Posts com a tag "teatro de rua"

Desagua 5  creditos divulgacao Teatro de Rua: Peça questiona a falta de água em SP

[Des]água: ritos de rios e ruas como forma de interromper o curso do sistema - Foto: João Claudio de Sena

"A gente precisa é de uma revolução"
Coletivo Alma

Por SIMONE CARLETO*
Especial para o R7

No horário de início do espetáculo [Des]água, do Coletivo Alma (Aliança Libertária Meio Ambiente), o grupo forma uma roda para o aquecimento.

Ao emitir os sons da bela vocalização que fazem como preparação para a cena, atraem as pessoas que transitam pelo local. Como comentou Anderson Silva Oliveira, trabalhador do setor de produção de uma fábrica e que ia cortar o cabelo quando observou os instrumentos musicais colocados na praça do Patriarca, em São Paulo, durante apresentação na Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas 2013.

Na mesma praça, o grupo fez temporada do espetáculo até o dia 20 de agosto de 2014 e agora segue para apresentações em diversas cidades do Estado.

Em meio ao trânsito de pessoas e sons próprios do local, com o forte calor do sol, o elenco convocou o público para a representação, desejando boa tarde e abrindo alas para o teatro de rua.

 Teatro de Rua: Peça questiona a falta de água em SP

Coletivo Alma: grupo tem forte militância ambiental na zona leste de São Paulo  - Foto: João Claudio de Sena

Com direção geral de Edgar Castro, os atores e atrizes logo mostram que cantam, dançam, representam e tocam instrumentos, características de artistas que desenvolvem diversas habilidades para conquistar o público. Na rua, a capacidade de comunicação é calcada nessa presença viva.

A trupe se apresenta, contando a respeito de sua origem e militância ambiental na zona leste de São Paulo. A dramaturgia do espetáculo é concebida pelo coletivo com colaboração de Rogério Guarapiran em quadros que podem ser vistos individualmente. No elenco, estão Adilson Fernandes “Camarão”, Adriana Gaeta, Alexandre Falcão, Ana Rolf, Fabrício Zavanella, Letícia Elisa Leal, Mauro Grillo e Thiago Winter.

Eles dão vida às personagens da fábula, mostrando dois povos: o povo bacia, que celebra a natureza, e o povo pneu, que aprisiona a força das águas – e se encontram às margens de um rio morto, entrando em conflito.

Os artistas representam diferentes papéis, com figurinos de Samara Costa em cores que remetem à relação com a terra e a natureza e são transformados com adereços durante o espetáculo. Assim, contam a história de como os seres humanos no sistema capitalista exploram recursos naturais e pessoas como se fossem infinitos.

Cadê o rio?

“Cadê o rio que estava aqui?” Pneus, bacias, balde, moringas, água e a música executada ao vivo com direção de Raniere Guerra dão os tons das cenas, que presentificam a pesquisa realizada em lugares em que o curso dos rios foi canalizado com a urbanização.

Desagua 1 creditos Annaline Curado Teatro de Rua: Peça questiona a falta de água em SP

Cadê o rio que estava aqui? - Foto: Annaline Curado

O grupo discute os desdobramentos e engrenagens de um sistema que chegou a um quadro insustentável: tendo a água como alegoria, mostra-se o esgotamento do planeta.

O coro entoa: “Pra onde você vai? Tudo compra, compra, e nada alivia!”. São apresentados animais em águas contaminadas; população ribeirinha em área que sofre ameaça de remoção. “Como nossa vida rio pode seguir livre?”, diz a integrante do “povo bacia”.

Retrata-se a vida caótica na cidade, em meio ao individualismo, nervosismo, confusão e palavrões; a exploração dos trabalhadores; processos de disputa por lucro, poder; cooptação e alienação.

A empresa que produz água engarrafada [Des]água mostra em detalhes alguns meandros desses processos e ainda distribui uma “amostra grátis” do produto, numa pequenina garrafa.

Proposta à reflexão

Então, a partir da interação com o público e forte presença do caráter ritualístico do teatro, o grupo acentua a possibilidade de reflexão, evidenciando contradições e provocando os presentes a pensar em possíveis soluções.

Desse modo, aprofundam a abordagem sobre o tema de forma contundente e realizam um dos principais aspectos do teatro de forma épica: antes de somente julgar é preciso colocar em questão e em relação.

*Simone Carleto é atriz, diretora e arte-educadora com graduação e mestrado em artes pela Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho). Doutoranda pela mesma instituição, com a orientação do prof. dr. Alexandre Mate, pesquisa propostas de formação de atores e atrizes e coordena a Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos. A coluna Teatro de Rua é uma idealização do fotógrafo Bob Sousa; ela é escrita por pesquisadores da pós-graduação do Instituto de Artes da Unesp. 

Desagua 3 creditos Annaline Curado Teatro de Rua: Peça questiona a falta de água em SP

Enquanto o nível do reservatório cai a cada dia, o Coletivo teatral Alma chama atenção da população de SP para a falta de água em espetáculo de rua - Foto: Annaline Curado

 [Des]água
Com o coletivo Alma (Aliança Libertária Meio Ambiente)
Onde e quando:
Atibaia (dia 25 de agosto), às 16h na Praça Guanabara
Itanhaém (dia 27 de agosto) às 19h na Praça Narciso de Andrade (Praça Central)
Jandira (dia 14 de setembro) às 16h no Assentamento do MST
Presidente Prudente (19 de setembro) às 20h no espaço da Federação Prudentina de Teatro
Panorama (dia 20 de setembro) às 19h no Departamento de Cultura
Tupi Paulista (dia 22 de setembro) às 10h na Escola Municipal Prof. Leônidas Ramos de Oliveira
Quanto: Grátis (obs. em caso de chuva as apresentações em espaço aberto serão canceladas).
Classificação etária: Livre

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Ópera foto Romison Paulo Teatro de Rua: Buraco DOráculo mostra exploração do trabalhador para espantar pobreza e solidão

Cena do espetáculo de rua Ópera do Trabalho, do grupo paulista Buraco D'Oráculo - Foto: Romison Paulo

Por CARLOS ROGÉRIO GONÇALVES DA SILVA*
Especial para o Atores & Bastidores

Em meio ao ruído das buzinas, motores e à passagem de som feita pelas atrizes e atores do Buraco D’Oráculo - instantes antes do início da apresentação de Ópera do Trabalho - um barulho enervante de uma corneta, daquelas de festas infantis, se destacava.

Seu dono, menino negro, pobre e só, divertia-se circulando com alarde entre os apressados transeuntes de vários perfis – de office boys a executivos. Fazia seu espetáculo particular entre os curiosos e o público jovem que aos poucos se acomodava no chão da Praça do Patriarca, cenário do espetáculo no centro paulistano.

Concebido para homenagear José Bonifácio de Andrada e Silva, dito patriarca da Independência, esse espaço é uma síntese do processo histórico-político brasileiro. Afinal, o homenageado esmerou-se na criação de um projeto de País excludente e antidemocrático.

Outra praça não seria tão simbolicamente apropriada à apresentação de um espetáculo para um público leigo, que propõe uma reflexão à luz do sol sobre a exploração do trabalhador brasileiro. Curiosamente a estátua do patriarca está de costas à encenação, tendo a contragosto que ouvir versos como “Eu não posso esperar para valer mais do que eu valho”, “Sou como boi amarrado que não muda de lugar” e “O trabalhador que tudo fez, pode tudo destruir”.

Ópera foto Romison Paulo3 Teatro de Rua: Buraco DOráculo mostra exploração do trabalhador para espantar pobreza e solidão

Peça circula pelo interior paulista com entrada gratuita - Foto: Romison Paulo

Atrizes e atores vestem uniformes marrons, que remetem ao universo do trabalho braçal e ao mesmo tempo dão unidade às personagens. É a classe trabalhadora que, literalmente, terá voz, sendo apresentada por meio de suas variadas faces: a lavadeira, o carvoeiro, o lixeiro, o operário, o camelô.

E volta e meia, marcando presença, o menino pobre, negro com sua indefectível corneta e menos só, assume o protagonismo misturando-se à encenação.

Há uma heterogeneidade nas opções estéticas do pessoal do Buraco d’Oráculo, que utiliza alguns elementos próprios da ópera como fio condutor do espetáculo, porém uma ópera ressignificada e próxima da rua e do trabalhador, com as músicas transformadas em veículos de despertar político.

Didaticamente temas como mais-valia, luta de classes, carestia e conflito entre capital e trabalho são apresentados, seja em um jogo de futebol ou na sátira a célebres e estéreis programas televisivos.

A função didática do espetáculo parece bem-sucedida, na medida em que os trabalhadores que o presenciam ficam absorvidos com a discussão proposta, interagindo e divertindo-se.

Não há como saber se a classe trabalhadora brasileira conseguirá um dia reverter decisivamente o processo de exploração que há séculos lhe acomete ou se o socialismo se difundirá pelo País, porém há um belíssimo saldo da Ópera do Trabalho, apenas possível por ser um espetáculo de rua: a apresentação deu ao menino negro, pobre e só, a possibilidade única e efêmera de ser protagonista de sua própria vida. Talvez, durante a apresentação, ele tenha se esquecido do abandono, da pobreza e da solidão. Talvez.

*Carlos Rogério Gonçalves da Silva é especialista e mestrando em artes no Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista), sob a orientação do prof. dr. Alexandre Mate. Formado em história pela FFLCH/USP e também leciona história no ensino básico. A coluna Teatro de Rua é idealização do fotógrafo Bob Sousa, e é escrita por pesquisadores da pós-graduação do Instituto de Artes da Unesp, onde ele faz mestrado.

Conheça o site do grupo Buraco D'Oráculo

Ópera do Trabalho
Quando e onde: Próximas apresentações no interior de São Paulo
14/6/2014, 20h, em Ilhabela, na praça das Bandeiras
26/6/2014, 20h, em Pirassununga, no Centro de Convenções Professor Faltoso Victorelli
27/6/2014, 15h, em Sertãozinho, na praça 21 de abril
28/6/2014, 20h, em Vargem Grande do Sul, na praça da Matriz
Quanto: grátis, pelo Circuito Cultural Paulista
Classificação etária: Livre

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marrua parlendas Sabina Ciari Teatro de Rua: Marruá é oferta poética e sincera ao público que luta pela existência digna e resiste

Grupo Parlendas investigou raízes do Brasil para fazer a peça Marruá - Foto: Sabina Ciari

Por LUIZ EDUARDO FRIN*
Especial para o Atores & Bastidores do R7

Marruá é o nome dado ao boi não domesticado, que se desgarra do rebanho e se fortalece ao permanecer selvagem e livre.

Não por acaso, Marruá também é título do espetáculo do Grupo Teatral Parlendas, com direção de Luciano Carvalho para a criação coletiva, que será apresentado no próximo fim de semana no Sesc Itaquera, em São Paulo, dentro da programação da Virada Cultural [veja serviço ao fim].

marrua2 Teatro de Rua: Marruá é oferta poética e sincera ao público que luta pela existência digna e resiste

Marruá: oferta de Brasil ao público - Foto: Sabina Ciari

No fim de 2013, mais especificamente no dia 4 de dezembro, a obra foi apresentada na praça do Patriarca, no centro paulistano. Ao término, em meio ao frenesi da metrópole, com um sorriso, a atriz Natália Siufi convidou o público a comer uma melancia. Segurando a fruta que fora utilizada em cena, ela disse algo como: “Vamos comer, gente! A comida é pouca, mas a gente sabe repartir... Como repartimos com vocês essas histórias que criamos a partir de relatos de pessoas que vivem em comunidades de resistência, como assentamentos, que visitamos pelo Brasil".

A fala da atriz sintetizou o que o que acabara de ser mostrado: o espetáculo Marruá é uma grande oferenda e um grande convite.

Durante o espetáculo, a oferta de músicas e danças inspiradas na cultura popular convida o público a conectar-se, ou a reconectar-se, com referências estéticas esquecidas, abandonadas, ou, renegadas na grande cidade.

Compõem o elenco Asnésio Bosnic, Dara Freire, Danilo Villa, Elton Maioli, Marina Vecchione, Maria Gabriela D'Ambrozio, Mário Queiroz Viana e a já citada Natália Siufi. Já a parte musical é fruto do trabalho de Tião Carvalho, Eric D`Avila, Igor Giangrossi e Fábio Pinheiro.

A oferta de uma movimentação cênica com marcações precisas convida o espectador a adentrar no mundo da representação, da teatralidade; ao mesmo tempo em que compartilha com ele esses procedimentos contemporâneos de encenação.

marrua parlendas Sabina Ciari 22 Teatro de Rua: Marruá é oferta poética e sincera ao público que luta pela existência digna e resiste

Marruá tem sessão na Virada - Foto: Sabina Ciari

Também é contemporânea a estruturação fragmentada da dramaturgia. A oferta dos blocos narrativos que se sucedem convida o público a procurar por uma história, por uma fábula, e o faz constatar que a narrativa que se estrutura por retalhos é a que se apresenta concretamente, todos os dias, a cada espectador presente: Marruá é sobre a luta, a luta pelo existir com dignidade. A luta para se desgarrar do rebanho e enfrentar os desmandos dos poderosos de todos os lugares.

Os figurinos são funcionais e representativos; ou seja, servem como elemento neutro que veste atores e atrizes de um grupo de teatro em performance na rua, assim como demonstram características específicas das personagens representadas.

As movimentações cênicas são, em momentos, precisas com a proposição de se constituírem em elementos componentes das narrativas. Em outros, são livres e buscam incentivar a participação dos espectadores.

A cenografia, composta por objetos simples como bastões e cordas, serve ao objetivo de representar estruturas dos ambientes nos quais a ação se dá; como as cercas que delimitam territórios – físicos e simbólicos – e que precisam ser derrubadas.

Elemento importante do espetáculo é a poética e inspirada confecção dos adereços feitos por artistas de diferentes partes do País e que trazem, concretamente, para o palco, as andanças do grupo.

No final, como uma representante do grupo, Natália Siufi não esconde o orgulho de convidar a todos para que a partilha simbólica da arte seja realçada pela partilha do alimento.

O público não faz cerimônia e, em instantes e em festa, devora a melancia; e o espetáculo se completa.

*Luiz Eduardo Frin é ator formado pelo Indac- Escola de Atores, onde é professor de Montagem de Espetáculos, Estética e História do Teatro. Mestre e Doutorando em Artes Cênicas na Unesp (Universidade Estadual Paulista) sob a orientação do prof. dr. Alexandre Mate. Atuou e dirigiu diversos espetáculos teatrais, musicais e operísticos. A coluna Teatro de Rua é idealização do fotógrafo Bob Sousa; ela é escrita por pesquisadores da pós-graduação do Instituto de Artes da Unesp, onde ele faz mestrado.

Marruá, com o Grupo Parlendas
Quando: Sábado (17/5/2014), 18h30
Onde: Sesc Itaquera (av. Fernando do Espírito Santo Alves de Mattos, 1000, Itaquera, São Paulo, tel. 0/xx/11 2523-9200)
Quanto: Grátis (programação Sesc da Virada Cultural)
Classificação etária: Livre

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operarios tarsila do amaral Coluna do Mate: Teatro paulistano transforma sujeitos marginais em protagonistas da vida

Operários, de Tarsila do Amaral: São Paulo tem duas estreias teatrais por dia - Foto: Reprodução

A cena teatral paulistana, que estreia dois espetáculos por dia em média, traz para o protagonismo da cena os sujeitos à margem da história oficial

alexandre mate foto bob sousa Coluna do Mate: Teatro paulistano transforma sujeitos marginais em protagonistas da vida

Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por Alexandre Mate*
Especial para o Atores & Bastidores

É quase inacreditável o número de espetáculos sendo apresentados em São Paulo. Em análise recente, José Cetra Filho, cujo mestrado sobre recepção foi defendido no Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista), pesquisou os espetáculos em cartaz e, dentre outras afirmações, e chegou à conclusão que mais de dois espetáculos estreiam por dia na cidade.

Nessa informação, o pesquisador apresenta tal informação ao pesquisar materiais documentais mais tradicionais, como roteiros de jornais, programas de espetáculos e guias de teatro. Desse modo, é seguro que o número se amplia, na medida em que os espetáculos apresentados em bairros, normalmente, não aparecem nas fontes documentais citadas.

Em razão do exposto, sabem todos os pesquisadores e interessados em teatro que o número de obras ligadas à linguagem a que se tem acesso é sempre inferior àquele, de fato, existente.

Atualmente, e decorrente de um conjunto de ações de luta e de militância dos artistas, a cidade de São Paulo concentra o maior número de produções na área teatral do país. Em pesquisa recente por mim realizada, a pedido de professora da Universidade do Texas, apresento o nome de quase 300 grupos de teatro em atividade na cidade. Tais grupos atuam nas cinco zonas da cidade, muitos deles com ações conjuntas e com resultados bastante singulares.

Do número total de grupos em atividades na imensa cidade paulistana, pode-se afirmar que a maioria apresenta seus espetáculos com temas retirados de assuntos interessantes à cidade. Isto é, poucos são os espetáculos cujos assuntos dizem respeito exclusivamente às questões individuais. Tal manifestação ocorre porque interessa aos coletivos que compõe os grupos as experiências sociais que abrigam conjunto de sujeitos e, também, pelo fato de os textos decorrerem de processos improvisacionais e coletivos. A partir de tal realidade, o texto final resulta de um conjunto de visões e pontos de vista diversos.

Assim, não interessa à maioria dos grupos em atuação efetiva, o protagonismo de uma de uma personagem individual. Assim como na vida social, o viver não se restringe aos sujeitos isolados. Mesmo aquele que se isola carece e depende de um conjunto de outros. Portanto, todas as ações humanas têm naturezas de abrangências sociais amplas, algumas vezes singulares, mas dependentes do todo.

Compreendem os grupos de teatro com espetáculos significativos que o viver significativo e digno compreende processos de luta para a conquista de tantos direitos e promessa apartadas da maioria absoluta das pessoas.

Desse modo, não há e nem interessa organizar um espetáculo para apresentar o protagonismo de um indivíduo, que luta exclusivamente por e para si. Interessa apresentar o indivíduo e as causas sociais que o impedem da conquista de seus sonhos, direitos, desejos... Interessa apresentar o sujeito que sonha e aqueles que impedem de realização do sonho.

Nessa medida, a totalidade dos grupos teatrais da cidade de São Paulo, preocupa-se com problemas de natureza social: as múltiplas formas de exploração de amplos setores da população; a espetacuralização da vida pelos meios de comunicação; a crônica e permanente falta de justiça social; a tendenciosidade da justiça que atende àqueles que dispõem de recursos econômicos; a falta de moradia; os capengas sistemas sociais, compreendendo os escolares, de saúde pública etc.

Em razão desse amplo espectro que envolve a maioria, o chamado drama absoluto, que trata das mazelas individuais não interessa. Interessa ao chamado teatro de grupo da cidade, os assuntos sociais amplos e seus embates. Desse modo, os espetáculos são épicos porque lidam com assuntos de natureza histórico-social, em narrativas divididas em episódios distintos e articulados, nos quais pontos de vista diferenciados são contrapostos e investigados.

Assim, como na vida, às vezes somos protagonistas, mas, outras tantas, apenas “figurantes”. Nas narrativas episódicas, em cada episódio pode-se apresentar protagonismos diversos. Portanto, nas obras coletivas, que compreendem a criação do texto e a construção da cena, há funções protagônica distintas.

Mário de Andrade, no final da década de 1920, tomando tantas outras experiências anteriores, criou Macunaíma, na condição de o preguiçoso herói sem caráter, correspondendo às contradições do homem comum.

O teatro de grupo, atendo-se às experiências anteriores na literatura e nas artes, tem trazido à cena, dividindo o protagonismo histórico-social, a gente que sempre esteve à margem na história. Vinícius de Moraes escreveu o poema Os Inconsoláveis”, no qual no último verso aparecia: “aves acorrentadas pelos pés”, a maioria do teatro de grupo tem trazido para a cena e libertado esse tipo de águia.

barafonda bob sousa2 Coluna do Mate: Teatro paulistano transforma sujeitos marginais em protagonistas da vida

Barafonda interage com o bairro da Barra Funda (SP) para contar sua história - Foto: Bob Sousa

O grupo de teatro de rua Buraco d’Oráculo (com sede na zona leste da cidade) apresenta atualmente, em vários espaços públicos da cidade, o espetáculo A Ópera do Trabalho, trazendo o trabalhador e a trabalhadora para a cena; a Companhia São Jorge de Variedades (com sede na zona oeste, próxima ao centro) apresenta o surpreendente espetáculo Barafonda, apresentando em mais de 4 quilômetros de deslocamento, a gente da Barra Funda e todos aqueles que andam pelas ruas do bairro; a Brava Companhia (com sede na zona sul) apresenta em diversos pontos da cidade o seu espetáculo Este Lado para Cima, apresentando o que fazer com relação aos privilegiados que vivem em uma bolha sustentada pela classe trabalhadora; também sendo apresentada em vários pontos da cidade, o Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo (com sede na zona norte) apresenta o espetáculo Aqui Não Senhor Patrão, dividindo a cena e os protestos com relação ao patronato com a população que assiste ao espetáculo; o Grupo Parlendas (que ensaia em espaço ocupado na zona leste), decorrente de viagem por quatro regiões do país, apresenta, em chave de alegoria ao humano, o espetáculo Marruá, palavra cujo significado diz respeito ao boi que se desgarra da boiada e que passa a lutar e a se defender dos instrumentos de tortura e de aprisionamento; a Companhia Antropofágica (com sede na zona oeste) tem apresentado intervenções com máquinas (carroças e bicicletas) e cenas de teatro de revista e músicas em longas jornadas pelas ruas da cidade, misturando de modo crítico o pior e o melhor da música.

Teatro de graça, apresentado nas ruas e espaços públicos; teatro que permite que os espectadores, que passam ou que ficam para assistir a toda a obra possam apresentar seus pontos de vista com relação à obra.

Nessa perspectiva, se a obra épica é construída a partir de pontos de vista diversos, sua função, na condição de uma experiência estética e social, se completa durante a apresentação. Desse modo, a gente que passa pela rua, que, de fato, construiu a cidade e que motivou a construção da obra, pode, também, falar na obra que é sua e que lhe espelha.

Como se dizia antigamente, o teatro de grupo da cidade - principalmente aquele que tem buscado a rua para facilitar o acesso de amplas camadas da população à linguagem teatral -, tem feito sua lição de casa. Em nossos trajetos pela cidade podemos nos surpreender com um espetáculo teatral, podemos nos repensar, nos entender, nos reaproximarmos.

Por último, não é à toa que tanta gente recentemente saiu de casa para apresentar e registrar publicamente, e em coro, seus protestos contra a vida que nos tem sido imposta em séculos: o teatro de grupo da cidade também se fez presente nesses protestos.

berni Coluna do Mate: Teatro paulistano transforma sujeitos marginais em protagonistas da vida

Manifestación, de Antonio Berni: grupos teatrais participam dos recentes protestos - Foto: Reprodução

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista), pesquisador de teatro e integra o júri do Prêmio Shell de Teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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luiz renata pires erivaldo oliveira Mostra Sesc de Teatro de Rua tem 22 espetáculos gratuitos em SP até o dia 29 de setembro

O ator Erivaldo Oliveira, do Grupo Magiluth, que faz Luiz Lua Gonzaga no festival - Foto: Renata Pires/Fundarpe

Por Miguel Arcanjo Prado

Quem gosta de teatro tem de ir para a rua a partir desta sexta (20) para conferir a Mostra Sesc de Teatro de Rua, que vai até o dia 29, com 22 espetáculos gratuitos em 16 unidades do Sesc São Paulo, na capital e no interior.

São 19 companhias nacionais e duas internacionais, totalizando 68 apresentações. Seis Estados brasileiros estão representados (Ceará, Paraíba, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul), além de produções da Itália e da Holanda.

Tal diversidade é fruto do trabalho de uma curadoria formada por 17 programadores do Sesc, sob coordenação de Armando Fernandes, responsável pela área de teatro da instituição.

— A configuração promove a variedade de olhares. Foram compartilhados os repertórios pessoais de 17 profissionais. Esta experiência é muito rica e contribui para uma pesquisa ampliada. O resultado da abrangência é um mosaico de diferentes poéticas dos espetáculos.

A abertura do evento será nesta sexta (20), às 20h30, no Parque da Independência, no Ipiranga, São Paulo, quando o mineiro Grupo Galpão apresenta Os Gigantes da Montanha, peça de Pirandello com direção de Gabriel Vilella.

Ainda chama a atenção na programação a peça Luiz Lua Gonzaga, do pernambucano Grupo Magiluth, que se apresenta na quarta (25), às 19h, no Sesc Consolação. A obra homenageia Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Confira a programação completa da Mostra Sesc de Teatro de Rua

os gigantes da montanha guto muniz Mostra Sesc de Teatro de Rua tem 22 espetáculos gratuitos em SP até o dia 29 de setembro

Os Gigantes da Montanha, montagem do mineiro Galpão, vai abrir a Mostra Sesc de Teatro - Foto: Guto Muniz

Veja dicas da Agenda Cultural da Record News (toda sexta, ao vivo, meio-dia) no vídeo:

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teatroderua Coluna do Mate: Teatro de rua e o preconceito

Teatro de rua muitas vezes acaba sendo vítima de preconceito, mas é resistente - Foto: Divulgação

 

alexandremate Coluna do Mate: Teatro de rua e o preconceitoPor Alexandre Mate*
Especial para o Atores & Bastidores

"A tendência de todo discurso radical é conduzir ao desastre: a dialética nos ensina a empregar vantajosamente o conflito dinâmico dos opostos. Experimentar a emoção e conservar ao mesmo tempo o senso crítico não é impossível na prática [...]. Tudo depende do quanto se está treinado para conter certos estímulos, da sabedoria na administração do emocional e do racional."
Dario FO. Manual Mínimo do Ator

O teatro, de modo contrário ao que aparece nas fontes documentais, não nasceu na Grécia. Se o princípio da linguagem teatral é a representação (alguém fingir-se de outro, colocando-se em seu lugar), o teatro nasceu nas ruas e muito antes de sua invenção no século V a.C. No período citado, o processo representacional, que já constava dos rituais em homenagem aos deuses gregos, com destaque a Dioniso e Febo (Apolo), estetizou-se. Por intermédio da estetização dos rituais, a representação, que é um fenômeno social, foi inserida em um processo de estruturação formal, cujos gêneros iniciais foram chamados de tragédia e comédia.

Desde a criação de uma estrutura rígida — compreendendo partes episódicas: mimese (em que as personagens falavam e agiam por si) e partes narradas: diégese (a cargo da personagem coletiva designada coro) — a representação popular, que acontecia no espaço público, é considerada menor, espontaneista, pouco elaborada etc. Evidentemente, o que está em jogo nessa desconsideração à representação popular, sobretudo, é o fato de as obra populares (que, no caso, se chama de teatro de rua) apresentarem uma fábula (história) a partir do ponto de vista dos sujeitos (homens e mulheres) que não fazem parte da elite. Nessa visão, o espaço de representação, desde as origens, em uma espécie de arena para expor ao ridículo os detentores do poder, que, historicamente, sempre transformou a vida do pobre em um “calvário de sofrimento e exploração”. Nos espetáculos populares, é basicamente o único espaço, na vida social, e de modo público, que o explorado tem para glosar o seu explorador.

Durante a Antiguidade clássica romana, o teatro popular acabou por reaparecer ou, pelo menos a não ser escondido como o foi durante a Antiguidade clássica grega. Nesse reaparecimento, vários gêneros de comédia popular foram criados e, porque o riso tem um caráter de reparação do comportamento, se criou a expressão (ridendo castigat mores, que corresponde a riso como castigador dos costumes). Os artistas populares sempre souberam disso. Quando se expõe o poderoso - principalmente o patrão -, cheio de vícios, de autoritarismos, de modo mesquinho e doentio comportamentalmente, evidentemente, o “modelo” acaba por perceber isso, e, por ter o poder, inclusive de memória documental, a perseguir a cultura popular e a impedir que ela seja documentada.

A Idade Média, historicamente, corresponde, no mundo ocidental, ao período de maior perseguição aos artistas populares do teatro. Estes, os artistas populares, transitavam com a irreverência, o deboche, o chamado grotesco (instintos do baixo ventre - fome biológica e sexual) e traziam uma mentalidade e comportamento de sociedade politeísta. A Igreja queria impor um novo valor religioso e um Deus onisciente, onipotente e onipresente e, nesse sentido, erradicar com práticas anteriores. Dentre um conjunto de práticas proibidas e castigadas, o teatro popular foi uma das experiências sociais mais perseguidas. Desse modo, o teatro oficialmente some da vida social (do século V ao século XI não há referências documentais à prática), mas sabe-se que ele esteve presente nos espaços públicos e dentro dos feudos. Sabe-se que o teatro não deixou de existir porque nos concílios de bispos, os artistas populares eram condenados por seus fazeres: danosos ao corpo, deletérios à alma e corruptores do espírito...

No período do Renascimento (a partir do século XVI, na Europa Central), com nova ordem político-social, o teatro passa a ser retomado de modo institucionalizado (a forma artística foi apoiada e alguns artistas mantidos pelo Estados). Na Itália da renascença, e com o advento das primeiras universidades laicas (não religiosas), aparece uma distinção entre o erudito e o popular. Para se ter uma ideia, o primeiro sentido de erudito, do verbo latino erudere, tem sentido de desengrossar. Este pressuposto, dá conta de que o povo não tem civilidade (por isso é comum ouvir que tal pessoa é grossa...), não sabe se portar, não sabe se conduzir, não tem verniz de refinamento... O “alimento” de uma tal distinção se ampara nas distinções de classe.

Além disso, é importante mencionar que a principal característica legislada pelos doutores das universidades concerne à cultura erudita, que é escrita e cultura popular, que é oral. Para se ter uma ideia, nesse momento histórico (século XVI), por exemplo, a comédia era classificada entre sostenuta (sustentada, escrita) e all’ improviso (improvisada), porque, e até hoje, a principal característica do teatro popular é a relação de troca que artistas desenvolvem com o público espectador.

Outra importantíssima informação para apontar as diferenças entre o teatro de elite e o teatro popular (aquele apresentado na rua, com ponto de vista do povo e com características da cultura do povo), diz respeito ao fato de que as mulheres, na condição de atrizes só terem sido admitidas no teatro erudito, desde a Antiguidade clássica grega, no século XVII. Em oposição a esta proibição do direito das mulheres de dedicarem-se ao fazer teatral, no teatro popular, e também desde o mesmo período grego, as mulheres participavam nas cenas dos chamados mimos gregos, que correspondia a uma espécie de farsa popular.

Muito tempo se passou, mas, e com algumas ressalvas, o preconceito com relação ao “teatro de rua”, que é o popular e o irreverente continua até hoje. Muito se tem feito para mudar esse quadro de desconsideração e desrespeito na cidade de São Paulo. Algumas dessas conquistas serão apresentadas futuramente nesta nova seção que se inaugura.

* Alexandre Mate é doutor em história social pela USP, professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro.

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IMG 7693 Grupo Magiluth celebra centenário de Gonzagão com turnê teatral nas ruas de Pernambuco

Quando a zabumba encontra o teatro de rua: Magiluth celebra o conterrâneo centenário Luiz Gonzaga

Por Miguel Arcanjo Prado

Se estivesse vivo, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, completaria cem anos no próximo dia 13 de dezembro. Mas, se a festança já começou nos shows e cinemas de todo Brasil, ela não poderia deixar de ocupar o palco também. Ou melhor, ocupar o teatro de rua.

E claro que tal homenagem teria de vir de uma trupe pernambucana. E ninguém melhor do que o Grupo Magiluth, que representa o novo teatro de Recife, ser o responsável por transformar a música de Gonzagão em beleza cênica nas cidades de Recife, Olinda, Garanhuns, Caetés, Caruaru e Vitória.

O espetáculo Luiz Lua Gonzaga estreia neste sábado (8) e fica em cartaz até o próximo dia 16 em sua turnê frenética de fim de ano.

Com o novo projeto, os meninos do Magiluth demonstram que já estão craques em homenagear centenários. Já que celebraram o do dramaturgo Nelson Rodrigues, outro pernambucano ilustre, em agosto último, com uma montagem inteiramente masculina de Viúva, porém Honesta, que causou frenesi no Rio, em Salvador e no Recife.

O novo projeto tem apoio da Funarte, pelo Prêmio Funarte Centenário Luiz Gonzaga, que patrocinou 30 iniciativas em todo país de diferentes linguagens que visassem celebrar nosso grande cantor e compositor nordestino.

Como o ritmo do xaxado pede, o Magiluth vai ao encontro do povo no espetáculo de rua. Erivaldo Oliveira, ator da trupe, diz que objetivo é aproximar o grupo da gente que não tem costume de frequentar o teatro.

IMG 7717 Grupo Magiluth celebra centenário de Gonzagão com turnê teatral nas ruas de Pernambuco

Quando a música encontra o teatro: Luiz Lua Gonzaga

Pedro Wagner, também ator, lembra que a música é parte primordial do trabalho. Para darem conta do recado, os seis meninos do Magiluth chamaram os músicos Pedro Cardoso e João Tragtenberg, este último um catarinense que viajou a Pernambuco para aprender a tocar sanfona com o Mestre Camarão.

Pedro Vilela, diretor da montagem, prefere a palavra celebração a espetáculo para defini-la, já que o objetivo mesmo é homenagear o conterrâneo tão importante. Um dos charmes é um boneco manipulado pelo elenco, criado pelo ator Lucas Torres. “O objetivo é remeter à tradição das feiras populares, tão comuns no Nordeste”, revela.

Quem pensa que a obra é um relato enciclopédico se engana redondamente. Giordano Castro, responsável pela dramaturgia, diz que o objetivo “não foi realizar uma biografia, mas ativar questões que estão na obra de Luiz Gonzaga e na memória popular do nordestino”.

Completa o elenco Mario Sergio Cabral, o caçulinha do Magiluth e, claro, Muso do Teatro R7. A produção executiva é assinada pela sempre competente Mariana Rusu.

Veja abaixo quando e onde o Magiluth se apresenta, sempre com entrada gratuita:

ETAPA 1
Dia 8/12 – Sábado
16:00 – Praça Tertuliano Feitosa (Praça do Hipódromo) – Hipódromo, Recife.
20:00 – Praça da Sé - Olinda

Dia 10/12 – Segunda-feira
16:00 – Biblioteca Comunitária Amigos da Leitura – Alto José Bonifácio, Recife.
20:00 – Biblioteca Popular do Coque – Coque, Recife.

Dia 11/12 – Terça-feira
16:00 – Terminal do Alto do Capitão
20:30 – Praça do Arsenal – Bairro do Recife, Recife.

ETAPA 2
Dia 15/12 – Sábado
16:00 – Garanhuns - Parque Euclides Dourado
20:00 – Caetés - Praça da Matriz

Dia 16/12 – Domingo
16:00 – Caruaru - Parque Severino Montenegro
20:00 – Vitória – Praça do Distrito de Pirituba

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