gosto de dizer que BH é uma grande cidade do interior, pois ainda é possível manter relações próximas, cuidar da família, visitar os amigos e aproveitar o que a cidade oferece. E acho que é uma cidade que acolhe especialmente os coletivos de trabalho.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o lugar de BH que você mais gosta?
LYDIA DEL PICCHIA —  Pode parecer que estou puxando a sardinha pro meu lado, mas eu adoro o Galpão Cine Horto, nosso centro cultural em BH. É um lugar de pessoas apaixonadas e comprometidas! Considero ali um lugar de formação importante pra mim, foi onde parei um pouco para estudar teatro, além de que fiz muitos amigos ali, desenvolvi projetos, me perdi e me achei... Outro lugar que adoro em BH é a Avenida do Contorno na primavera - quem conhece sabe do que estou falando - um caminho enorme de ipês amarelos e rosas, lindo demais! Me lembra um tempo que não conheci da Cidade Jardim...

MIGUEL ARCANJO PRADO — E como é estar em São Paulo? Qual sua relação com a cidade?
LYDIA DEL PICCHIA — Adoro São Paulo, sem demagogia! Tenho vários parentes e amigos aqui, e o público de São Paulo no assiste desde sempre, já apresentamos todos os nossos espetáculos aqui, é uma cidade que conhece e acompanha nossa história. Fazer essa temporada do De Tempo Somos em SP está tendo um gostinho especial!

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De Tempo Somos está em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você é artista?
LYDIA DEL PICCHIA —
Vixe... Por que macaco gosta de banana? Sempre vivi no meio de artistas, sempre senti na pele a dor e a delícia... A arte me salvou da minha timidez, da minha introspecção, sempre me mostrando novas maneiras de ver o mundo, de enxergar o outro. Não sei, essa pergunta está muito difícil...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Então, voltemos a falar de Galpão. Como o grupo lida com o grandioso que ele se tornou? Como fazer para não deixar o nome consagrado diminuir a vontade de inovar?
LYDIA DEL PICCHIA — Nós não pensamos o tempo todo nesse “grandioso”, não dá para construir alguma coisa a partir disso. Sabemos que somos uma referência importante, mas não queremos virar museu tão cedo... Acho que essa referência nos estimula mais em saber que estamos mostrando que é possível fazer e viver de teatro, é possível manter um coletivo de trabalho, podemos nos reinventar, enfim, a característica do grupo de ser um coletivo de atores – e somos 12 – sem um diretor fixo nos permite um movimento constante, as propostas surgem cada hora de uma pessoa, de um lugar diferente. A gente procura sempre olhar para as nossas falhas, para as lacunas, o que gostaríamos de conhecer e desenvolver a cada momento, e são essas dúvidas que nos conduzem para um novo projeto, é a partir daí que vamos descobrir o tema a ser pesquisado, se queremos ir para rua ou para dentro de um teatro, quem vamos convidar para dirigir. 

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que o Galpão é tão querido pelo público?
LYDIA DEL PICCHIA — Acho que tem muito a ver com os espetáculos de rua, com a linguagem popular do grupo, com a preocupação que temos de ser um grupo de pesquisa, mas também em como os espetáculos chegam ao público, com a comunicabilidade deles. O Galpão é um dos grupos que mais viaja pelo Brasil, estamos sempre em turnês não só pelas capitais e Festivais, mas também pelos interiores, e com a longevidade do grupo, temos conquistado um público que nos acompanha, assiste a vários espetáculos, muitas vezes quando nos apresentamos em uma cidade somos procurados por grupos que vem de longe nos assistir porque já nos viram em sua cidade... No De Tempo Somos fazemos uma homenagem ao nosso público dedicando algumas canções para personagens que passaram pela nossa história e que nos marcaram também. Para gente é importante o contato com o público também para além dos espetáculos. Sempre estivemos envolvidos em coordenações de festivais, oficinas, bate-papos, a criação do Galpão Cine Horto em BH é o maior exemplo disso, lá podemos compartilhar nossas ideias e projetos de criação e formação com a cidade.

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Galpão é um dos grupos que mais viajam o Brasil com suas peças - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também trabalha nos bastidores do Galpão? Como é este trabalho executivo no teatro?
LYDIA DEL PICCHIA —
Todos nós do elenco trabalhamos em alguma coisa além da atuação, seja na produção, comunicação, administração, organização do nosso espaço, no Cine Horto... Eu trabalho junto à nossa equipe técnica na logística, juntamente com a produção, e montagens dos espetáculos, camarins, organização da carga dos espetáculos em repertório e do nosso depósito de material, manutenção de cenários e figurinos, tem trabalho ali que não acaba mais e que quem vê o espetáculo pronto nem imagina! Quando estamos em turnês, geralmente o trabalho começa às 8h com a descarga do material no espaço e montagem do cenário, som e luz. A chegada do elenco se dá por volta de três a quatro horas antes dos espetáculos, dependendo se precisaremos fazer teste de microfones ou não. Fazemos um aquecimento corporal, vocal, passagem de som, maquiagem e entramos para o espetáculo. Na maioria das vezes, após o espetáculo desmontamos tudo, carregamos o caminhão e partimos para a próxima cidade, onde começa tudo de novo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que vocês quiseram fazer um musical justo agora?
LYDIA DEL PICCHIA — Na verdade esse é um desejo antigo do grupo. Já em 2000, quando montamos Um Trem Chamado Desejo, a ideia inicial era a gente fazer um pocket show com sambinhas dos anos 40/50 para ser apresentado em espaços menores. Aí a gente quis roteirizar as músicas, surgiram personagens interessantíssimos, convidamos o [Luis Alberto] Abreu para nos ajudar com o roteiro, o Tim Rescala com as músicas... E a coisa evolui para um espetáculo que adoro, mas ficou longe da ideia de pocket. Aí a ideia do musical foi adiada, até agora. No nosso último espetáculo, Os Gigantes da Montanha, temos dois atores/músicos convidados no elenco e apareceu a oportunidade de realizar esse desejo. O Luiz Rocha, um dos convidados, acabou fazendo a direção musical e os novos arranjos das músicas que selecionamos dentro de um repertório desses, pelo menos, 25 anos em que o grupo executa suas trilhas de espetáculos ao vivo. O trabalho com a música sempre foi muito caro ao Galpão.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por quê?
LYDIA DEL PICCHIA — Não só pela comunicação direta que ela tem com a plateia, mas com o que o esforço que tocar e cantar em grupo nos exige, a possibilidade do exercício do coletivo, o desafio de aprender as músicas, cantar a três ou quatro vozes, a atenção e presença que isso nos demanda, tudo isso é agregador ao trabalho do ator que vive em grupo. Não é só pelo resultado, mas pelos benefícios que o processo nos possibilita. De Tempo Somos é um espetáculo muito feliz nesse sentido, nos permitindo rever grande parte da nossa história sem ficarmos presos ao que já fomos. A ideia sempre foi atualizar, apesar de não gostar muito dessa palavra, nosso repertório, e a entrada do Luiz nesse contexto foi fundamental, por não estar apegado aos trabalhos e conseguir dar cara nova a várias músicas. Como diz um das músicas no espetáculo: “Por más que mires el rio que fluye delante de ti, nuca verás las mismas águas”...

De Tempo Somos
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 70 min. Até 12/7/2015
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, metrô Jardim São Paulo, tel. 0/xx/11 2971-8700
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 12 anos

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11651047 1103954402952840 2098384903 n Phedra D. Córdoba faz show sobre sua vida, anuncia biografia e diz: Queria ser a Shirley Temple

Phedra D. Córdoba, em seu apartamento na praça Roosevelt: ela lança o show Phedra por Phedra e diz que tem autobiografia pronta à espera de um editor - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fotos ANDRÉ STÉFANO

A partir desta quarta (24), às 21h, o Estação Satyros, na praça Roosevelt, ganha o status de local de show semanal de uma das grandes divas de nosso teatro.

Em plena noite de São João, a atriz cubana Phedra D. Córdoba inaugura o espetáculo Phedra por Phedra, dirigido por Robson Catalunha, que assina sua primeira direção profissional de um espetáculo.

"São 77 anos, sete histórias, sete músicas, sete convidados. A princípio, serão sete sessões, toda quarta, até 5 de agosto. A Phedra quer chamar a Elke Maravilha, o Rodolfo [García Vázquez] e o Ivam [Cabral] também já estão dentro", conta o diretor.

Catalunha revela que a pesquisa partiu do gigante arquivo pessoal da própria Phedra. "Ela tem tudo guardado, textos, cartazes, fotos incríveis, matérias de jornais e revistas. A gente pincelou algumas coisas para o show, mas nem de longe são as coisas mais importantes que ela viveu. São só algumas histórias das muitas que ela tem para contar", afirma.

O diretor acredita que o show de Phedra dialoga com o Brasil contemporâneo, mergulhado em uma onda conservadora. "A Phedra vem para quebrar muito dessa moral e costumes que estão sendo impostos pelos outros. Ela tem uma história única. Fala da infância, do grande amor, da escolha do nome. Intercalei momentos performáticos com momentos narrativos que ela troca com o público, além de exibirmos trechos do filme dela, o Cuba Libre", adianta.

Mas, deixemos Phedra falar de seu novo show.

Ela recebeu o Atores & Bastidores do R7 em seu apartamento, defronte à praça Roosevelt, para um gostoso bate-papo. Educadíssima, até fez café fresquinho.

Leia com toda a calma do mundo.

Phedra por Phedra Foto de Andre Stefano 01 1024x734 Phedra D. Córdoba faz show sobre sua vida, anuncia biografia e diz: Queria ser a Shirley Temple

Phedra teve a ideia de fazer o show por conta de seu aniversário de 77 anos, em maio último - Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como veio a ideia do show?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Primeiramente, foi pelo aniversário de 77 anos. Eu estava pensando, gente eu vou cumprir 77 anos, não vai ter Fomento, o que vai ser da nossa vida? Eu tenho uma intuição, você sabe, então eu fiquei rezando e pedindo ajuda: o que eu vou fazer, do que eu vou viver? Aí veio: claro, eu sempre vivi de show, sempre ganhei meu dinheirinho com show. Eu tenho um nome. Então, por que não explorá-lo?

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você anunciou o show no Facebook?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Foi. Aí o Robson Catalunha viu e falou: eu vou fazer tudo para a senhora. Ele me guiou em tudo. A Divina Valéria, que é minha amiga e está na Bahia, disse que tinha de ter piano e não playback. Você sabe que nas boates eu cantava com pianistas antigos, mas eu perdi as partituras, e os pianistas novos não sabem tocar meu repertório. Então, vamos ver como vai ser...

MIGUEL ARCANJO PRADO — E por que Phedra por Phedra?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu queria Memórias da Phedra, mas o Robson botou mais artístico: Phedra por Phedra. Mas, uma coisa que muita gente não sabe é que eu tenho minhas verdadeiras memórias. Até hoje não foi publicado o meu livro, mas eu já o escrevi!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem pronta sua autobiografia?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Tenho! O Leão Lobo, seu colega jornalista, que me instigou a escrever e é culpa do Satyros eu não ter publicado ainda. Eu quero publicar! Porque eu escrevi tudo... O que eu vou falar no show é mais dissimulado, uma parte... Agora, tudo, tudo mesmo, está no meu livro que eu escrevi.

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Phedra ao lado de um de seus retratos: história arquivada e escrita por ela mesma - Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você vai contar no show?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Muitas coisas... Quando eu era criança, minha mãe me fazia cachinhos. Isso me lembro perfeitamente. Um dia fomos a um lugar em Havana e uma senhora falou: "Ai, que menina linda!". Aí minha mãe respondeu nervosa: "Não é menina, é um menino". Me cortaram os cachos, Miguel. Eu chorei tanto... Porque eu queria ser a Shirley Temple.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sofreu muito?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu sofri muito, porque minha mãe queria que eu fosse homem, macho, masculino, minha mãe me levou até no psiquiatra! Mas aí ele morreu e colocaram uma psiquiatra mulher. E eu sempre tive uma conexão forte com as mulheres. Eu cantei para ela. E ela ficou impressionada comigo cantando. Aí ela me pediu para recitar também. Então, ela chamou minha mãe e disse: "Escute-me, seu filho tem de fazer aula de teatro, ele é artista, você não pode cortá-lo mais. Tem de levar essa criatura para a aula de teatro, porque é um artista!" Aí minha madrinha me pagou todas as aulas de teatro. Quando meu pai ouviu da minha mãe, ele gritou: "Graças a Deus vamos ter mais um artista na família, não vai ser só meu irmão, meu filho vai ser artista também!".

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como é ser dirigida pelo Robson Catalunha?

PHEDRA D. CÓRDOBA — O Robson fica bravo comigo de vez em quando. Ameaça não vir mais, porque eu não obedeço ele. Eu falo, escute, meu amor... Porque, afinal, fui eu quem botou o nome dele de El Pequeno Notável.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ele não fica com raiva do apelido?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Não! [enfática]. Poxa, a Carmen Miranda foi a maior figura do meio artístico de todos os tempos e era a Pequena Notável. E o Robson é inteligente. Eu gosto dele! Nos chocamos um pouquinho, porque ele quer que eu faça o que ele quer, mas eu tenho um pouquinho de experiência, meu amor, e sei fazer as coisas...

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Phedra D. Córdoba vai falar de sua infância em Cuba e amores no Brasil - Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é uma atriz difícil de ser dirigida por ser uma grande diva?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Não é que eu seja difícil, é que eu sei o que tem de fazer. Eu sempre brigo com Rodolfo. Toda a vida. Não nos entendemos nunca e nunca vamos nos entender. Outro dia tive uma briga com ele de novo e foi terrível. Eu até chorei. Mas eu perdoo, porque não tenho maldade no coração.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sofreu muito para conquistar sua carreira?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Sim. Mas, para mim, está tudo bem. Eu já passei tanta coisa na minha vida, Miguel, que não me estranha nada. Não me dói nada. Foram tantas coisas... Minha mãe gostava que eu fosse artista, ela adorava me ver como corista de uma companhia, mas não gostava da minha feminilidade. Ela falava: "Mulher aqui sou eu". Isso me fazia sofrer muito. Depois, quando vim para o Brasil também. Quando cheguei com o Walter Pinto ao Brasil, era Felipe De Córdoba. O Roberto Blake, um espanhol que trabalhava com o Walter, era homofóbico e não gostava de me ver vestida de mulher. Dizia que eu não tinha vergonha e que eu só o envergonhava. Eu chorava muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você tinha de obedecer?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Sim. Eu era amarrada por um contrato. No Teatro Rival, que era do avô da Leandra Leal, tinha um transformista famoso, o Carlos Gil, que fez o Le Girls e até trabalhava na Globo. Ele era meu fã incondicional. Um belo dia, quando saímos do Rival para ir para a Balalaika, um cabaré muito famoso, ele me parou no corredor e disse: "Escute, Felipeta". Eu falei: "O quê?", porque não achava Felipeta bonito. Ele falou: "Você é muito feminina, não dá para usar Felipe De Córdoba. Você tem cara bonita, cinturinha, vou te fazer um vestido de espanhola. Hoje é sábado, amanhã, domingo, que temos matinê, você entra de mulher". E aí eu virei Phedra D. Córdoba, porque amava a mitologia grega, que havia estudado lá em Cuba.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Seus fãs estão eufóricos com o novo show?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Olha, eles estão todos me escrevendo, querendo saber o dia, o horário. Gente, vou aproveitar o blog do Miguel Arcanjo para avisar: é toda quarta, às nove da noite, no Estação Satyros, aqui na praça Roosevelt. Espero que o Robson faça tudo direitinho e traga muito público. Você se lembra do meu show na Satyrianas, o sucesso que foi. Aquele aplauso todo. Eu fiquei muito emocionada. Você estava.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que o povo gosta de Phedra D. Córdoba?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu não sei... No meu aniversário tive 3.330 felicitações. Tive de botar que agradecia muito e que não conseguia responder um por um. Era um atrás do outro. Todo mundo falando: "minha diva". Eu respondia; "Muito obrigada, eu agradeço a todos os meus fãs".

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você tem de especial?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu sei lá... Uma vez o crítico da Folha falou que eu tinha um refletor próprio, que quando eu entrava em cena já iluminava. Acho que é uma coisa espiritual. Quando eu entro no palco, eu já sei que não sou eu, sei que não estou mais fazendo uma coisa normal.

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Phedra repete gesto de seu próprio passado: pura técnica e carisma em cena - Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é muito técnica em cena, por mais que seja muito você. Como você lida com as novas gerações de atores com a qual está contracenando na peça A Filosofia na Alcova?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Na Filosofia na Alcova são todos novos. A primeira vez que muitos estão pisando no palco profissionalmente. Quando o Rodolfo me falou no começo deste ano que voltaria a fazer tudo o que já fizemos e se eu voltaria a fazer a Filosofia, eu respondi: "Faço!" Ele quase caiu pra trás e foi até no Facebook anunciar. Ivam Cabral sempre falou: não há Augustin como Phedra. Eu criei a personagem do meu modo. Eu tenho técnica, mas não quero enfiar isso na cabeça dos outros. Eu deixo que eles me vejam, que sintam como eu sou em cena, como os trato em cena. Eu deixo isso para eles me imitarem. Trabalhar comigo é simples.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como os meninos do elenco te tratam?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eles me tratam assim [mostra a palma da mão]. Tem o Felipe Moretti, que é um amor comigo, me adora. Ele carrega a minha roupa... Eu também o adoro. Você sabe, né, eu sempre gostei de um escravinho [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que eu faço com essa declaração?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Ah, ele não vai ficar com raiva. Ele sabe que é brincadeira, que eu sou assim mesmo [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi voltar à peça após dez anos?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Nem parece. Falo que foi um pequeno recesso. As pessoas estavam esperando a Filosofia comigo e o Ivam. Mas o Ivam não está, porque está com as coisas da escola [SP Escola de Teatro]. É o Henrique Mello quem faz o papel do Ivam. Porque dos novos o Henrique é muito bom. O Robson Catalunha também é bom.

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Cenas de Épipo na Praça, de 2013, a última peça na qual Phedra contracenou com Cléo De Páris no Satyros - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E a Cléo De Páris? Você sente falta dela nas peças do Satyros?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Não só nas peças, mas na vida real! Ela é tão minha amiga, ela é tão maravilhosa. A Cléo é minha amiga até debaixo d'água! Ela é a única atriz que no Natal liga da terra dela para me desejar feliz Natal. Nem a Silvanah Santos, que é minha amiga também e com quem trabalhei tanto, nunca ligou. E falo isso na cara dela. Já a Cléo liga. E no meu aniversário ela liga também. Isso vale ouro para mim!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você queria que a Cléo voltasse para as peças do Satyros?

PHEDRA D. CÓRDOBA — A Cléo está bem. Ela está como ela quer. Mas eu sinto falta dela, quando a gente ficava junta, a gente lanchava junta. Ela nunca esquece nada meu, parece que é minha irmã de verdade. Eu sinto um amor por ela enorme. Eu passo o Natal ultimamente com a Maria Casadevall, na casa dela. A Cléo liga para a casa da Maria e pede para falar comigo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você está chegando aos 80 anos. Está fazendo algum balanço da vida?

PHEDRA D. CÓRDOBA — O meu balanço é o show. Porque praticamente quando eu fiz a festa sem um tostão, vieram dois atores amigos meu de anos e me falaram: "Desce que tem presente para você". Sabe o que era? Dólares. Eu já gastei tudo. Fiz uma festa como eu queria. Porque eu gosto de um bom vinho e champanhe. Abro mesmo! Não fico guardando o que ganho. Eu vivo. Tem gente culta, atores, diretores, dramaturgos que estão morrendo. Eu não sei se posso morrer de uma hora para outra. Então, por isso, eu quero editar minha história, nem é para cá, é para minha família lá em Cuba. Meus sobrinhos querem conhecer minha história. Está aí o livro encasquetado aqui em casa e ninguém publicou. Estou esperando o contato de alguma editora. Seria tudo lançar o livro para os meus 80 anos! Eu quero deixar escrita a minha história para o futuro!

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Phedra D. Córdoba: "Quero deixar escrita a minha história para o futuro" - Foto: André Stéfano

Phedra por Phedra

Quando: quarta, 21h. 49 min. Até 5/8/2015

Onde: Estação Satyros (praça Roosevelt, 134, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)

Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)

Classificação etária: 16 anos

 

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Pedro Garrafa fala da peça O Alvo: adolescentes em foco - Foto: Divulgação

O dramaturgo e diretor da peça O Alvo, em cartaz todo sábado, 17h30, no Teatro da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, esteve no estúdio do R7 para conversar com o colunista Miguel Arcanjo Prado sobre a montagem. Pedro Garrafa contou que a encenação é inspirada em situações de bullying e violência nas escolas, sobretudo entre adolescentes, assunto cada vez mais recorrente nos noticiários. No elenco, estão Andressa Andreato, Caroline Duarte, Julia Freire, Natalia Viviani e Kuka Annunciato. A montagem vai até 29 de agosto com entrada a R$ 40 a inteira e R$ 20 a meia. Veja o vídeo:

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A atriz Cléo De Páris, gaúcha radicada em SP: "Ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha" - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Cléo De Páris está atarefada ainda em sua sala na SP Escola de Teatro quando chego. Tanta um lugar tranquilo na escola para conversamos. Não consegue. A sala já está ocupada por aulas. Propõe irmos a uma padaria perto, dessas bem comuns, na República, bairro do centro paulistano. Antes, pergunta se chove. Enquanto ela vai pegar o guarda-chuvas, dou uma olhada na recepção no folheto da peça que ela está em cartaz, Ludwig e Suas Irmãs, no Centro Cultural São Paulo [veja serviço ao fim].

Cléo chega. Guardo o papel no bolso. Saímos. A chuva é bem fina. Entramos na padaria. É começo da tarde. São Paulo corre, apressada, ao redor. Ocupamos uma mesa no canto, de frente à parede de vidro que descortina o movimento da rua. Peço um café com leite, ela, água. Na parede do outro lado, uma TV ligada mostra o ator Miguel Falabella em sua volta ao programa Vídeo Show. Rimos disso. Falo que vou ligar o gravador. Ela dá o ok. Miro em direção a seus profundos olhos azuis. Começa sua primeira Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Leia com toda a calma do mundo.

cleo de paris bob sousa31 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Continuo querendo plantar flores. As pessoas não se olham, sempre estressadas" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A última vez que nos encontramos, você falava que queria um dia largar tudo e ir plantar flores. E hoje?
CLÉO DE PÁRIS — Continuo querendo plantar flores [risos]. Estou numa fase que não sei mais para onde ir. Essa loucura da cidade, essa opressão, essa violência, nem sempre direta, mas indireta também, mexe com a cabeça da gente. As pessoas não se olham, vivem no frenesi, sempre estressadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sairia de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Tem aquela coisa de ir para o interior, mas ter de conviver com pessoas de cabeça fechada, conservadoras, com homofobia... Acho que o problema é sempre as pessoas [risos]. Só sendo um eremita em cima de uma montanha meditando... [risos]

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem quanto tempo de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Uns 12 anos. Sou me confundo com o tempo. Como estou no Satyros há 11 anos, devo estar em São Paulo há 12. Minha medida é o Satyros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você falou do Satyros. A pergunta que não quer calar é: você está no Satyros ou saiu do grupo?
CLÉO DE PÁRIS — Olha, eu me afastei, mas é um grupo que ainda é meu. Eu tenho amores lá, minha história, então, possivelmente, mais dia, menos dia, eu volte. O Ivam [Cabral, ator e dramaturgo do Satyros] foi ver minha peça, falou que está orgulhoso. O Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] não foi ainda porque viajou para a Suécia. E eles querem que eu volte a fazer peça com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda é do grupo? Na ficha-técnica ainda tem seu nome?
CLÉO DE PÁRIS — Eu sou do grupo. Tem. O que acontece é que primeiro fiquei um ano sem fazer teatro depois de Édipo na Praça, no Satyros, e Nosferatu, que já foi sem o Satyros. Foi uma fase que queria descansar, porque também trabalho na SP Escola de Teatro. Estava fazendo jornada dupla, muito estressada. Falei para mim: eu não preciso disso, não vou salvar o mundo fazendo teatro sem parar, eu posso me dar um tempo para me reciclar inclusive.

cleo de paris bob sousa41 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris no camarim do Satyros, durante a peça Cabaret Stravaganza: "Ninguém vai ocupar meu lugar" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fazia uma peça atrás da outra.
CLÉO DE PÁRIS — Sim, estava há muito tempo sem parar. O artista precisa desse respiro. Li uma entrevista do Daniel Day-Lewis, que é o ator mais extraordinário do mundo, e ele contava que uma vez parou quatro anos e foi ser sapateiro numa cidadezinha do interior. Ele dizia que o artista que morava nele precisava daquilo. Isso me tocou profundamente. Eu pensei, eu preciso arrumar meus sapatos, meu caminho, onde vou pisar a partir de agora, foi uma metáfora muito bonita para mim o que ele disse.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua ausência nas peças do Satyros gerou um burburinho na classe teatral e no público. Muitos internautas me mandaram mensagem falando para eu descobrir o que havia acontecido e por que você não estava nas peças novas do Satyros.
CLÉO DE PÁRIS — Chegou um momento que minhas intenções artísticas e estéticas não estavam de acordo com o que o grupo estava fazendo. Não que não gostasse. Até porque fiz muito teatro performativo, que o Rodolfo é referência. Estava sentindo falta de personagem, de quarta parede, do teatrão clássico. E o grupo estava com outra pegada e eu queria descansar. Juntou a falta de fome com a falta de vontade de comer.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou de o Satyros voltar agora ao Marquês de Sade? Foi ver Juliette?
CLÉO DE PÁRIS — Não consegui ver porque estou em cartaz. Mas quero ver. Acho fundamental [a volta a Sade], porque toda pesquisa do grupo tem muito a ver com isso. Com essa questão de mexer em valores sociais burgueses através do Sade. E o Rodolfo foi bem fundo nisso, sem pudor algum. Acho que o grupo faz muito bem isso. Montar Juliette vai dar um ar novo a essa trajetória do Sade. Mas acho muito especial remontar A Filosofia na Alcova e Os 120 Dias de Sodoma, que é a minha preferida.

cleo de paris bob sousa cabaret stravaganza Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris ao lado de Ivam Cabral, na peça Cabaret Stravaganza, de 2011, do Satyros - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o público adora essas peças.
CLÉO DE PÁRIS — Eu me pergunto muito que tipo de teatro que o público quer. E acho que esse é um teatro que o público quer ver. Tem de ser feito. É sempre um sucesso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem medo de dar esse tempo e ter alguém lá no Satyros querendo ser a nova Cléo De Páris?
CLÉO DE PÁRIS — A gente tem que se movimentar, sair da zona de conforto e tentar outras possibilidades. Mas ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha. E, talvez, essa gente nova que está lá nem queira ser igual a mim, talvez nem saibam que eu existo. Teatro é muito efêmero...

cleo de paris bob sousa Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Parece que está tudo mais careta" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que acha dessas peças do Sade neste novo contexto político do País que parece mais conservador do que quando as peças foram montadas pela primeira vez?
CLÉO DE PÁRIS — É triste, porque parece que está tudo mais careta. A gente está retrocedendo. Essa questão toda de conservadorismo, de gente brigando porque Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro se beijaram na novela e aceitando todo tipo de violência como se fosse normal. O mundo está ficando muito triste. Acho mesmo que agora pode ser que choque muito mais. Parece inconcebível. A gente deveria evoluir, mas estamos retrocedendo. As pessoas aceitam menos agora. Parece que é um horror alguém ficar nu em cena. Mas no Carnaval pode ter um monte de gente pelada na televisão de manhã e à tarde, para as crianças verem. Mas não pode fazer topless na praia. É tudo tão hipócrita. Não faz sentido para mim.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A gente está ficando amargo demais ou o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura?
CLÉO DE PÁRIS — Acho que o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura. E a gente precisa se defender de algum jeito. Acho que a gente acaba ficando [amargo]. Eu sinto que estou muito amarga. E eu não era assim. Mas, senão, você fica uma “Pollyanna”. Você tem de arrumar um jeito de se impor, de se colocar e de se defender disso tudo. Nem sei se é o melhor movimento, mas é o que a gente consegue.

DSC00620 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em cena de Ludwig e Suas Irmãs: "Trabalhar com o Eric Lenate me jogou com tudo em minha fragilidade e aprendi que ser frágil tem seus encantos" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de Ludwig. Como você entrou na peça?
CLÉO DE PÁRIS — O Eric Lenate [diretor da peça] queria montar há seis anos, desde que entrou em contato com o texto no CPT [Centro de Pesquisa Teatral]. Ele juntou Lavinia Pannunzio, Jorge Emil e eu há um ano para fazer uma leitura e todos nós gostamos muito. Ele disse que teria de ser com nós três, que era o elenco ideal. Ganhamos o ProAc e tivemos só dois meses de ensaio. Foi muito difícil.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo de trabalhar com outras pessoas, com uma outra forma de se fazer teatro?
CLÉO DE PÁRIS — Foi muito difícil. Pensei até em sair da peça durante o processo. Eu estava trabalhando há muito tempo com o teatro performativo, que te dá certas liberdades. Acho que meu rendimento nos ensaios no começo ficou aquém, porque fiquei travada. E o Eric é muito exigente, muito. E a gente tem muita intimidade. Então, chegou um momento que ficou um processo mais difícil do que prazeroso para mim. Tivemos muitos atritos, a gente não chegou a brigar, assim, mas acho que ele me tratava muito mal nos ensaios. Eu falava: você não trata os outros atores como você me trata. Foi muito difícil trabalhar com ele, muito mesmo. É muito complicado. Não sei se vou repetir. Trabalhei muito tempo com o Rodolfo, que é uma doçura, tem outra pegada. Não estou falando que um seja melhor ou pior. São diferentes. Mas o resultado foi o lugar que queria chegar, sinto que tive um progresso como atriz. Mas eu nunca gosto dessa coisa os fins justificam os meios, sabe? Sabe aquelas pessoas que trabalham com o Lars von Trier e nunca mais falam com ele? Não estou falando que foi nesse nível, mas foi complicado para mim. Não foi fácil, mas o Eric consegue ótimos resultados, isso é uma realidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual análise você faz disso tudo?
CLÉO DE PÁRIS — Trabalhar com o Eric me jogou com tudo em minha fragilidade e eu aprendi que ser frágil tem seus encantos e tem força bruta, porque abre um mar de possibilidades. E que acho que serei grata um dia por viver esse desespero.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o texto da peça?
CLÉO DE PÁRIS — É muito difícil, complexo, impiedoso. Tem um formato enlouquecedor. Ele faz um ato inteiro só com as duas irmãs contando que o irmão vai chegar do sanatório. É um ato inteiro preparando a chegada do Ludwig. E depois são dois atos com ele, com uma demência maravilhosa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É difícil fazer a peça?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. Muito. Acho que só quando fiz uma cega tive um desafio assim. É um estado de presentificação muito grande. E é difícil ficar em cena sem texto, só reagindo, é mais difícil do que fazer uma ação ou dando texto. É um desafio muito louco essa peça.

Ludwig e suas irmãs 23 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris, Jorge Emil e Lavínia Pannunzio em Ludwig e Suas Irmãs: "Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. Apesar de vociferarem, não fazem nada" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Os personagens são todos loucos?
CLÉO DE PÁRIS — Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. O Eric linkava muito essas histórias às manifestações que a gente teve. Porque o texto acaba com tudo, com o mecenato da arte, com a burguesia, não deixa pedra sobre pedra. Apesar de eles vociferarem e falarem coisas lúcidas, eles não fazem nada. Ficam naquela casa, lendo biografias de artistas e tomando chazinho. Eles não fazem nada para mudar, só gritam. O Eric falava: esses personagens são as pessoas que foram reclamar pelo aumento de 20 centavos e depois aumentou 50 centavos e não fizeram nada. Então, era só pelos 20 centavos mesmo. Eles queriam dizer: aumentem direito se é para aumentar, porque 20 é muito pouco. Os personagens falam, falam, mas não saem do lugar. O Ludwig é um tsunami que, quando chega à praia, recua. Só ameaça, mas não faz nada. Tem muita munição e não dá em nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É um texto de desesperança. Acho que voltamos ao começo da nossa conversa. É um problema da nossa geração?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. É uma desesperança. Acho que o mais triste porque é uma desesperança que nem é conformista. Eles não se conformam, mas não fazem nada. Não é: tudo bem como está e vou levar minha vida. Não se conforma, mas não faz nada. Isso é mais triste. Não se conformar e não reagir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o público está reagindo?
CLÉO DE PÁRIS — Acho engraçado tratar o público como essa massa uniforme. Mas é engraçado, isso acontece mesmo, de as pessoas quando estarem juntas terem uma mesma intenção. Estreamos numa Sexta-feira Santa e está indo muito bem. Até porque o teatro é enorme. Se você tem cem pessoas tem um terço do teatro. No Satyros era só 40! E o público está ótimo, mas não sei se ele entende o que está acontecendo lá. Se não embarca, não consegue aproveitar. O que o Thomas Bernhard faz ali é muito específico, mexe com padrões no conteúdo e na forma... O texto não é palatável, mas a gente não quer fazer O Rapto das Cebolinhas. Você falou para mim que viu o documentário do David Bowie. Então, o David Bowie hoje apareceria hoje no Faustão? Não. E graças a Deus! Então, vamos continuar sendo David Bowie.

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Cléo De Páris com Alberto Guzik na peça Liz, do Satyros, em 2009: "O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas", diz a atriz - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro te deu e o que ele te tirou?
CLÉO DE PÁRIS — Ele me tirou o convívio com minha família. Eu quero ver o Ian, meu sobrinho crescer. Tem o aniversário dele em setembro, nesse dia, mesmo se for uma apresentação para o Papa eu não vou fazer. Eu quero ver o primeiro dentinho dele. Eu acho que eu não tive filho porque me dediquei muito ao teatro. Não é uma desculpa, mas minha paixão pelo teatro foi muito intensa. Agora, ela está esmorecendo, mas talvez o fundo do poço tenha porão e eu pegue impulso e volte, como diz uma amiga. Eu vivi e respirei teatro o tempo todo nos últimos dez anos. Passei mais tempo no teatro do que em casa e com muito prazer. Só que agora, quando olho para trás, às vezes eu penso: será que não era melhor ter tido uma vidinha mais pacata? Será que eu deveria ter tido um filho e deixar de pensar: não, agora, porque eu vou para a Suécia, não depois, porque eu vou fazer peça em Cuba... O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas. Ninguém colocou um revólver na minha cabeça, falando: faça teatro 24 horas por dia. Se foi uma escolha errada, eu tenho de ver daqui para frente e lidar com isso. Mas o teatro também me deu amigos, pessoas importantes que eu posso confiar. Ele conseguiu extrair de mim sabedoria, coragem, sensibilidade. Inclusive para fazer essa escola maluca que a gente fez, a SP Escola de Teatro. E me deu coragem também para desistir, para parar uma hora, porque eu sou gente.  E é ainda uma resistência nossa levar as pessoas para verem gente. Tirar o público de casa para ir lá ver outra pessoa igual a ela. Isso está muito difícil, né? As pessoas querem olhar umas para as outras por meio das fotos lindas trabalhadas com filtros no IPhone. No palco, não temos filtro, estamos parados ali, sem rede de proteção, passíveis de erro, de sermos execrados ou amados. E a gente continua fazendo isso. Meu medo é que isso se perca um dia. As pessoas estão cada vez mais isoladas, não param de construir prédios na cidade, cada vez mais minúsculos, para as pessoas viverem sozinhas, em seu compartimento, interagindo com outras pessoas através de máquinas, de computadores.

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Cléo De Páris: "O teatro que faço tem que me dar prazer" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual futuro você pensa para você?
CLÉO DE PÁRIS — Estou contaminada por esse clima de desesperança. Mesmo no teatro não sei o que quero fazer depois de Ludwig. Espero que essa peça tenha ainda uma vida grande. E se eu voltar a fazer outra peça, quero que seja devagar. Com um período mais longo entre um trabalho e outro. Não quero me sacrificar mais pelo teatro. Eu me sacrificaria mais pelas flores do que pelo teatro. Estou muito desiludida com a humanidade. É tão violento o ato criativo que não sei se compensa. E não estou falando de compensação financeira, mas afetiva mesmo. É uma energia grande que você dá e não sei se a balança é favorável. Ainda estou digerindo o processo dessa peça, que foi rápido, intenso e difícil. Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos. Porque nunca me coloquei como “a atriz”. Eu fui fazendo trabalhos... Não quero ficar famosa, não é minha pegada, recusei muita coisa na TV por isso. Porque gosto de ter meu anonimato, vou na contramão disso. É claro que gosto de ter prestígio, que as pessoas valorizem o que faço, de conversar com você, nesta entrevista, mas não gosto de uma coisa que possa alterar minha vida. Tudo certo para quem consegue lidar com isso, não acho que é ruim fazer, mas não é a minha pegada. Não tenho essa vaidade de ser famosa, de ganhar prêmio. Então, o teatro que faço tem que me dar prazer e me mostrar que eu faço diferença em algum lugar. Senão, não faz sentido para mim. Tenho avaliado se tudo isso vale a pena para eu ser fiel a mim mesma.

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Cléo De Páris em ensaio para divulgação da peça Ludwig e Suas Irmãs: "Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos" - Foto: Laerte Késsimos

Ludwig e Suas Irmãs
Quando: Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h. 80 min. Até 17/5/2015.
Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1.000, metrô Vergueiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-4002)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Leia também: Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

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Leandro Knopfhoz, no centro de Curitiba: "Festival de Teatro de Curitiba olha para dentro do Brasil e é a principal vitrine dos palcos no País; já temos três patrocínios para 2016", garante o diretor do maior evento teatral da América Latina - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos DANIEL SORRENTINO/Clix

Em ano de crise econômica, o Festival de Teatro de Curitiba fecha sua 24ª edição neste domingo (5) com público de 200 mil pessoas, informa seu diretor, Leandro Knopfholz, ao Atores & Bastidores do R7. O número de 2015 é menor que os 230 mil de 2014, mas é 47% maior do que as 136 mil pessoas que foram ao festival de música Lollapalooza, realizado em São Paulo nos dias 28 e 29 de março último. O que faz o teatro superar a música, arte que é muito mais popular no País.

Se comparado a outro festival teatral, o número de público do Festival de Teatro de Curitiba é 13 vezes maior do que o de seu principal concorrente, a MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), cuja segunda edição foi realizada no mês passado e que fechou com público de 15,2 mil espectadores em suas peças.

A comparação é inevitável, já que a MITsp abocanhou parte do patrocínio que o banco Itaú dava a Curitiba. Mesmo assim, a direção do evento paranaense, que teve orçamento de R$ 6 milhões em 2015, garante sua próxima edição em 2016, quando celebrará 25 anos de trajetória.

"Já temos três patrocinadores fechados para 2016, Tradner, UEG Araucária e Copel. E teremos uma conversa próxima com o Itaú. Curitiba segue com seu peso nacional. É a mais importante vitrine para o teatro brasileiro", afirma o diretor do Festival de Teatro de Curitiba, Leandro Knopfholz.

O executivo diz não temer a concorrência da MITsp. "Quanto mais se falar de teatro melhor", afirma. E reitera que seu objetivo é "entender a cena brasileira, diferentemente da MITsp, que olha para fora do Brasil". Em sua visão, "Curitiba olha para dentro do Brasil".

Além de teatro, o Festival de Curitiba teve a Gastronomix, mostra gastronômica que serviu 27 mil refeições a um público de 9.300 pessoas no Museu Oscar Niemeyer com 25 chefs de todo o Brasil.

5.700 pessoas envolvidas e impacto de R$ 15 milhões

Segundo Knopfholz, em 2015, o Festival de Teatro de Curitiba gerou 900 empregos diretos e 1.500 indiretos. "Além disso, foram 2.700 artistas no Fringe e 600 na Mostra Oficial", revela. Tudo somado dá 5.700 pessoas envolvidas no evento, número que impacta a economia em tempos de recessão. "Segundo um estudo da Secretaria Municipal de Turismo de Curitiba, a movimentação que o Festival faz na economia da cidade é de R$ 15 milhões".

Por conta da crise, o evento cortou drasticamente a lista de jornalistas convidados. "Antes, chamávamos 40 veículos de todo o Brasil, mas com a diminuição orçamentária, tivemos que reduzir esse número para 15 veículos. Mas, esperamos que seja uma situação momentânea, porque gostamos de dialogar com todo o País", afirma.

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Leandro Knopfholz fala sobre globais x artistas do teatro do Fringe: "A gente não diferencia ninguém, todos são artistas e tem o mesmo peso", afirma - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Peças globais e artistas de longe

Sobre a qualidade questionável de alguns espetáculos da Mostra Oficial deste ano, Knopfholz afirma que "tem uma comissão curadora responsável por isso" e que "a programação reflete o que tem nos palcos".

"Sempre pergunto para os curadores, quem você acha que ficou de fora e poderia ter estado aqui? O Festival traz um apanhado, tem ano que as pessoas se identificam mais, menos, mas é um retrato do momento", diz. Os curadores deste ano foram Lúcia Camargo, Celso Curi e Tania Brandão.

Curitiba tem a dicotomia de ter peças com atores famosos geralmente lotadas na Mostra Oficial, e ao mesmo tempo ter peças vindas de todos os lugares do Brasil disputando atenção do público e da mídia no Fringe, a mostra paralela com quase 400 obras. Um dos exemplos foi o espetáculo piauiense Geleia Geral, do grupo Conexão Street, que investiu R$ 5.000 do próprio bolso dos artistas em sua vinda para Curitiba com a peça sobre a vida e obra do compositor Torquato Neto.

Para Knopfholz, ambos tipos de montagens têm peso na receita do Festival, que contou este ano com 422 espetáculos. "Todo mundo tem peso, o caldeirão é o interessante do festival. É claro que é mais difícil colocar 30 pagantes no espetáculo vindo do Piauí do que 2.000 pessoas na plateia da peça do Marco Nanini ou outra figura conhecida da televisão", considera.

Mas afirma não fazer diferenciação de artistas. "A função do Festival é colocar todos no mesmo patamar. Mas a gente não diferencia ninguém, todos são artistas e têm o mesmo peso na divulgação no site ou no nosso livro de programação. Também não fazemos diferenciação de preço. A ideia é deixar o público escolher", declara.

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Leandro Knopfholz: "O que a gente aprendeu nestes 24 anos é se relacionar" - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Lugar para todos?

Chamou a atenção a baixa quantidade de peças curitibanas na Mostra Oficial - este ano foi só Cinderela, dança do Balé Teatro Guaíra, que entrou no lugar de uma peça norte-americana cancelada de última hora. Na programação nobre do evento, reinaram produções vindas do eixo Rio-São Paulo.

Knopfholz admite que pode ser interessante buscar maior aproximação com a cena teatral local curitibana, para que possam estrear montagens no Festival, bem como também com grupos de outros lugares do Brasil. "O Festival tem um trabalho com a cena local, de apoio às mostras locais, que é importante e traz bastante retorno", justifica, dizendo que vai pensar em como integrar melhor a cena local e a nacional fora do eixo Rio-SP na programação da Mostra Oficial.

25 anos em 2016

Para o diretor do Festival de Teatro de Curitiba, lidar com pessoas distintas durante o evento é o grande desafio anual. "Às vezes o diretor é mais preciosista para afinar uma luz. O que a gente aprendeu nestes anos é se relacionar. Vamos comemorar isso na 25a edição, no ano que vem", promete.

Knopfholz afirma que considera que se o Festival fosse realizado no eixo Rio-São Paulo teria maior apoio de parte da mídia nacional. "Parte do charme e da elegância do festival é porque ele é realizado em Curitiba, mas é claro que se fosse feito do mesmo jeito no Rio ou em São Paulo, ele teria mais projeção".

Com o Festival chegando ao fim, ele já pensa no futuro. "Tivemos todos os patrocinadores presentes e esperamos fechar todos os patrocínios para 2016 até maio. Agora, vamos fechar os números e fazer uma avaliação do que aconteceu e pensar no próximo, que com certeza acontecerá e será de uma edição festiva, celebrando nossos 25 anos. Muitas pessoas ficaram amigas aqui em Curitiba, quero todos que fizeram parte do Festival voltem para celebrar conosco", finaliza.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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16962528566 35b287e331 k 1024x683 Ator busca raízes japonesas em peça no Festival de Curitiba

Eduardo Okamoto em cena da peça OE no Festival de Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

O ator Eduardo Okamoto, que já ganhou um Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) pelo desempenho na peça Recusa, resolveu estrear no Festival de Teatro de Curitiba 2015 e ao mesmo tempo acertar as contas com seus antepassados. Isso com seu novo espetáculo: o monólogo OE, apresentado no palco do Sesc da Esquina.

O nome do espetáculo é uma referência ao autor japonês no qual a peça se inspira, Kenzaburo Oe, atualmente com 80 anos.

Ao Atores & Bastidores do R7, Okamoto conta que a peça nasceu de um desejo de construir uma relação artística com a cultura de seus ascendentes, os japoneses.

"Meu avô paterno era japonês e meu pai foi a primeira geração que nasceu no Brasil. Meu pai queria que eu fosse brasileiro, porque sabia que havia muito preconceito com orientais no Brasil", recorda.

Há quatro anos, o ator resolveu comprar em uma livraria paulistana o livro Jovens de um Novo Tempo, Despertai, do autor japonês Kenzaburo.

"O livro tem um aspecto de pai e filho, também presente na obra e, de uma certa forma, na minha viagem ao Japão", conta.

Okamoto viajou para Yokohama, no Japão, onde esteve no Kazuo Ohno Dance Studio, hoje conduzido pelo filho de Kazuo, Yoshito Ohno. "Queria sabe como é o corpo lá", afirma.

A peça é dirigida por Marcio Aurelio e tem dramaturgia assinada por Cassio Pires. Este conta que "não foi uma adaptação, foi uma recriação".

Pires afirma ao R7 que fez "um poema para a cena" que partiu do romance, "uma série de pequenas narrativas que produzem imagens dispostas de uma maneira não linear". Ele enxugou as 400 páginas do livro em 14 páginas do texto cênico.

Okamoto diz que a peça "é o fluxo da vida, da verdade". Para ele, é "a vida se fazendo em nós, a forma como a vida grande vai atravessando a nossa vida particular".

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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Peça OE é inspirada por livro do autor japonês Kenzaburo - Foto: Annelize Tozetto/Clix

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IMG 5762 1024x682 Exclusivo   Ator Fagner Zadra fala sobre acidente no Festival de Curitiba que o deixou tetraplégico

Guerreiro: diagnosticado tetraplégico, um ano depois o ator Fagner Zadra toma café sozinho enquanto conversa com o R7 em Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

Na festa de abertura do Festival de Teatro de Curitiba do ano passado, uma peça de isopor da decoração se desprendeu do teto e caiu na cabeça do ator gaúcho Fagner Zadra.

Ele ficou consciente o tempo todo e revela que, naquele momento, percebeu que havia perdido os movimentos dos braços e pernas. Diante da constatação, seu objetivo era se manter vivo. "Na hora fiquei desesperado, mas depois pensei: eu tenho de continuar respirando para manter a oxigenação do meu cérebro", revela em entrevista exclusiva ao Atores & Bastidores do R7.

Um ano depois do acidente, Zadra, de 31 anos, conta com a juda de enfermeiro e fisioterapeuta, além do apoio fundamental de sua família, de Leandro Knopfholz (diretor do Festival de Teatro de Curitiba) e do carinho do público.

Resolveu enfrentar a situação de estar em uma cadeira de rodas com humor: voltou a fazer seu espetáculo solo no último dia 8 de março, no Teatro Positivo, onde foi aplaudido de pé assim que entrou na plateia.

Nesta conversa, o artista, que estudou engenharia civil na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e agora estuda cinema, fala sobre o acidente, como vem se recuperando e afirma que nunca pensou em processar o Festival. Prefere encarar o que aconteceu como uma fatalidade.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você conseguiu superar o acidente?
FAGNER ZADRA - Cara, você tem que ter uma meta na vida. A minha primeira meta era ficar vivo. Depois, voltar para meu trabalho, fazer o que gosto. Isso, mais a força, mais os cuidados, o Festival me cuidou muito, minha mãe, minha família, o público. Isso tudo e uma força de vontade imensa me fez voltar. Um ano depois, já estou aí trabalhando, com peças lotadas no Festival.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Seu acidente aconteceu na festa de abertura do Festival no ano passado. Você chegou a pensar em processar o Festival?
FAGNER ZADRA - Não, em nenhum momento. Ate porque o Leandro [Knopfholz, diretor do Festival de Curitiba] é meu amigo. Surgiram boatos, mas eram todos falsos. Isso de processar nunca existiu em nenhum momento.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você buscou culpar alguém pelo que aconteceu ou acha que foi uma fatalidade?
FAGNER ZADRA - Não adianta culpar ninguém. O que aconteceu aconteceu. Culpar o quê? Eu acho que era para acontecer, não adianta ficar olhando para trás. É olhar o que vou fazer com isso agora. Ficar procurando culpado para quê? Já estou eu ferrado, para que vou ferrar mais alguém também?

MIGUEL ARCANJO PRADO - Qual foi seu diagnóstico?
FAGNER ZADRA - Teoricamente eu fiquei tetraplégico. Pelo meu nível de lesão eu não deveria estar aqui. Deveria estar só na cama, mexendo só a cabeça [o ator deu a entrevista em um café curitibano, e bebia sozinho seu café sem ajuda de terceiros]. Minha medula ainda está muito inchada. Minhas evoluções não deveriam ter acontecido tecnicamente. Mas a minha vida sempre foi excêntrica.

IMG 5754 682x1024 Exclusivo   Ator Fagner Zadra fala sobre acidente no Festival de Curitiba que o deixou tetraplégico

Fagner Zadra: um ano após o acidente, ele já está de volta aos palcos - Foto: Annelize Tozetto/Clix

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você rompeu qual vértebra?
FAGNER ZADRA - A C5, C6, C7 e T1, foi bem extensa a lesão. Geralmente, quem tem uma lesão dessa só começa a mexer os braços após um ano. E eu já estou aí, na rua, independente.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Quem te deu mais apoio?
FAGNER ZADRA - A minha família, a minha mãe, meu pai, o Leandro, do Festival, que nunca me deixou. Meus amigos também, meu tio Geraldo, que mora aqui também. Minha mãe veio do Rio Grande do Sul no dia do acidente e nunca mais voltou. Fica grudada comigo como se fosse o primeiro dia do acidente.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você está namorando?
FAGNER ZADRA - Não.
MIGUEL ARCANJO PRADO - Você botou uma cadeira de rodas no símbolo do seu show; fazer piada com isso é uma forma de superar?
FAGNER ZADRA - A minha vida inteira, meus textos e shows foram baseados em mim, nas minhas desgraças e minhas vitórias. No humor, sempre tem que ter um alvo. Acho mais fácil atirar em mim mesmo. Lógico que faço piada do cotidiano, mas agora que estou nessa condição, faço piada disso. Por que não fazer? Não fazer seria uma forma de exclusão. Quando estreei meu show no Teatro Positivo, no dia 8 de março agora, havia muitos tetraplégicos. Eles adoraram. Porque ninguém brinca com eles. E não brincar com isso também é uma forma de discriminação.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Você tem uma empatia muito grande dos moradores de Curitiba pelo sucesso do Tesão Piá, que ironizava os curitibanos. Como foi a reação do público?
FAGNER ZADRA - É fantástico. As pessoas vêm na rua para me dar um abraço. Cheguei em Curitiba com uma mala e 20 reais no bolso sem saber o que iria fazer. Sou de Sarandir, no Rio Grande do Sul. E dez anos depois eu vejo a cidade me abraçar. Isso me emociona muito. Quando voltei com meu solo, eu fui aplaudido de pé. É um carinho que nem tenho como retribuir.

MIGUEL ARCANJO PRADO - Qual humorista é seu ídolo?
FAGNER ZADRA - O Chico Anysio, que trabalhou e criou personagens até o fim. Ele é o maior referencial.

MIGUEL ARCANJO PRADO - O que você espera para o futuro?
FAGNER ZADRA - Estou estudando cinema, penso em continuar fazendo humor, dirigir. Também estou cuindando do canal Foca no Circo, no YouTube, além do meu próprio canal. Quero fazer as pessoas rirem até onde der. Até porque não sei se no dia de amanhã vai cair alguma coisa na minha cabeça de novo. Vai saber, né [risos]. Quero levar felicidade e alegria para a galera. Agora, eu vejo a vida por outra forma. Não só pela altura, né. Tenho 1,80 metro, mas agora vejo todo mundo na altura do glúteo [risos].

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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IMG 2292 682x1024 Público fica excitado em Curitiba, diz Marco Nanini

Marco Nanini no Festival de Curitiba: "Público fica excitado" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

O ator Marco Nanini celebra estar mais uma vez na programação da Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, o mais importante do País. Ele apresenta no evento a peça Beije Minha Lápide, após temporadas de sucesso no Rio e em São Paulo.

A obra de Jô Bilac e dirigida por Bel Garcia fala de um homem que é preso por tentar romper a barreira de vidro para beijar o túmulo do escritor Oscar Wilde. A última apresentação da peça no evento é nesta segunda (30), às 21h, no Teatro Positivo.

Em conversa exclusiva com o Atores & Bastidores do R7, Nanini conta que sempre fica emocionado ao participar do Festival.

"É um festival eclético e o público fica muito excitado em Curitiba. Então, é uma ótima relação. Esta é a terceira vez que venho", diz.

Nanini ama tanto o teatro que tem o seu próprio, o Galpão Gamboa, no Rio.

"Ao lado do Fernando Libonate e do César Augusto fazemos várias temporadas de outras companhias no espaço. Trabalhamos com a formação de plateia", explica.

O ator se despediu há pouco tempo de Lineu, o pai no seriado A Grande Família, que ficou no ar 14 anos com sucesso. "Fiz o Lineu 14 anos, a peça Irma Vap fiz por 11 anos. Sou ator de personagens que duram muito. Acho que tinha de ter uma vida mais comprida", brinca o ator de 66 anos.

Comida mineira e Oscar Wilde

Ele conta que, após Curitiba, viaja com a peça, indo inclusive para Belo Horizonte, onde morou na infância no Hotel Amazonas, no qual seu pai foi gerente. "Estou me preparando, porque a gente engorda em Minas", diz, bem-humorado. "Minhas funcionárias lá em casa são mineiras que nem você, aí você já viu a comida boa que elas fazem".

Nanini gosta de fazer teatro: "Sempre fiz, mesmo com A Grande Família no ar, porque o palco recicla o ator. Teatro é artesanal, tem público ao vivo, é outra conversa".

Foi Nanini quem desejou abordar o universo de Oscar Wilde no palco. "Sempre tive um interesse muito grande nele. Oscar Wilde tem uma obra brilhante e uma vida trágica", afirma.

Para o futuro, além de circular com a peça Beije Minha Lápide, prepara uma montagem de Ubu Rei e deve voltar em breve à televisão: "No final do ano devo começar uma novela, mas a Globo não decidiu ainda qual será", finaliza.

IMG 2362 682x1024 Público fica excitado em Curitiba, diz Marco Nanini

Sucesso da TV, Nanini não abandona o teatro: "Palco recicla o ator" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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leandro knopfholz annelize tozetto Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba, na manhã desta terça (24): "Não é um evento só para a classe teatral, é para o grande público também" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos ANNELIZE TOZETTO e
DANIEL SORRENTINO/Clix

Se o número de público acumulado em 24 edições o transformasse em uma cidade, o Festival de Teatro de Curitiba seria a terceira maior do Brasil. Já levou 5 milhões de pessoas ao teatro, número menor apenas do que as populações de São Paulo e do Rio. A própria Curitiba com seu 1,8 milhão de habitantes ficaria em nono lugar na mesma lista. Já se a brincadeira fosse transformar cada peça apresentada no Festival em uma cidade, o Festival de Teatro de Curitiba, com suas mais de 7.000 peças encenadas até hoje, ganharia fácil do próprio Brasil, que só teria 5.570 municípios a oferecer.

É com esta mistura de grandiosidade e tradição que começa nesta terça (24) e vai até o próximo 5 de abril a 24ª edição do maior e mais importante festival das artes cênicas no País: o Festival de Teatro de Curitiba, o maior da América Latina.

Curitiba teve público de 230 mil na última edição

Em tempos de crise econômica e com a concorrência de outros eventos do tipo, como a MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), Curitiba exibe seus números na batalha cênica. Só em 2014, o festival paranaense levou 230 mil pessoas ao teatro com um orçamento de R$ 6,5 milhões e quase 500 espetáculos.

Para se comparar, a MITsp deste ano, com orçamento de R$ 3,2 milhões para 12 peças, teve 17,5 mil pessoas de público em números prévios, já que o balanço final do festival paulista não foi divulgado pelos seus organizadores até o fechamento desta reportagem, nove dias após A MITsp acabar.

Ainda comparado à recente MITsp, o Festival de Teatro de Curitiba tem retorno de público maior: 13 vezes mais espectadores. E também leva mais gente ao teatro gastando menos. O gasto por espectador em 2014 em Curitiba foi de R$ 28,26. Já a segunda edição da MITsp, neste ano, gastou 653% a mais com cada espectador: R$ 182,85 por pessoa.

festival de curitiba publico daniel sorrentino clix picnik Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Fila gigante de público no centro histórico curitibano para ver uma peça de teatro: 230 mil pessoas foram ao Festival de Teatro de Curitiba em 2014 - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

O orçamento do Festival de Teatro de Curitiba em 2015 é de R$ 6,5 milhões, o mesmo número de 2014 — mas que vale menos, já que a inflação foi alta nos últimos 12 meses e o dólar subiu a níveis estratosféricos. O número é distante dos R$ 8 milhões de 2013, ano de orçamento recorde. Mas, o evento segue firme com uma receita simples.

O R7 apurou que, para seguir grandioso mesmo com os cortes, a direção do evento conta com a colaboração de artistas, empresários, produtores e parceiros de longa data, que toparam renegociar valores. É assim que Curitiba segue apostando na diversidade de estilos e também numérica como receita de seu sucesso.

Nos 13 dias de evento deste ano serão 422 espetáculos ao todo: 29 na Mostra Oficial e 393 no Fringe, a tradicional mostra paralela, onde se pode ver de tudo um pouco, como é desejável no ambiente artístico democrático. E há novidades. Este ano serão sete estreias nacionais e quatro espetáculos internacionais: A House in Asia, Double Rite, Surfacing e Numax. A peça Dias de Luta, Dias de Glória, com a trajetória de Chorão, da banda Charlie Brown Jr. é um dos destaques também.

dias de gloria luis franca Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

O roqueiro Chorão será homenageado no palco do Festival de Teatro de Curitiba: Dias de Luta, Dias de Glória, peça sobre sua vida e sua música, está na programação - Foto: Luis França/Divulgação

O Festival de Teatro de Curitiba movimenta a economia não só da capital paranaense como a nacional também, sobretudo a área ligada aos transportes, serviços e hotelaria. Afinal, cerca de 1.500 artistas do País e de fora dele rumam para a cidade para participar de espetáculos (fora os turistas apaixonados pelo teatro que programa férias para o período em Curitiba), o que o torna o um festival definitivamente de peso e de repercussão nacional como nenhum outro.

Quem recebe toda essa gente a partir desta terça-feira (24) é Leandro Knopfholz, fundador e diretor geral do festival. Em tempos de crise, faz questão de agradecer os patrocinadores: a apresentação do Banco Itaú e Tradener, e os patrocínios da Renault do Brasil, da Petrobras, da Copel, da Fundação Cultural de Curitiba/Prefeitura de Curitiba e da UEG Araucária, além do apoio da Itaipu Binacional.

Direto de Curitiba, Knopfholz conversou, com exclusividade, com o Atores & Bastidores do R7 sobre o evento e seu atual cenário na manhã desta terça (24).

Leia com toda a calma do mundo.

leandro knopfholz annelize tozetto2 Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Leandro Knopfholz: "Festival de Curitiba não esconde informações, somos transparentes" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o Festival de Teatro de Curitiba reage à forte concorrência de outros festivais, como a MITsp?
LEANDRO KNOPFHOLZ — O Festival de Teatro de Curitiba tem a proposta de conversar com o público. É seu grande diferencial. O teatro é a manifestação mais antiga que a gente conhece. Desde que o homem sentou-se em volta da fogueira para contar com um graveto que um bicho grande corria atrás dele, fazia teatro de alguma forma. O teatro continua sendo uma forma envolvente de se contar uma história. Isso é simples, mas é muito. A gente vive o momento em que a atenção das pessoas está cada vez mais dividida, as pessoas conversam com você e param para ver o celular. A atenção está dispersa por uma série de tecnologias, mas hoje você não tem só mais o graveto. Tem diversas formas de se contar a história. Mas, antes de tudo, ela precisa se comunicar. O festival entende teatro como uma arte que se comunica com o público, com espetáculos impactantes e que tocam as pessoas em diversas camadas, racional e emocionalmente.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Festival de Teatro de Curitiba desmistifica o teatro?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Sim. O Festival entende o teatro como uma arte que comunica. Ele convida o público para ir ao teatro de uma maneira corriqueira, como se fosse ao cinema. Não sei por que o teatro ainda tem uma cara mais solene. Se eu te convido para ir ao cinema, a gente sai do trabalho e vai. Já o teatro tem aquela coisa de ir para a casa antes e se arrumar todo. A gente quer desmistificar o teatro, mostrar que ele é uma coisa bacana, fácil, não precisa criar barreiras formais para ir ao teatro. O teatro é fácil, direto, se comunica e é envolvente.

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Espaço para o teatro de rua: Festival de Teatro de Curitiba tem boa relação entre investimento e retorno de público - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando a comparar vocês com a MITsp, Curitiba tem público de 230 mil pessoas contra 17,5 mil do festival paulista em números prévios. Como vocês conseguem atingir tanta gente?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Acho que um dos nossos diferenciais é o Fringe, a nossa mostra paralela democrática, que faz com que os números fiquem muito maiores e que oneram menos o festival do que uma mostra internacional. E acho que a gente busca o público. Pensamos: quanto mais cheia a sala mais barato fica o espetáculo. Se a casa fica vazia, uma peça pode custar R$ 10 mil por pessoa, se você enche, esse valor pode cair  para R$ 10. Por isso, a gente vai atrás do público.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O orçamento é o mesmo do ano passado, mas o cenário atual é de crise econômica e alta do dólar. Como vocês lidam com isso?
LEANDRO KNOPFHOLZ — A gente diminuiu a programação de 38 para 29 peças na Mostra Oficinal e cortamos uma série de coisas. Tivemos de cortar custos, sim. Diminuímos convidados e outra série de questões. Renegociei com alguns fornecedores. A tradição nos ajudou, isso sem dúvida. A credibilidade e o carinho com o evento foram coisas importantes para realizar esta edição. O festival sem dúvida tem um patrimônio que é sua história e sua tradição, que são as relações criadas, que transcendem o contato puramente comercial. O festival é ume esforço conjunto de todos os envolvidos. E isso é muito importante.

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Público vê peça gratuita do Festival de Curitiba: "A cidade, em todas as suas camadas, está envolvida no evento; e você só pode ser global se você é forte local", diz Leandro Knopfholz - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Festival de Teatro de Curitiba sempre faz questão de divulgar seu balanço em seu último dia de evento. Outros festivais seguram os números ou sequer os divulgam. O balanço da MITsp por exemplo não sai até esta nossa conversa, nove dias após o término. Qual a importância para você de um evento deste porte ser transparente com a imprensa, os artistas e o público?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Respeitamos muito o público, a imprensa, os artistas, os produtores e os patrocinadores. Eu acho que o mundo é cada vez mais transparente. Na TV digital que meu pai comprou você vê a espinha da apresentadora do telejornal. É impossível você esconder qualquer coisa. O cidadão está com o dedo no nariz e alguém tira uma foto e coloca na rede social. O mundo é online, a TV é digital. A informação circula muito rápido. Não tem como maquiar ou distorcer. A gente tem uma filosofia aqui de administrar por indicadores. Para você administrar você tem de medir. Como trabalhamos com muitos fornecedores e parceiros, a gente tenta fazer com que essa informação flua da maneira mais rápida, precisa e transparente possível. A gente não esconde nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o Festival de Teatro de Curitiba tem que os outros festivais não têm?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Tem uma história de 24 edições e isso leva a tudo: às relações interpessoais consolidadas, à tradição, ao carinho e ao orgulho que a classe teatral de todo o País e o curitibano tem do evento. O envolvimento das pessoas com o evento no dia a dia é incrível. Ontem, por exemplo, fui pegar meu carro estacionado, e a moça da zona azul do trânsito viu que eu era “o cara do festival” e veio me pedir se eu tinha o livrinho da programação, porque ela queria se programar. Isso é uma percepção que a cidade, em todas as suas camadas, está envolvida no evento. E você só pode ser global se você é forte local. Por isso, o Festival de Teatro de Curitiba é o maior e o mais importante festival de teatro do Brasil, conhecido em todo o mundo. Porque o Festival de Teatro de Curitiba não é um evento só para a classe teatral, é para o grande público também.

sorrentino Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Público lota arquibancadas na peça chilena El Hombre Venido de Ninguna Parte, em 2014, na praça Santos Andrade, uma das principais de Curitiba - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

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releasereneramos1 Vídeo   Peça mistura fúria no trânsito com mitologia grega; veja entrevista com ator Rene Ramos

Rene Ramos em cena de Ulisses e Odisseu: caos urbano e mitologia - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator Rene Ramos encara o monólogo Ulisses e Odisseu, que estreia nesta quinta (12), às 21h, no Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 94938-3862). A temporada será toda quinta, 21h, até 30 de abril. Na obra, Ramos faz um paralelo entre o mundo estressante de hoje com a mitologia grega. Nesta entrevista, ele conta mais sobre a montagem, que também conta com direção e dramaturgia assinadas por ele. Veja o vídeo com reportagem de Miguel Arcanjo Prado, produção e imagens de Robert Mathias.

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