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leandro knopfholz annelize tozetto Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba, na manhã desta terça (24): "Não é um evento só para a classe teatral, é para o grande público também" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos ANNELIZE TOZETTO e
DANIEL SORRENTINO/Clix

Se o número de público acumulado em 24 edições o transformasse em uma cidade, o Festival de Teatro de Curitiba seria a terceira maior do Brasil. Já levou 5 milhões de pessoas ao teatro, número menor apenas do que as populações de São Paulo e do Rio. A própria Curitiba com seu 1,8 milhão de habitantes ficaria em nono lugar na mesma lista. Já se a brincadeira fosse transformar cada peça apresentada no Festival em uma cidade, o Festival de Teatro de Curitiba, com suas mais de 7.000 peças encenadas até hoje, ganharia fácil do próprio Brasil, que só teria 5.570 municípios a oferecer.

É com esta mistura de grandiosidade e tradição que começa nesta terça (24) e vai até o próximo 5 de abril a 24ª edição do maior e mais importante festival das artes cênicas no País: o Festival de Teatro de Curitiba, o maior da América Latina.

Curitiba teve público de 230 mil na última edição

Em tempos de crise econômica e com a concorrência de outros eventos do tipo, como a MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), Curitiba exibe seus números na batalha cênica. Só em 2014, o festival paranaense levou 230 mil pessoas ao teatro com um orçamento de R$ 6,5 milhões e quase 500 espetáculos.

Para se comparar, a MITsp deste ano, com orçamento de R$ 3,2 milhões para 12 peças, teve 17,5 mil pessoas de público em números prévios, já que o balanço final do festival paulista não foi divulgado pelos seus organizadores até o fechamento desta reportagem, nove dias após A MITsp acabar.

Ainda comparado à recente MITsp, o Festival de Teatro de Curitiba tem retorno de público maior: 13 vezes mais espectadores. E também leva mais gente ao teatro gastando menos. O gasto por espectador em 2014 em Curitiba foi de R$ 28,26. Já a segunda edição da MITsp, neste ano, gastou 653% a mais com cada espectador: R$ 182,85 por pessoa.

festival de curitiba publico daniel sorrentino clix picnik Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Fila gigante de público no centro histórico curitibano para ver uma peça de teatro: 230 mil pessoas foram ao Festival de Teatro de Curitiba em 2014 - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

O orçamento do Festival de Teatro de Curitiba em 2015 é de R$ 6,5 milhões, o mesmo número de 2014 — mas que vale menos, já que a inflação foi alta nos últimos 12 meses e o dólar subiu a níveis estratosféricos. O número é distante dos R$ 8 milhões de 2013, ano de orçamento recorde. Mas, o evento segue firme com uma receita simples.

O R7 apurou que, para seguir grandioso mesmo com os cortes, a direção do evento conta com a colaboração de artistas, empresários, produtores e parceiros de longa data, que toparam renegociar valores. É assim que Curitiba segue apostando na diversidade de estilos e também numérica como receita de seu sucesso.

Nos 13 dias de evento deste ano serão 422 espetáculos ao todo: 29 na Mostra Oficial e 393 no Fringe, a tradicional mostra paralela, onde se pode ver de tudo um pouco, como é desejável no ambiente artístico democrático. E há novidades. Este ano serão sete estreias nacionais e quatro espetáculos internacionais: A House in Asia, Double Rite, Surfacing e Numax. A peça Dias de Luta, Dias de Glória, com a trajetória de Chorão, da banda Charlie Brown Jr. é um dos destaques também.

dias de gloria luis franca Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

O roqueiro Chorão será homenageado no palco do Festival de Teatro de Curitiba: Dias de Luta, Dias de Glória, peça sobre sua vida e sua música, está na programação - Foto: Luis França/Divulgação

O Festival de Teatro de Curitiba movimenta a economia não só da capital paranaense como a nacional também, sobretudo a área ligada aos transportes, serviços e hotelaria. Afinal, cerca de 1.500 artistas do País e de fora dele rumam para a cidade para participar de espetáculos (fora os turistas apaixonados pelo teatro que programa férias para o período em Curitiba), o que o torna o um festival definitivamente de peso e de repercussão nacional como nenhum outro.

Quem recebe toda essa gente a partir desta terça-feira (24) é Leandro Knopfholz, fundador e diretor geral do festival. Em tempos de crise, faz questão de agradecer os patrocinadores: a apresentação do Banco Itaú e Tradener, e os patrocínios da Renault do Brasil, da Petrobras, da Copel, da Fundação Cultural de Curitiba/Prefeitura de Curitiba e da UEG Araucária, além do apoio da Itaipu Binacional.

Direto de Curitiba, Knopfholz conversou, com exclusividade, com o Atores & Bastidores do R7 sobre o evento e seu atual cenário na manhã desta terça (24).

Leia com toda a calma do mundo.

leandro knopfholz annelize tozetto2 Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Leandro Knopfholz: "Festival de Curitiba não esconde informações, somos transparentes" - Foto: Annelize Tozetto/Clix

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o Festival de Teatro de Curitiba reage à forte concorrência de outros festivais, como a MITsp?
LEANDRO KNOPFHOLZ — O Festival de Teatro de Curitiba tem a proposta de conversar com o público. É seu grande diferencial. O teatro é a manifestação mais antiga que a gente conhece. Desde que o homem sentou-se em volta da fogueira para contar com um graveto que um bicho grande corria atrás dele, fazia teatro de alguma forma. O teatro continua sendo uma forma envolvente de se contar uma história. Isso é simples, mas é muito. A gente vive o momento em que a atenção das pessoas está cada vez mais dividida, as pessoas conversam com você e param para ver o celular. A atenção está dispersa por uma série de tecnologias, mas hoje você não tem só mais o graveto. Tem diversas formas de se contar a história. Mas, antes de tudo, ela precisa se comunicar. O festival entende teatro como uma arte que se comunica com o público, com espetáculos impactantes e que tocam as pessoas em diversas camadas, racional e emocionalmente.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Festival de Teatro de Curitiba desmistifica o teatro?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Sim. O Festival entende o teatro como uma arte que comunica. Ele convida o público para ir ao teatro de uma maneira corriqueira, como se fosse ao cinema. Não sei por que o teatro ainda tem uma cara mais solene. Se eu te convido para ir ao cinema, a gente sai do trabalho e vai. Já o teatro tem aquela coisa de ir para a casa antes e se arrumar todo. A gente quer desmistificar o teatro, mostrar que ele é uma coisa bacana, fácil, não precisa criar barreiras formais para ir ao teatro. O teatro é fácil, direto, se comunica e é envolvente.

rua FOTO daniel sorrentino Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Espaço para o teatro de rua: Festival de Teatro de Curitiba tem boa relação entre investimento e retorno de público - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando a comparar vocês com a MITsp, Curitiba tem público de 230 mil pessoas contra 17,5 mil do festival paulista em números prévios. Como vocês conseguem atingir tanta gente?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Acho que um dos nossos diferenciais é o Fringe, a nossa mostra paralela democrática, que faz com que os números fiquem muito maiores e que oneram menos o festival do que uma mostra internacional. E acho que a gente busca o público. Pensamos: quanto mais cheia a sala mais barato fica o espetáculo. Se a casa fica vazia, uma peça pode custar R$ 10 mil por pessoa, se você enche, esse valor pode cair  para R$ 10. Por isso, a gente vai atrás do público.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O orçamento é o mesmo do ano passado, mas o cenário atual é de crise econômica e alta do dólar. Como vocês lidam com isso?
LEANDRO KNOPFHOLZ — A gente diminuiu a programação de 38 para 29 peças na Mostra Oficinal e cortamos uma série de coisas. Tivemos de cortar custos, sim. Diminuímos convidados e outra série de questões. Renegociei com alguns fornecedores. A tradição nos ajudou, isso sem dúvida. A credibilidade e o carinho com o evento foram coisas importantes para realizar esta edição. O festival sem dúvida tem um patrimônio que é sua história e sua tradição, que são as relações criadas, que transcendem o contato puramente comercial. O festival é ume esforço conjunto de todos os envolvidos. E isso é muito importante.

sorrentino2 Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Público vê peça gratuita do Festival de Curitiba: "A cidade, em todas as suas camadas, está envolvida no evento; e você só pode ser global se você é forte local", diz Leandro Knopfholz - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Festival de Teatro de Curitiba sempre faz questão de divulgar seu balanço em seu último dia de evento. Outros festivais seguram os números ou sequer os divulgam. O balanço da MITsp por exemplo não sai até esta nossa conversa, nove dias após o término. Qual a importância para você de um evento deste porte ser transparente com a imprensa, os artistas e o público?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Respeitamos muito o público, a imprensa, os artistas, os produtores e os patrocinadores. Eu acho que o mundo é cada vez mais transparente. Na TV digital que meu pai comprou você vê a espinha da apresentadora do telejornal. É impossível você esconder qualquer coisa. O cidadão está com o dedo no nariz e alguém tira uma foto e coloca na rede social. O mundo é online, a TV é digital. A informação circula muito rápido. Não tem como maquiar ou distorcer. A gente tem uma filosofia aqui de administrar por indicadores. Para você administrar você tem de medir. Como trabalhamos com muitos fornecedores e parceiros, a gente tenta fazer com que essa informação flua da maneira mais rápida, precisa e transparente possível. A gente não esconde nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o Festival de Teatro de Curitiba tem que os outros festivais não têm?
LEANDRO KNOPFHOLZ — Tem uma história de 24 edições e isso leva a tudo: às relações interpessoais consolidadas, à tradição, ao carinho e ao orgulho que a classe teatral de todo o País e o curitibano tem do evento. O envolvimento das pessoas com o evento no dia a dia é incrível. Ontem, por exemplo, fui pegar meu carro estacionado, e a moça da zona azul do trânsito viu que eu era “o cara do festival” e veio me pedir se eu tinha o livrinho da programação, porque ela queria se programar. Isso é uma percepção que a cidade, em todas as suas camadas, está envolvida no evento. E você só pode ser global se você é forte local. Por isso, o Festival de Teatro de Curitiba é o maior e o mais importante festival de teatro do Brasil, conhecido em todo o mundo. Porque o Festival de Teatro de Curitiba não é um evento só para a classe teatral, é para o grande público também.

sorrentino Com 422 peças, Festival de Teatro de Curitiba é o principal do Brasil: “Não é só para classe teatral, é para o público também”, diz Leandro Knopfholz

Público lota arquibancadas na peça chilena El Hombre Venido de Ninguna Parte, em 2014, na praça Santos Andrade, uma das principais de Curitiba - Foto: Daniel Sorrentino/Clix/Arquivo R7

Leia a cobertura do R7 no Festival de Teatro de Curitiba!

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antunes filho foto bob sousa 20134 Entrevista exclusiva: Antunes Filho joga todas as fichas no simples em Nossa Cidade e provoca: “Eu estou de saco cheio dos musicais da Broadway”

O diretor Antunes Filho, que busca rumo novo em Nossa Cidade, que estreia em 4 de outubro de 2013 em São Paulo: "É um caminho novo; não sei se volta o Prêt-à-Porter" - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Assim que Bob e eu chegamos, o CPT, Centro de Pesquisa Teatral no sétimo andar do Sesc Consolação, em São Paulo, parece estar vazio. Diante de nosso olhar cabisbaixo, uma simpática funcionária da limpeza que passa pelo corredor nos alerta: “Pode entrar, ele está lá dentro esperando vocês”.

Abrimos a porta e seguimos pelo corredor, entre os cartazes de espetáculos emblemáticos, até chegar à sala de ensaio, onde o diretor Antunes Filho nos aguarda, sentado atrás da mesa, de costas para a varanda, da qual chega o sol da primavera que quebra o cinza do centro paulistano. Está acompanhado do ator Leonardo Ventura, protagonista de sua nova peça.

“Fiquem à vontade”, fala Antunes, para completar: “Vamos lá, então?”. Foi assim, direto ao ponto, que começou esta entrevista, especial e exclusiva, com um dos mais importantes diretores da história do teatro brasileiro ao Atores & Bastidores do R7.

Prestes a completar 84 anos em 12 de dezembro próximo, o jovial Antunes queria mesmo é falar da nova peça, Nossa Cidade, do norte-americano Thornton Wilder, que estreia dia 4 de outubro no Teatro Anchieta do mesmo Sesc Consolação. Data em que todas as atenções do teatro brasileiro estarão voltadas para aquele palco.

Bem-humorado durante o bate-papo, o diretor revelou que por pouco não fez esta peça na juventude como ator. E ainda permitiu que o papo enveredasse por outros assuntos, como a entrada de Mateus Carrieri em seu grupo, a saída de seu ex-pupilo Lee Taylor do CPT, a busca dos atores por dinheiro e, sempre Antunes, desceu a lenha no teatro musical importado da Broadway e disse que procura o simples em sua obra. Ele se comoveu ao falar da nova montagem: "Estou colocando todas as fichas em cima [...] Não sei se volta o Prêt-à-Porter. Eu só sei é que é preciso dar vazão a coisas novas".

Leia com toda a calma do mundo:

Antunes Filho [abrindo a entrevista] – Fale à vontade, Miguel!

Miguel Arcanjo Prado – Antunes, por que você resolveu montar Nossa Cidade?
Antunes Filho – Resolvi montar porque é uma peça que eu ia começar como ator, como Osmar Rodrigues Cruz [1924-2007, diretor e crítico teatral], mas a peça não foi montada. Quando eu a vi, era feita por estudantes, achei incrível, me comoveu. Por isso, eu queria fazer com o Osmar. Mas foi adiando, adiando e tchau... A peça é extraordinária. Pega a simplicidade de gente, de pessoas, das coisas mínimas, pequenas, e dá um relevo muito grande.

antunes filho foto bob sousa 201331 Entrevista exclusiva: Antunes Filho joga todas as fichas no simples em Nossa Cidade e provoca: “Eu estou de saco cheio dos musicais da Broadway”

Antunes Filho, sobre Nossa Cidade: "O espetáculo é crítico e bastante irônico, mas muito amoroso" - Foto: Bob Sousa

Em que este texto norte-americano de 1938 dialoga com o Brasil de hoje?
A peça dialoga na dramaturgia que eu fiz paralela, ou cruzada. Tem a peça do Thornton Wilder e a dramaturgia do CPT com a qual esta se cruza permanentemente. É como se fosse um diálogo nosso com o Thornton. É uma reconstrução. Aí está a chave do espetáculo. A peça dialoga com o mundo, não só com o Brasil e São Paulo. Tem valores e ideologias, do começo do século 20, de como foi constituído aquilo e como a coisa resulta no mundo hoje em dia. O espetáculo é crítico e bastante irônico, mas muito amoroso, simultaneamente. É nossa formação cultural também, do Brasil lá atrás, com a coisa do cinema americano, etc e tal.

Você tem fama de ser muito rigoroso. Os atores têm medo de você?
Não. Agora, nós estamos rindo juntos [risos].

Mas por que você ficou com essa fama?
Sabe por quê? Ontem, eu estava falando que a profissão mais linda do mundo é a profissão do ator. Eu acho. Porque ele pode viver mil vidas. É mitopoese para ele estar sempre no inconsciente coletivo. O ator navega nos inconscientes coletivos do mundo, entendeu? Então, ele pode ser o que quiser, como ele quiser. E os caras, quando vêm para o teatro, não vêm com essa ideia, vêm com a ideia de fazer teatro só para ganhar dinheiro. E sou muito exigente! Muito bem. E essa frase eu fiz antes de ontem: se eu critico os atores terrivelmente, os atores do teatro aí fora, como é que eu não vou criticar os meus? Eu critico muito os meus. Às vezes, eles pensam que eu estou criticando só os lá de fora; não, eu estou criticando os meus, permanentemente. Quero que eles tenham uma profunda técnica. Nós temos de fazer o produto e não ficar somente com aquilo que vem da terra. Eu quero que se produza. E o ator tem de produzir. O ator tem de ter técnica, técnica, técnica [enfático] De boa vontade eu estou com o saco cheio de ver. Eu quero ver é técnica! Porque se você não tem técnica, você explicita outra coisa, não aquilo que tem de explicitar, e nem se dá conta. Não quero mais ator como matéria prima, sabe? Eu quero ator como produtor, que pegue a matéria prima e faça alguma coisa com a matéria prima. Chega do pré-sal!

É verdade...
O que nós gastamos com o refinamento lá fora, bicho? A nossa dívida é gigantesca nisso! Vai pilhar sapo, pô! Se bem que pilhar é melhor do que empilhar sapo...

Antunes, para onde o vai o teatro brasileiro?
A pergunta não é “para onde vai o teatro brasileiro?”. É “para onde vai o teatro no mundo?”! Esta que é a questão. Está uma falta de dramaturgia, os atores estão mais preocupados só com dinheiro. Aliás, o mundo está preocupado só em correr atrás da grana. Se matando, se jogando, se suicidando. Essa história de consumo está enchendo o saco, pô. Não aguento mais! O ator também vive isso de uma forma violenta. Lá se foi o modernismo, já se foram certos valores, não tem mais aquilo. É pé no acelerador e vamos nessa!

Você acha que o Danilo Santos de Miranda [diretor regional do Sesc São Paulo] seria um bom ministro da Cultura?
Acho que ele seria genial como ministro da Cultura, mas eu não quero. Quero que ele fique com a gente aqui no Sesc. Aqui ele pode navegar sossegado. Lá em Brasília, ele vai ser comido por todos aqueles tubarões mensalistas, né? Haverá muita gente enchendo o saco dele. Aqui não tem isso.

Você já falou certa vez em ter peixes-guias sempre entre seus atores... Quem é o atual?
É ele [aponta para Leonardo Ventura, que acompanhou a entrevista]: o Leonardo Ventura. Ele é quem está sendo hoje. Ele faz muito bem o narrador em Nossa Cidade.

De onde veio elenco de Nossa Cidade?
Metade do elenco veio do CPTzinho [curso de introdução ao método de Antunes Filho no Sesc Consolação] deste ano. A outra metade foi duro de conseguir. Por isso, foi muito adiada a peça. Porque foi muito difícil encontrar tipos aproximados para os personagens. A peça, apesar de ser épica, vive de um “naturalisminho” que necessita de tipos próximos do pai, da mãe, do sobrinho [risos] Precisa de certas características. Eu tentei fazer um espetáculo com esses garotos que se passava no Oriente Médio e ficou uma porcaria. Eu desisti! Nunca mais! Não dá para fazer a olho mais. Você sabe, não somos uma companhia profissional, é uma cooperativa, tem de se virar com o que tem. Atores profissionais, como o Mateus Carrieri, têm de entrar com a boa vontade. Foi um sofrimento encontrar tipos aproximados, e não só aproximados, mas que soubessem também andar, falar, ouvir, essas coisas [risos].

E como foi a entrada do Mateus Carrieri no CPT?
O Mateus era para ter trabalhado comigo e não conseguiu. Ele se arrepende disso amargamente até hoje, ele mesmo faz questão de dizer. Acho que diz para me agradar. [em tom de brincadeira] Não fez a peça comigo e saiu para ficar por aí, rodando bolsinha nas esquinas... [risos]

Então, a volta dele é como a de um filho pródigo?
É isso aí, o Mateus é um filho pródigo! E bem pródigo.. [risos].

Qual a importância do Emerson Danesi [braço direito de Antunes no CPT]?
Sem ele, eu não poderia ensaiar. O Emerson é o respaldo, é o meu escudão. É o escudário!... [mudando de assunto] Você quer ver o cenário?

antunes filho foto bob sousa 201321 Entrevista exclusiva: Antunes Filho joga todas as fichas no simples em Nossa Cidade e provoca: “Eu estou de saco cheio dos musicais da Broadway”

Antunes Filho: "Eu estou de saco cheio desses musicais da Broadway e da alta tecnologia" - Foto: Bob Sousa

Quero.
[Antunes mostra a sala de ensaio vazia, com cortinas pretas ao fundo] É exatamente isso aí que você está vendo, Miguel. Esses panos pretos aí. Basta de alta tecnologia! Eu estou de saco cheio desses musicais da Broadway. Dessa alta tecnologia, porque quero ver teatro e fico vendo outra coisa, tendo experiência. Se quisesse ver lâmpada e fio eu iria a um museu industrial. Eu estou cansado disso! Quero teatro, quero o ator de volta à sua função primitiva...

Você acha que está todo mundo saturado disso, Antunes?
Pelo amor de Deus! O público está de saco cheio da tecnologia. Isso está enchendo o saco. O que tem nessa peça, Nossa Cidade, é exatamente este recado. Por isso, ninguém vai assistir duas vezes só essa peça. Vai assistir mais. Ela me deu muito trabalho e eu pude aprofundar uma porção de coisas, os signos.

Você está apaixonado pela peça?
Eu gosto imensamente dessa peça. Eu me comovo sempre que vejo. E me comove esse embate Thornton Wilder com o que fizemos, que é discutir uma ideologia americana para o mundo. É muito intrigante.

Seus ensaios foram todos secretos?
Não deixei ninguém ver o ensaio, nem meus amigos. Quero pegar vocês de surpresa e ver o que acontece. Estou jogando minhas fichas todas neste espetáculo. As pessoas pensam que eu simplifiquei. Eu estou simplificando sempre o teatro. Quanto mais simples melhor. Mas a complexidade está aí. Do ponto de vista de colocação de cena é um dos espetáculos mais simples e bonitos que eu fiz. Se quiser discutir semiologia, tem aí espaço para discutir à vontade. E tem coisas curiosas: como é que corporifico o vazio, o silêncio, a ausência. Isso é interessante.

É complexo, então.
Tem uma complexidade, porque são duas peças. Tem ele falando, o Thornton, e temos nós falando. Ele viveu em uma época em que ele não tinha o instrumental cultural que temos hoje para discutir sua realidade. Assim como discutimos os alvores da Republica Brasileira em Policarpo Quaresma [espetáculo de 2010], agora estamos discutindo os alvores de uma ideologia que vai se propagar pelo mundo, e como! Isso está sendo colocado no espetáculo. É interessante também que o narrador do Thornton é um ser passivo, e o nosso é ativo. Ele é o homem que vem de longe, teve uma experiência imensa e vai contar sua experiência através do texto do espetáculo, e ele conta as experiências da vida dele junto. E isso dá um embate muito rico.

Dá para ver que a peça mexe com você, Antunes.
É um espetáculo comovente. É coisa rara isso em ume espetáculo meu. Acho que só O Diário de Anne Frank [espetáculo de 1958] era comovente assim. [fica com os olhos cheios de lágrimas]. É um espetáculo que mexe com minha sensibilidade, é inteligente, é um dos mais complexos espetáculos que fiz. Eu me comovo até nos ensaios. E você sabe que eu não gosto muito de ficar vendo ensaio. Mas deste eu vejo tudo. Neste ano, que estamos comemorando o 35° aniversario de Macunaíma [montagem emblemática de Antunes de 1978], este espetáculo é importante. Estou colocando todas as fichas em cima.

Esse recado você buscava desde que pensou a peça no Oriente Médio que não deu certo há dois anos?
Aquela da molecada fazendo muçulmano não dá! [risos] É muito difícil para mim encontrar uma peça com o que eu quero dizer no teatro; quero mostrar os problemas do homem mais profundos. É muito difícil você encarar isso. Por isso, eu fui para Oriente Médio e depois para Nossa Cidade. Estava buscando algo mais abrangente, não só individual e particular. Quero dizer coisas mais amplas no teatro, sem fazer molecagem, compreende? Com responsabilidade. Não é simplesmente ver Nossa Cidade bonitinha. Tem isso, que é comovente, mas também tem outras coisas. É um prato recheado para a plateia, é uma hora e meia para se abastecer até o Natal e o Ano-Novo [risos].

Antunes, como você recebeu a saída do [ator] Lee Taylor do CPT [que criou o Núcleo de Artes Cênicas do Centro da Cultura Judaica de SP]?
Quem?

O Lee Taylor.
Ah, ele não saiu.

Não?
O CPT se espalha. É uma mancha de óleo. Você vai no Nordeste, na Bolívia, tem gente do CPT. Ai, meu deus do céu! Você vai para Nova York, também tem. Sempre tem por aí gente que fez o CPT.

Mas pergunta que todo o teatro brasileiro quer saber é: você tem mágoa do Lee?
Já inventaram que eu tinha mágoa com o Luiz Mello, com a Giulia Gam, com a Gloria Menezes, com o Paulo Autran, e essa aí foi forte... Com o Jardel Filho... [mudando de assunto] Olha, eu aposto que as pessoas vão gostar muito de ver essa peça.

Antunes, nesta sexta eu fui ver o Vestido de Noiva dirigido pelo Eric Lenate, que também saiu do CPT. Os atores gritavam e eu sei que você detesta grito no teatro. Acha que essa é uma provocação de discípulo ao mestre?
Ele tem a maneira dele, o jeito dele.... O Lenate trabalha como ator nessa peça aqui no Sesc [Nosferatu]. Ele falou que quer sair do escuro, mas ele não pode sair do escuro [Lenate vive um vampiro na obra]. Ele está ótimo, o problema é que a peça ele fez em um mês... Agora, essa aí que você foi ver, Vestido de Noiva, dele como diretor, eu não vi. Eu precisaria ver para saber por que é que está todo mundo gritando desse jeito que você falou [risos].

Então, para acabar: como fica o Prêt-à-Porter [tradicional série de cenas curtas desenvolvidas pelos atores que trabalham com Antunes]?
Por enquanto está meio parado. Nossa Cidade é esse novo rumo que te falei, que eu estava procurando, primeiro com os árabes e agora com o Thornton. É um caminho novo. Não sei se volta o Prêt-à-Porter. Eu só sei é que é preciso dar vazão a coisas novas.

antunes filho foto bob sousa 20135 Entrevista exclusiva: Antunes Filho joga todas as fichas no simples em Nossa Cidade e provoca: “Eu estou de saco cheio dos musicais da Broadway”

O diretor Antunes Filho posa com Leonardo Ventura (à esq.), protagonista de Nossa Cidade e seu novo pupilo: "É preciso dar vazão a coisas novas", declara - Foto: Bob Sousa

Nossa Cidade
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. 90 min. Temporada de fim indeterminado
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Villa Nova, 245, Vila Buarque, Metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 32 (inteira); R$ 16 (meia-entrada): e R$ 6,40 (comerciários e dependentes)
Classificação etária: 12 anos
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carlos celdran argos teatro eduardo enomoto 1 “O teatro cubano hoje pode ser mais crítico”, diz Carlos Celdrán, que mostra submundo de Havana

O diretor cubano Carlos Celdrán, do Argos Teatro de Havana, da peça Talco - Un Drama de Tocador, que está na Mostra Latino-Americana: "Hoje, Cuba apresenta uma cena teatral viva e forte" - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Talco – Um Drama de Tocador é um dos espetáculos mais aguardados da 8ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, que acontece até domingo (21) no Centro Cultural São Paulo com entrada gratuita. O espetáculo, que será apresentado neste sábado (20), às 21h, é feito pelo Argos Teatro, companhia sediada há 15 anos em Havana, Cuba. Os ingressos começam a ser distribuídos às 16h do mesmo dia.

A premiada montagem descortina uma Havana que o regime da ilha dos irmãos Castro não costuma vender. Com autoria de Abel Gonzáles Melo e direção de Carlos Celdrán, a peça mostra um velho cinema da capital cubana, onde personagens marginais se encontram. O espetáculo mostra uma “violência oculta, mas presente” na realidade atual de Cuba.

A obra tem assistência de direção de Yemandro Tamayo, música de Denis Peralta, luz de Manolo Garriga, figurinos de Vladimir Cuenca e cenografia de Alain Ortiz. No elenco, estão Waldo Franco, José Luiz Hidalgo, Alexander Díaz e Rachel Pastor.

O Atores & Bastidores do R7 conversou com o diretor da peça, Carlos Celdrán. Ele falou sobre o seu teatro e como é fazer uma peça com um tema corajoso como este para o contexto político em que vive. Leia a entrevista exclusiva:

talco julio de la nuez 3 “O teatro cubano hoje pode ser mais crítico”, diz Carlos Celdrán, que mostra submundo de Havana

Talco - Un Drama de Tocador - Foto: Julio de la Nuez

Miguel Arcanjo Prado – Como é fazer um teatro crítico estando em Cuba?
Carlos Celdrán – Creio que o bom teatro tem uma postura crítica dos problemas da sociedade. E encontra, de alguma forma, um modo de fazer isso. O teatro tem de mostrar as contradições humanas e também políticas no palco. Mas, para isso, é preciso ter um discurso teatral sólido. Esta é nossa postura.

Vocês são um dos principais grupos de Cuba. Foi fácil conseguir autorização para vir à Mostra Latino-Americana?
Sim, foi fácil. É só apresentar a carta-convite que não há problemas. Temos 15 anos de fundação. Somos um grupo de atores jovens, já que também trabalhamos como escola. Sempre pensamos a realidade cubana em nosso teatro.

Falando em Cuba, vocês ficaram sabendo lá que a blogueira cubana Yoani Sánchez foi hostilizada recentemente pela esquerda brasileira, em sua vinda ao País, por ser crítica ao regime cubano?
Não, essa notícia não chegou lá.

A obra de vocês fala de uma Cuba que o governo da ilha não gosta muito de mostrar...
A obra fala do submundo marginal da Havana de hoje. Tem travestis, prostitutas, tráfico de drogas. São novos cenários que o teatro também tem de discutir.

Qual é o teatro que Cuba traz ao Brasil?
Eu não falo em nome de Cuba, que fique bem claro. Nós não somos políticos. Somos artistas. Me interessa que minha linguagem teatral seja vista e compreendida. E que a nossa visão de mundo e de realidade possa chocar com outro público, com nosso tema teatral e nossa visão de nossa história.

Como foi a negociação para fazer uma peça como esta?
É um processo a relação com o Estado. É uma negociação constante. Por que é um processo? Porque já foi mais lento e fechado e, pouco a pouco, abrimos os limites do que se deve falar ou não. Neste momento, o teatro cubano pode ser mais crítico do que foi antes. Foi um processo longo e difícil. Mas, hoje, Cuba apresenta uma cena teatral viva e forte. E por que é uma negociação? Porque você, como artista de teatro, precisa encontrar o jeito de falar tudo o que você quer sem que seja censurado. E o governo também tem de negociar com a gente a necessidade de apresentar uma problemática no palco. Porque uma cena sem problemas é mais perigosa que uma cena com problemas. É uma luta difícil, mas possível.

carlos celdran argos teatro eduardo enomoto 2 “O teatro cubano hoje pode ser mais crítico”, diz Carlos Celdrán, que mostra submundo de Havana

Carlos Celdrán, do Argos Teatro: "Fazer teatro em Cuba é uma luta difícil, mas possível" - Foto: Eduardo Enomoto

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shapiro mirada camila marquez Exclusivo: entrevista com o diretor russo Adolf Shapiro: “O teatro russo é o melhor do mundo”

Diretor russo Adolf Shapiro (o terceiro da dir. p/ a esq., de roupa escura e óculos) com a mundana companhia em um dos ensaios de Pais e Filhos no Festival Mirada, na cidade de Santos (São Paulo) - Foto: Camila Marquez

Por Miguel Arcanjo Prado*
Enviado especial do R7 a Santos**

Adolf Shapiro é um dos maiores nomes vivos do teatro russo. Aos 73 anos, faz intercâmbio com o Brasil ao dirigir a montagem paulistana Pais e Filhos, da mundana companhia. Estreia nesta terça, às 21h30, no Teatro Coliseu, em Santos. A adaptação do romance homônimo do russo Ivan Turguêniev (1818-1883) é um dos destaques da programação do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos.

Shapiro está no Brasil desde 13 de agosto e fica até 8 de outubro. Ele estará na estreia do espetáculo em São Paulo, no dia 28 de setembro, no Sesc Pompeia.

O artista começou a dirigir peças na Letônia, na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com apenas 23 anos. Hoje, é referência mundial no método de Stanislavski, já que estudou com Maria Knébel (1898-1985), que foi discípula do próprio Constantin Stanislavski (1863-1938).

O mestre russo conversou com o R7 em uma mesa à beira da piscina do Sesc Santos, no último domingo (9), enquanto fumava um cigarro e tomava um café. Leia a entrevista exclusiva:

Miguel Arcanjo Prado – O que você conhecia do teatro brasileiro antes de trabalhar com a mundana companhia?
Adolf Shapiro – O teatro brasileiro, antes de mais nada, estava na minha imaginação, porque eu não o conhecia. Claro que lia algo a respeito, mesmo porque trabalhei bastante na América Latina, sabia um pouco do estilo de vida dos brasileiros, mas não posso dizer que conhecia o teatro do Brasil. Hoje, não conheço ainda. Porque passei a maior parte do tempo em São Paulo e sei que o País é grande, com variados climas, economias e, claro, distintos teatros. Conheço um pouco já, mas meu interesse em conhecer mais é muito grande.

Miguel Arcanjo Prado – Como você teve contato com a mundana companhia?
Adolf Shapiro – O primeiro contato foi por meio da Elena Vássina [professora de letras russas da USP, Universidade de São Paulo]. Ela esteve no Festival Internacional Tchekhov em Moscou e me apresentou ao Danilo Santos de Miranda [diretor regional do Sesc São Paulo]. E quando apareceu a oportunidade de vir ao Brasil, eu aceitei. Não só para trabalhar, mas para descobrir coisas novas também.

adolf shapiro Exclusivo: entrevista com o diretor russo Adolf Shapiro: “O teatro russo é o melhor do mundo”

O diretor russo Adolf Shapiro

Miguel Arcanjo Prado – O que você acha dos atores brasileiros?
Adolf Shapiro – Eu sempre respondo da mesma forma no mundo inteiro a esta pergunta. Todos os bons atores são individualmente bons e todos os atores ruins são idênticos uns aos outros em qualquer lugar do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como é trabalhar com a mundana companhia?
Adolf Shapiro – É muito interessante trabalhar com a mundana companhia. Não são apenas talentosos, mas têm conteúdo. Isso diz respeito às aspirações deles. É a preparação para um processo experimental. É a segunda vez que trabalhamos juntos e isso testemunha nossa boa relação.

Miguel Arcanjo Prado – A mundana companhia fez sucesso recentemente em São Paulo, Belo Horizonte e Rio com a montagem de O Idiota, de Dostoievski, com grande procura do público pela peça. Você imaginava que os brasileiros gostassem tanto da cultura russa?
Adolf Shapiro – Eu imaginava que havia certo interesse, sim. Em primeiro lugar, porque fui convidado a trabalhar aqui no Brasil. E a minha desconfiança de que havia interesse na cultura russa me veio antes, quando trabalhei na Nicarágua, na época da Revolução Sandinista. Quando cheguei lá vi que um pequeno teatro tinha na entrada um retrato de Tchekhov. Montei Gogol na Venezuela e notei que havia um interesse. Só não sabia que ele era tão grande aqui no Brasil.

Miguel Arcanjo Prado – Isso lhe espanta?
Adolf Shapiro – Não existe nada de surpreendente nisso. Não quero parecer patriota, mas a literatura russa é um dos grandes fenômenos culturais mundiais. Às vezes, nós os russos não temos essa dimensão, assim como os colombianos não entendem que o Gabriel García Márquez é um mito da literatura mundial, ou muitos brasileiros desconhecem como Jorge Amado é conhecido e lido em outros países como a Rússia.

Miguel Arcanjo Prado – Já que você falou em patriotismo, vou fazer uma pergunta mais provocativa. O teatro russo é o melhor do mundo?
Adolf Shapiro – Sem dúvida alguma. O teatro russo é o melhor do mundo. Nisto não há espaço para a dúvida. Toda o teatro mundial da segunda metade do século 20 ocorreu por influência do teatro russo. De Stanislavski, de Tchekhov. Isso não é opinião minha. É fato. Tennessee Williams e Bertold Brecht diziam isso. Mesmo quem não é fã do teatro russo reconhece que ele é um fenômeno. Nos centros teatrais do mundo inteiro a grande influência é o teatro psicológico russo. E isso vem muito pela força da literatura russa, tão poderosa e que ajudou na criação do teatro psicológico.

Miguel Arcanjo Prado – Você estudou diretamente com Maria Knébel, discípula direta de Stanislavski. Você se considera um representante dele no Brasil?
Adolf Shapiro – Não. Eu não me considero um representante de carne e osso de Stanislavski. Seria muita pretensão de minha parte. Apenas tento compartilhar esses ensinamentos com as pessoas, mas sem o objetivo de fazer disso minha pregação pessoal. Eu compartilho isso com eles pensando que eles serão capazes de filtrar. Apesar de eu ter uma grande reverência por este conhecimento, eu não acho que exista regras e leis para todos os tempos teatrais. No teatro, não podemos ser continuadores. Temos de ser pesquisadores.

Miguel Arcanjo Prado – O Brasil viveu uma ditadura militar de direita, entre 1964 e 1985, que demonizava tudo o que vinha da União Soviética. Você sabia disso?
Adolf Shapiro – Eu sei que houve uma ditadura militar, mas não sabia que eles proibiam tudo que era russo. Mas eu não me surpreendo, porque qualquer ditadura gera pessoas loucas. O que diz respeito aos dias de hoje, o Brasil é um dos países que mais se desenvolveram no mundo. E é impossível se desenvolver isoladamente. O mundo de hoje é interligado. E se a gente não descobrir outros lugares do mundo, o desenvolvimento torna-se impossível. O problema do mundo contemporâneo está em como manter todo esse contato com o outro e continuar com as particularidades individuais. Esse é um grande problema para os países em desenvolvimento.

Miguel Arcanjo Prado – Qual a sensação você vai levar do Brasil quando voltar à Rússia?
Adolf Shapiro – Vou levar a sensação de que esse país tem uma noção clara de futuro e está direcionado ao futuro.

*Entrevista com tradução simultânea pelo intérprete de russo Diego Moschkovich.

**O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc Santos.
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