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fit hamlet Entrevista de Quinta: Copa não prejudicou e FIT BH é o maior internacional do País, diz diretor

Hamlet, da Berliner Ensamble, da Alemanha, é a grande atração do FIT-BH: 6 a 20 de maio - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Do alto da montanha, o horizonte do mineiro sempre pareceu mais distante. "Sou do mundo, sou Minas Gerais", diz uma conhecida canção do Estado que abriga o festival teatral brasileiro que tem mais peças gringas na programação: o FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco e & Rua de Belo Horizonte), que será realizado entre 6 e 25 de maio de 2014. Além do Brasil, dez países estão representados.

Ao todo, são 18 espetáculos internacionais em uma lista de 55 peças nesta 12ª edição, que marca os 20 anos do evento. Comparando, a MIT_SP (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), realizada em março, teve dez peças internacionais. Já a edição 2014 do Festival de Teatro de Curitiba teve cinco peças internacionais, apesar de ser o maior de público, 230 mil pessoas em 2014, e em quantidade de peças, quase 500 na última edição.

Por sua vez, o Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, apesar dos 25 espetáculos internacionais em sua última edição, em 2012, não entra na briga, por ter como foco apenas produções ibero-americanos, enquanto que o FIT-BH abriga o teatro do mundo todo. Neste ano, além das 18 montagens internacionais, há 12 produções nacionais, vindas de 5 Estados, e também 25 espetáculos mineiros. No total, 163 apresentações.

Nesta Entrevista de Quinta, o Atores & Bastidores do R7 conversou com exclusividade com Leônidas José de Oliveira, presidente desde outubro de 2012 da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, responsável pelo FIT-BH.

Arquiteto e filósofo pela PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), ele é mestre em restauração do patrimônio pela Universidade de Roma e doutor em gestão da cultura e do patrimônio cultural pela Universidade de Valladolid, na Espanha.

Oliveira falou sobre o tamanho do festival, sua proximidade com a Copa do Mundo e a relação do evento com a cidade. E ainda contou quanto público espera, além de comentar a polêmica sobre o não pagamento de parte de fornecedores da última edição e também o atraso na venda dos ingressos.

Leia com toda a calma do mundo.

fit leonidas jose oliveira Entrevista de Quinta: Copa não prejudicou e FIT BH é o maior internacional do País, diz diretor

Leônidas José de Oliveira: "Copa não atrapalhou o FIT-BH; somos o maior em peças internacionais" - Foto: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado — A Copa do Mundo prejudicou o FIT-BH?
Leônidas José de Oliveira — Não, de forma alguma. Porque nós fizemos no ano passado, em 2013, uma pré-produção. Já contatamos os grupos e fizemos os orçamentos, reservamos hotéis. Então, a organização no ano anterior possibilitou que a gente conseguisse tarifas de transporte e hospedagem mais baratas.

Miguel Arcanjo Prado — Qual a maior característica do FIT-BH?
Leônidas José de Oliveira — Estamos trabalhando muito a questão da interação, da coexistência de diferentes correntes estéticas do teatro nestes 20 dias de FIT-BH. Neste sentido, teremos o Fitinho, que tem uma estética para as crianças. Mas não abrimos mão de obras clássicas importantes, como Hamlet, pela Berliner Ensamble. Esta escolha foi também para homenagear os 450 anos de William Shakespeare. Queremos a apropriação do espaço urbano pela arte. Tem peças que vão percorrer as ruas, abertos e sem grades, para que as pessoas possam se apropriar da arte.

Miguel Arcanjo Prado — O FIT-BH celebra 20 anos. A cidade vai ganhar algum presente?
Leônidas José de Oliveira — Belo Horizonte passa por um momento muito esperado: vamos entregar junto com o FIT-BH o Teatro Francisco Nunes, que estava fechado, em reforma, há cinco anos. O Chico Nunes, como nós o chamamos aqui em BH, é um dos principais teatros do Brasil. Tanto que escolhemos este palco para abrirmos o FIT-BH no dia 6. E no dia 7 vamos entregar outro teatro municipal, o Teatro Marília, para a cidade. Ambos completamente revitalizado e com equipamentos de ponta. A reforma custou R$ 13 milhões,s endo R$ 11 milhões do Francisco Nunes e R$ 2 milhões do Marília.

fit francisco nunes Entrevista de Quinta: Copa não prejudicou e FIT BH é o maior internacional do País, diz diretor

Área interna do Teatro Francisco Nunes, em BH: reforma custou R$ 11 milhões - Foto: Adão de Souza/PBH

Miguel Arcanjo Prado — Um dos charmes do FIT-BH é o Ponto de Encontro que acontecia no Parque Municipal. Ele vai existir neste ano?
Leônidas José de Oliveira — Não será mais possível fazer no Parque por questões de meio ambiente. Então, estamos estudando um novo lugar para fazer o Ponto de Encontro. Mas, certamente, ele vai existir. O lugar deve ser fechado até o começo da próxima semana.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi feita a seleção dos espetáculos?
Leônidas José de Oliveira — Tem uma comissão de curadores, Jefferson da Fonseca e Geraldo Peninha. No ano de 2013, eles viajaram por diversos países latino-americanos, da Europa, e de outros continentes, assistindo a diversos espetáculos para ver o que entravam no conceito do FIT-BH. Eles escolheram espetáculos que mostrem uma nova forma de interpretação artística e que trouxesse ganho para Belo Horizonte. E também a escolha dos espetáculos locais foi neste sentido.

fit Prazer Cia Luna Lunera Credito Ricardo Albertini 09 Entrevista de Quinta: Copa não prejudicou e FIT BH é o maior internacional do País, diz diretor

Cena de Prazer, da Cia. Luna Lunera, que vai abrir o FIT-BH no Teatro Francisco Nunes - Foto: Ricardo Albertini

Miguel Arcanjo Prado — Qual o lugar que a produção local mineira ocupa no festival?
Leônidas José de Oliveira — Belo Horizonte tem  uma produção teatral muito grande, importante, de ponta e que não deve nada a grandes grupos internacionais. Criamos um projeto, Intercena, onde a Fundação Municipal de Cultura vai patrocinar a vinda de programadores e curadores de festivais internacionais para conhecer a produção local. Queremos internacionalizar as artes cênicas mineira. Nesta edição, são 25 trabalhos mineiros selecionados por uma comissão de especialistas a partir de um edital.

Miguel Arcanjo Prado — Algum festival teatral serve de inspiração para o FIT-BH?
Leônidas José de Oliveira — Sim. O de Lille, na França, que é uma cidade-irmã de Belo Horizonte, e os festivais de Barcelona e de Buenos Aires, que também foram referências importantes para este FIT-BH.

Miguel Arcanjo Prado — O Festival de Teatro de Curitiba, que é o maior do Brasil em número de espetáculos, serve de inspiração?
Leônidas José de Oliveira — O de Curitiba é o maior do Brasil porque tem muitos espetáculos locais. Agora, o maior festival em espetáculos internacionais é o FIT-BH.

fit grace Entrevista de Quinta: Copa não prejudicou e FIT BH é o maior internacional do País, diz diretor

Grace Passô em cena da peça Líquido Tátil, que está na programação - Foto: Guto Muniz

Miguel Arcanjo Prado — Vocês esperam quanto de público neste ano?
Leônidas José de Oliveira — Esperamos 200 mil pessoas [Curitiba teve 230 mil pessoas em 2014]. Isto representa crescimento de 25% em relação à última edição, que teve 150 mil pessoas de público. Nada mais justo esperar este crescimento, até porque crescemos em apresentações. Esta é a maior edição, tanto que não coube em 15 dias, tivemos que passar para 20, porque os teatros da cidade não comportavam tudo em duas semanas.

Miguel Arcanjo Prado — Qual o valor do investimento no FIT-BH?
Leônidas José de Oliveira — Foram R$ 7 milhões, dos quais R$ 6 milhões vieram de recursos da Prefeitura de Belo Horizonte e R$ 1 milhão de parcerias com a iniciativa privada e com o Governo da Alemanha, que nos ajudou a trazer o Berliner Ensamble com Hamlet. Afinal, são 45 artistas mais o cenário.

Miguel Arcanjo Prado — E sobre a polêmica do não pagamento de quem participou da última edição? Qual o tamanho da dívida? Quando vai ser paga?
Leônidas José de Oliveira — Não existe dívida, porque gastou-se além do contratado. Agora, os documentos já chegaram. Vou lhe explicar: o FIT-BH de 2012 foi orçado em R$ 5 milhões. Só que no acontecimento houve necessidades que fizeram ser gasto mais do que estava previsto. Como gastou a mais, precisa passar pela auditoria do município. Eu acredito que nos próximos meses vamos começar o processo de pagamento. Porque a finalização da auditoria já está acontecendo. A soma é de R$ 1,03 milhão.

Miguel Arcanjo Prado — Tem algum artista que não recebeu?
Leônidas José de Oliveira — Não tem nenhum artista nesta lista, apenas fornecedores. Todos os artistas foram pagos.

Miguel Arcanjo Prado — Por que houve atraso na venda dos ingressos, prevista para ter começado na última segunda?
Leônidas José de Oliveira — Houve um problema técnico com a empresa contratada para vender online. Mas já foi resolvido e a venda começa nesta quinta-feira (1º).

Miguel Arcanjo Prado — Qual a relação dos belo-horizontinos com o FIT-BH?
Leônidas José de Oliveira — A relação de Belo Horizonte com o teatro é antiga. A cidade tem tradição em produzir óperas e peças de teatro. Exemplo disso é a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, que em sua 47ª edição, entre fevereiro e março deste ano, colocou em cartaz 170 peças com público de 400 mil pessoas. Isso, aliado aos 20 anos de FIT-BH, criou no belo-horizontino o gosto pelo teatro. A classe artística mineira também é muito atuante. Belo horizonte tem excelentes escolas de teatro e vários grupos de renome internacional. Isso cria público cativo. O FIT-BH é o espaço para esta classe artística e este público trocar experiências com o mundo inteiro. E toda população abraça o evento; vamos fazer espetáculos nas nove regionais de Belo Horizonte e também nos aglomerados na periferia da cidade. Queremos os artistas não só na região centro-sul, mas também em espaços alternativos, dialogando com a população.

Conheça a programação completa do FIT-BH

galpao guto muniz Entrevista de Quinta: Copa não prejudicou e FIT BH é o maior internacional do País, diz diretor

Grupo Galpão faz Romeu e Julieta na praça do Papa, no FIT-BH 2012: 16 mil pessoas - Foto: Guto Muniz

Acompanhe a cobertura do R7 no FIT-BH!

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poster fitbh pq Festival Internacional de Teatro de BH chega ao fim com mérito de ter levado artista aonde povo está

Diversidade no FIT-BH: cenas de Mistero Buffo (SP), Tranfiguration 1 (França), Oxlajuj B'Aqtun (Guatemala) e A Pequenina América e Sua Avó $ifrada de Escrúpulos (MG) - Fotos: Guto Muniz, Kika Antunes e Glenio Campregher/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial do R7 a Belo Horizonte*

É com tristeza que os belo-horizontinos se despedem, neste domingo (24), da 11ª edição do FIT-BH (Festival de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte).

Foram 16 dias em que a capital mineira respirou arte em suas nove regiões. Afinal, o evento somou 143 apresentações em 60 lugares espalhados (mesmo) pela cidade, com 19 espetáculos internacionais vindos de 12 países, 12 nacionais e dez locais.

Com 18 anos de idade, o que faz com que seja parte da tradição cultural mineira, o festival é abraçado pelo povo belo-horizontino, que compareceu em peso às peças.

E foi no acalento do público generoso que o Galpão celebrou nos os 20 anos da montagem Romeu e Julieta, emblemática para a história do grupo de BH. E a população da cidade não faltou à festa. Só na praça do Papa a obra foi vista por 16 mil pessoas em transe. Quem disse que não há público para o teatro? O Galpão prova que teatro pode ser fenômeno de massa, sim, senhor.

A mistura brasileira e internacional, sobretudo latina, deu o tom. Os baianos do Bando de Teatro Olodum mostraram que fazem pesquisa séria sobre as questões da negritude, com seu Bença, instalado na quadra da escola de samba Cidade Jardim, encravada no alto do morro. Nada mais propício. Atores compenetrados deram o tom (sóbrio) a uma ancestralidade que muitos de nós, infelizmente, teimam ignorar. Fizeram com competência e seriedade.

Os meninos da mundana companhia, de São Paulo, também causaram frisson na cidade com o famigerado O Idiota – Uma Novela Teatral, peça que viu os 600 ingressos das cinco apresentações se esgotarem em poucas horas. Mesmo durando sete horas. A obra ficou na boca do povo.

Da turma que veio da América Latina, quem chamou a atenção foi a singeleza associada ao talento das meninas chilenas da peça Villa + Discurso, dirigida por Guillermo Calderón. A peça é um painel da história recente do Chile, tão parecida com a nossa. A identificação bateu e os mineiros, no histórico prédio da Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

Os argentinos de Daniel Veronese também se sobressaíram com Los Hijos se Han Dormido, que tinha no elenco Luis Ziembrowski.

Com figurino exuberante, os guatemaltecos do espetáculo de rua Oxlajuj B'Aqtun deixaram os olhos do público inebriados com a riqueza cultural das profecias maias.

Mas o grande charme do FIT-BH foi a aproximação real entre público, imprensa e artistas. E não eram poucos: o fetival teve 358 artistas ao todo, dos quais 165 gringos. Diferentemente de outros festivais do Brasil, que mantém burocrático isolamento entre as partes, no FIT-BH a proximidade entre artistas, jornalistas e espectadores foi algo concreto, sobretudo no Ponto de Encontro montado dentro do Parque Municipal, no coração do centro, que reuniu média de 2.000 pessoas por noite.

Lugar para jogar aquela conversa fora sobre teatro, vida e arte, ao sabor de cerveja acompanhada de comida deliciosa, como só os mineiros sabem fazer. Que venha logo o 12º FIT-BH.

poster fitbh gd Festival Internacional de Teatro de BH chega ao fim com mérito de ter levado artista aonde povo está

Teatro para todos os gostos e sotaques no FIT-BH (de cima para baixo, da esq. p/ dir.): Romeu e Julieta (MG), A Mulher sem Pecado (MG), Abito (Itália), Antes do Silêncio (MG), Bença (BA), El Autor Intelectual (Colômbia) e Los Hijos se Han Dormido (Argentina) - Fotos: Guto Muniz, Kika Antunes, Glenio Campregher e Marco Aurélio Prates/Divulgação

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT-BH.

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