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teatroderua Coluna do Mate: Teatro de rua e o preconceito

Teatro de rua muitas vezes acaba sendo vítima de preconceito, mas é resistente - Foto: Divulgação

 

alexandremate Coluna do Mate: Teatro de rua e o preconceitoPor Alexandre Mate*
Especial para o Atores & Bastidores

"A tendência de todo discurso radical é conduzir ao desastre: a dialética nos ensina a empregar vantajosamente o conflito dinâmico dos opostos. Experimentar a emoção e conservar ao mesmo tempo o senso crítico não é impossível na prática [...]. Tudo depende do quanto se está treinado para conter certos estímulos, da sabedoria na administração do emocional e do racional."
Dario FO. Manual Mínimo do Ator

O teatro, de modo contrário ao que aparece nas fontes documentais, não nasceu na Grécia. Se o princípio da linguagem teatral é a representação (alguém fingir-se de outro, colocando-se em seu lugar), o teatro nasceu nas ruas e muito antes de sua invenção no século V a.C. No período citado, o processo representacional, que já constava dos rituais em homenagem aos deuses gregos, com destaque a Dioniso e Febo (Apolo), estetizou-se. Por intermédio da estetização dos rituais, a representação, que é um fenômeno social, foi inserida em um processo de estruturação formal, cujos gêneros iniciais foram chamados de tragédia e comédia.

Desde a criação de uma estrutura rígida — compreendendo partes episódicas: mimese (em que as personagens falavam e agiam por si) e partes narradas: diégese (a cargo da personagem coletiva designada coro) — a representação popular, que acontecia no espaço público, é considerada menor, espontaneista, pouco elaborada etc. Evidentemente, o que está em jogo nessa desconsideração à representação popular, sobretudo, é o fato de as obra populares (que, no caso, se chama de teatro de rua) apresentarem uma fábula (história) a partir do ponto de vista dos sujeitos (homens e mulheres) que não fazem parte da elite. Nessa visão, o espaço de representação, desde as origens, em uma espécie de arena para expor ao ridículo os detentores do poder, que, historicamente, sempre transformou a vida do pobre em um “calvário de sofrimento e exploração”. Nos espetáculos populares, é basicamente o único espaço, na vida social, e de modo público, que o explorado tem para glosar o seu explorador.

Durante a Antiguidade clássica romana, o teatro popular acabou por reaparecer ou, pelo menos a não ser escondido como o foi durante a Antiguidade clássica grega. Nesse reaparecimento, vários gêneros de comédia popular foram criados e, porque o riso tem um caráter de reparação do comportamento, se criou a expressão (ridendo castigat mores, que corresponde a riso como castigador dos costumes). Os artistas populares sempre souberam disso. Quando se expõe o poderoso - principalmente o patrão -, cheio de vícios, de autoritarismos, de modo mesquinho e doentio comportamentalmente, evidentemente, o “modelo” acaba por perceber isso, e, por ter o poder, inclusive de memória documental, a perseguir a cultura popular e a impedir que ela seja documentada.

A Idade Média, historicamente, corresponde, no mundo ocidental, ao período de maior perseguição aos artistas populares do teatro. Estes, os artistas populares, transitavam com a irreverência, o deboche, o chamado grotesco (instintos do baixo ventre - fome biológica e sexual) e traziam uma mentalidade e comportamento de sociedade politeísta. A Igreja queria impor um novo valor religioso e um Deus onisciente, onipotente e onipresente e, nesse sentido, erradicar com práticas anteriores. Dentre um conjunto de práticas proibidas e castigadas, o teatro popular foi uma das experiências sociais mais perseguidas. Desse modo, o teatro oficialmente some da vida social (do século V ao século XI não há referências documentais à prática), mas sabe-se que ele esteve presente nos espaços públicos e dentro dos feudos. Sabe-se que o teatro não deixou de existir porque nos concílios de bispos, os artistas populares eram condenados por seus fazeres: danosos ao corpo, deletérios à alma e corruptores do espírito...

No período do Renascimento (a partir do século XVI, na Europa Central), com nova ordem político-social, o teatro passa a ser retomado de modo institucionalizado (a forma artística foi apoiada e alguns artistas mantidos pelo Estados). Na Itália da renascença, e com o advento das primeiras universidades laicas (não religiosas), aparece uma distinção entre o erudito e o popular. Para se ter uma ideia, o primeiro sentido de erudito, do verbo latino erudere, tem sentido de desengrossar. Este pressuposto, dá conta de que o povo não tem civilidade (por isso é comum ouvir que tal pessoa é grossa...), não sabe se portar, não sabe se conduzir, não tem verniz de refinamento... O “alimento” de uma tal distinção se ampara nas distinções de classe.

Além disso, é importante mencionar que a principal característica legislada pelos doutores das universidades concerne à cultura erudita, que é escrita e cultura popular, que é oral. Para se ter uma ideia, nesse momento histórico (século XVI), por exemplo, a comédia era classificada entre sostenuta (sustentada, escrita) e all’ improviso (improvisada), porque, e até hoje, a principal característica do teatro popular é a relação de troca que artistas desenvolvem com o público espectador.

Outra importantíssima informação para apontar as diferenças entre o teatro de elite e o teatro popular (aquele apresentado na rua, com ponto de vista do povo e com características da cultura do povo), diz respeito ao fato de que as mulheres, na condição de atrizes só terem sido admitidas no teatro erudito, desde a Antiguidade clássica grega, no século XVII. Em oposição a esta proibição do direito das mulheres de dedicarem-se ao fazer teatral, no teatro popular, e também desde o mesmo período grego, as mulheres participavam nas cenas dos chamados mimos gregos, que correspondia a uma espécie de farsa popular.

Muito tempo se passou, mas, e com algumas ressalvas, o preconceito com relação ao “teatro de rua”, que é o popular e o irreverente continua até hoje. Muito se tem feito para mudar esse quadro de desconsideração e desrespeito na cidade de São Paulo. Algumas dessas conquistas serão apresentadas futuramente nesta nova seção que se inaugura.

* Alexandre Mate é doutor em história social pela USP, professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro.

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IMG 7693 Grupo Magiluth celebra centenário de Gonzagão com turnê teatral nas ruas de Pernambuco

Quando a zabumba encontra o teatro de rua: Magiluth celebra o conterrâneo centenário Luiz Gonzaga

Por Miguel Arcanjo Prado

Se estivesse vivo, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, completaria cem anos no próximo dia 13 de dezembro. Mas, se a festança já começou nos shows e cinemas de todo Brasil, ela não poderia deixar de ocupar o palco também. Ou melhor, ocupar o teatro de rua.

E claro que tal homenagem teria de vir de uma trupe pernambucana. E ninguém melhor do que o Grupo Magiluth, que representa o novo teatro de Recife, ser o responsável por transformar a música de Gonzagão em beleza cênica nas cidades de Recife, Olinda, Garanhuns, Caetés, Caruaru e Vitória.

O espetáculo Luiz Lua Gonzaga estreia neste sábado (8) e fica em cartaz até o próximo dia 16 em sua turnê frenética de fim de ano.

Com o novo projeto, os meninos do Magiluth demonstram que já estão craques em homenagear centenários. Já que celebraram o do dramaturgo Nelson Rodrigues, outro pernambucano ilustre, em agosto último, com uma montagem inteiramente masculina de Viúva, porém Honesta, que causou frenesi no Rio, em Salvador e no Recife.

O novo projeto tem apoio da Funarte, pelo Prêmio Funarte Centenário Luiz Gonzaga, que patrocinou 30 iniciativas em todo país de diferentes linguagens que visassem celebrar nosso grande cantor e compositor nordestino.

Como o ritmo do xaxado pede, o Magiluth vai ao encontro do povo no espetáculo de rua. Erivaldo Oliveira, ator da trupe, diz que objetivo é aproximar o grupo da gente que não tem costume de frequentar o teatro.

IMG 7717 Grupo Magiluth celebra centenário de Gonzagão com turnê teatral nas ruas de Pernambuco

Quando a música encontra o teatro: Luiz Lua Gonzaga

Pedro Wagner, também ator, lembra que a música é parte primordial do trabalho. Para darem conta do recado, os seis meninos do Magiluth chamaram os músicos Pedro Cardoso e João Tragtenberg, este último um catarinense que viajou a Pernambuco para aprender a tocar sanfona com o Mestre Camarão.

Pedro Vilela, diretor da montagem, prefere a palavra celebração a espetáculo para defini-la, já que o objetivo mesmo é homenagear o conterrâneo tão importante. Um dos charmes é um boneco manipulado pelo elenco, criado pelo ator Lucas Torres. “O objetivo é remeter à tradição das feiras populares, tão comuns no Nordeste”, revela.

Quem pensa que a obra é um relato enciclopédico se engana redondamente. Giordano Castro, responsável pela dramaturgia, diz que o objetivo “não foi realizar uma biografia, mas ativar questões que estão na obra de Luiz Gonzaga e na memória popular do nordestino”.

Completa o elenco Mario Sergio Cabral, o caçulinha do Magiluth e, claro, Muso do Teatro R7. A produção executiva é assinada pela sempre competente Mariana Rusu.

Veja abaixo quando e onde o Magiluth se apresenta, sempre com entrada gratuita:

ETAPA 1
Dia 8/12 – Sábado
16:00 – Praça Tertuliano Feitosa (Praça do Hipódromo) – Hipódromo, Recife.
20:00 – Praça da Sé - Olinda

Dia 10/12 – Segunda-feira
16:00 – Biblioteca Comunitária Amigos da Leitura – Alto José Bonifácio, Recife.
20:00 – Biblioteca Popular do Coque – Coque, Recife.

Dia 11/12 – Terça-feira
16:00 – Terminal do Alto do Capitão
20:30 – Praça do Arsenal – Bairro do Recife, Recife.

ETAPA 2
Dia 15/12 – Sábado
16:00 – Garanhuns - Parque Euclides Dourado
20:00 – Caetés - Praça da Matriz

Dia 16/12 – Domingo
16:00 – Caruaru - Parque Severino Montenegro
20:00 – Vitória – Praça do Distrito de Pirituba

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