Posts com a tag "satyros"

henrique mello eduardo enomoto 1 Henrique Mello, o ator com identidade consciente

Aos 30 anos, o ator Henrique Mello faz teatro há mais de uma década - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Quando está livre, o ator Henrique Mello procura, incansavelmente, músicas novas. Gosta de estar à frente. Geralmente, escuta aquilo que todo mundo vai ouvir bem depois. Não curte o que todos ouvem. “É o tipo de música que só serve para trepar”.

O segundo dos três filhos de Ivaldo e Aparecida nasceu em Sorocaba, no interior de São Paulo. Durante a infância e a adolescência, tinha sonho de ser músico. Mas não foi assim.

Aos 17 anos, o teatro surgiu de forma inesperada. A caminho do trabalho, em uma copiadora, encontrou jogado na calçada um texto teatral. Levou para a casa e começou a brincar de decorá-lo. O prazer era tanto que descobriu uma possibilidade: atuar.

Correu para as aulas do Instituto Cultural Vila Leão, onde estudou teatro por quatro anos. Até que veio a grande mudança. Um amigo lhe falou da oficina de teatro do grupo Os Satyros, na praça Roosevelt, em São Paulo.

Entrou num ônibus rumo à metrópole. Um mês depois, recebeu convite para a reconhecida trupe de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez.

Sem lugar para ficar na cidade, terminou no porão da casa do amigo Heitor Saraiva. Depois, se virou, como todo mundo que chega a São Paulo com um sonho de vida.

Na época, namorava com a atriz Samira Lochter, também integrante da companhia, com quem foi dividir apartamento. O amor durou cinco anos. Mas, se a relação acabou, ficou a amizade. Diz que se cuidam.

No teatro frenético e urbano dos Satyros, fez de tudo. Uma montagem atrás da outra. 120 Dias de Sodoma, Justine, Filosofia da Alcova, Vestido de Noiva, Cabaret Stravaganza, Inferno na Paisagem Belga, peça que acaba de deixar. Teve contato com um mundo repleto de diversidade. Diz que isso foi essencial na construção de sua carreira.

Nascido em 11 de julho de 1982, é do signo de câncer com ascendente em touro. Fez 30 anos. Idade fatídica. Se deu conta disso no último Réveillon. Não se arrepende das “porralouquices” dos 20 e poucos e tantos anos, mas afirma: “Meus ídolos não morreram de overdose”.

Sabe que a época é de tomada de consciência. Chega à conclusão de que o corpo pede outras coisas. Envelhecer, não parece ser um problema. “Gosto de ficar mais responsável. Hoje, não me importo tanto com o que os outros pensam”.

No começo do ano, foi para Estocolmo, com a peça Cabaret Stravaganza. Ficou impressionado em como os suecos valorizam o teatro. Sonha com que um dia seja assim também no Brasil.

Apesar de ser um dos musos automáticos da praça Roosevelt, onde faz sucesso nas mesas e bares, diz que não se acha bonito. “Sou muito inseguro com minha aparência”. Conta que seus personagens nunca foram galãs, que já fez “até um libertino que matava a mãe e transava com homens”.

Revela que está solteiro, mas que “até o fim da vida” encontra “a pessoa ideal”. “Gostaria muito de amar”, conclui, com ar melancólico.

Espera, no futuro, fazer muito teatro. E quer trabalhar com cinema, e, se pintar, faz TV também. “Quero tocar meus projetos de forma digna, seguir os passos de um artista independente que consegue sobreviver de sua arte”.

Quando vê o que já fez na última década, diz, certeiro: “Não tenho nada para me arrepender”. E aponta para o futuro: “Já tenho uma identidade; agora, só preciso focar”.

henrique mello eduardo enomoto 4 Henrique Mello, o ator com identidade consciente

O ator Henrique Mello: "“Já tenho uma identidade; agora, só preciso focar” - Foto: Eduardo Enomoto

Agradecimento: Centro da Cultura Judaica de São Paulo

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marcio tito pellegrini Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Membro da nova geração, Marcio Tito Pellegrini é dramaturgo, ator e diretor - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por Miguel Arcanjo Prado

Marcio Tito Pellegrini acaba de fazer 22 anos. O que faz dele representante da nova geração do teatro brasileiro. Geração multiuso. É dramaturgo, diretor, ator, produtor, divulgador... Enfim, rala para fazer acontecer a arte na qual acredita. O sobrenome pomposo vem do irmão de seu bisavô, o ex-presidente argentino Carlos Pellegrini (1946-0906), mas conta que só sobrou a pompa.

Ele está em cartaz aos sábados, às 19h, até o fim do mês, com a primeira peça de seu grupo, A Tragédia Pop: Roberto e a Filologia das Estrelas. A obra causa burburinho no Espaço dos Satyros Um, na praça Roosevelt, reduto do teatro alternativo paulistano (leia a crítica).

Cria do Satyros, onde entrou para fazer a elenco de apoio na peça Roberto Zucco, Marcio Tito Pellegrini nasceu em São Paulo em 23 de abril de 1991. Estuda dramaturgia na SP Escola de Teatro e pensa em um dia cursar ciências sociais na USP. Enquanto isso, faz muito teatro. Do jeito que pode, de todos os modos.

Ele se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 no bosque das esculturas do parque da Luz, no centro paulistano, em uma bela tarde de sol de outono. Falou de tudo. E se definiu como membro da “geração do para de reclamar e vai fazer”.

Leia com toda a calma do mundo:

marcio tito pellegrini 3 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Márcio Tito Pellegri é paulistano e diz que quer fazer um teatro político - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado – Você não é novo demais para se meter a escrever, dirigir e atuar?
Marcio Tito Pellegrini – Acho que sou novo, sim. É que comecei a fazer teatro com 15 anos. A vida do artista é muito intensa. No Satyros, tive uma vida muito efervescente. Montagens, amigos, projetos, enfim, muita coisa aconteceu.

Como foi sua infância?
Nasci em São Paulo, no bairro Higenópolis...

Nasceu rico.
Nasci rico, mas hoje em dia fudeu tudo [risos]... Sou de 23 de abril de 1991.

Você é do século passado, então.
Não, sou um jovem senhor dos anos 20 do século 21. Ah, faço aniversário junto com Shakespeare e o Léo Jaime [risos].

Quem são seus pais?
Minha mãe se chama Edinéia, e trabalha com alimentos, já meu pai, Mauro Pellegrini, sempre teve bar.

Você mora com os pais?
Eu moro com meus pais, mas vou voltar depois das três [risos]. Acho que isso coloca os pais no lugar de artistas também, porque de alguma forma viabilizam projetos. É tudo muito instável, eu sei, mas eles estão fazendo arte comigo.

Você namora?
Estou namorando a Amanda Magalhães. Ela é atriz e faz EAD [Escola de Arte Dramática da USP].

É filho único?
Não, isso é uma questão... Eu sou o único filho do meu pai e da minha mãe, mas tenho três meio-irmãos. Um por parte de mãe e dois por parte de pai, um deles com dois anos. Somos uma família moderna. Meu pai tem 64 anos e tem um filho bebê!

É. Seu pai está em ótima forma! [risos] O que você fazia quando era criança?
Eu lia muito. Eu sofria bullying e comecei a ler muito...

Te batiam na escola?
Não chegava a tanto. É que eu não era muito agregado.

marcio tito pellegrini 5 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Quando era criança, Marcio Tito Pellegrini gostava de ler na biblioteca - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Não se preocupa, eu também tinha um colega que me batia sempre. Hoje ele é policial militar! [risos]. Mas vamos falar de você. Você ficava lá quietinho na biblioteca da escola durante o recreio?
É... Eu passava os intervalos lendo na biblioteca. Engraçado, nunca joguei futebol, tentei jogar basquete e não deu certo... Eu não conseguia lidar com as coisas da minha idade de fato. Aí, entrei no mundo dos livros.

Como você começou teatro?
Foi aos 15 anos.

Foi por estar em uma crise?
Não, eu sempre fui assim. Eu não era de brigar, de ser revoltado. Se não gostava de algo, ignorava.

Não batia a porta do quarto na cara da sua mãe?
Não.

E como surgiu o teatro?
Como eu era essa pessoa retraída, meus pais me incentivaram a fazer teatro. Comecei a frequentar peças e fui fazer o curso da Escola de Atores Wolf Maya. Logo que entrei lá, vi que tinha uma coisa política a se fazer no teatro, mas vi que não era ali. Fiquei três anos e saí no último semestre para fazer Roberto Zucco nos Satyros.

Saiu logo na hora de tirar o DRT [registro profissional no Ministério do Trabalho]?
Pois é. Está vendo o que eu fiz na vida? Não tirei o DRT até hoje!

A Patrícia Vilela [atriz, atualmente no elenco de Malhação] foi sua professora?
Foi. Ela é ótima.

Eu gosto muito dela. E o Alberto Guzik [ator, jornalista e crítico teatral que morreu em 2010 vítima de câncer]?
Também. Ele me deu aula de história do teatro.

As pessoas têm muito preconceito com o Wolf, mas bons professores passam por lá, como a Patrícia, o Guzik, que é um cara que admiro muito. Ou seja, tem muita modelete, mas também tem como aprender, né?
Sim, no Wolf eu tive excelentes professores. Tive aula com o Zé Henrique de Paula, com a Sandra Corveloni, que ganhou melhor atriz em Cannes.

E foi o Guzik quem te levou para o Satyros?
Sim, ele convidava para ver as peças. Eu vi cinco vezes o Monólogo da Velha Apresentadora [peça na qual Guzik satirizava Hebe Camargo].

Eu também vi. Ele estava ótimo naquela peça. Acho que foi a última peça dele, né?
Pois é, ele era muito bom. Aí eu comecei a frequentar a Roosevelt e comecei a ficar sem grana para pagar o Wolf... Mas resolvi que não ia parar de fazer teatro. Chamei então a Priscilla Leão e o Marcos Santana e escrevi um texto para eles fazerm nas Satyrianas, As Dolosas Coxas.

Então, você já era meio capetinha, já tinha começado a descobrir os caminhos...
Sim, já era meio fervido. Aí, o Rodolfo precisava de alguém para parte do elenco de apoio de Roberto Zucco, aí eu fui fazer.

Você ficava pelado?
Não [risos]. Roberto Zucco foi minha primeira peça. E depois fiz as Satyrianas como dramaturgo.

Você tinha quantos anos nesta época?
17.

Ninguém devia dar bola para você...
Não dava, mas Os Satyros deu. O Rodolfo me chamou para dirigir o Satyros Teen, que acho que é o projeto mais importante que eu fiz na vida. Dirijo esse grupo, com jovens do centro da cidade há dois anos. É uma geração muito oprimida pela metrópole.

Bom, aí você foi se metendo em tudo. E você sabia o que queria da vida?
Na verdade eu sempre soube. Sempre quis ter uma postura política no teatro.

E como você entrou na SP?
O Rodolfo [García Vázquez, diretor dos Satyros] viu Cemitério dos Elefantes, peça minha que foi dirigida por Fábio Penna, e me deu uma puxada de orelha, falou “acho que não é por aí, você não quer estudar, não?”. Aí eu entrei em 2012 no curso de dramaturgia na SP Escola de Teatro.

marcio tito pellegrini 2 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

"Sou cria do Satyros", diz Marcio Tito Pellegrini, fundador de A Tragédia Pop - Foto: Miguel Arcanjo Prado

E essa sua peça agora, Roberto e a Filologia das Estrelas. Como surgiu a ideia de ter seu próprio grupo de teatro?
No processo do espetáculo Satyros’ Satyricon, o Rodolfo propôs quem queria apresentar um projeto nas Satyrianas [festival teatral na primavera, na praça Roosevelt]. Eu tinha conhecido o Roberto Reiniger em uma oficina e tinha um texto sobre a vida dele. Aí me ofereci e comecei a ensaiar com atores que arregimentei no Satyricon, porque sou obsessivo. O Rodolfo viu e sugeriu que montássemos um grupo. Aí fundamos A Tragédia Pop.

Por que tem esse nome?
A minha visão como dramaturgo do grupo é que hoje em dia tudo é entendido pelo universo do pop. Se Édipo fosse hoje, a Beyoncé seria a Jocasta. Tudo que a gente louva no pop é uma coisa quase deprimente. Você escuta Thriller, do Michael Jackson, é uma música feliz, mas tem uma tristeza de fundo, um viés ressentido com o contemporâneo. E o Roberto, da peça, é um ressentido com o contemporâneo.

Como você define seu teatro?
Definir na primeira peça é difícil. Mas acho que vamos num caminho que aponta para a performatividade. Mas não importa a forma, nosso conteúdo será sempre político. Eu chamo de teatro contemporâneo. Mas o bom do contemporâneo é que está sempre no futuro.

Político de que lado?
O artista no Brasil não tem direito de querer ser petista nem tucano. Nem esquerda nem direita. Acho que temos de instaurar um lado novo, para inventar um novo Brasil. Este é o presente que vivemos? Está legal? Queremos viver à base de fármacos e McDonalds, que não deixa de ser um fármaco? Acho que o trabalho do Mano Brown nos Racionais é bom em termos de energia do discurso, de jogar essa bomba.

Você não tem vontade de fazer faculdade? Acho que você se daria bem na sociologia ou na filosofia...
É... Ainda dá tempo... Meu foco, neste ano é A Tragédia Pop. Estamos ensaiando mais duas peças. Um é teatro-dança baseado em O Estrangeiro, do Albert Cammus, e também uma outra peça, que vai se desdobrar em uma banda, baseada em Charles Bukowski. Se tudo correr bem, quero me formar na SP neste ano. E aí, no ano que vem, penso em fazer faculdade, penso muito em sociologia, em me preparar teoricamente.

Acho que vai ser importante para você. E como você dá conta de fazer esse monte de coisa: você estuda, ensaia, junta as pessoas, escreve, promove a peça no Facebook.
Acho que isso vem muito de uma insatisfação com o que tem sido feito. Então, mais do que reclamar, eu quero fazer. Sou da geração do para de reclamar e vai fazer.
E não dirijo por uma vontade clara. É que o dramaturgo hoje em dia tem de produzir. Enquanto o Zé Celso não me ligar pedindo peça, eu vou ter de me dirigir!

 

marcio tito pellegrini 6 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Apesar do olhar triste nas fotos, Marcio Tito Pellegrini diz: "Sou um cara feliz" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Você tem um olhar triste nas fotos. Mas ri aqui na entrevista. Você é triste ou feliz?
Eu sou um cara feliz. Acho que depois que a gente tem certa percepção de mundo, do sistema, a gente fica um pouco triste. Mas a gente também encontra brechas para não se deixar abater e tentar fazer alguma coisa transformadora. Só ainda não sei como administrar financeiramente o fazer teatro. Porque sobreviver disso é difícil.

Tem gente que te acha um menino que se acha demais?
Acho que muita gente evita conhecer seu trabalho para sair falando mal de você. Mesmo sem conhecer. Mas eu tenho amigos na Roosevelt e está tudo certo. Acho que, pelo menos lá, ninguém me odeia.  

Você é cria dos Satyros?
Sim, sem dúvida. Sou cria de uma visão crítica do Rodolfo. O olhar que ele imprime no Satyros para mim foi devastador. A escolha de repertório dos Satyros me move como criador, o meu olhar de mundo. É um caminho a ser seguido. Lado a lado. Porque os Satyros estão aí ainda. Quero fazer alguma coisa que faça barulho, que seja um grito como você mesmo definiu na crítica que fez da minha peça.

marcio tito pellegrini 4 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

"Quero fazer alguma coisa que faça barulho", diz Marcio Tito Pellegrini - Foto: Miguel Arcanjo Prado

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roberto silvia boriello Crítica: Roberto e a Filologia das Estrelas é grito de angústia de geração instável da modernidade líquida

Roberto e a Filologia das estrelas é primeira obra de A Tragédia Pop - Foto: Silvia Boriello

Por Miguel Arcanjo Prado

Marcio Tito Pellegrini é artista inquieto, cheio de ideias na cabeça fervilhante. Jovem diretor e dramaturgo expoente do teatro feito na praça Roosevelt, em São Paulo, acaba de criar o coletivo teatral Tragédia Pop, que inaugura o que ele chama de Tragédia Popular Brasileira com o espetáculo Roberto e a Filologia das Estrelas. A peça é encenada aos sábados, às 19h, no Espaço dos Satyros Um, até o fim do mês.

roberto silvia boriello 21 Crítica: Roberto e a Filologia das Estrelas é grito de angústia de geração instável da modernidade líquida

Marina Calvão é destaque no elenco - Foto: Silvia Boriello

Com roteiro e encenação de ares pós-modernos, aborda a vida e os questionamentos de Roberto Gustavo Reiniger (personagem que tem o mesmo nome do ator que o interpreta e na vida do qual a peça se inspira).

Trata-se de um jovem insatisfeito com o andamento do rumo da humanidade e que busca refúgio em um mundo de drogas farmacológicas e ilícitas, é claro. Porque é difícil aguentar de cara limpa.

Os devaneios do personagem, que questiona o rumo das relações humanas diante de um iminente contato alienígena, ganham corpo no elenco formado, além de Reiniger, por Thaís Giovanetti, Eduardo Prado, Gabriel Fernandez, Felipe Ferraciolli e Marina Calvão, que se destaca com forte carisma.

Apesar do ar impensado da trilha e da reiteração do recurso da vela de fogo de artifício como artefato de iluminação, a direção do jovem Pellegrini demonstra força ao conseguir coesão no elenco heterogêneo. O grupo surge em sintonia fina.

Contudo, a coordenação do diretor Rodolfo García Vázquez se faz presente e acaba por dar uma “cara Satyros” ao espetáculo – o que é esperado, já que o grupo foi forjado no espaço no qual Pellegrini se formou como artista.

Fruto de um contexto cultural globalizado pop-midiático, Pellegrini dá um berro feroz diante das incertezas e angústias do mundo pós-moderno, ou da modernidade líquida, como definiu o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, repleto de possibilidades fajutas e falta de modelo concreto para seguir.

Diante de tudo isso, até a falta de foco da obra, com sua metralhadora giratória, faz todo o sentido e consegue tocar o espectador, mergulhado na mesma angústia de uma geração cujo sonho de paz e tranquilidade lhe foi roubado. Diante do caos, realmente só é possível gritar. Como Marcio Tito Pellegrini faz.

roberto andre stefano Crítica: Roberto e a Filologia das Estrelas é grito de angústia de geração instável da modernidade líquida

Marcio Tito Pellegrini (à esq.), com o elenco de Roberto e a Filologia das Estrelas - Foto: André Stéfano

Roberto e a Filologia das Estrelas
Quando:
Sábado, às 19h. 55 min. Até 31/5/2013
Onde: Espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, Centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 ou nada
Classificação etária: 16 anos

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ed london bobsousa3 “Faltou sensibilidade”, diz Gloria Perez sobre peça inspirada em Isabella Nardoni; Marcilio Moares defende encenação do grupo Os Satyros

Cena do espetáculo Edifício London, impedido de estrear: censura provoca polêmica na sociedade - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado 

A censura judicial à peça Edifício London gera polêmica não só na sociedade como também no meio artístico (saiba aqui o que aconteceu). O texto foi escrito pelo dramaturgo Lucas Arantes e seria encenado pelo grupo teatral paulistano Os Satyros, com direção de Fabricio Castro, como antecipou o R7 em dezembro de 2012.

O espetáculo teve como inspiração o assassinato da menina Isabella Nardoni, jogada da janela pelo próprio pai e a madrasta, que permanecem presos após serem condenados pelo crime.

Uma liminar conseguida pelos advogados da mãe da garota, Ana Carolina Oliveira, impediu a estreia do espetáculo na noite deste sábado (2).

Gloria Perez: "Faltou sensibilidade"

Procurada pelo Atores & Bastidores do R7, a escritora Gloria Perez, autora da novela Salve Jorge (Globo), deu sua opinião sobre o caso. Na época em que a menina Isabella Nardoni foi assassinada, quase cinco anos atrás, Gloria, que também teve a filha Daniella Perez assassinada, deu apoio à mãe da garota, Ana Carolina Oliveira.

Gloria falou que a liberdade de expressão é tão importante quanto os direitos individuais.

– É um assunto muito delicado [o cancelamento da peça pela Justiça]; dou razão à mãe da Isabella: a liberdade de expressão é um direito muito caro a todos nós e duramente conquistado, mas os direitos individuais não são menos importantes e também estão resguardados pela Constituição.

Gloria ainda explicou o porquê de seu apoio à mãe de Isabella.

– Deve ser muito doloroso para a família de Isabella ver aquela tragédia transformada numa encenação teatral, que como todo espetáculo, não terá compromisso em se ater à verdade dos fatos. Faltou sensibilidade. É o que eu penso.

Marcilio Moraes: "Em plena ditadura houve espetáculo semelhante e não houve censura"

Já o novelista da Record Marcílio Moraes é favorável ao espetáculo. Em texto escrito por meio da Associação de Roteiristas, entidade da qual é conselheiro, o autor lembrou que escreveu, em 1979, um espetáculo baseado em um crime semelhante ao de Isabella Nardoni, O Último Dia de Aracelli, que contou com Aracy Balabanian no elenco.

– Como esta [peça] do grupo Satyros, [a minha também] baseava-se num caso policial, de uma menina assassinada anos antes, no Espírito Santo. Escrevi a peça a partir de um romance de José Louzeiro, reportagens e documentos judiciais. Naquela época, ainda existia a censura e, além dela, tivemos medo de alguma ação contra o espetáculo, porque a sórdida história envolvia gente poderosa.

Mas, segundo Moraes, não houve censura ao seu espetáculo.

– Mas nada aconteceu. O espetáculo fez carreira, teve boas críticas e indicações para prêmios. Não sei se é o caso, mas o pessoal dos Satyros poderia usar este exemplo. Mostrar que em plena ditadura houve um espetáculo semelhante ao deles que não sofreu cerceamentos.

Multa é de R$ 10 mil; Satyros vão recorrer

Em sua página oficial, o grupo Os Satyros, comandado pelos artistas Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, publicou nota dizendo que irá respeitar a Justiça, mas que recorreria da liminar. Caso a obra seja encenada, a multa é de R$ 10 mil.

Leia o comunicado oficial dos Satyros:

"A Cia de Teatro Os Satyros informa que, em respeito a decisão proferida pelo Excelentíssimo Senhor Desembargador Dr. Fortes Barbosa, da 6a. Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, a estreia da peça teatral 'Edifício London', escrita pelo talentoso dramaturgo Lucas Arantes e que teve como ponto de partida e inspiração as peças teatrais Macbeth, de William Shakespeare, Medéia, de Eurípedes, e o caso policial brasileiro que abalou o país e ficou conhecido como Caso Isabella, foi cancelada.

Informamos que serão adotadas todas as medidas necessárias fazer valer o que prescreve o inciso IX, do artigo 5o., da Constituição Federal brasileira, que diz, de forma clara e precisa, que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença."

E você, o que pensa dessa polêmica? Opine!

Você é contra ou a favor de a Justiça ter proibido a estreia da peça Edifício London, de Lucas Arantes, inspirada no Caso Isabella Nardoni, com o grupo Os Satyros?

  • Sou contra a proibição da peça. Porque acho que os artistas têm o livre direito de refletir sobre o que acontece na sociedade. Proibir o espetáculo é a volta da censura.
  • Sou a favor da proibição da peça. Porque acho que a mãe da menina Isabella tem o direito de não querer que a história de sua filha inspire um espetáculo.

cartaz edificio london “Faltou sensibilidade”, diz Gloria Perez sobre peça inspirada em Isabella Nardoni; Marcilio Moares defende encenação do grupo Os Satyros

Cartaz do espetáculo Edifício London, impedido de estrear por conta de uma liminar judicial

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ed london bobsousa3 Justiça cancela peça Edifício London, inspirada no Caso Isabella Nardoni; Satyros prometem recorrer

Cena do espetáculo Edifício London, fotografado com exclusividade por Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado

A Justiça proibiu, por meio de uma liminar, a estreia do espetáculo Edifício London em São Paulo, que ocorreria neste sábado (2), à meia-noite, no Espaço dos Satyros 1, na praça Roosevelt. A informação foi divulgada pelo próprio grupo teatral, na noite desta sexta (1°), em seu site oficial e nas redes sociais.

A peça, escrita pelo dramaturgo Lucas Arantes, de Ribeirão Preto (SP), e dirigida por Fabrício Castro, foi inspirada no Caso Isabella Nardoni, como antecipou o R7 em dezembro de 2012 com exclusividade. Tanto que seu nome é uma clara referência ao prédio onde o crime ocorreu.

A ação foi movida pelos advogados da mãe da menina Isabella, Ana Carolina Oliveira, que acusou a obra de promover "uma verdadeira aberração". Segundo Ana, ela seria retratada na obra como "uma mulher despreocupada com a prole e envolvida com a vulgaridade". Procurados pela reportagem, integrantes do grupo disseram que Ana Carolina Oliveira não chegou a assistir a peça para fazer tais considerações.

A Cia de Teatro Os Satyros soltou comunicado oficial em seu site, na noite desta sexta-feira (1°), para informar que “em respeito a decisão proferida pelo Excelentíssimo Senhor Desembargador Dr. Fortes Barbosa, da 6a. Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, a estreia da peça teatral Edifício London, escrita pelo talentoso dramaturgo Lucas Arantes e que teve como ponto de partida e inspiração as peças teatrais Macbeth, de William Shakespeare, Medeia, de Eurípedes, e o caso policial brasileiro que abalou o país e ficou conhecido como Caso Isabella, foi cancelada”.

No comunicado, o grupo liderado pelos artistas Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez ainda diz que “serão adotadas todas as medidas necessárias fazer valer o que prescreve o inciso IX, do artigo 5o. da Constituição Federal brasileira, que diz, de forma clara e precisa, que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

Caso o grupo descumpra a ordem judicial e o espetáculo seja apresentado, a multa estipulada é de R$ 10 mil. Após a notícia, vários artistas ligados ao teatro se manifestaram na internet e acusaram a decisão de "volta da censura".

Em fevereiro, o Atores & Bastidores do R7 entreveisou os protagonistas da obra, os atores Davi Tostes e Samira Lochter. Na época, eles faziam os últimos ensaios e revelaram que tratariam o tema com respeito. A reportagem ainda trouxe imagens inéditas da obra, feitas pelo fotógrafo Bob Sousa. Durante a entrevista, tanto Samira quanto Davi disseram que estavam "apreensivos" com a estreia.

Também em entrevista ao R7, em dezembro de 2012, o dramaturgo Lucas Arantes afirmou que fez o espetáculo para "discutir o papel da arte como crônica de seu tempo". O texto da peça Edifício London virou livro pela Editora Coruja.

Toda esta polêmica acontece no mês em que a morte da menina completará cinco anos. Na noite do dia 28 de março de 2008, Isabella Nardoni, de cinco anos, morreu após ser atirada pela janela do sexto andar do Edifício London, na zona norte paulistana. O pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, foram condenados por homicídio doloso triplamente qualificado e estão presos (veja cobertura completa do R7 sobre o caso).

O que você acha dessa história? Opine, abaixo!

Você é contra ou a favor de a Justiça ter proibido a estreia da peça Edifício London, de Lucas Arantes, inspirada no Caso Isabella Nardoni, com o grupo Os Satyros?

  • Sou contra a proibição da peça. Porque acho que os artistas têm o livre direito de refletir sobre o que acontece na sociedade. Proibir o espetáculo é a volta da censura.
  • Sou a favor da proibição da peça. Porque acho que a mãe da menina Isabella tem o direito de não querer que a história de sua filha inspire um espetáculo.

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A Nossa Gata Preta e Branca Cléo de Páris e Maria Casadevall Foto de André Stefano   Cópia Atrizes brincam de verdade e mentira em <i>A Nossa Gata Preta e Branca</i>, que chega aos Parlapatões

Cléo de Páris (à esq.) e Maria Casadevall (à dir.) estrelam Nossa Gata Preta e Branca - Foto: André Stéfano

Por Miguel Arcanjo Prado

Quem estiver no Espaço dos Parlapatões a partir desta sexta (15) diante das atrizes Cléo De Páris e Maria Casedevall não saberá ao certo se elas atuam ou se contam histórias próprias.

Este é mesmo o objetivo da direção proposta de Tiago Leal, que assina sua primeira direção com a peça Nossa Gata Preta e Branca. O diretor conversou com o Atores & Bastidores do R7  e contou que a obra foi um encontro de amigos.

— Foi uma série de coincidências esta peça. A Cléo e eu trabalhamos juntos há sete anos nos Satyros [grupo de teatro paulistano]. E resolvemos fazer isso para as Satyrianas [festival teatral de primavera dos Satyros], pois eu não participava fazia muitos anos. A Cléo e a Maria me procuraram dizendo que tinham um título, não tinham a peça, mas que queriam que eu dirigisse [risos].

Diante da proposta, ele aceitou e as convocou para um processo criativo em conjunto. No desenrolar, viu as duas atrizes revelarem muitas coisas que gostariam de contar no palco. Contudo, Leal freiou o impulso verborrágico das meninas e, juntos, contruíram um roteiro no qual tudo se misturou, "para tornar o jogo mais interessante", deixando o público sem saber ao certo o que é verdade ou mentira.

—É uma grande brincadeira que acabou virando um espetáculo. Apesar de já ter feito assistência de direção para o Rodolfo [García Vázquez] nos Satyros, esta é minha primeira direção só minha. Ainda não caiu a ficha, só vai cair, acho, no dia da estreia.

Ao assumir o palco dos Parlapatões, o projeto dos Satyros busca demonstrar ainda mais o caráter fraterno entre as duas companhias pioneiras na ocupação da praça Roosevelt, reduto do teatro alternativo no centro paulistano.

Além do roteiro e da criação em colaboração com o diretor, as duas atrizes assinam também os figurinos e adereços. César Genaro assume a iluminação. O espetáculo, a cara da praça, é apresentado no horário alternativo da meia-noite. Como teria de ser.

A Nossa Gata Preta e Branca
Quando: Sexta, à meia-noite. 50 min. Até 8/3/2013.
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Franklin Roosevelt, 158, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258.4449)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 16 anos

A Nossa Gata Preta e Branca Cléo de Páris e Maria Casadevall Foto2 de André Stefano   Cópia Atrizes brincam de verdade e mentira em <i>A Nossa Gata Preta e Branca</i>, que chega aos Parlapatões

A Nossa Gata Preta e Branca está em cartaz no Parlapatões, sextas, à meia-noite - Foto: André Stéfano

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Satyriase Satyros abriga orgia de textos eróticos em SP

Atores provocam sensações na plateia ao lerem textos repletos de erotismo - Foto: André Stéfano

Por Miguel Arcanjo Prado

As vozes de atores e atrizes dizendo textos repletos de erotismo pinçados no melhor da literatura universal provocam sensações fortes no público com olhos vendados trancafiado na pequena sala do Espaço dos Satyros 1, na praça Roosevelt, em São Paulo.

É este o objetivo do projeto Satyriase, definido como “o mundo em orgia dos sentidos”, criado por Patricia Aguille e Raissa Peniche. A produção é da Cia. Chevaux Legers.

A imaginação é aguçada enquanto os textos são ditos, mesclados com silêncio e a música durante os 90 minutos da experiência sensorial.

A ambientação de Otávio Azevedo ajuda na miscelânea de sentidos. Após descalçar os sapatos e se despir de roupas pesadas, o espectador é acomodado em tapetes persas, enquanto o ar é borrifado de perfumes exóticos.

O horário é bem convidativo para a proposta. Toda sexta, à meia-noite. A cara da Roosevelt.

Os textos eróticos lidos são de autoria de Patricia Aguille, Raissa Eckmann Peniche, Luiza Pastor, Luiz Augusto Contador Borges, Heitor Werneck, Sade, Bocage, Bilac, Edmond de Haraoucourt, Bob Slavy, Carlos Drummond de Andrade, Anais Nin, Pierre Louys, TeresaFilósofa e Francisco de Quevedo.

No elenco, estão Danilo Amaral, Davi Tostes, Dexter, Elisabeth Melão, Flávio Ferrari, Egbert Mesquita, Lino Reis, Luiza Pastor, Magé Tiritil, Mateus Barbassa, Otavio Azevedo, Patricia Aguille, Raissa Eckmann Peniche, Tai Martins e Walter Sr WZ.

Tem de ir e sentir.

Satyriase
Quando: Sexta, à meia-noite. 90 min. Até 29/3/2013
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos

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cleo bobsousa2 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

Cléo De Páris é uma das mais celebradas musas do teatro paulistano - Fotos: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

É fácil se perder nos olhos azuis piscina de Cléo De Páris. Muita gente não sabe, mas ela preferiria “ter olhos pretinhos básicos”, para evitar a fotofobia, “inconveniente” de sua beleza. E é no fundo de seus olhos claros que se escondem os mistérios da atriz que provoca medo e desejo.

Na frieza da metrópole chamada São Paulo a gaúcha interiorana se encontrou. Mora só. No alto de um prédio da rua Augusta, coração do centro da cidade. Nasceu “num outro universo”, a pequena Barão de Cotegipe, no norte do Rio Grande do Sul, onde carro não passa na rua depois das dez da noite. Todos dormem cedo. É filha primogênita do caixeiro viajante Danilo e da dona de casa Marília. Irmã mais velha de Daniel, “o maior amor” de sua vida.

Ainda menina, morando “em uma casinha”, topou com a arte por meio da dança. Um dia, a professora incorporou uma fala em uma apresentação. Tomou um susto e se encontrou. “Toda criança atua. A diferença é que alguns crescem e param. Os atores, como eu, continuam”. No meio tempo, a música ganhou espaço. Cantou em um orfeão, onde, tímida, se sentia mais confortável em meio a tantas crianças. “Torcia para não ganhar prêmio, para não ter de subir no palco”.

cleo bobsousa1 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

A atriz Cléo De Páris já dançou e cantou - Foto: Bob Sousa

Como vida artística “parece ser hobby e não profissão”, cresceu e foi estudar outra coisa. Fez jornalismo na PUC de Porto Alegre. Formou-me na mesma turma que a jornalista Patrícia Poeta, hoje na bancada do Jornal Nacional.

Mas sabia que seu lugar estava em outro lugar. “Só fui buscar o diploma no ano passado”. Durante a faculdade, entrou para o grupo teatral Companhia das Índias. Abriram espaço próprio, o Clube de Cultura, com bar, onde montavam suas peças. Uma espécie de pré-Satyros em sua vida. “Éramos muito trupe”.

No meio tempo, se envolveu com a turma do cinema, fez curtas, e com a turma da música, virou vocalista da banda A Cretinice Me Atrai.

Gravou disco que foi criticado pelo John do Pato Fu na revista Showbizz, compôs música com Edgard Scandurra e tocou no Skol Beats. Em meio a tantas “loucuras”, se casou na igreja com o também ator Leonardo Machado. Vestida de branco. Aos 25 anos.

Rio e Sampa

Porto Alegre ficou pequena. Foi para o Rio com o marido. Não deu certo. Nem a cidade nem o casamento. “Hoje, o Léo é um grande amigo. A gente se conheceu e quatro meses depois nos casamos na igreja. Foi muito louco, mas foi bom esse período.” Sabe que algumas coisas têm seu tempo de ser.

Em terras cariocas, não se deslumbrou com a possibilidade de fazer TV. Definitivamente, não era sua praia. “Não tenho vontade de ficar famosa, de não conseguir mais ir à padaria ou andar de ônibus. Gosto da minha vida do jeito que ela é”. Aproveitou a temporada de um espetáculo carioca em São Paulo e resolveu se instalar na cidade, onde sempre se sentiu à vontade. “Desde criança, gostava de ir a São Paulo com minha mãe, de andar de elevador e escada rolante. Era o máximo para mim.” Chegou à cidade e entrou no metrô com uma mala vermelha de rodinhas. Tinha toda a certeza do mundo.

Entrou para o CPTzinho de Antunes Filho, morou com amigos em lugares inusitados e teve trabalhos diversos para conseguir a grana do aluguel. “Fiz até degustação de maionese no saguão do teatro”. O amigo Dionísio Neto, que havia conhecido no Rio nas filmagens de um filme que nunca estreou, acabou lhe abrindo as portas do primeiro espetáculo paulistano, Corações Partidos ou Contemplações de Horizontes.

Arrumou marido novo, o artista plástico Zed Nesti, e ficou amiga da turma da arte. Os cartunistas Adão, Angeli e Laerte eram habitués do apartamento na alameda Santos. “A gente tinha um gato incrível chamado Maestro”. O novo casamento durou quatro anos.

Nesse meio tempo, um outro Laerte que não era cartunista apareceu, o Laerte Késsimos, amigo que conheceu em um grupo de estudos. Ele foi ver sua peça, levou flores e lhe disse que o grupo dele, Os Satyros, procurava atriz para fazer uma substituição em A Filosofia da Alcova. “O Zed costuma dizer que foi preciso dois Laertes para eu chegar aos Satyros”.

Cléo viu a peça, cheia de cenas de sexo e perversão, fez o teste e pediu a Deus que o diretor Rodolfo García Vázquez não a chamasse. Ele não chamou. O papel ficou com Danielle Farias, atriz com quem o grupo já havia trabalhado. Mas mantiveram contato e, mais para frente, em 2005, recebeu o convite para integrar o novo projeto da trupe: A Vida na Praça Roosevelt. Não pensou duas vezes e disse sim. “Foi uma experiência linda, percorremos o interior de São Paulo e fomos para a Alemanha”.

cleo bobsousa3 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

A atriz Cléo De Páris integra o grupo Os Satyros e é fundadora da SP Escola de Teatro - Foto: Bob Sousa

Durante os ensaios, acabou ganhando aquele papel de A Filosofia da Alcova. “A Dani acabou tendo de sair e o Rodolfo disse que seria natural que a substituísse. Ele me disse que eu já estava preparada e que seria um divisor de águas na minha carreira”. E foi. Ficou dois anos na peça. “Desde então, não parei mais de trabalhar. Achei o meu lugar”.

Diz que, no Satyros, se identifica com o “impulso criativo, a coragem”. “O Rodolfo e o Ivam [Cabral] não conhecem o não. Eles falam ‘vamos fazer’ e fazem. Eles têm uma coisa lunática, fantástica.”

Cléo, a Musa

Bem antes de ser Musa do Teatro R7, virou musa dos Satyros e, automaticamente, da praça Roosevelt, que virou point cult da cidade graças ao trabalho da trupe. Diz levar o título na brincadeira. “Nunca me senti especial, 'a musa'. Quando fiz Cosmogonia, o Emerson Fernandes, que fazia a técnica, me chamava de musa porque minha personagem era uma musa. E ele faz isso até hoje. Então, o direito autoral é dele [risos]. Um dia estava dando uma entrevista para um TCC sobre os Satyros e a estudante me perguntou como era ser a musa da praça. Eu falei ‘imagina, isso é brincadeira’. Aí, justo naquela hora, o Emerson passou e gritou: ‘Oi, musa!’ Foi muito engraçado”.

Ultimamente, anda pensando em fazer dança de salão, porque acredita que “dançar é como viver mais”. E tenta reabilitar sua relação com a música. Pediu para cantar Falsa Baiana no show de Gero Camilo e Paula Cohen no Parlapatões. Quando olha para o passado e o nome que construiu ao lado dos Satyros, além da SP Escola de Teatro, que ajudou a fundar, constata: “Foi tudo muito rápido. Foi muito bom e também muito dolorido em muitos momentos”. Sobre o grupo deixar a praça Roosevelt, diz que “parece injusto, mas nem sempre a vida é justa”.

De uma certa maneira, Cléo De Páris ainda é aquela menina do interior deslumbrada com a fala no palco. E é também a mulher que hoje vive no alto da Selva de Pedra, mas que não gosta de morar sozinha.

Sente falta do amor. É moça casadoira. Conta que está meio enrolada. Com o também ator Fábio Penna. Queria que as coisas ficassem mais definitivas. Revela que quer “ter um filho”. E pensa em passar o futuro fazendo menos teatro e cuidando mais de plantas. Quer estar mais perto da natureza. Aos 40 anos, prefere a simplicidade da vida à ambição. Valoriza o amor de família.

Mas sabe que vive a sina que desenhou para si, com sua ousadia, com seus grandes passos. Vive a dor e a delícia de ser ícone de um lugar, de um tempo. Demonstra saber, num curto silêncio, ser Cléo De Páris, a musa dos Satyros da praça Roosevelt. E, por incrível que possa parecer, a personagem preferida da atriz dos mais belos olhos do teatro nacional era cega. Mas, era linda e se chamava Absoluta.

cleo bobsousa4 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

Cléo De Páris vive a dor e a delícia de ser ícone de um tempo e de um lugar - Fotos de Bob Sousa

Agradecimentos: Guilherme Nutti (maquiagem) e Jogê (lingeries)

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inferno na paisagem belga robson catalunha ivam cabral foto andre stefano Inferno na Paisagem Belga legitima estética do fracasso com paixão de Verláine e Rimbaud

Robson Catalunha e Ivam Cabral em cena de Inferno na Paisagem Belga - Foto: André Stéfano

Por Miguel Arcanjo Prado

Tudo parece meio improvisado. É a impressão que o público tem ao chegar e ver a movimentação dos atores no palco. De repente, eis que Ivam Cabral, líder do elenco dos Satyros, toma o microfone. Defende a estética do fracasso com veemência. Começa Inferno na Paisagem Belga, a nova montagem dos Satyros, que aborda a paixão visceral entre os poetas Paul Verláine (1844-1896) e Arthur Rimbaud (1854-1891) e que encerra a temporada de 2012 nesta quinta (20), no Espaço dos Satyros 1, em São Paulo.

inferno na paisage belga thiago capella henrique mello foto andre stefano Inferno na Paisagem Belga legitima estética do fracasso com paixão de Verláine e Rimbaud

Thiago Capella e Henrique Mello - Foto: André Stéfano

Com a sempre inventiva encenação de Rodolfo García Vázquez, calcada na estética underground e no caldeirão de referências que vão de The Doors a Joy Division, o quarteto formado por Cabral, Robson Catalunha, Thiago Capella Zanotta e Henrique Mello defende os dois personagens.

O espetáculo cumpre a função de contar a história da relação tórrida entre aqueles dois homens especiais na Paris do século 19. Estão lá elementos universais para uma bom roteiro, como o desejo, a paixão, a ambição e a violência.

A utilização da projeção de imagens e trechos de poemas, em diálogo com a iluminação de Flávio Duarte, leva o espectador a viajar em um clipe psicodélico da vida dos dois artistas, como se todos estivessem mergulhados em um transe bate-estaca. Tudo embalado pela visceral sonoplastia aos cuidados de Diego Mazutti.

 Elenco

inferno na paisage belga robson catalunha foto andre stefano Inferno na Paisagem Belga legitima estética do fracasso com paixão de Verláine e Rimbaud

Catalunha é destaque no elenco - Foto: André Stéfano

Geralmente, Vázquez se dá bem ao encobrir com a encenação as incapacidades de seu elenco. No quarteto, enquanto Cabral lê o texto em um tablet – artifício já usado na peça anterior do grupo, Cabaret Stravaganza –, quem mais se destaca é Robson Catalunha, o mais presente e consciente em cena. Capella cumpre a função de ser um corpo que a plateia deseje, e Henrique Mello, no dia em que o blog viu a peça, tinha grande dificuldade para articular o texto.

Mas até isso se encaixa na estética proposta pelos Satyros, que a tudo consegue justificar com seu bem fundamentado discurso. O grupo o defende com tanta crença que a gente até acredita.

Inferno na Paisagem Belga
Avaliação: Regular
Quando: Quinta (20), 21h (última apresentação)
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, Centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20
Classificação: 18 anos

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DSC 4594 Dor de amor é tema de temporada na Roosevelt

O Que Era pra Ser Amor: duas personagens vivem embate em curtíssima temporada - Foto: André Stéfano

Por Miguel Arcanjo Prado

Depois de concorrida apresentação nas Satyrianas, o espetáculos O Que Era pra Ser Amor conseguiu emplacar curtíssima temporada no Espaco dos Satyros 1, na praça Roosevelt, 214, em São Paulo.

São apenas duas apresentações, nos próximos dois domingos, dias 9 e 16 de dezembro, sempre às 19h. Portanto, é bom ficar esperto se quiser ver. Ah, o  ingresso custa R$ 20 a inteira.

O texto é assinado por Leandro Doregon, com estreia na direção de Luisa Juppe. No elenco, estão as atrizes Ana Carolina Marinho e Marina Moreno, vivendo um amor juvenil cheio de sofrimento. Ai, que dó.

A ficha do espetáculo ainda tem sonoplastia de Carolina Guimaris e Luana Hansen, iluminação de Leo Moreira Sá e cenografia de Bruno Alves Manso. A turma toda reunida.

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