Posts com a tag "satyros"

cleo de paris bob sousa3 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

A atriz Cléo De Páris, gaúcha radicada em SP: "Ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha" - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Cléo De Páris está atarefada ainda em sua sala na SP Escola de Teatro quando chego. Tanta um lugar tranquilo na escola para conversamos. Não consegue. A sala já está ocupada por aulas. Propõe irmos a uma padaria perto, dessas bem comuns, na República, bairro do centro paulistano. Antes, pergunta se chove. Enquanto ela vai pegar o guarda-chuvas, dou uma olhada na recepção no folheto da peça que ela está em cartaz, Ludwig e Suas Irmãs, no Centro Cultural São Paulo [veja serviço ao fim].

Cléo chega. Guardo o papel no bolso. Saímos. A chuva é bem fina. Entramos na padaria. É começo da tarde. São Paulo corre, apressada, ao redor. Ocupamos uma mesa no canto, de frente à parede de vidro que descortina o movimento da rua. Peço um café com leite, ela, água. Na parede do outro lado, uma TV ligada mostra o ator Miguel Falabella em sua volta ao programa Vídeo Show. Rimos disso. Falo que vou ligar o gravador. Ela dá o ok. Miro em direção a seus profundos olhos azuis. Começa sua primeira Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Leia com toda a calma do mundo.

cleo de paris bob sousa31 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Continuo querendo plantar flores. As pessoas não se olham, sempre estressadas" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A última vez que nos encontramos, você falava que queria um dia largar tudo e ir plantar flores. E hoje?
CLÉO DE PÁRIS — Continuo querendo plantar flores [risos]. Estou numa fase que não sei mais para onde ir. Essa loucura da cidade, essa opressão, essa violência, nem sempre direta, mas indireta também, mexe com a cabeça da gente. As pessoas não se olham, vivem no frenesi, sempre estressadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sairia de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Tem aquela coisa de ir para o interior, mas ter de conviver com pessoas de cabeça fechada, conservadoras, com homofobia... Acho que o problema é sempre as pessoas [risos]. Só sendo um eremita em cima de uma montanha meditando... [risos]

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem quanto tempo de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Uns 12 anos. Sou me confundo com o tempo. Como estou no Satyros há 11 anos, devo estar em São Paulo há 12. Minha medida é o Satyros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você falou do Satyros. A pergunta que não quer calar é: você está no Satyros ou saiu do grupo?
CLÉO DE PÁRIS — Olha, eu me afastei, mas é um grupo que ainda é meu. Eu tenho amores lá, minha história, então, possivelmente, mais dia, menos dia, eu volte. O Ivam [Cabral, ator e dramaturgo do Satyros] foi ver minha peça, falou que está orgulhoso. O Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] não foi ainda porque viajou para a Suécia. E eles querem que eu volte a fazer peça com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda é do grupo? Na ficha-técnica ainda tem seu nome?
CLÉO DE PÁRIS — Eu sou do grupo. Tem. O que acontece é que primeiro fiquei um ano sem fazer teatro depois de Édipo na Praça, no Satyros, e Nosferatu, que já foi sem o Satyros. Foi uma fase que queria descansar, porque também trabalho na SP Escola de Teatro. Estava fazendo jornada dupla, muito estressada. Falei para mim: eu não preciso disso, não vou salvar o mundo fazendo teatro sem parar, eu posso me dar um tempo para me reciclar inclusive.

cleo de paris bob sousa41 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris no camarim do Satyros, durante a peça Cabaret Stravaganza: "Ninguém vai ocupar meu lugar" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fazia uma peça atrás da outra.
CLÉO DE PÁRIS — Sim, estava há muito tempo sem parar. O artista precisa desse respiro. Li uma entrevista do Daniel Day-Lewis, que é o ator mais extraordinário do mundo, e ele contava que uma vez parou quatro anos e foi ser sapateiro numa cidadezinha do interior. Ele dizia que o artista que morava nele precisava daquilo. Isso me tocou profundamente. Eu pensei, eu preciso arrumar meus sapatos, meu caminho, onde vou pisar a partir de agora, foi uma metáfora muito bonita para mim o que ele disse.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua ausência nas peças do Satyros gerou um burburinho na classe teatral e no público. Muitos internautas me mandaram mensagem falando para eu descobrir o que havia acontecido e por que você não estava nas peças novas do Satyros.
CLÉO DE PÁRIS — Chegou um momento que minhas intenções artísticas e estéticas não estavam de acordo com o que o grupo estava fazendo. Não que não gostasse. Até porque fiz muito teatro performativo, que o Rodolfo é referência. Estava sentindo falta de personagem, de quarta parede, do teatrão clássico. E o grupo estava com outra pegada e eu queria descansar. Juntou a falta de fome com a falta de vontade de comer.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou de o Satyros voltar agora ao Marquês de Sade? Foi ver Juliette?
CLÉO DE PÁRIS — Não consegui ver porque estou em cartaz. Mas quero ver. Acho fundamental [a volta a Sade], porque toda pesquisa do grupo tem muito a ver com isso. Com essa questão de mexer em valores sociais burgueses através do Sade. E o Rodolfo foi bem fundo nisso, sem pudor algum. Acho que o grupo faz muito bem isso. Montar Juliette vai dar um ar novo a essa trajetória do Sade. Mas acho muito especial remontar A Filosofia na Alcova e Os 120 Dias de Sodoma, que é a minha preferida.

cleo de paris bob sousa cabaret stravaganza Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris ao lado de Ivam Cabral, na peça Cabaret Stravaganza, de 2011, do Satyros - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o público adora essas peças.
CLÉO DE PÁRIS — Eu me pergunto muito que tipo de teatro que o público quer. E acho que esse é um teatro que o público quer ver. Tem de ser feito. É sempre um sucesso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem medo de dar esse tempo e ter alguém lá no Satyros querendo ser a nova Cléo De Páris?
CLÉO DE PÁRIS — A gente tem que se movimentar, sair da zona de conforto e tentar outras possibilidades. Mas ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha. E, talvez, essa gente nova que está lá nem queira ser igual a mim, talvez nem saibam que eu existo. Teatro é muito efêmero...

cleo de paris bob sousa Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Parece que está tudo mais careta" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que acha dessas peças do Sade neste novo contexto político do País que parece mais conservador do que quando as peças foram montadas pela primeira vez?
CLÉO DE PÁRIS — É triste, porque parece que está tudo mais careta. A gente está retrocedendo. Essa questão toda de conservadorismo, de gente brigando porque Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro se beijaram na novela e aceitando todo tipo de violência como se fosse normal. O mundo está ficando muito triste. Acho mesmo que agora pode ser que choque muito mais. Parece inconcebível. A gente deveria evoluir, mas estamos retrocedendo. As pessoas aceitam menos agora. Parece que é um horror alguém ficar nu em cena. Mas no Carnaval pode ter um monte de gente pelada na televisão de manhã e à tarde, para as crianças verem. Mas não pode fazer topless na praia. É tudo tão hipócrita. Não faz sentido para mim.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A gente está ficando amargo demais ou o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura?
CLÉO DE PÁRIS — Acho que o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura. E a gente precisa se defender de algum jeito. Acho que a gente acaba ficando [amargo]. Eu sinto que estou muito amarga. E eu não era assim. Mas, senão, você fica uma “Pollyanna”. Você tem de arrumar um jeito de se impor, de se colocar e de se defender disso tudo. Nem sei se é o melhor movimento, mas é o que a gente consegue.

DSC00620 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em cena de Ludwig e Suas Irmãs: "Trabalhar com o Eric Lenate me jogou com tudo em minha fragilidade e aprendi que ser frágil tem seus encantos" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de Ludwig. Como você entrou na peça?
CLÉO DE PÁRIS — O Eric Lenate [diretor da peça] queria montar há seis anos, desde que entrou em contato com o texto no CPT [Centro de Pesquisa Teatral]. Ele juntou Lavinia Pannunzio, Jorge Emil e eu há um ano para fazer uma leitura e todos nós gostamos muito. Ele disse que teria de ser com nós três, que era o elenco ideal. Ganhamos o ProAc e tivemos só dois meses de ensaio. Foi muito difícil.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo de trabalhar com outras pessoas, com uma outra forma de se fazer teatro?
CLÉO DE PÁRIS — Foi muito difícil. Pensei até em sair da peça durante o processo. Eu estava trabalhando há muito tempo com o teatro performativo, que te dá certas liberdades. Acho que meu rendimento nos ensaios no começo ficou aquém, porque fiquei travada. E o Eric é muito exigente, muito. E a gente tem muita intimidade. Então, chegou um momento que ficou um processo mais difícil do que prazeroso para mim. Tivemos muitos atritos, a gente não chegou a brigar, assim, mas acho que ele me tratava muito mal nos ensaios. Eu falava: você não trata os outros atores como você me trata. Foi muito difícil trabalhar com ele, muito mesmo. É muito complicado. Não sei se vou repetir. Trabalhei muito tempo com o Rodolfo, que é uma doçura, tem outra pegada. Não estou falando que um seja melhor ou pior. São diferentes. Mas o resultado foi o lugar que queria chegar, sinto que tive um progresso como atriz. Mas eu nunca gosto dessa coisa os fins justificam os meios, sabe? Sabe aquelas pessoas que trabalham com o Lars von Trier e nunca mais falam com ele? Não estou falando que foi nesse nível, mas foi complicado para mim. Não foi fácil, mas o Eric consegue ótimos resultados, isso é uma realidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual análise você faz disso tudo?
CLÉO DE PÁRIS — Trabalhar com o Eric me jogou com tudo em minha fragilidade e eu aprendi que ser frágil tem seus encantos e tem força bruta, porque abre um mar de possibilidades. E que acho que serei grata um dia por viver esse desespero.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o texto da peça?
CLÉO DE PÁRIS — É muito difícil, complexo, impiedoso. Tem um formato enlouquecedor. Ele faz um ato inteiro só com as duas irmãs contando que o irmão vai chegar do sanatório. É um ato inteiro preparando a chegada do Ludwig. E depois são dois atos com ele, com uma demência maravilhosa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É difícil fazer a peça?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. Muito. Acho que só quando fiz uma cega tive um desafio assim. É um estado de presentificação muito grande. E é difícil ficar em cena sem texto, só reagindo, é mais difícil do que fazer uma ação ou dando texto. É um desafio muito louco essa peça.

Ludwig e suas irmãs 23 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris, Jorge Emil e Lavínia Pannunzio em Ludwig e Suas Irmãs: "Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. Apesar de vociferarem, não fazem nada" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Os personagens são todos loucos?
CLÉO DE PÁRIS — Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. O Eric linkava muito essas histórias às manifestações que a gente teve. Porque o texto acaba com tudo, com o mecenato da arte, com a burguesia, não deixa pedra sobre pedra. Apesar de eles vociferarem e falarem coisas lúcidas, eles não fazem nada. Ficam naquela casa, lendo biografias de artistas e tomando chazinho. Eles não fazem nada para mudar, só gritam. O Eric falava: esses personagens são as pessoas que foram reclamar pelo aumento de 20 centavos e depois aumentou 50 centavos e não fizeram nada. Então, era só pelos 20 centavos mesmo. Eles queriam dizer: aumentem direito se é para aumentar, porque 20 é muito pouco. Os personagens falam, falam, mas não saem do lugar. O Ludwig é um tsunami que, quando chega à praia, recua. Só ameaça, mas não faz nada. Tem muita munição e não dá em nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É um texto de desesperança. Acho que voltamos ao começo da nossa conversa. É um problema da nossa geração?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. É uma desesperança. Acho que o mais triste porque é uma desesperança que nem é conformista. Eles não se conformam, mas não fazem nada. Não é: tudo bem como está e vou levar minha vida. Não se conforma, mas não faz nada. Isso é mais triste. Não se conformar e não reagir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o público está reagindo?
CLÉO DE PÁRIS — Acho engraçado tratar o público como essa massa uniforme. Mas é engraçado, isso acontece mesmo, de as pessoas quando estarem juntas terem uma mesma intenção. Estreamos numa Sexta-feira Santa e está indo muito bem. Até porque o teatro é enorme. Se você tem cem pessoas tem um terço do teatro. No Satyros era só 40! E o público está ótimo, mas não sei se ele entende o que está acontecendo lá. Se não embarca, não consegue aproveitar. O que o Thomas Bernhard faz ali é muito específico, mexe com padrões no conteúdo e na forma... O texto não é palatável, mas a gente não quer fazer O Rapto das Cebolinhas. Você falou para mim que viu o documentário do David Bowie. Então, o David Bowie hoje apareceria hoje no Faustão? Não. E graças a Deus! Então, vamos continuar sendo David Bowie.

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Cléo De Páris com Alberto Guzik na peça Liz, do Satyros, em 2009: "O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas", diz a atriz - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro te deu e o que ele te tirou?
CLÉO DE PÁRIS — Ele me tirou o convívio com minha família. Eu quero ver o Ian, meu sobrinho crescer. Tem o aniversário dele em setembro, nesse dia, mesmo se for uma apresentação para o Papa eu não vou fazer. Eu quero ver o primeiro dentinho dele. Eu acho que eu não tive filho porque me dediquei muito ao teatro. Não é uma desculpa, mas minha paixão pelo teatro foi muito intensa. Agora, ela está esmorecendo, mas talvez o fundo do poço tenha porão e eu pegue impulso e volte, como diz uma amiga. Eu vivi e respirei teatro o tempo todo nos últimos dez anos. Passei mais tempo no teatro do que em casa e com muito prazer. Só que agora, quando olho para trás, às vezes eu penso: será que não era melhor ter tido uma vidinha mais pacata? Será que eu deveria ter tido um filho e deixar de pensar: não, agora, porque eu vou para a Suécia, não depois, porque eu vou fazer peça em Cuba... O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas. Ninguém colocou um revólver na minha cabeça, falando: faça teatro 24 horas por dia. Se foi uma escolha errada, eu tenho de ver daqui para frente e lidar com isso. Mas o teatro também me deu amigos, pessoas importantes que eu posso confiar. Ele conseguiu extrair de mim sabedoria, coragem, sensibilidade. Inclusive para fazer essa escola maluca que a gente fez, a SP Escola de Teatro. E me deu coragem também para desistir, para parar uma hora, porque eu sou gente.  E é ainda uma resistência nossa levar as pessoas para verem gente. Tirar o público de casa para ir lá ver outra pessoa igual a ela. Isso está muito difícil, né? As pessoas querem olhar umas para as outras por meio das fotos lindas trabalhadas com filtros no IPhone. No palco, não temos filtro, estamos parados ali, sem rede de proteção, passíveis de erro, de sermos execrados ou amados. E a gente continua fazendo isso. Meu medo é que isso se perca um dia. As pessoas estão cada vez mais isoladas, não param de construir prédios na cidade, cada vez mais minúsculos, para as pessoas viverem sozinhas, em seu compartimento, interagindo com outras pessoas através de máquinas, de computadores.

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Cléo De Páris: "O teatro que faço tem que me dar prazer" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual futuro você pensa para você?
CLÉO DE PÁRIS — Estou contaminada por esse clima de desesperança. Mesmo no teatro não sei o que quero fazer depois de Ludwig. Espero que essa peça tenha ainda uma vida grande. E se eu voltar a fazer outra peça, quero que seja devagar. Com um período mais longo entre um trabalho e outro. Não quero me sacrificar mais pelo teatro. Eu me sacrificaria mais pelas flores do que pelo teatro. Estou muito desiludida com a humanidade. É tão violento o ato criativo que não sei se compensa. E não estou falando de compensação financeira, mas afetiva mesmo. É uma energia grande que você dá e não sei se a balança é favorável. Ainda estou digerindo o processo dessa peça, que foi rápido, intenso e difícil. Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos. Porque nunca me coloquei como “a atriz”. Eu fui fazendo trabalhos... Não quero ficar famosa, não é minha pegada, recusei muita coisa na TV por isso. Porque gosto de ter meu anonimato, vou na contramão disso. É claro que gosto de ter prestígio, que as pessoas valorizem o que faço, de conversar com você, nesta entrevista, mas não gosto de uma coisa que possa alterar minha vida. Tudo certo para quem consegue lidar com isso, não acho que é ruim fazer, mas não é a minha pegada. Não tenho essa vaidade de ser famosa, de ganhar prêmio. Então, o teatro que faço tem que me dar prazer e me mostrar que eu faço diferença em algum lugar. Senão, não faz sentido para mim. Tenho avaliado se tudo isso vale a pena para eu ser fiel a mim mesma.

LUD5 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em ensaio para divulgação da peça Ludwig e Suas Irmãs: "Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos" - Foto: Laerte Késsimos

Ludwig e Suas Irmãs
Quando: Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h. 80 min. Até 17/5/2015.
Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1.000, metrô Vergueiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-4002)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Leia também: Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

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IMG 2172 Satyros volta a Curitiba com peça consagrada

Ivam Cabral, Marta Baião, Fábio Penna, Julia Bobrow e Eduardo Chagas em Curitiba: após consagrar Pessoas Perfeitas em SP, grupo Satyros está de volta a Curitiba, cidade que faz parte de sua história - Foto: Annelize Tozzetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Foto ANNELIZE TOZETTO/Clix

A apresentação da peça Pessoas Perfeitas na Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba tem um gostinho especial para o grupo Satyros, que completou recentemente 25 anos de história.

Afinal, parte desta trajetória aconteceu na capital do Paraná, onde tiveram sede até 2005. Curitiba é a terra de Ivam Cabral, fundador do grupo ao lado de Rodolfo García Vázquez.

Ambos são autores do espetáculos e levaram o Prêmio Shell de Melhor Autor pelo trabalho. A peça ainda abocanhou o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de melhor espetáculo de 2014 ao lado de O Homem de la Mancha.

Tais credenciais transformam a volta do Satyros consagrado nacionalmente a Curitiba como uma espécie de retorno de Tieta, a personagem lendária de Jorge Amado que volta a Santana do Agreste após enriquecer em São Paulo.

Ivam conta ao Atores & Bastidores do R7 que "é uma volta emocionante" e que sente "uma alegria imensa". Até mesmo porque as apresentações deste fim de semana no Teatro Paiol são também seu retorno ao espetáculo após tratar um câncer.

"Curitiba é onde tudo começou, onde me criei. Vem minha família inteira ao teatro. E o curitibano tem aquela coisa de se arrumar todo para ir ao teatro, é todo um ritual", conta Ivam.

O ator ainda se emociona de pisar no palco que foi inaugurado por ninguém menos do que Vinicius de Moraes. "O Paiol é um teatro político, que o Vinicius inaugurou nos anos 70. Para a gente é um palco revolucionário. Fazer esta peça, neste momento do País, é incrível", declara.

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Ivam Cabral (de amarelo) ao lado de Celso Curi, curador do evento, Gabriela Duarte, Marco Nanini e Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

"Arte pela arte já deu"

Marta Baião, atriz da peça, afirma que gosta de trabalhos artísticos que dialoguem com a sociedade atual, como afirma ser o caso de Pessoas Perfeitas.

"Fazer arte pela arte já deu. Temos de ter um teatro que dialogue com a população. A arte tem de dialogar com seu tempo. Vivemos um momento político absurdo e uma conjuntura que não é favorável aos artistas. Precisamos nos mobilizar", convoca.

A atriz Julia Bobrow, que também integra o elenco de Pessoas Perfeitas, comemora sua segunda vez no Festival de Curitiba: "Vim com Rosa de Vidro e acho muito especial estar aqui de novo. Estava contando os dias. Demos o melhor nosso para essa peça durante o processo, mas não tínhamos expectativa de que seria uma peça tão premiada".

Outro que vem pela segunda vez é Eduardo Chagas, que já fez a peça Uma Pilha de Pratos na Cozinha no evento ao lado de Mário Bortolotto. O ator revela que participar de festivais enriquece o artista. "É sempre bom sair do nosso nicho. Ver como o espetáculo funciona em outro lugar. E o Festival de Curitiba tem uma enorme repercussão", conta.

Se Julia e Eduardo vêm pela segunda vez, Fábio Penna, seu colega de elenco, estreia no Festival. "Conhecia já muitos festivais, menos esse. Agora, espero voltar bastante. Adorei" diz.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

Acompanhe em tempo real o R7 no Festival de Teatro de Curitiba 2015!

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gustavo ferreira Dois ou Um com Gustavo Ferreira

Gustavo Ferreira, ator do grupo Os Satyros, entra na peça Pessoas Perfeitas - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O paulistano Gustavo Ferreira se prepara para entrar, a partir do próximo fim de semana, na peça Pessoas Perfeitas, dirigida por Rodolfo García Vázquez, com o grupo Os Satyros. Vai dividir o papel Ruy com Ivam Cabral, que precisa deixar a peça por um tempo por conta de seu tratamento médico contra o câncer. Além de ator, Gustavo também é produtor cultural e coordenador geral do festival Satyrianas, que movimenta a cena cultural de São Paulo a cada primavera. Ele ainda será assistente de Ivam Cabral, ao lado de Robson Catalunha, na direção da cerimônia de entrega do Prêmio APCA, no próximo dia 17 de março, no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. Em meio a tantas tarefas, ele topou o convite do Atores & Bastidores do R7 para participar da nossa coluna Dois ou Um. Dez perguntas cheias de possibilidades. Ou não.

Pessoas perfeitas ou pessoas imperfeitas?
As imperfeições sempre me atraem.

Beija-flor ou Vai-Vai?
Vai-Vai, sem dúvida alguma.

Marília Pera ou Elis Regina?
Impossível escolher entre melhor cantora e melhor atriz. Pode ser Marília cantando Elis?

Satyrianas ou Festival de Curitiba?
Satyrianas é minha base, é o significado de alegria, suor e trabalho.

Roosevelt ou Benedito Calixto?
Roosevelt todos os dias, é claro!

Centro ou periferia?
Moro e trabalho no centro, mas tenho adoração pela periferia.

Gente ou bicho?
Gente! Não existe nada melhor que o ser humano. Os bichos nos completam.

Ivam ou Rodolfo?
Um é intrínseco ao outro. Não existe escolha. Ao escolher um, consequentemente estarei escolhendo o outro junto. Meus mentores.

Cinema ou teatro?
Adoro o cinema, mas o teatro é onde posso me renovar, trocar energia, viver...

Um namoro a dois ou chuva, suor e cerveja?
Cada um no seu momento da vida. Hoje? Namoro a dois em um dia chuvoso com a cerveja do lado... sem suor, prefiro ar condicionado.

Leia outras edições da coluna Dois ou Um

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satyros Satyros vibra com título de campeã da Vai Vai

O carnavalesco André Marins, o ator Gustavo Ferreira e o coreógrafo Fausto Lobo comemoram o título da Vai-Vai - Foto: Reprodução

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os atores do grupo Os Satyros, de São Paulo, são puro contentamento com a vitória da Vai-Vai no Carnaval de São Paulo 2015.

É que a companhia da praça Roosevelt fundada por Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral teve a responsabilidade de fazer a ala Romaria, com 160 componentes.

O convite partiu do próprio carnavalesco da agremiação do Bixiga, André Marins. Fausto Lobo coreografou os artistas do Satyros, velhos amigos da escola.

Robson Fernandjes LIGASP Fotos Públicas Satyros vibra com título de campeã da Vai Vai

Ala Romaria desfila com integrantes do grupo Os Satyros na Vai-Vai - Foto: Robson Fernandjes/LigaSP/Fotos Públicas

Gustavo Ferreira, ator e produtor do Satyros que esteve à frente da empreitada, não se cabia de emoção nesta terça (17), após saber do título. Correu para a quadra da agremiação, no centro paulistano, para vibrar junto à comunidade.

Sambou até não poder mais junto de seus companheiros de escola.

Fez muito bem.

satyros2 Satyros vibra com título de campeã da Vai Vai

Satyros no Anhembi: Marcelo Szykman, Gustavo Ferreira, Maria Casadevall e Fábio Penna durante o desfile da Vai-Vai, campeã do Carnaval 2015 de SP - Foto: Reprodução

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ivam cabral bob sousa6 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

Ator e dramaturgo do grupo Os Satyros e diretor da SP Escola de Teatro, o paranaense Ivam Cabral é uma das forças que movem o teatro brasileiro contemporâneo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto BOB SOUSA

A chuva se anuncia, enquanto funcionários da Prefeitura colocam luzes de Natal nas árvores da praça Roosevelt. A mesma praça que num passado recente era um lugar perigoso e violento, antes da chegada do grupo Os Satyros e seu teatro em diálogo constante com a cidade. É meio da tarde, faz um pouco de calor. No prédio ao lado do Espaço dos Satyros 1, ocupado pela SP Escola de Teatro, no terceiro andar uma porta se abre. Ivam Cabral surge com um sorriso no rosto. Dá boas vindas, pede que fiquemos à vontade. Tenta desanuviar o peso de uma notícia que precisa contar.

Paranaense de Ribeirão Claro, Ivam Cabral, 51 anos, é um dos mais bem sucedidos artistas do teatro brasileiro. Atuando apenas nos palcos, viu o Satyros conquistar o respeito do público, da crítica e da sociedade, além de atualmente comandar uma das mais importantes escolas artísticas do Brasil, onde nos recebeu para esta exclusiva Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Na quarta-feira passada, 19 de novembro de 2014, enquanto se preparava para realizar a maior edição do festival Satyrianas da história de São Paulo, ele recebeu o diagnóstico de que estava com um tumor maligno na tireoide. A ordem médica foi cirurgia imediata, marcada para a próxima quarta (3), no Hospital Sírio-Libanês. Ele ainda aprende a lidar com esta realidade.

Com fala marcada pela emoção misturada à coragem, Ivam comemorou o ano intenso e falou sobre o delicado momento que vive.

Leia com toda a calma do mundo.

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Ivam Cabral, em sua sala na SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, aquela que foi transformada por seu grupo Os Satyros de um lugar perigoso e violento em polo cultural do teatro brasileiro - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como que você recebeu a indicação de Pessoas Perfeitas para o APCA de melhor espetáculo?
IVAM CABRAL — Foi surpreendente. A gente não esperava... É uma peça que a gente fez de forma despretensiosa, sem expectativa. Então, tudo o que acabou acontecendo com a peça foi surpreendente. A gente fez uma peça e, de repente, fez um sucesso. Estamos convidados, e isso te dou em primeira mão, para os festivais de Havana, Cabo Verde, Curitiba, Rio, Brasília e Porto Alegre. É maravilhoso que isso se deu de uma forma tão digna e espontânea.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês fizeram um ano vibrante para o Satyros, cheio de projetos. Como deu conta ?
IVAM CABRAL — Foi um ano surpreendente. Mas muitos projetos começaram antes. A gente viu o Satyros Cinema estrear com o filme Hipóteses para o Amor e a Verdade na Mostra Internacional de Cinema, mas o filme começou muito antes. O projeto E Se Fez a Humanidade Ciborgue em 7 Dias também foi gestado ano passado. 2014 foi um ano em que fizemos de tudo: livro, cinema e muito teatro, foram 12 peças inéditas! É uma equipe muito apaixonada. Mas também foi um ano que tivemos condições mínimas para trabalhar, pois tínhamos o incentivo do Fomento ao Teatro. Não é sempre assim. Agora vamos começar uma fase mais complicada, porque não temos subsídios. Mas isso também a gente já conhece, faz parte da nossa rotina ter momentos mais bacanas e momentos de maior aperto.

ivam cabral bob sousa1 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

O ator Ivam Cabral; no detalhe, capa do livro da peça Pessoas Perfeitas - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A Satyrianas 2014 foi um grande sucesso, que sei que não aconteceu da noite para dia, afinal Os Satyros tem 25 anos e o festival, 15 edições. Mas é fato que hoje vocês chegaram a um lugar de muita importância na cidade. Como o  underground lida com agora ser mainstream?
IVAM CABRAL — Teve uma coisa que eu considero divisor de águas neste ano: a apropriação da Satyrianas pela classe teatral. Muitas companhias incríveis, que não participariam em edições passadas, agora procuraram a gente, quiseram estar juntas. E estar juntos não é só levar este selo da Satyrianas, mas estar junto na apropriação de um espaço público. Então, conquistar isso para nós foi surpreendente. Foi o ano que tivemos a relação mais legal com vizinhos. Por isso, foi surpreendente quando anunciei: 60 mil pessoas e zero de ocorrência policial. Não que a gente esperasse alguma coisa, mas estamos falando de um evento que acontece na rua, então, é involuntário que algum problema pudesse acontecer. Por isso, não ter nenhum registro policial é para se vibrar muito. É o teatro chegando num lugar onde ele tem saúde, tem maturidade. A gente recebe isso com uma alegria que você não tem ideia. Todo mundo que estava na Satyrianas, como você mesmo com sua cobertura no seu blog, estava se sentindo responsável por aquilo dar certo. Acho que o melhor não foi ter crescido em números, mas crescido em projetos, ideias, em maturidade do público e da classe teatral.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que vocês do Satyros vão encerrar mais cedo a temporada de Pessoas Perfeitas [prevista para ir até 14 de dezembro, a temporada termina no domingo, dia 30 de novembro; veja serviço ao fim]?
IVAM CABRAL — Então..., eu já algum tempo estava investigando... E eu descobri um tumor na tireoide. E daí a gente tem de parar para ver o que é que é, né? E eu comecei a ir atrás... E é maligno, e ele tem de ser retirado imediatamente. Não posso esperar mais nem uma semana. Então, eu vou fazer uma cirurgia na semana que vem, morrendo de medo... Mas vamos embora,  vamos ver o que é que é. Dos cânceres é o mais tranquilo, estou falando pelo que meus médicos me falaram. Pode parar aí e não ter nenhum problema, mas pode ter o problema da metástase, então, é isso que eu tenho de cuidar agora, para que não vá para outro lugar do meu corpo e essa história se encerre aí.

ivam cabral bob sousa2 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

O ator Ivam Cabral conversa com o jornalista Miguel Arcanjo Prado em sua sala de trabalho - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você recebeu a notícia?
IVAM CABRAL — Eu parei de fumar e quis ver como estava meu pulmão e quando você faz o exame, mostra daqui pra baixo [apontando o pescoço]. Daí meu pulmão estava ótimo, mas apareceu esse nódulo. Num primeiro momento, quando falava para as pessoas, elas diziam: "fulano tem, não é nada". Desde abril estou investigando, sempre achando que não era nada. Aí, fiz umas punções e as primeira não davam nada. E a última foi na véspera da Satyrianas. Passei a Satyrianas medindo pressão e coração, fugindo da muvuca... O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas... Voltando a falar deste ano incrível, parar a peça no dia 14 de dezembro já era muito cedo, a gente sempre pensou até próximo do dia 20 de dezembro. Ter de parar agora, então, é brochante. Dá uma dor, até porque tem uma equipe. São muitas pessoas trabalhando com você e de repente você ser responsável porque esse trem pare é chato, você ser o responsável por parar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Nao tem de ter culpa nenhuma, Ivam. A saúde é o mais importante... Como você viu isso logo no fim de um ano que foi tão produtivo?
IVAM CABRAL — Será que são sinais para dar uma freada e parar? É muito trabalho, eu não fico menos do que oito, nove, dez, 11 horas aqui na SP Escola de Teatro. É todo dia. E daí tem os Satyros, e daí tem os meus projetos pessoais... Eu passei este ano dormindo quatro, cinco horas por noite e achando que isso era normal. Eu nunca achei que dormir menos do que cinco horas por noite não era normal. Pensava: "estou no meu pique, que legal". Talvez isso tudo venha para... Eu tive um problema de saúde muito grande, há três anos, que eu perdi a visão do meu olho direito. Aconteceu durante a peça Cabaret Stravaganza. Na época, poderia ser um tumor, mas não era, o doutor Drauzio Varella me ajudou muito. Mas eu cheguei perto desse horror da vida. Perder uma visão é muito cruel. Então, cara, na época do Cabaret isso já tinha sido um pouco um recado, mas agora vem de verdade. Porque agora é um câncer. E foda-se que ele ele é pequenininho, foda-se que eu vou sair dessa... Mas é para dormir mais, é para ter uma alimentação mais saudável, porque na onda de tudo isso, você não tem tempo para se cuidar, come em qualquer lugar...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem de sair de São Paulo, parar de respirar esse ar, parar com tanta coisa...
IVAM CABRAL — Eu tenho uma casinha em Parelheiros [extremo sul de São Paulo], no meio do mato, que é uma delícia, mas eu não tenho tempo de ir para lá. Termina a peça aqui, eu vou para lá, só durmo, para acordar ouvindo o passarinho cantando, mas já volto para cá, porque tenho muitas coisas para resolver.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem fé?
IVAM CABRAL — Daí vem o lado caipira do Ivam... Eu sou do interior do Paraná [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E eu sou de Minas...
IVAM CABRAL — A minha colonização é toda mineira. A minha região foi ocupada pelos mineiros e a gente é muito mineiro nesse sentido. Eu sou muito cristão. Eu acredito em muitas coisas, não acredito só em uma. Então, eu tenho uma força muito grande. Puta que pariu, eu quero viver muito! Tem muita coisa que eu quero fazer! A SP Escola de Teatro está só engatinhando... Aqui na SP foi um ano de muitos projetos, a gente tem aprendizes dirigindo na Polônia, temos gente na África, na Europa, enfim, a gente quer abrir aqui a Coordenação de Cinema, a de Circo já começa a existir.. No Satyros temos planos de produzir e, sobretudo, levar adiante o Satyros Cinema que está começando. Então, eu tenho muita coisa para fazer, eu não posso ficar mal. Para eu continuar acreditando, o melhor é me apagar aos meu projetos e pensar que a vida segue, entende?

ivam cabral bob sousa3 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

Ivam Cabral: "O que todo mundo pode fazer é torcer para mim pra caramba" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como as pessoas do seu entorno reagiram?
IVAM CABRAL — Na verdade, nem todo mundo ainda sabe. Você tem uma coisa entre a vítima e o herói nessa hora. Eu posso falar, ai, Miguel, ninguém carrega um peso maior do que suporta. Você conhece a Andrea Zanelato [funcionária da SP Escola de Teatro que enfrenta um câncer]? Então, ela tem vivido essa história com um heroísmo absurdo. E você tem o extremo disso, que é aquela pessoa que começa a reclamar, "ai, vou morrer". Eu não queria ser protagonista nessa hora, eu não sei o que fazer. Aqui na escola pouca gente sabe. Então, é difícil você encontrar um equilíbrio... Eu fico pensando em tantas histórias. Imagina o que a Drica Moraes passou [atriz que enfrentou a leucemia]? O meu diagnóstico é uma fagulhazinha perto do que ela viveu. Se essa mulher chegou nesse ponto de superação, a gente vai encontrando bons exemplos pela vida para ir se inspirando neles para poder também pensar que a gente vai continuar aqui. Mas ainda eu não sei o que fazer com essa história.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Muita gente vai ler esta entrevista e ficar mexido com essa história, porque muita gente gosta de você. O que você diz a essas pessoas?
IVAM CABRAL — O que elas podem fazer é torcer por mim pra caramba, que seja só um susto e um aviso para eu ir mais devagar. Porque eu tenho muita coisa para fazer ainda. Eu estou muito tranquilo, não quero entrar nesse lugar, "ai, meu Deus", e nem de herói. Aí, cara, é só uma virada de história. Espero ainda rir disso, desse nosso encontro, de falar: "meu Deus eu pensava assim naquela época"...

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você quer agora?
IVAM CABRAL — Eu quero ficar bom de saúde. É só o que me interessa. E o que eu quero para o futuro é saúde. Porque capacidade de trabalho eu tenho. Eu costumo dizer que cheguei muito mais longe do que eu imaginaria, pela minha origem, da pobreza, do lugar de onde eu venho. Essa disposição é tudo na vida. E ela só vem se você pode respirar, levantar, ir à luta. Ter saúde. Porque aí eu posso sonhar. E sonho eu consigo transformar em algo real e vital. Agora, sem saúde é terrível. Torçam por mim.

ivam cabral  bob sousa5 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

O ator Ivam Cabral brinca com sua cachorra Cacilda, mascote da SP Escola de Teatro: "Eu quero ficar bom de saúde. É só o que me interessa", diz o artista - Foto: Bob Sousa

Pessoas Perfeitas
Avaliação: Muito Bom
Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h. 80 min. Até 30/11/2014
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, República, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira); R$ 10 (meia-entrada) e R$ 5 (moradores da praça Roosevelt)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

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satyrianas1 Vídeo: Satyrianas 2014 tem 600 atrações; Gustavo Ferreira e Robson Catalunha revelam detalhes

Gustavo Ferreira e Robson Catalunha contam as novidades da Satyrianas 2014 - Foto: Reprodução

A partir das 18h desta quinta (20) a praça Roosevelt vira o coração cultural de São Paulo por 78 horas ininterruptas. É a Satyrianas 2014, tradicional evento da cidade que chega à 15ª edição e que comemora os 25 anos do grupo Os Satyros, seu idealizador, e que vai até o último minuto do domingo (23). São 600 atrações, a maioria com entrada a pague quanto puder: tem teatro, música, cinema, circo e artes plásticas, além de feirinha de comidas. O editor de Cultura do R7, Miguel Arcanjo Prado, recebe os artistas Gustavo Ferreira, coordenador geral da Satyrianas, e Robson Catalunha, produtor do evento, para o bate-papo sobre as novidades do festival. Veja o vídeo, abaixo:

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mostra 10 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra
O diretor Rodolfo García Vázquez e o roteirista e ator Ivam Cabral: filme na Mostra - Foto: Edson Degaki

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A turma da praça Roosevelt invadiu a rua Augusta. Na noite desta quinta (17), artistas do palco foram à sala 4 do Espaço Itaú de Cinema, em São Paulo, para assistir à estreia do filme Hipóteses para o Amor e a Verdade, do Satyros Cinema, com direção de Rodolfo García Vázquez e roteiro de Ivam Cabral. O fim da exibição foi prejudicado por um funcionário da Mostra Internacional de Cinema (entenda o porquê). Entre os convidados, estavam amigos do grupo e integrantes do elenco do longa. Ausências de Nany People e Cléo De Páris foram sentidas. Veja quem apareceu por lá:

Leia também a crítica do filme!

mostra12 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

Gustavo Ferreira e Paulinho Faria, do elenco de Hipóteses para o Amor e a Verdade - Foto: Edson Degaki

lorena borges phedra d cordoba Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

Lorena Borges e Phedra D. Córdoba acompanharam o lançamento - Foto: Edson Degaki

 

mostra 1 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

O ator Ivam Cabral abraça o colega Fábio Penna, à esquerda, o ator Henrique Mello - Foto: Edson Degaki

mostra 5 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

Público vê Hipóteses para o Amor e a Verdade: à esq., em primeiro plano, o ator Paulinho Faria - Foto: Edson Degaki

mostra 13 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

O ator Tiago Leal, que vive um homem de classe média paulistana no filme - Foto: Edson Degaki

 

mostra 11 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

O ator Ivam Cabral e o psicanalista Contardo Calligaris depois da sessão - Foto: Edson Degaki

mostra 91 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

Público paulistano acompanha atentamente a chegada do Satyros ao cinema na Mostra 2014 - Foto: Edson Degaki

 

mostra 14 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

O ator Robson Catalunha, que interpreta um jovem depressivo no filme - Foto: Edson Degaki

Você acha que o grupo Satyros se dará bem no cinema tanto quanto no teatro?

  • Sim, eles são talentosos e ousados. Vão arrasar nos cinemas também.
  • Não, acho que o forte do grupo é só o teatro.
  • Sei lá, ainda não tenho uma bola de cristal!
 Turma do teatro prestigia filme do Satyros na Mostra

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120 dias Satyros revê 25 anos de underground em palestra

Gente jovem reunida: o ator Rafael Mendes, na peça 120 Dias de Sodoma, em 2009, um dos marcos nos 25 anos da trajetória do grupo Os Satyros, ícone da cena underground - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

As comemorações dos 25 anos do grupo Os Satyros parecem nunca ter fim.

Para quem sempre ouve falar da famigerada trupe, mas nunca se ateve aos detalhes de sua história, há uma chance imperdível.

Nesta sexta (10), às 19h, a dramaturga Marici Salomão fará palestra no Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, metrô República).

O tema é: Análise sobre a Trajetória dos Satyros Desde Sua Chegada à Praça Roosevelt.

120 dias dani agostini 2 Satyros revê 25 anos de underground em palestra

Marco libertário da Roosevelt: cena da peça 120 Dias de Sodoma, da Cia. Os Satyros - Foto: Dani Agostini

Salomão promete esmiuçar o caminho percorrido pelo grupo ícone do underground, que chegou a atuar na Europa na década de 1990, onde fez sucesso e também passou por dificuldades, como qualquer artista.

O encontro faz parte do projeto Pessoas Perfeitas, título da atual peça que o grupo fundado por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez encena no mesmo local na sequência (leia a crítica por Bruna Ferreira).

A entrada na palestra é gratuita.

Em tempo: no próximo dia 29 de outubro o Itaú Cultural (av. Paulista, 149) abre o Festival Satyros 25 anos, com entrada grátis. Haverá peças do grupo, além de debates com os fundadores e também o filme que Evaldo Mocarzel gravou, tendo como tema a trupe teatral paulistana. Saiba mais.

120 dias dani agostini Satyros revê 25 anos de underground em palestra

Marquês de Sade e Satyros: aristocracia em xeque em 120 Dias de Sodoma - Foto: Dani Agostini

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satyrianas andre stefano Satyrianas vêm aí: inscrições vão até dia 10

Divas: Phedra D. Córdoba (à esq.) cai no samba com passista em plena praça Roosevelt, nas Satyrianas - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Chega a primavera e a turma do teatro paulistano já fica em polvorosa.

Todo mundo quer aprontar alguma coisa nas Satyrianas, o festival que promove 78 horas ininterruptas de arte na praça Roosevelt, em São Paulo, e em outros espaços da cidade.

Neste ano, as inscrições foram prorrogadas até o próximo dia 10 de outubro no site do evento. Tem espaço para teatro, cinema, dança, música e performances.

Segundo os organizadores, a Satyrianas de 2014 vão entrar para a história, por conta de coincidirem com os 25 anos do grupo Os Satyros.

Em informe, o grupo diz: "Os Satyros tem muitos motivos para festejar. São 25 anos de história. História de resistência e conquistas, lutas e descobertas. Um grupo que se estabeleceu no meio do governo Collor e teve que abandonar o Brasil para poder sobreviver, que se dividiu entre o Brasil e a Europa durante mais de uma década e que só voltou a sua São Paulo do coração em dezembro de 2000, estabelecendo-se na praça Roosevelt", afirma.

E ainda declara: "Nenhum desses obstáculos foi fácil de superar, assim como também não é fácil para os milhares de artistas de teatro deste país que, como nós, lutam por dar ao público novos olhares sobre o mundo".

Ainda de acordo com Os Satyros, o espírito original das Satyrianas será mantido: "uma festa dos artistas do palco para a cidade".

Em tempo, a Satyrianas 2014 vai acontecer entre 20 e 23 de novembro.

Anote na agenda.

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pessoas perfeitas 1 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Eduardo Chagas e Marta Baião estão grandiosos na peça Pessoas Perfeitas, do Satyros - Foto: André Stéfano

Por BRUNA FERREIRA*

Deve ter alguma coisa no anonimato que reúne as pessoas. Pode ser um tipo de prazer em passar despercebido pela multidão ou, talvez, a solidão e angústia de ser só mais um no todo incontrolável.

pessoas perfeitas 2 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Henrique Mello e Julia Bobrow em cena da peça - Foto: André Stéfano

É nesse lugar de encontro entre desconhecidos, fugaz e imprevisível, que está o mote do espetáculo Pessoas Perfeitas, do Satyros.

Os personagens são caricaturas de moradores de São Paulo. As histórias, em princípio, parecem distantes umas das outras, mas todas mostram pessoas em fuga. Todas também estão em busca. A vida anônima, solitária e difícil na grande metrópole as une.

Medalha (Julia Bobrow) é uma jovem mística que deixa o interior para viver uma experiência transcendente na cidade logo após perder os pais. Ela se apaixona por Binho (Henrique Mello), um garoto de programa, que se esconde dos pais, um açougueiro chamado Robalo (Eduardo Chagas) e sua mulher, Cacilda (Marta Baião).

Vez ou outra, Robalo frequenta uma linha de disque amizade, onde conhece Sarah (Ivam Cabral), travesti cujo nome de batismo é Ruy e que passa os próprios dias cuidando da mãe com Alzheimer. Não por acaso, a senhora adoentada se chama Esperança e sua vida encontra-se por um fio, a metáfora para a existência de todos os personagens.

Sarah/Ruy tem uma irmã, Maristela (Adriana Capparelli), uma cantora decadente e solitária que está sozinha e morrendo de câncer na laringe. Ela chega ao fim da vida movida a cigarros, lembranças de uma vida que não aconteceu e uma paixão doentia por Elder (Fábio Penna), um poeta fracassado, que debocha da humanidade enquanto bebe uísque e cheira cocaína.

Força poética dos párias

O Satyros, mais uma vez, tem o mérito de mostrar a força poética dos párias da sociedade, trazem a invisibilidade para a luz; ela vem à tona com o lirismo e a violência que lhe são devidos. Este é um trabalho que o grupo teatral vem se especializando ao longo dos anos e em outras produções.

pessoas perfeitas 3 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Ivam Cabral, ator da peça e também autor, ao lado do diretor Rodolfo García Vázquez - Foto: André Stéfano

A direção é de Rodolfo García Vázquez, que também assina o texto com Ivam Cabral. Este último, dá vida a Sarah/Ruy, personagem mais cheio de contornos da peça.

Diferente das demais, talvez por sua própria condição, Sarah não abraça a infelicidade, ela constrói a si mesma e se refaz. O público acaba se agarrando às expectativas dela, mas é preciso se lembrar, que em Pessoas Perfeitas, dona Esperança está entre a vida e a morte.

Grandioso trabalho é feito por Eduardo Chagas e Marta Baião. Robalo tem ares de palhaço tragicômico, sua suavidade quebra o ritmo do espetáculo e fica ainda mais evidente no contraste com sua principal parceira de cena, Cacilda. Marta Baião empresta uma dignidade para sua personagem que, em determinado momento, faz o escárnio da plateia e do mundo calar a boca, culpado e cúmplice.

A peça vem fazendo tanto sucesso junto ao público que teve temporada estendida. As apresentações são de quinta a domingo, mas é bom chegar cedo para garantir um lugar. As sessões costumam lotar e quem não aceita sentar nas escadas, acaba saindo com ingressos para o dia seguinte.

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado.

Pessoas Perfeitas
Avaliação: Muito bom
Quando: Quinta a domingo, às 21h. 80 min. Até 26/10/2014
Onde: Espaço dos Satyros Um (Praça Roosevelt, 214, Consolação, tel. 0/xx/11 3258 -6345)
Quanto: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) R$ 5 (moradores da Praça Roosevelt)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

pessoas perfeitas 4 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Elenco de Pessoas Perfeitas, do Satyros: moradores do centro paulistano com poesia - Foto: André Stefano

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