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ze celso bob sousa2 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

O fundador e diretor do Teat(r)o Oficina, José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, à vontade, no banheiro de seu apartamento, em São Paulo, onde deu entrevista ao R7 - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

O sol começa a cair quando Bob Sousa e eu chegamos ao Teat(r)o Oficina, no número 520 da rua Jaceguai, no Bixiga, para entrevistar e fotografar José Celso Martinez Corrêa, um dos maiores diretores teatrais do Brasil e do mundo. Ele ainda não está.

Otto Barros, diretor de cena do grupo, nos convida a entrar. Acomodamo-nos na arquibancada criada por Lina Bo Bardi, para quem a nova peça é dedicada por conta do centenário de nascimento da arquiteta. Uma porta se abre. Ainda não é o Zé, mas a atriz Nash Laila, que logo vai para o fundo do teatro e se deita no chão. Esperamos.

Pouco depois, aparece Beto Mettig, assessor do grupo, com o aviso urgente: Zé não virá mais ao Oficina nos ver. O convite agora é irmos ao seu encontro, em seu apartamento, no Paraíso, onde ele nos aguarda. Corremos para lá.

Zé Celso desce no elevador até o hall para nos receber. Dá abraços e beijos. Conta que o lê o blog e nos diz: "Até que enfim o teatro tem vocês, gente que gosta de teatro". Ficamos lisonjeados. O elevador chega no seu andar, e ele nos convida a entrar no apartamento.

Mineiramente, peço licença. Logo, Zé nos conduz, enquanto diz: "Separei um lugar incrível para fazermos a entrevista". Abre a porta de seu banheiro. E começa a dirigir: "Miguel, você se senta aí, na privada. E eu fico aqui, nesta cadeira. Bob fique à vontade para fazer as fotos".

No bate-papo, repleto de inteligência e visão minuciosa de tudo ao redor, Zé Celso falou, sobretudo, de sua nova peça, Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada, ou apenas Cacilda 5, que estreia neste sábado (26) — veja serviço ao fim da entrevista — com mais um capítulo da odisseia do Oficina sobre Cacilda Becker (1921-1969).

A montagem faz do embate entre as atrizes Cacilda Becker e Tônia Carrero no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) uma alegoria do teatro brasileiro, aproveitando para dar sua visão artística a temas atualíssimos, que vão desde a ambição da especulação imobiliária, que coloca abaixo o pouco de poesia que restou em São Paulo, entulhando a Selva de Pedra com mais espigões, até a tão falada temporada paulistana de The Old Woman - A Velha, peça de Bob Wilson com Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe.

Nada fica distante do olhar atento de Zé Celso, reconhecido no mundo como um dos gênios do teatro. E o melhor: ele é nosso e faz da cultura brasileira seu principal material artístico. Aos 77 anos, está à frente do Oficina desde 1958.

Zé Celso deu também seus pitacos em outros temas. Falou da recente Copa do Mundo, do avião que caiu na Ucrânia e da sangrenta guerra entre Israel e Palestina. Além de revelar em quem pretende votar para presidente na próxima eleição e qual peça deseja montar em breve.

Leia com toda a calma do mundo.

ze celso bob sousa11 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

Zé Celso conversa com o jornalista Miguel Arcanjo Prado em seu banheiro - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Como está Cacilda 5?
José Celso Martinez Corrêa —
Estava tudo um caos, mas aí tive uma inspiração. Esta peça foi uma loucura, porque tivemos só um mês e meio para ensaiar. Então, nesta terça-feira, chegamos ao ensaio geral e estava todo mundo sem o texto, ninguém tinha decorado direito. Aí, percebi que estava com medo, apavorado. E a pior coisa que existe é o medo. Foi aí que entendi que devíamos assumir tudo isso. Então, transformei o espetáculo no show do vexame. Porque entendi que o obstáculo maior para o artista é a paranoia. Resolvi radicalizar mesmo: a peça é um grande ensaio.

Miguel Arcanjo Prado — Como é a peça?
José Celso Martinez Corrêa —
Os artistas estão se preparando para um ensaio de Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello, no novo TBC, que eu chamei de Teatro Berrini de Comédia. Sabe esses teatros chiques que estão por aí?.... Então, é como se fosse uma dessas superproduções. Tipo um Bob Wilson... Aí, o teatro é invadido pelos Coros de Pega Fogo das ruas do mundo. Os personagens do TBC têm desejo de atuação, querem exercer poder da presença... Eles estão em busca da  própria encenação da peça. Com a chegada da Tônia Carrero, as coisas mudam; Cacilda vai vê-la ali, linda e também apaixonada pelo teatro, e ainda como o novo amor de Adolfo Celi. É uma barra. É quando Cacilda sai do TBC e vai para os novos caminhos da sua odisseia...

Miguel Arcanjo Prado — Como está o elenco?
José Celso Martinez Corrêa —
O elenco está ótimo, eles têm uma força descomunal! A Camila Mota e a Sylvia Prado vão fazer a Cacilda novamente, são duas atrizes excelentes, estão fazendo cenas incríveis. Eu me emociono sempre quando vejo.

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha do Bob Wilson?
José Celso Martinez Corrêa —
Eu gosto do Bob Wilson, mas o que ele é na verdade é um artista plástico do teatro, ele faz quadros. Eu sou do te-ato.

ze celso bob sousa3 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

O diretor Zé Celso, logo após a entrevista em seu apartamento, mostra fotos da história do Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o que vai acontecer com o "Teatro Berrini de Comédia" da peça?
José Celso Martinez Corrêa —
E esse teatro será invadido pelos Pega Fogo das Ruas, junto do público. O Marcelo Drummond está fantástico como o diretor que fará testes com os atores. Esse teatro comercial que é feito por aí... Eu mesmo fiz uma novela na Globo para ver o que era [Cordel Encantado, em 2011]. Não gostei da experiência! Fiquei pensando que com todo aquele aparato técnico eles poderiam fazer coisas incríveis! Mas, não, fazem aquela coisas... Nesta cena vamos usar o janelão, que fica do lado oeste do Oficina, que dá para a rua da Abolição. Vai ter uma névoa... Os personagens, os artistas do antigo TBC, o coro de Pega Fogo das Ruas vão todos se misturar, numa quebra de classes. Vamos mostrar a Cacilda no momento em que veio a Tônia Carrero para competir com ela. A Tônia será a atriz Joana Medeiros, que também está fantástica. Imagina isso, a Cacilda viu de repente a figura da Tônia ao lado dela e precisou reagir. O Roderick Himeros fará o Adolfo Celli, que vai se apaixonar pela Tônia. Ele está ótimo também, numa construção muito linda.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês dedicam a peça a Lina Bo Bardi?
José Celso Martinez Corrêa —
Sim! Isso é muito importante de ser dito. A peça celebra o centenário da Lina [arquiteta que criou a sede do Tea(r)o Oficina e também criou o prédio do Masp]. A Lina dizia que o Oficina-Terreiro era o "Chão de Terreiro com as Galerias do Teatro Scala de Milano, dando para as catacumbas di Silvio Santos". Vamos iluminar o público por trás, com grandes holofotes, para concretizar a visão dela.

Miguel Arcanjo Prado — Você gosta de estreia?
José Celso Martinez Corrêa —
Estreia é o pior público que existe! Vamos estrear um grande ensaio, que vai ir crescendo, junto ao público, até atingir a beleza, com a multidão. Os meninos falaram de chamar todo mundo. Eu não sei o que vai ser. A peça vai ser um grande ensaio com o público. Ela vai mudando a cada apresentação.

Miguel Arcanjo Prado — O que você achou da Copa do Mundo no Brasil?
José Celso Martinez Corrêa —
A Copa trouxe o humor de volta, tinha uma leveza no ar. Pelo menos até o 7 a 1 na semifinal. Eu achei a Copa ótima. Acho um absurdo quererem dizer que a Copa deu errado, tentarem jogar a culpa na Dilma. É claro que o 7 a 1 é inesquecível, mas faz parte do esporte e foi uma espécie de revelação de Exu. Porque os alemães bateram o tambor lá na Bahia... Eles entraram usando vermelho e preto no campo. Isso foi um sinal. Agora, temos o Dunga de técnico outra vez. O Brasil precisa mesmo é de um técnico estrangeiro, que venha para cá e mergulhe na nossa antropofagia. Que faça o que aconteceu com o TBC, que trouxe diretores estrangeiros para mergulharem na nossa cultura antropofágica oswaldiana. Porque hoje falta aquela malemolência do nosso futebol. E isso foi trazido pelos negros, esse modo de jogar com arte. E é preciso dizer que quem começou a valorizar essa herança africana no nosso futebol foi Nelson Rodrigues e sua família. Antes, era um prazer ver um jogo de futebol. Era lindo. Hoje, é aquela coisa fria, truncada, uma dureza... A gente tem de redescobrir aquele futebol que era um verdadeiro espetáculo. Até porque o futebol é o verdadeiro espetáculo do mundo. O Cristiano Ronaldo no chão, fazendo aquelas caras...

ze celso bob sousa4 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

Zé Celso gostou da Copa, mas detestou a abertura; revelou: votará em Dilma - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o que você achou da abertura da Copa?
José Celso Martinez Corrêa —
Aquilo foi um horror! Uma vergonha! O Brasil que tem as escolas de samba, o Boi-Bumbá, aquela festa linda em Parintins, lá na Amazônia, apresentar aquela pobreza, aquela coisa sem graça. No encerramento, até que melhorou um pouquinho, porque trouxeram um pouco do Carnaval e da escola de samba, mas não chegou perto da riqueza gigante da cultura brasileira. A cultura popular brasileira é genial, é única, é exuberante!

Miguel Arcanjo Prado — E a vaia que a Dilma levou?
José Celso Martinez Corrêa —
Eu acho que a Dilma deveria ter assumido aquela vaia, e não ficar retraída, com medo. Quando ela aparecia na TV dava para ver a bílis no rosto dela. Toda travada. Aquela outra, não, a Angela Merkel, da Alemanha, ela até sorria. Tudo bem que ela estava ganhando, mas ela estava muito mais leve. Agora, a Dilma estava com muito medo. Ela precisa parar com isso! Eu adoraria dirigir a Dilma! Ela deveria ter recebido a vaia de braços abertos, com gozo. Ainda mais por ser uma vaia daquela arquibancada, que é a elite branca, nervosa porque ela governou para a outra classe mais pobre. Então, ela deveria ter recebido aquela vaia como um elogio. É vaia que temos? Então, podem me vaiar! [abre os braços, sorrindo]

Miguel Arcanjo Prado — Em quem você vai votar nas eleições para presidente?
José Celso Martinez Corrêa —
Eu vou votar na Dilma. Não porque seja do PT, porque não sou de partido nenhum. Mas, porque o PT ainda mantém um diálogo com o social, com a cultura. O PSDB não faz isso. É um horror a relação que os tucanos têm com a cultura e com o teatro. E a água em São Paulo que está acabando? Eu não tomo mais essa água do volume morto. Nós vamos ficar sem água! Isso parecia uma coisa distante, mas é agora!

Miguel Arcanjo Prado — E como anda a questão do terreno no entorno do Oficina que ainda pertence ao Grupo Silvio Santos?
José Celso Martinez Corrêa — O Juca Ferreira [secretário municipal de Cultura de São Paulo] está fazendo um bom trabalho. Para mim, a reabertura do Cine Belas Artes no último fim de semana foi um grande marco, com aquela gente toda em frente, abraçando o cinema. Foi lindo, eu me emocionei muito. O novo Plano Diretor de São Paulo prevê a criação de um corredor cultural no Bixiga, um enorme caminho da cultura que vai passa pelo Oficina, o TBC, a Vai-Vai. Espero que haja a troca do terreno, parece que vão conseguir um para o Grupo Silvio Santos perto do SBT, naquela região da rodovia Anhenguera, que é linda, mas não vai ser preservada, o que é uma pena. O do entorno do Oficina ficaria para a cultura. Mas a gente nunca tem certeza do que vai acontecer... A especulação imobiliária é o Creonte dos dias de hoje, tanto que fiz um Creonte especulador na peça, que está sendo feito brilhantemente pelo Marcelo Drummond. A especulação é o grande mal do mundo de hoje! Está um absurdo. Muitos grupos teatrais estão sofrendo com isso. Mas isso também fez com que os teatros que são vítimas da especulação se juntassem. Somos dez grupos unidos nesta guerra. Estamos caminhando juntos nisso. E isso é lindo, é igual à união que houve na França nos anos 1920 que reergueu o teatro francês. O terreno no entorno do Oficina tem de ser da cultura!

Miguel Arcanjo Prado — Como você vê a Guerra entre Israel e Palestina?
José Celso Martinez Corrêa —
Acho um horror o que está acontecendo agora na Palestina. Aquilo é um verdadeiro massacre dos palestinos. Aquilo parece Guerra de Troia, um massacre de um povo, matando todo mundo, não deixando vivos nem crianças, mulheres e velhos, para não deixar rastro, para não sobrar nenhum. E ainda eu fico horrorizado ao ver declarações absurdas de autoridades israelenses defendendo o massacre da população palestina, dizendo que tem de matar mesmo. O horror! E esse avião agora que foi abatido na Ucrânia cheio de passageiros, daquele jeito? As coisas estão terríveis...

Miguel Arcanjo Prado — Você tem algum novo projeto de espetáculo em mente?
José Celso Martinez Corrêa —
Quero fazer Senhora dos Afogados, do Nelson Rodrigues, que tem a família Drummond, um sobrenome mineiro como você.

ze celso bob sousa5 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

"Quero fazer Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues", diz Zé Celso - Foto: Bob Sousa

Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada (Cacilda 5)
Quando: Sábado e domingo, 19h. De 26/7/2014 a 14/9/2014
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada) e R$ 5 (moradores do Bixiga com comprovante de residência)
Classificação etária: 14 anos

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maria de medeiros eduardo enomoto1 Exclusivo: Miguel Arcanjo entrevista atriz portuguesa Maria de Medeiros para o R7

Maria de Medeiros lança disco e filme no Brasil, além de atuar em peça - Foto: Eduardo Enomoto/Veja galeria!

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

A atriz, cantora e cineasta portuguesa Maria de Medeiros concedeu entrevista exclusiva ao R7.

Veja a galeria de fotos da entrevista!

A estrela internacional de filmes como Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, no qual foi namorada de Bruce Willis, está em cartaz com a peça Aos Nossos Filhos no Tuca, em São Paulo.

O trabalho na obra lhe rendeu indicação como melhor atriz ao Prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).

Ela também lança o filme documentário Repare Bem no Festival de Gramado e ainda o disco Pássaros Eternos, seu terceiro álbum e dessa vez com composições próprias. A atriz falou sobre sua carreira e estes novos trabalhos.

Quer concorrer a par de ingresso para a peça? Comente este post e diga por que quer ver a peça de Maria de Medeiros, Aos Nossos Filhos.

Veja o vídeo, abaixo, com a entrevista completa:

miguel arcanjo prado maria de medeiros foto eduardo enomoto Exclusivo: Miguel Arcanjo entrevista atriz portuguesa Maria de Medeiros para o R7

Miguel Arcanjo Prado conversa com Maria de Medeiros: estrela no R7 - Veja mais fotos de Eduardo Enomoto!


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galvarino pierre duarte Teatro de perto: dramas familiares ganham força em espetáculos latinos do FIT Rio Preto 2013

Dor em família: drama chileno Galvarino é o grande destaque do FIT Rio Preto 2013 - Foto: Pierre Duarte

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial do R7 a São José do Rio Preto (SP)*

Um filho desaparecido e a família que ficou em uma espera sem fim. Uma babá que reaparece e faz florescer a decadência de uma família. Lembranças de integrantes da banda que tocava para o narcotraficante Pablo Escobar mortos em um atentado a bomba.

Os espetáculos latino-americanos do Festival Internacional de São José do Rio Preto, o FIT 2013, estão recheado de dramas familiares. São eles o chileno Galvarino, o argentino Emilia e o colombiano Discurso de um Hombre Decente.

Não por acaso, o tema da 13ª edição, que vai até o próximo dia 13 de julho, é a proximidade entre realidade e ficção.

Dois deles estarão em São Paulo capital nesta semana: Galvarino, nos dias 10 e 11, 21h, no Sesc Pompeia; e Discurso de um Hombre Decente, nos dias 9 e 10, também às 21h, no Sesc Vila Mariana.

galvarino pierre duarte 2 paula gonzales seguel Teatro de perto: dramas familiares ganham força em espetáculos latinos do FIT Rio Preto 2013

Arrebatadora: diretora e atriz Paula González Seguel em cena de Galvarino - Foto: Pierre Duarte

Desaparecimento e descaso político

O espetáculo chileno Galvarino, a grande sensação do evento, é baseado na história real do tio da diretora Paula González Seguel, da Compañia Teatro Kimen, de Santiago.

Galvarino existiu de verdade e foi morar na Rússia nos anos 1970. Desapareceu logo após a queda do comunismo, na década de 1990. O drama da família mapuche, a principal etnia chilena, à espera de notícias rendeu uma obra que conta com a própria diretora interpretando sua tia e contracenando com o próprio avô, Luis Seguel, que na peça interpreta o pai de sua personagem. A atriz Elza Quinchaleo vive a mãe de Galvarino.

Esta é a primeira vez que a montagem, com dramaturgia e codireção de Marisol Veja Medina, é apresentada fora do Chile. Em conversa exclusiva com o R7, Paula conta que a obra aborda “uma situação dolorosa para sua família”.

– A dor é muito forte e ficou guardada durante muito tempo em silêncio. O povo mapuche foi vítima de muita injustiça e descaso das autoridades. De alguma maneira, o teatro está dando visibilidade internacional a isso.

Paula recorda que conheceu seu tio quando era pequena, quando este visitou os familiares. Ela o foi buscar no aeroporto, poucos anos antes de ele retornar à Rússia, onde desapareceu. Ela crê que o descaso das autoridades para o caso está mais ligado a fatores sociais do que de etnia.

– Acho que, mais do que por sermos mapuche, isso aconteceu porque se tratava de uma família pobre.

Ela lembra que a tia que interpreta, Marisol Ancamil, foi ver a obra em Santiago do Chile e se emocionou muito.

– Foi muito forte para ela. Tratamos de fazer uma denúncia com nossa história. Porque, antes de tudo, é uma história universal de injustiça.

emilia gustavo pascaner Teatro de perto: dramas familiares ganham força em espetáculos latinos do FIT Rio Preto 2013

Cena da obra argentina Emilia, que conta a história de uma babá que volta do passado - Foto: Gustavo Pascaner

Passado à tona

Os argentinos do TeatroTimbre4 também aportaram em São José do Rio Preto com um drama familiar. Trata-se da peça Emilia, que conta a história do reencontro da babá com a criança que cuidou no passado, agora pai de uma família prestes a entrar em colapso.

Em conversa exclusiva com o R7, o diretor e dramaturgo Claudio Tolcachir que se inspirou no reencontro que teve com sua própria babá para escrever a peça. Mas adianta que isso foi só o ponto de partida, e que a obra é uma ficção.

– Cecília [o nome da babá verdadeira] foi ver a peça em Buenos Aires e se emocionou muito.

Claudio não gosta de definir sua peça como um drama familiar. Prefere dizer que está contando “história de pessoas”.

– As famílias não me interessam, mas, sim, seus personagens.

discurso de un hombre decente pierre duarte Teatro de perto: dramas familiares ganham força em espetáculos latinos do FIT Rio Preto 2013

Tom político: o rapper Jeihhco, de Medellín, fala discursos de Pablo Escobar ao som da Banda Marco Fidel Suárez, a mesma que tocou e foi vítima do narcotraficante mais famoso da Colômbia - Foto: Pierre Duarte

Vítimas do narcotráfico

Já a montagem colombiana Discurso de um Hombre Decente, do Mapa Teatro, tem como pano de fundo as palavras de Pablo Escobar, o narcotraficante mais famoso da América Latina, morto em 1993.

Além das projeções de seu rosto no palco, e de suas palavras na voz do rapper Jaison Castaño, o Jeihhco, há uma lembrança bem mais real sobre o tablado: a Banda Marco Fidel Suárez, que acompanha a peça ao vivo, é a mesma que tocava em comícios de Escobar pela Colômbia. Ou melhor: falta-lhe três de seus integrantes, que morreram em um atentado a bomba na praça de Toros La Macarena em Medellín, em 16 de fevereiro de 1991.

Discurso de un hombre decente2 c Mapa Teatro Teatro de perto: dramas familiares ganham força em espetáculos latinos do FIT Rio Preto 2013

É preciso saber viver: o músico Danilo Jimenez (foto) trabalhou com Pablo Escobar - Divulgação

O líder da banda, Danilo Jimenez, um dos sobreviventes, revela ao R7 que sua mulher, Gabriela Jaramillo, foi a quarta vítima – ela ficou gravemente ferida e acabou morrendo 16 anos após viver em estado vegetativo, em consequência do que sofreu.

Danilo até hoje não escuta bem, em consequência da explosão.

– Um dia, por intermédio de outra pessoa, o Pablo Escobar me chamou e disse que queria trabalhar conosco tocando para ele em seus comícios. Tenho muitas lembranças ingratas desta época, porque passamos muito mal. São lembranças difíceis de reviver no palco, mas isso ajuda a divulgar ao mundo o que aconteceu na Colômbia.

Apesar de tanto sofrimento provocado pela guerra do narcotráfico, Don Danilo, como é respeitosamente chamado por seus colegas, afirma que “já perdoou Pablo Escobar”.

– Sei valorizar a vida e aproveitar cada instante dela. Não tenho mais espaço para mágoas em meu coração. Viver é o mais importante.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT Rio Preto 2013.

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shapiro mirada camila marquez Exclusivo: entrevista com o diretor russo Adolf Shapiro: “O teatro russo é o melhor do mundo”

Diretor russo Adolf Shapiro (o terceiro da dir. p/ a esq., de roupa escura e óculos) com a mundana companhia em um dos ensaios de Pais e Filhos no Festival Mirada, na cidade de Santos (São Paulo) - Foto: Camila Marquez

Por Miguel Arcanjo Prado*
Enviado especial do R7 a Santos**

Adolf Shapiro é um dos maiores nomes vivos do teatro russo. Aos 73 anos, faz intercâmbio com o Brasil ao dirigir a montagem paulistana Pais e Filhos, da mundana companhia. Estreia nesta terça, às 21h30, no Teatro Coliseu, em Santos. A adaptação do romance homônimo do russo Ivan Turguêniev (1818-1883) é um dos destaques da programação do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos.

Shapiro está no Brasil desde 13 de agosto e fica até 8 de outubro. Ele estará na estreia do espetáculo em São Paulo, no dia 28 de setembro, no Sesc Pompeia.

O artista começou a dirigir peças na Letônia, na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com apenas 23 anos. Hoje, é referência mundial no método de Stanislavski, já que estudou com Maria Knébel (1898-1985), que foi discípula do próprio Constantin Stanislavski (1863-1938).

O mestre russo conversou com o R7 em uma mesa à beira da piscina do Sesc Santos, no último domingo (9), enquanto fumava um cigarro e tomava um café. Leia a entrevista exclusiva:

Miguel Arcanjo Prado – O que você conhecia do teatro brasileiro antes de trabalhar com a mundana companhia?
Adolf Shapiro – O teatro brasileiro, antes de mais nada, estava na minha imaginação, porque eu não o conhecia. Claro que lia algo a respeito, mesmo porque trabalhei bastante na América Latina, sabia um pouco do estilo de vida dos brasileiros, mas não posso dizer que conhecia o teatro do Brasil. Hoje, não conheço ainda. Porque passei a maior parte do tempo em São Paulo e sei que o País é grande, com variados climas, economias e, claro, distintos teatros. Conheço um pouco já, mas meu interesse em conhecer mais é muito grande.

Miguel Arcanjo Prado – Como você teve contato com a mundana companhia?
Adolf Shapiro – O primeiro contato foi por meio da Elena Vássina [professora de letras russas da USP, Universidade de São Paulo]. Ela esteve no Festival Internacional Tchekhov em Moscou e me apresentou ao Danilo Santos de Miranda [diretor regional do Sesc São Paulo]. E quando apareceu a oportunidade de vir ao Brasil, eu aceitei. Não só para trabalhar, mas para descobrir coisas novas também.

adolf shapiro Exclusivo: entrevista com o diretor russo Adolf Shapiro: “O teatro russo é o melhor do mundo”

O diretor russo Adolf Shapiro

Miguel Arcanjo Prado – O que você acha dos atores brasileiros?
Adolf Shapiro – Eu sempre respondo da mesma forma no mundo inteiro a esta pergunta. Todos os bons atores são individualmente bons e todos os atores ruins são idênticos uns aos outros em qualquer lugar do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como é trabalhar com a mundana companhia?
Adolf Shapiro – É muito interessante trabalhar com a mundana companhia. Não são apenas talentosos, mas têm conteúdo. Isso diz respeito às aspirações deles. É a preparação para um processo experimental. É a segunda vez que trabalhamos juntos e isso testemunha nossa boa relação.

Miguel Arcanjo Prado – A mundana companhia fez sucesso recentemente em São Paulo, Belo Horizonte e Rio com a montagem de O Idiota, de Dostoievski, com grande procura do público pela peça. Você imaginava que os brasileiros gostassem tanto da cultura russa?
Adolf Shapiro – Eu imaginava que havia certo interesse, sim. Em primeiro lugar, porque fui convidado a trabalhar aqui no Brasil. E a minha desconfiança de que havia interesse na cultura russa me veio antes, quando trabalhei na Nicarágua, na época da Revolução Sandinista. Quando cheguei lá vi que um pequeno teatro tinha na entrada um retrato de Tchekhov. Montei Gogol na Venezuela e notei que havia um interesse. Só não sabia que ele era tão grande aqui no Brasil.

Miguel Arcanjo Prado – Isso lhe espanta?
Adolf Shapiro – Não existe nada de surpreendente nisso. Não quero parecer patriota, mas a literatura russa é um dos grandes fenômenos culturais mundiais. Às vezes, nós os russos não temos essa dimensão, assim como os colombianos não entendem que o Gabriel García Márquez é um mito da literatura mundial, ou muitos brasileiros desconhecem como Jorge Amado é conhecido e lido em outros países como a Rússia.

Miguel Arcanjo Prado – Já que você falou em patriotismo, vou fazer uma pergunta mais provocativa. O teatro russo é o melhor do mundo?
Adolf Shapiro – Sem dúvida alguma. O teatro russo é o melhor do mundo. Nisto não há espaço para a dúvida. Toda o teatro mundial da segunda metade do século 20 ocorreu por influência do teatro russo. De Stanislavski, de Tchekhov. Isso não é opinião minha. É fato. Tennessee Williams e Bertold Brecht diziam isso. Mesmo quem não é fã do teatro russo reconhece que ele é um fenômeno. Nos centros teatrais do mundo inteiro a grande influência é o teatro psicológico russo. E isso vem muito pela força da literatura russa, tão poderosa e que ajudou na criação do teatro psicológico.

Miguel Arcanjo Prado – Você estudou diretamente com Maria Knébel, discípula direta de Stanislavski. Você se considera um representante dele no Brasil?
Adolf Shapiro – Não. Eu não me considero um representante de carne e osso de Stanislavski. Seria muita pretensão de minha parte. Apenas tento compartilhar esses ensinamentos com as pessoas, mas sem o objetivo de fazer disso minha pregação pessoal. Eu compartilho isso com eles pensando que eles serão capazes de filtrar. Apesar de eu ter uma grande reverência por este conhecimento, eu não acho que exista regras e leis para todos os tempos teatrais. No teatro, não podemos ser continuadores. Temos de ser pesquisadores.

Miguel Arcanjo Prado – O Brasil viveu uma ditadura militar de direita, entre 1964 e 1985, que demonizava tudo o que vinha da União Soviética. Você sabia disso?
Adolf Shapiro – Eu sei que houve uma ditadura militar, mas não sabia que eles proibiam tudo que era russo. Mas eu não me surpreendo, porque qualquer ditadura gera pessoas loucas. O que diz respeito aos dias de hoje, o Brasil é um dos países que mais se desenvolveram no mundo. E é impossível se desenvolver isoladamente. O mundo de hoje é interligado. E se a gente não descobrir outros lugares do mundo, o desenvolvimento torna-se impossível. O problema do mundo contemporâneo está em como manter todo esse contato com o outro e continuar com as particularidades individuais. Esse é um grande problema para os países em desenvolvimento.

Miguel Arcanjo Prado – Qual a sensação você vai levar do Brasil quando voltar à Rússia?
Adolf Shapiro – Vou levar a sensação de que esse país tem uma noção clara de futuro e está direcionado ao futuro.

*Entrevista com tradução simultânea pelo intérprete de russo Diego Moschkovich.

**O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc Santos.
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magico de oz Veja foto exclusiva de Miéle, <i>O Mágico de Oz</i>

Charme musical: Luiz Carlos Miéle (à esq.) atua com Nicola Lama, o Homem de Lata - Foto: Robert Schwenck

Com investimento de R$ 8 milhões, a superprodução musical O Mágico de Oz estreia nesta sexta (8), no Teatro João Caetano, no tradicional praça Tiradentes, no centro do Rio, com promessa de chegar a São Paulo em 2013.

O grande charme da estreia, claro, é a grande volta de Luiz Carlos Miéle aos palcos.

Este é o maior presente do multiartista pelos seus 74 anos, completados no último 31 de maio.

Gênio do nosso entretenimento, Miéle foi responsável por lançar ao estrelato ninguém menos que Elis Regina, ao lado do eterno parceiro Ronaldo Bôscoli.

Como o blog Atores & Bastidores é fã declarado de Miéle, faz questão de dar a você, caro internauta, uma foto exclusiva dele na pele do Mágico de Oz, ao lado de Nicola Lama, ator que faz o Homem de Lata.

O 31º musical de Cláudio Botelho e Charles Möeller tem um contingente de 35 atores e 16 músicos.

Além do nosso Miéle, estão no elenco Maria Clara Gueiros, como a Bruxa Má, Lúcio Mauro Filho, como o Leão Covarde, e Pierre Baitelli, como o Espantalho, além de Malu Rodrigues, como a menina Dorothy, papel que imortalizou Judy Garland no cinema em 1939.

O Retrato do Bob: a doce brutalidade de Otto Jr.

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