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praca roosevelt eduardo enomoto Diretor dos Satyros diz que classe média medíocre vai expulsar o teatro da praça Roosevelt

Adeus, Roosevelt: Satyros dizem que foram expulsos do local que ajudaram a recuperar - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado

Nesta semana só se falou em uma coisa no mundo teatral: o anúncio de que o grupo teatral Os Satyros vai deixar a praça Roosevelt. Afinal de contas, o grupo é praticamente sinônimo do lugar e, justiça seja feita, foi o grande responsável pela revitalização do local, antes um fétido e violento ponto de tráfico de drogas e prostituição.

rodolfo garcia vaz bobsousa Diretor dos Satyros diz que classe média medíocre vai expulsar o teatro da praça Roosevelt

García Vázquez: culpa da classe média - Foto: Bob Sousa

Rodolfo García Vázquez, diretor dos Satyros, acusa a "classe média medíocre" e a especulação imobiliária pela "expulsão" do grupo do local. Em entrevista à Folha de S.Paulo desta semana, Ivam Cabral, o outro fundador dos Satyros, disse que o grupo pode ir para a Luz, onde atualmente está a região da Cracolândia.

Vázquez resolveu usar a internet para explicitar os motivos do anúncio de que os Satyros deixam a Roosevelt em 2013.

Com vocês, as palavras do diretor:

"A especulação imobiliária tem duas consequências. A primeira é visível e numérica: são os aluguéis exorbitantes. Depois de seis meses de alugueis atrasados, estamos, enfim, regularizando as contas. Meses e meses os artistas sem receber nada, pois tínhamos só contas em atraso. Dificuldades mil.

Mas nunca tivemos medo da falta de dinheiro. Isso não nos impede de ter vontade de lutar pelo espaço. Mas há outra coisa ainda pior. A crise de identidade que a Praça enfrenta hoje.

Os novos moradores, aliados aos antigos vingadores, sonham que a Praça se transforme no Itaim Bibi do centro. Mas isso não tem nada a ver com o histórico dela vindo lá dos anos 50 e 60, nem com a chegada dos skatistas, nem com o que os teatros fizeram para sua recuperação. Alguns querem que a Praça seja um local tranquilo para a moradia, algo como uma Perdizes controlada, com bares cult para bons moços frequentar até certa hora e boas instalações para novas padarias badaladas com nome afrancesado...

Até algumas pessoas que se dizem de esquerda estão caindo nesse jogo também. Estamos isolados. O que a Praça Roosevelt quer ser para a cidade e qual é o nosso papel nisso? Essa é a questão principal. Nós contribuimos para uma transformação radical de uma das regiões mais deterioradas da cidade e agora a classe média-medíocre quer transformar esse espaço no seu quintal, mais preocupados com o cachorródromo do que com a força cultural que ela pode trazer para a cidade...

Isso nos inquieta de verdade. Estas pessoas tão bem educadas são muito mais difíceis do que os traficantes que tivemos que enfrentar quando chegamos à Praça, na época em que éramos ameaçados de morte, e não de morte espiritual."

Vídeo faz sucesso com a classe teatral ironizando situação dos Satyros

Como brasileiro é um ser cheio de bom humor, faz sucesso na internet, sobretudo entre a classe teatral, um vídeo que parodia toda essa situação usando aquela clássica cena do filme A Queda, subido na rede por Alex Gruli.

Já foi visto até o momento por quase 6.000 pessoas. Você pode vê-lo também aqui. É rir para não chorar.

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rodolfo garcia vaz bobsousa2 Rodolfo García Vázquez vive frenesi com Os Satyros

Três montagems simultâneas: Rodolfo García Vázquez está em tempos de agitação nos Satyros - Fotos: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos Bob Sousa

A reportagem procura pelo diretor Rodolfo García Vázquez na praça Roosevelt, seu habitat natural, no centro paulistano. A porta do Espaço 1 de seu grupo, Os Satyros, está fechada.

Resolvemos tocar o interfone. Logo, Bruno Motta Mello, assessor da companhia, avisa do outro lado que ele está almoçando no restaurante ao lado, o La Barca. Corremos para lá, o fotógrafo Bob Sousa e eu.

Encontramos um Rodolfo bem servido de um prato de nhoque com salada, em uma mesa no canto direito do pequeno salão. Ao nos ver, pergunta se queremos acompanhá-lo. Arados de fome, aceitamos de pronto.

O segundo semestre começou com tudo para Vázquez. Afinal, Os Satyros continuam com seu ritmo frenético. Além de fazerem Vestido de Noiva, a partir desta quinta (16), no Teatro Cacilda Becker, em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues, voltam com Cabaret Stravaganza em 15 de setembro e retomaram no último fim de semana o sucesso do primeiro semestre, Satyros’ Satyricon, a adaptação de Evaldo Mocarzel para o clássico do romano Petrônio.

Nesta última, além da peça em si, o frenesi fica por conta de outras duas partes do projeto, a Trincha, uma verdadeira instalação nos corredores subterrâneos do Espaço dos Satyros 2, também na Roosevelt, cheia de lascívia que antecede a montagem, e a festa Suburra, que junta público e obra após o aplauso final.

— A ideia dessa montagem surgiu de um espectador do Rio, que viu a Trilogia Libertina dos Satyros e sugeriu o Satyricon. Trouxemos questões do Império Romano para o mundo de hoje. Como a nova escravidão e a visão da homossexualidade.

rodolfo garcia vaz bobsousa Rodolfo García Vázquez vive frenesi com Os Satyros

Rodolfo gosta das histórias dos atores - Foto: Bob Sousa

Os Satyros transitam bem no mundo dito marginal. Marquês de Sade e Oscar Wilde já foram visitados pela trupe, que inaugurou o vaivém cultural na praça Roosevelt, cuja reforma será finalizada em setembro.

— A questão sexual é sempre um grande tema para Os Satyros. Basta você ver as transex que sempre trabalham conosco. Essa é uma questão política ímpar nossa.

Provocativos como sempre, em Vestido de Noiva, Os Satyros desconstruíram um estilo de se montar Nelson Rodrigues.

— Nossa montagem quebra muito com a tradição. É um Rio ao som de Björk. Ou seja, o Vestido de Noiva dos Satyros não é nada carioca. O Nelson era muito louco. Então quisemos ser loucos que nem ele.

A peça foi aclamada no começo do mês no Teatro Dulcina, no Rio, e causou fuzuê no Festival de Curitiba de 2008, quando trazia Norma Bengell, agora substituída por Helena Ignez como Madame Clessy.

— A Clessy da Helena é muito hippie. Parece que ela veio direto da década de 60 para o palco. Já a Clessy da Norma era mais clássica. Estamos muito tristes com a situação dela hoje [Norma sofre com problemas financeiros e está em cadeira de rodas]. Foi um grande orgulho trabalhar com ela, que já havia feito a mesma personagem com o [diretor] Ziembinski e com o próprio Nelson [Rodrigues] vivo. A presença dela no começo deste trabalho foi política, pelo que ela representava.

Vázquez se caracteriza por inundar seu palco com um grande número de atores jovens, muitos dos quais ainda crus no mundo da representação. Ele justifica.

— Uma das questões fundamentais nossas é democratizar o teatro como experiência de vida e não só estética. O que me interessa não é só o treinamento do ator, mas sua biografia. A história da Brenda Oliver [trans que faz Satyricon] como pessoa me interessa muito mais. Tem muito ator por aí que, de tanto treinamento, não tem mais identidade.

A mistura de elementos biográficos que acabam se confundindo com os personagens produz “um teatro da vida”, diz o diretor.

— Queremos experiências performáticas. Não queremos apenas teatro. Queremos uma outra linguagem e a recepção sempre foi incrível ao que propomos. É claro que tínhamos medo no começo, afinal a Trincha coloca o espectador em uma relação sinestésica com os atores e a Suburra é um happening coletivo. Era tudo muito arriscado. Não sabíamos no que ia dar. Podem gostar ou não, mas trata-se de um trabalho ousado.

satyros espetaculos Rodolfo García Vázquez vive frenesi com Os Satyros

Três Satyros (em sentido horário): Vestido de Noiva, Satyros'Satyricon e Cabaret Stravaganza - Fotos: André Stéfano

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