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ENO 0448 1024x681 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

Liberdade de expressão artística: atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis posam na redação do R7 após serem absolvidos pela Justiça de acusação de padre por conta de uma cena de peça de teatro - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Tony Reis e Mariano Mattos Martins estão aliviados. Os dois atores foram absolvidos na última segunda (8) pela Justiça Criminal de São Paulo no processo movido pelo padre goiano Luiz Carlos Lodi da Cruz. Este acusava os artistas do Teat(r)o Oficina e também o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, de ferir seu sentimento religioso em uma cena da peça Acordes.

A encenação aconteceu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite da comunidade acadêmica, que estava em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na votação. O padre não estava presente nem viu a peça inteira, mas assistiu à cena pela internet, em vídeo subido no YouTube, e resolveu acionar a Justiça contra o grupo.

O juiz José Zoega Coelho, do Juizado Especial Criminal do Fórum da Barra Funda, emitiu sentença favorável aos artistas, que foram absolvidos, e Zé Celso, que tem 78 anos, teve a acusação prescrita por conta de sua idade avançada. Caso esta decisão não houvesse sido proferida, os artistas poderiam pegar até um ano de cadeia.

Os atores do Oficina, considerado o principal grupo teatral do Brasil e um dos mais respeitados em todo o mundo, foram defendidos pelos advogados Fernando Castelo Branco e Fernanda de Almeida Carneiro. A sentença ainda cabe recurso, mas, segundo os advogados do Oficina, o Ministério Público não costuma insistir em casos como este. Zé Celso não pode comparecer à audiência, pois está fortemente gripado.

Mariano, paulista de Osasco, e Tony, baiano de Salvador, aceitaram o convite do Atores & Bastidores e compareceram à redação do Portal R7 para esta exclusiva Entrevista de Quinta.

Falaram do medo que sentiram ao poderem pegar um ano de cadeia por fazer teatro e ainda a situação de marginalidade que a profissão de ator de teatro vive no Brasil.

Leia com toda a calma do mundo.

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Se não fossem absolvidos, como aconteceu, a acusação do padre poderia render até um ano de cadeia para os atores do Teat(r)o Oficina - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como vocês souberam que estavam sendo processados por fazer uma cena de uma peça de teatro e como vocês reagiram?
MARIANO MATTOS MARTINS — A gente soube pelo próprio Teat(r)o Oficina. Aí já veio intimação em nossa casa. Foi um susto. Precisamos acionar os advogados e correr atrás.
TONY REIS — Também foi o Oficina que me avisou. Chegou em casa um oficial de Justiça e me mandou assinar uma intimação. Não pensei que nossa performance poderia chegar a esse nível jurídico.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual a reação de ser processado criminalmente por uma atividade artística em tempos de suposta democracia?
MARIANO MATTOS MARTINS — No começo, ainda não estávamos enquadrados como crime. Era uma denúncia. Primeiro ficamos boladíssimos, porque não tínhamos conhecimento jurídico para saber o que ia acontecer. Falei para o Tony, "caramba, fizemos dois palhaços na peça, que maluco acontecer isso, os caras estão fazendo isso mesmo?". Estão! A gente teve de ir depor em uma delegacia de Perdizes [bairro da zona este paulistana onde fica a PUC, onde a peça foi encenada].
TONY REIS — Eu fui em um dia, e ele em outro.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Eu me lembro, eu cobri.
MARIANO MATTOS MARTINS — A gente pensou que iria acabar ali. Mas quando foram tendo audiências e virou um processo criminal, percebemos que aquilo estava ficando sério e precisava de uma resposta séria também. Começamos a conversar muito no Oficina para nos alimentarmos de argumentos para combater aquilo, que era uma coisa muito reacionária com a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como suas famílias reagiram quando souberam que vocês estavam sendo processados?
TONY REIS — Eu venho de uma família muito simples de Salvador. Eles vivem na Bahia. Foi muito complicado. Minha irmã me ligou, muito nervosa, me perguntando se eu iria ser preso. Eu falei para ela ter calma, que não era isso que ela estava pensando. Eu expliquei que um padre de Goiás não havia gostado de uma apresentação que fizemos na PUC, que ele viu pela internet, e resolveu nos processar. Fui tentando acalmá-la, e tentando convencê-la de que não iríamos pegar essa detenção. Mas eu também estava muito preocupado, porque não tinha certeza de nada.
MARIANO MATTOS MARTINS — Minha família é pequena e ficou muito preocupada. Mas também recebemos muitas mensagens de amigos e desconhecidos, dando apoio, dizendo que estavam muito preocupados com este momento que o País está vivendo.
TONY REIS — Todo mundo mandou mensagens de apoio, achando ridículo tudo aquilo que estava acontecendo. Eu pensei: o que eu sei fazer é arte e se isso agora é crime o que eu vou fazer da minha vida?

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês ficaram com medo?
TONY REIS — Eu fiquei morrendo de medo, sim.
MARIANO MATTOS MARTINS — Claro. Nós somos jovens. Não somos como o Zé que tem mais de 70 anos e um monte de coisa prescreve. A gente ficou, cara, realmente com a perna bamba. A gente está trabalhando e estamos sendo ameaçados pelo próprio conteúdo do nosso trabalho? A gente achou tudo isso bem estranho. Mas os nossos advogados são muito bons e nos deram calma. Disseram que tinham feito uma defesa muito forte e que era para a gente ficar tranquilo. Até a audiência de segunda-feira, dia 8, a gente estava pensando: caramba, o que vai acontecer?

MIGUEL ARCANJO PRADO — O padre viu a cena no  YouTube. A gente sabe que teatro é presencial, só existe com o espectador e o ator ali, um de frente para o outro. O que acham disso ter acontecido: alguém que não viu a peça poder processá-la?
MARIANO MATTOS MARTINS —Acho que legalmente ele até possa ter tido o direito de fazer isso. Mas, acho que a própria Justiça dar voz a isso, ao mesmo tempo que é estranho, está sendo importante porque a gente está aqui, discutindo isso, não só a criminalização da arte como também a posição da cultura na sociedade. Como as outras esferas se comunicam com a cultura. Por um lado, vejo uma coisa bem bizarra alguém estar sentado na cadeira dele e, com um dedo no computador ver uma cena e em outro dedo ligar para denunciar. E ficar lá sentadinho no canto dele.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu queria perguntar isso: vocês conheceram o padre? Ele veio às audiências?
TONY REIS — Não. Nós não o conhecemos. Ele não veio em nenhum momento.

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Sombra e luz: atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis ficaram assustados ao serem processados por fazer teatro - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Há muito preconceito contra o teatro?
TONY REIS — Sim. O teatro é discriminado 24 horas, não temos direito a nada, não temos patrocínio, somos marginalizados o tempo todo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês acham que na sociedade brasileira ainda existe o pensamento de que ator de verdade é só o que está fazendo novela na televisão e que o ator de teatro é só alguém que está tentando chegar na TV?
MARIANO MATTOS MARTINS — Sem dúvida. A minha família sempre me pergunta quando eu vou fazer novela. Peraí, eu já estou fazendo meu trabalho. Se houver um convite para fazer novela, eu vou pensar e posso aceitar, mas é só um outro trabalho de atuação. Eu já trabalho como ator no teatro. É uma profissão riquíssima e tive que estudar muito para trabalhar como trabalho, ralei muito. O próprio público com o advento da internet acabou indo para outros lugares. O teatro tende a ficar mais vazio, editais públicos são pouquíssimos, os patrocinadores não querem investir em teatro... Se você pegar a tabela de diária do Ministério da Cultura, a remuneração do ator de teatro é a mais baixa de todas. Poxa, por quê? Se você precisa fazer uma cena, você precisa do cenógrafo, do iluminador, do figurinista. Todo mundo ganha. Por que só o ator pode trabalhar de graça? É normal no teatro dizerem: "o ator não precisa receber cachê". Temos de fazer um grito contra essa miséria que nossa profissão está sendo colocada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O povo pensa que fazer teatro é hobby?
TONY REIS — Sim. As pessoas, infelizmente, ainda não veem como uma profissão. Pensam que estamos brincando. Me perguntam: "Você recebe mesmo? Como paga suas contas?". Gente, trabalhamos em um dos teatros mais respeitados do País e do mundo, que é o Oficina, com o Zé Celso, o maior diretor desse País. Eu chego no teatro toda tarde e não tenho hora para sair. É bem mais que as oito horas de quem trabalha em escritório. O povo só tem noção do tamanho do nosso trabalho quando vai assistir. Aí, fica boquiaberto.
MARIANO MATTOS MARTINS — E fora as cinco horas que estamos em cena, a gente ensaia muitas vezes oito horas por dia antes de a peça estrear. Trabalhamos muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando ao processo, o padre alegou que a cena na qual o boneco parecido com o Papa era decapitado feriu seu sentimento religioso. Pensei no filme O Exorcista, que tem vários signos religiosos sendo ultrajados... Outras centenas de filmes de terror por aí usam muitos aspectos religiosos e ninguém fala nada. Vocês acham esse olhar que criminalizou a cena de vocês é um olhar absurdo para um produto artístico em um ambiente democrático?
MARIANO MATTOS MARTINS — Mais que um olhar absurdo é um olhar descontextualizado. Hoje, nós vivemos isso com a internet. Qualquer coisa fora de contexto pode ser classificada como cada um quiser. E você pode, inclusive, classificar como crime uma coisa que não é. A arte é soberana neste tipo de discussão, até porque, depois dos anos de ditadura, nós conquistamos a liberdade de expressão artística. E o mundo luta por isso. As pequenas liberdades precisam de luta diária para acontecerem. É um momento sinistro que vivemos no Brasil. Daqui a pouco processam Picasso porque ele fez o quadro Guernica, baseado na Guerra Civil Espanhola. Tudo pode coexistir: o evangélico, o negro, o gay, o teatro, o católico. Isso é uma democracia. Ninguém precisa convencer a outra pessoa. Todo mundo tem o poder próprio, inteligência, livre arbítrio de fazer escolhas. A visão que nos criminalizou menospreza o próprio público e sua capacidade de pensar: "é óbvio que este boneco não é o Papa, é um boneco de três metros de altura, é uma alegoria artística".

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que vocês acharam de a peça Edifício London, de Lucas Arantes com o grupo Os Satyros, haver sido proibida pela Justiça antes mesmo da estreia por ter sido inspirada no caso Isabella Nardoni?
MARIANO MATTOS MARTINS — Acho que proibir a arte de falar de qualquer assunto é ditadura. Agora mesmo foi votada a questão das biografias, que foram liberadas. A expressão artística tem a liberdade em sua essência. Se eu falo uma coisa e quero mostrar meu ponto de vista, vou me expressar pela arte e não me esconder atrás dela, como o promotor insinuou que a gente havia feito.
TONY REIS — Ele falou na cara da gente, na cara do Zé Celso, que a gente se escondia atrás da arte.
MARIANO MATTOS MARTINS — É exatamente o contrário. A arte não é esconderijo, a gente usa a arte como ferramenta para interpretar a realidade. A arte é isso. Ao invés de você ir lá e matar uma pessoa na vida real, você pode trazer a situação para a cena e colocar as pessoas para pensar. A arte diminui a violência, aumenta a consciência social, ambiental e tantas outras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O palco é um lugar de diálogo?
MARIANO MATTOS MARTINS  — Claro! Totalmente. As pessoas não saem de uma peça sem entender nada. Alguma coisa comunica, mesmo que inconscientemente. Leva a pensar. Às vezes você pensa em uma peça por dias e ela vira uma referência para você.
TONY REIS — Teatro é pura cultura, não pode ser criminalizada. O que eles querem é que haja pouca gente no teatro, porque tocamos o público. A TV, o cinema, você consegue ser passivo. No Oficina, a gente fala olhando nos seus olhos.

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Mariano Mattos Martins e Tony Reis, com a cidade de São Paulo ao fundo: eles fazem teatro para colocar o público para refletir sobre sua realidade - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por isso o teatro incomoda tanto?
MARIANO MATTOS MARTINS — Sim. O teatro incomoda porque o teatro penetra, mesmo. Ele fala a real. Vai jogando com você. A teatro não deixa a pessoa numa posição passiva. O problema é que muita gente por aí não quer ter uma atitude ativa na vida. No teatro, quando você vê um ser humano de carne e osso ali na sua frente você automaticamente se projeta nele de algum modo. E passa a refletir.
TONY REIS — E estamos supervivos ali.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que lição vocês estão tirando dessa situação que passaram?
MARIANO MATTOS MARTINS — Acho que isso fortalece a arte teatral. Fortalece uma discussão que precisamos ter sobre o posicionamento da cultura dentro da sociedade. Porque ela é importante, sim. E, ao mesmo tempo, ela convoca o público para olhar para o teatro com outros olhos. O teatro é importante, sim. É uma luta infinita. E essa história vai trazer as vozes de outros movimentos que estão sendo perseguidos de alguma forma.
TONY REIS — Vi quantos jovens nos escreveram, movimentaram o Facebook. Conseguimos mostrar o que estava acontecendo e chamar a atenção de todos eles. E foi muito positivo que isso não ficou oculto, e graças também a você, que cobriu a história desde o começo. Vi tudo isso e percebi que o teatro ainda tem quem o defenda, o valorize.
MARIANO MATTOS MARTINS — O Oficina foi para a Rússia e vimos que lá teatro é um programa diário.  Na França também. Depois de Paris, São Paulo é o lugar que mais tem teatro, eu já pesquisei isso. É um patrimônio da cidade, do País, é um gerador de trabalho para muita gente.

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O ator Mariano Mattos Martins: "Faço teatro como uma missão" - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
MARIANO MATTOS MARTINS — Eu faço teatro porque alguma coisa dentro de mim quer fazer teatro desde que nasci. Faço como uma missão. Quando vejo que chega nas pessoas volta para mim, de arrepiar. Faço porque é importante. Não é a única coisa que sei fazer, mas das coisas que sei fazer é a mais humana e a mais transformadora de pessoas. Vem uma alegria, uma satisfação. Cheguei ao Oficina com 15 anos e foi um impacto. Faço teatro desde criança. Mas quando vi o Oficina me apaixonei perdidamente. Passei dez anos trabalhando lá. Ali tem uma chama de teatro, de ação, de conexão com o público. No Oficina, fiz minha segunda faculdade, mais um mestrado e um doutorado. É um teatro que primeiro de deforma e depois te reconstrói e abre sua cabeça para o mundo. Quando cheguei lá perguntei: como isso existe e eu não sabia? Isso é brasileiro. É um patrimônio.
TONY REIS — Sempre falo que fui escolhido pelos deuses do teatro. Acho lindo poder levar tantos sentimentos ao público. Quando vi que conseguia fazer isso percebi que era o que queria para minha vida. Comecei de brincadeira e depois levei a sério e comecei a estudar. Vivo uma situação complicada, sou negro, ator e o que me fez ficar no Oficina é porque é um teatro político, que valoriza o negro. Quando vi que no Oficina havia muitos atores negros e que os negros não faziam papéis subalternos eu percebi que ali era meu lugar. E no Oficina, que é um teatro ritualístico, eu sinto a mesma energia que eu sentia na Bahia. Eu me sinto em casa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como está o Zé?
MARIANO MATTOS MARTINS — Ele ficou doente e não pode ir à audiência final.  Ainda está se recuperando da gripe. Falei com ele ao telefone. Ele ficou aliviado com a decisão da Justiça.  Até porque ele passou por coisas muito piores na época da ditadura, mas ele concordou comigo que o momento atual é delicado, é uma ditadura diferente, estamos sendo cercados de vários lados. E ele confia na gente.
TONY REIS — Vamos comemorar a decisão favorável a nós da Justiça no sábado agora, com a peça O Banquete, e no domingo, com a peça Pra Dar um Fim no Juízo de Deus. Queremos que todo mundo que nos apoiou apareça no Oficina para celebrar essa vitória com a gente!

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O ator Tony Reis: "O Oficina valoriza o negro, sinto a energia da Bahia" - Foto: Eduardo Enomoto

SERVIÇO:
Quando e o quê:
Dia 13/06, sábado – O Banquete – 18h (5h de duração)
Dia 14/06, domingo – Pra Dar um Fim no Juízo de Deus – 20h (1h de duração)
Dia 27/06, sábado – O Banquete – 18h (5h de duração)
Dia 28/06, domingo – Pra Dar um Fim no Juízo de Deus – 20h (1h de duração)
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos

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Ze Celso foto JENNIFER GLASS Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Zé Celso vai comemorar absolvição no palco do Oficina com seus atores - Foto: Jennifer Glass

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A Justiça decidiu que o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, do Teat(r)o Oficina, são inocentes na ação criminal movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Anápolis, Goiás.

O padre havia acusado os artistas de crime contra seu sentimento religioso católico por conta de uma cena da peça Acordes, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite de alunos, professores e estudantes em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na eleição.

O padre goiano viu a peça pela internet, no YouTube. Sentindo-se ofendido com a cena na qual um boneco semelhante ao Papa Bento 16, que na obra inspirada em Bertolt Brecht representava a figura do autoritarismo, resolveu então processar criminalmente os três artistas do grupo Oficina, além da produtora da companhia teatral, Ana Rúbia.

O juiz José Zoega Coelho, do Juizado Especial Criminal do Fórum da Barra Funda, recebeu na tarde desta segunda (8) a defesa dos advogados de Zé Celso, Mariano e Tony. Ele pediu tempo para analisar o documento e, nesta terça (9), foi divulgada sua sentença, emitida ainda na segunda e com decisão favorável aos artistas.

O juiz acolheu integralmente os argumentos apresentados pelos advogados do Oficina, Dr. Fernando Castelo Branco e Dra. Fernanda de Almeida Carneiro. Foi extinta a punibilidade do diretor Zé Celso, em decorrência da prescrição, e absolvidos os atores Mariano Mattos Martins e Tony Reis, tendo em vista que o fato narrado na denúncia não constitui crime.

A sentença ainda cabe recurso, mas, segundo os advogados do Oficina, o Ministério Público não costuma insistir em casos como este.

Zé Celso e seus atores informaram ao Atores & Bastidores do R7, que acompanhou de perto a história deste o primeiro instante, que vão comemorar a vitória junto ao público nos próximos fins de semana. A festa será em cena, quando apresentarão as quatro últimas sessões das peças O Banquete, nos dias 13 e 27 de junho, às 18h, e Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, nos dias 14 e 28 de junho, às 20h, na sede do Oficina, na rua Jaceguai, 520, no Bixiga, em São Paulo.

Ze Celso Pradarumfim foto Ayume Oliveira Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Zé Celso, no palco do Oficina: diretor de 78 anos quase foi preso outra vez por simplesmente fazer teatro; a primeira foi durante a ditadura civil-militar e pela qual foi indenizado em 2010 pelo Governo Federal - Foto: Ayume Oliveira

Leia, abaixo, a sentença do juiz, divulgada nesta terça (9):

"1 – Quanto ao Réu José Celso Martinez Correa: decorridos mais de dois anos desde a data dos fatos e considerando as penas máximas abstratamente cominadas, o prazo prescricional previsto no artigo 109, V, do Código Penal já transcorreu integralmente, sem superveniência de qualquer causa suspensiva ou interruptiva do referido prazo. Anoto que, in casu, tal prazo reduz-se pela metade, considerando o fato do agente ser maior de setenta anos nesta data (Código Penal, artigo 115). Ante o retro exposto, reconheço a prescrição da pretensão punitiva estatal e JULGO EXTINTA a punibilidade relativamente aos fatos objeto do termo circunstanciado, imputados a JOSÉ CELSO MARTINEZ CORREA o que faço com fundamento nos artigos 107, IV; 109, V, 110 e §§ e 115 todos do Código Penal.

2 – Quanto aos demais Réus, entendo ser o caso de absolvição sumária, nos moldes do artigo 397, III, do Código de Processo Penal. Com efeito, a denúncia imputa aos Réus a conduta de vilipendiar publicamente objeto de culto religioso, estes que seriam uma cruz de pedra que ornamenta a praça da cruz, no interior das dependências da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e ainda a figura do papa, representada por um boneco, durante determinada encenação teatral que ocorria naquela praça, naquela universidade.
No entanto, como destacado em defesa preliminar – cujos argumentos aqui se acolhem às inteiras, como razões de decidir – a conduta típica é bastante restrita, no tocante à elementar do tipo “objeto de culto religioso”. Objeto de culto é tão somente aquele inerente ao serviço do culto, ou seja, utilizado durante alguma celebração religiosa (missa, procissão etc).

Outros objetos, ainda que a eles se atribuam valor ou estima de fundo religioso, não estão abrangidos pela proteção penal, ora em comento, se também não forem próprio de qualquer ato inerente à liturgia – aos ritos e celebrações religiosos.

A cruz de pedra é símbolo religioso por excelência. Mas especificamente aquela cruz, situada em simples pátio central da edificação, não é objeto que se empregue em culto ou ritual religioso. Assim também não é objeto de culto a figura, simbólica, do Papa.

Deste modo, os fatos, tais como descritos na denúncia, não englobam todas as elementares do tipo penal. Só por este fundamento, já não seriam típicos, donde a necessidade da absolvição sumária.

Mas ainda que assim não fosse, tenho que os elementos indiciários também não consubstanciam justa causa para o exercício da ação penal. Os elementos indiciários (notadamente as imagens da encenação teatral disponíveis na internet) não apontam que qualquer dos atos apontados na denúncia com caracterizadores do vilipêndio à cruz tenha sido diretamente dirigido ao objeto. O que se vê é que os atos descritos na denúncia foram praticados no contexto da encenação, para a qual a presença ou não da cruz era de todo irrelevante.

Por outro lado, a análise da encenação, em seu inteiro teor e sentido, revela que, a toda evidência, o elemento subjetivo dos Réus não estava voltado contra os objetos referidos na denúncia (consciência e vontade de vilipendiá-los, cruz e figura simbólica do papa). A encenação tinha como cerne a crítica a conhecidos posicionamentos da igreja Católica que prevaleciam ao tempo da encenação e que eram notoriamente associados ao pontificado do Papa Bento XVI – posicionamentos que, hoje, ao que se nota, alteraram-se profundamente.

Como os elementos indiciários apontam no sentido do exercício de um a crítica à Igreja Católica, nisso não se pode ver ocorrência de ilícito penal. A liberdade de manifestação do pensamento, constitucionalmente assegurada, aqui socorre os Réus. Nenhuma igreja está imune à crítica, por qualquer meio ou forma de expressão, notadamente a teatral. Ademais, não é incomum a crítica a religiões, a igrejas e a fôrmas de manifestações do sentimento religioso.

Não se nega que a forma adotada para a crítica possa, em princípio, ser considerada ofensiva para alguns. Mas enquanto a tônica seja o exercício do direito de crítica, a encenação teatral não entra no campo do ilícito penal. Ante o retro exposto, julgo extinta a punibilidade do Réu JOSÉ CELSO MARTINEZ CORREA, nos termos do artigo 107, IV, do Código Penal (prescrição) e absolvo sumariamente MARIANO MATTOS MARTINS e ANTONIO CARLOS DA CONCEIÇÃO REIS, do delito do artigo 208, do Código Penal, que lhes foi imputado, o que faço com fundamento no artigo 397, III, do Código de Processo Penal.

Finalmente, quanto a ANA RUBIA DE OLIVEIRA MELO, nos termos da manifestação do d. Representante do Ministério Público (fls. 85)
que acolho como razões de decidir, determino o arquivamento do inquérito policial, com a ressalva do disposto no artigo 18, do CPP.

P.R.I.

Juiz José Zoega Coelho
Juizado Especial Criminal Central da Comarca de São Paulo

São Paulo, 08 de junho de 2015"

Tony Reis e Mariano em cena de ACORDES Foto Fermozelli Fotoarte Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Absolvidos: os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins em cena da peça Acordes, do Oficina, alvos de denúncia de padre goiano e processo na Justiça - Foto: Fermozelli

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Ze Celso foto JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

Zé Celso em cena da peça que traz texto radiofônico de Artaud - Foto: Jennifer Glass

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Diante do sucesso de púbico, o Teat(r)o Oficina resolveu criar uma sessão extra no último fim de semana da peça Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, encenada em sua sede, no Bixiga, em São Paulo.

Assim, haverá sessões na sexta (10), às 22h30, no sábado (11), às 21h, e no domingo (12), às 20h.

A obra escrita por Artaud é dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, e traz no elenco, além do diretor, os atores Marcelo Drummond, Pascoal da Conceição, Camila Mota, Roderick Himeros, Joana Medeiros, Nash Laila, Daniel Kairoz, Lucas Andrade, Madalena Bernardes e Ariel Rocha.

O ingresso custa R$ 40 a inteira, R$ 20 a meia-entrada, e moradores do bairro do Bixiga pagam apenas R$ 5. O Oficina fica na rua Jaceguai, 520. A peça dura uma hora e a classificação etária é 18 anos. As apresentações têm legendas em inglês.

Veja mais fotos da montagem:

Pascoal da Conceicao foto JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

O ator Pascoal da Conceição em cena da peça no Oficina - Foto: Jennifer Glass

Pradarumfim foto2 JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

Cena do espetáculo dirigido por Zé Celso no Oficina - Foto: Jennifer Glass

Pradarumfim foto JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

Lucas Andrade, Joana Medeiros e Nash Laila em cena do espetáculo - Foto: Jennifer Glass

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danielle rosa eduardo enomoto Dois ou Um com Danielle Rosa

Danielle Rosa, atriz do Oficina: filme em Vitória da Conquista e Carnaval em Salvador - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto EDUARDO ENOMOTO

Danielle Rosa acaba de filmar o longa Viva o Polvilho Brazyleiro!, de Roberto Jaffier, no qual faz a personagem Rebeca. As filmagens foram realizadas na cidade natal da atriz do Teat(r)o Oficina, Vitória da Conquista, na Bahia. Ela juntou o carinho da família nas férias de verão aos trabalhos no filme. Depois, rumou para Salvador, onde estudou artes cênicas na UFBA (Universidade Federal da Bahia) e passa o Carnaval — é musa absoluta do MicroTrio. A atriz encontrou tempo na folia para responder às perguntas da nossa coluna Dois ou Um. Dez perguntas cheias de possibilidades. Ou não.

Cultura ou política?
Cultura na Política e mais políticas voltadas para a Cultura!

Fevereiro ou março?
A alegria e a magia da fantasia de fevereiro em março e no ano inteiro!

Bahia ou São Paulo?
Sou gente que tira alegria da dor e tenho um pedaço da Bahia em SP, mas a mistura das delícias da Bahia com as possibilidades de SP seria um mar delicioso!

Carola ou libertária?
Liberdade com percepção.

Olodum ou Timbalada?
O toque dengoso do Olodum com a euforia contagiante da Timbalada!

Ivete ou Daniela?
As duas.

Dinheiro ou beleza pura?
Poesia na Vida!

Curuzu ou Higienópolis?
Porto da Barra e Bela Vista.

Vitória da Conquista ou Salvador?
A infância na terra das Rosas nos territórios da saudade e a vivência na capital de meu sangue nos territórios da inspiração, para o encontro frutífero nos territórios da construção na terra Sampã!

O cravo ou a rosa?
Me vejo em pétalas, aberta em flor. Claro, eu prefiro A Rosa!

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oficina guilherme godoy2 Oficina faz jantar forte para desfilar com a Nenê

Com Elisete Jeremias à frente, ala do Oficina na Nenê ensaia no Anhembi - Foto: Guilherme Godoy

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Já está tudo pronto para o desfile do Teat(r)o Oficina na ala Um Povo que Sorri, que vai encerrar o carnaval da Nenê de Vila Matilde, na primeira noite do Carnaval de São Paulo, na madrugada deste sábado (14).

Para que os 80 atores estejam bem dispostos no sambódromo do Anhembi, haverá um jantar com comidas típicas de Moçambique na sede do Oficina, no Bixiga, a partir das 23h deste sexta (13). De lá, já devidamente alimentados, os atores partirão para o sambódromo.

Os pratos serão preparados pelo ator e chef oficial do Oficina, Alessandro Ubirajara, que também é artista plástico e faz pratos cheios de conceito. Ao R7, ele revela o cardápio: “Xima e Caril de Amendoim com Galinhas. Shima ou Xima é uma massa de milho cozida com água e sal, alimento forte que salvou a vida de muitas famílias em época de guerra ou seca”.

alessandro ubirajara foto bob sousa6 Oficina faz jantar forte para desfilar com a Nenê

Alessandro Ubirajara é o chef responsável pela comida moçambicana - Foto: Bob Sousa

A parceria do Oficina com a escola já dura cinco anos. O diretor José Celso Martinez Corrêa e a atriz e modelo Vera Valdez serão destaques da ala. Não custa nada lembrar que Vera foi a modelo queridinha de ninguém menos do que Coco Chanel. A cantora Célia Nascimento também estará no desfile.

O enredo da Nenê, sob comando do carnavalesco Magoo, é Moçambique – A Lendária Terra do Baobá Sagrado. Quando esteve no exílio, Zé Celso participou da revolução socialista no país africano. Zé aproveitou a deixa para exibir aos foliões o documentário 25, feito por ele e Celso Lucas em 1975 sobre a Revolução de Moçambique.

oficina ricardo martins Oficina faz jantar forte para desfilar com a Nenê

Ala Um Povo que Sorri ensaia no palco do Oficina - Foto: Ricardo Martins

A Nenê de Vila Matilde já conquistou 11 títulos de campeã do Carnaval de São Paulo. A ala Um Povo que Sorri é dirigida por Elisete Jeremias, e conta com o apoio de Marcio Telles, diretor de harmonia da Nenê, que também coreografou a ala ao lado de Uilson Alves. Victor Gally assina a produção executiva, e Marcelo. Drummond, a encenação.

Rodrigo Fidelis, Carlota Joaquina e Camila Mota vão garantir a boa evolução da ala na avenida, enquanto Bernardo Cruz ficará de olho na harmonia.

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liz reis foto bob sousa O Retrato do Bob: Liz Reis, fogo puroFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

No intenso grupo de atores do Teat(r)o Oficina, Liz Reis logo chama a atenção. A atriz nascida em Santo André, no ABC Paulista, também é diretora e transita entre palco e academia com propriedade. É pós-graduada em artes pela USP (Universidade de São Paulo). Atua nas montagens Cacilda!!!, Cacilda!!!! e Cacilda!!!!!, sob direção do gênio Zé Celso Martinez Corrêa. Mas já esteve também ao lado de outros nomes potentes de nossos palcos, como Rudifran Pompeu, Marco Antônio Braz e Marcelo Marcus Fonseca, do Teatro do Incêndio. Afinal, Liz é fogo puro.

*BOB SOUSA é fotógrafo e autor do livro Retratos do Teatro (Editora Unesp). Sua coluna O Retrato do Bob é publicada no Atores & Bastidores do R7 toda segunda-feira, com grandes nomes dos palcos. Já às sextas, a coluna O Retrato do Bob sai no blog R7 Cultura, com personalidades do mundo cultural.

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ze celso1 bob sousa O Retrato do Bob: Zé Celso, cabeça do teatroFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O que seria do teatro brasileiro sem José Celso Martinez Corrêa? Zé Celso é pura arte viva, inquietante, provocativa. Não teme, enfrenta. Não se acomoda, inova. Tem sede de teat(r)o sem fim. Em tempos de retrocesso, no último mês precisou depor no Fórum Criminal da Barra Funda por conta de uma cena teatral. Denunciou o absurdo. No último fim de semana, fez barulho no Fentepp, o Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente. Defendeu com veemência nossos palcos acuados pela especulação imobiliária. E ele ainda prepara muita coisa para dezembro, mês farto em seu Teat(r)o Oficina. Nesta terça (2), recebe a escola de samba Nenê de Vila Matilde para uma noite de samba, já que seu grupo será a ala Um Povo que Sorri, que encerrará o desfile da agremiação e do Carnaval paulista em 2015. Vão cantar Moçambique, velha conhecida de Zé Celso no exílio. No dia 5 de dezembro, celebra o centenário da arquiteta Lina Bo Bardi, que projetou o Oficina ao lado de Edson Elito. Já entre 12 e 23 de dezembro, faz apresentações dos cinco espetáculos da série Cacilda. No último dia, acontece também o Rito da Ethernidade de Luis, que rememora o irmão de Zé Celso, o diretor Luis Antônio Martinez Corrêa, assassinado em 1987. O teatro brasileiro precisa de Zé Celso, sua cabeça. Evoé.

Saiba mais sobre o Teat(r)o Oficina

*BOB SOUSA é fotógrafo e autor do livro Retratos do Teatro (Editora Unesp). Sua coluna O Retrato do Bob é publicada no Atores & Bastidores do R7 toda segunda-feira, com grandes nomes dos palcos. Já às sextas, a coluna O Retrato do Bob sai no blog R7 Cultura, com personalidades do mundo cultural.

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juliane elting walmor cacilda jennifer glass Oficina passa como furacão pelo Mirada e deixa Santos sob impacto e com gostinho de quero mais

Juliane Elting em cena de Walmor y Cacilda 64: Robogolpe; em Santos, a Robocopa virou Robovoto; Zé Celso ficou chateado com Engenho do Samba vazio, ao contrário dos cartazes de "ingressos esgotados" - Foto: Jennifer Glass

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

O Teat(r)o Oficina já subiu a serra de volta a São Paulo, mas Santos ainda vive seu impacto. O grupo dirigido por José Celso Martinez Corrêa fez duas apresentações no Engenho do Samba da peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe pelo Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, promovido pelo Sesc.

Pouco antes de embarcar de volta à capital paulista, Letícia Coura, atriz do grupo, conta ao R7 que a nova encenação incorporou o clima pré-eleições e impactou o público. “A Robocopa virou o Robovoto. Walmor y Cacilda reflete cada vez mais o que estamos vivendo”, afirma.

O R7 apurou que uma coisa deixou Zé Celso chateado: apesar de cartazes do Sesc Santos anunciarem que as duas sessões estavam esgotadas, o espaço não lotou em nenhuma apresentação.

A turma do Oficina não entendeu o porquê e ficou com vontade de ter feito um diálogo maior com os moradores da comunidade na qual se apresentou.

Ninguém sabe se foi por isso, mas Zé Celso não apareceu na sede do Sesc Santos, preferindo ficar concentrado com seus atores.

Dança no jantar

Mas estes deram as caras nos espaços de convivência do festival. E sacudiram tudo como um potente furacão. Alguns atores até circularam sem camisa pelo Sesc Santos, arrancando olhares empolgados de muita gente graúda, como o cubano Ariel Rocha e o brasileiro Acauã Sol. Outros fizeram bonito em uma pista de dança improvisada, caso de Danielle Rosa, Tony Reis, Beto Mettig e Alessandro Leivas. Sem contar com a participação especialíssima da cantora Juliana Perdigão na festança.

Os jantares na comedoria do Sesc Santos ficaram animadíssimos com a turma do Oficina. A atriz Juliane Elting foi uma das que puxou uma roda de dança no espaço ao som da DJ Evelyn Cristina, que tocou sucessos da música brasileira em sintonia perfeita com o grupo. “Jantar com DJ é maravilhoso. A gente começou a puxar todo mundo, aí veio gente das outras companhias. Soube que muita gente quando nos viu falou: ai, que bom que chegou o Oficina”, conta ao R7. A reportagem também ouviu a frase.

Gostinho de quero mais

Foi a primeira vez que Juliane esteve em Santos. Ela ficou encantada com a cidade. “Fiquei surpreendida, porque imaginava uma cidade apenas com um porto, repleta de containers e poluição, mas é uma cidade linda, com muito verde. Estou indo para São Paulo com vontade de voltar”, revelou.

Juliane Elting se juntou a Nash Laila e Letícia Coura, outras duas atrizes do Oficina, para ficar mais um dia no festival por conta própria. “Foi uma passagem relâmpago a nossa”, define Nash. “Mas teve coisas incríveis, como o vídeo que o Sesc TV fez com as Cacildas dançando na praia. E o lugar no qual fomos instalados era incrível, apesar de não ter lotado, infelizmente. Mesmo assim, voltamos para São Paulo com gostinho de quero mais”, finaliza.

Fato é que, após a partida do Oficina, nesta quinta (11), os espaços de convivência do Mirada no Sesc Santos ficaram muito mais sem graça.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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leticia coura foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

A atriz e cantora Letícia Coura: ela gosta de samba, e de teatro também - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A mineirinha de Belo Horizonte Letícia Coura é uma das figuras emblemáticas do teatro paulistano. Na cidade há mais de 20 anos, logo se misturou à turma do palco e também ao pessoal da música. Transita pelas duas áreas com todo o conforto do mundo.

Ela integra o grupo Revista do Samba, que acaba de lançar seu quinto disco, Samba do Revista. O trio, que ainda tem Vitor da Trindade e Beto Bianchi, é considerado referência em seu estilo musical. Além de cantora, também é atriz e integra o elenco do Teat(r)o Oficina dirigido por Zé Celso.

Agora em setembro, estará com o grupo no Mirada, o Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos, apresentando a peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, na qual vive a atriz Cleyde Yáconis, mais uma personagem emblemática para seu currículo, onde já figura Tarsila do Amaral.

Letícia recebeu o Atores & Bastidores do R7 para esta Entrevista de Quinta em uma tarde de sol no Teat(r)o Oficina, no Bixiga, região central de São Paulo.

Ao contar sua história, explicou sua batida perfeita entre a música e o teatro. E ainda revelou seu projeto futuro: construir a discografia das músicas das cinco décadas do Oficina.

Leia com toda a calma do mundo.

leticia coura foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura e seu cavaquinho: ela quer construir a discografia do Teat(r)o Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você é de Belo Horizonte, né?
Letícia Coura — Sim, mas já estou tanto tempo aqui em São Paulo que, às vezes, parece que minha vida em BH foi em outra encarnação [risos]. Meus pais eram do interior de Minas, meu pai era desembargador e minha mãe, contadora.

Miguel Arcanjo Prado — Como era quando criança?
Letícia Coura — Era a mais animada da sala, na festa junina, então, era emprestada para as quadrilhas das outras salas. Sempre gostei de música. Fiz violão clássico, depois passei para o popular, cantei em coral... Como cantora sou ótima atriz e como atriz sou uma ótima cantora [risos].

Miguel Arcanjo Prado —E quando chegou a hora do vestibular?
Letícia Coura — Escolhi comunicação na UFMG, sou sua colega de curso. Tenho uma irmã médica e um irmão arquiteto. Já estudava música, mas fiz comunicação. Na época da faculdade, comecei a fazer performance e vídeo. Fiquei um ano fora, morei em Genebra e Londres, e um pouquinho na França. Lá na Suíça toquei numa banda. Estudei inglês, viajei...

Miguel Arcanjo Prado — E foi bom dar este tempo?
Letícia Coura — Foi bom sair de casa, porque me virei sozinha. Trabalhei em restaurante, essas coisas. Ir para a Europa me fez ver que eu era ligada à cultura brasileira. Vi que conhecia muito a música brasileira. E quis voltar para o Brasil.

leticia coura foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura nasceu em Belo Horizonte, morou na Europa, mas foi parar em SP - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Aí você terminou o curso na Fafich [Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG]?
Letícia Coura — Terminei, fiz jornalismo e publicidade. Acho que fiz curso superior porque disseram para mim que se um dia eu fosse presa teria direito à cela especial [risos].

Miguel Arcanjo Prado — E o que você fez?
Letícia Coura — Abri uma produtora com amigos lá em BH. Aí fiz um concurso para ser jornalista do Tribunal do Trabalho e passei. Acho que foi a única felicidade que dei para a minha mãe [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Mãe mineira adora ver filho passando em concurso público [risos]. E aí você virou servidora?
Letícia Coura — Sim. Mas este trabalho me possibilitou fazer um monte de coisa que tinha vontade. Estudei dança, fiz balé, gafieira, dança afro...E continuei na música. Era um trabalho que não atrapalhava... Tive muita influência do Clube da Esquina, comecei a fazer shows pelo DCE [Diretório Central dos Estudantes da UFMG]. Aí resolvi pedir transferência para São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — E conseguiu?
Letícia Coura — Sim. Cheguei em São Paulo em 1991. No começo, me dava uma angústia, sabe. Aí no prédio em que fui morar tinham dois músicos. Comecei a fazer a ULM [Universidade Livre de Música] e montei um show com o Chico Amaral [compositor mineiro, parceiro em vários sucessos do Skank] lá em BH. Ficava um pé lá, outro pé cá.

Miguel Arcanjo Prado — E o teatro?
Letícia Coura — A Titane [cantora mineira] estava morando em São Paulo e me indicou para fazer uma peça com a Beatriz Azevedo, porque ela precisava de uma cantora. Chamava-se I Love. Fizemos turnê em Campinas e tudo!

leticia coura foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Foi ao ver peça do Oficina com Raul Cortez que Letícia ficou cativada pelo grupo - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o Oficina?
Letícia Coura — Morava na rua Vergueiro e fui ver As Boas do Oficina no Centro Cultural São Paulo, com o Raul Cortez no elenco. Era tão bonito! Lembro que pensei: ainda bem que me mudei para esta cidade que tem uma peça como essa. Aí a Beatriz me chamou para ir num ensaio de Hamlet, no Oficina. Lembro que era um Domingo de Ramos. Neste dia conheci o Zé [Celso, diretor do Oficina]. E aí acabei entrando para o Oficina e larguei o emprego no Tribunal do Trabalho.

Miguel Arcanjo Prado — Foi uma decisão difícil?
Letícia Coura — Foi. Estava tudo muito puxado, ensaios. E vi que não queria mais. Pedi para sair e não me arrependi. Já estava ligada ao teatro, então tive de fazer uma opção. É claro que de grana foi complicado. Comecei a dar aula de canto e aquilo me abriu um mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Você resolveu investir na música?
Letícia Coura — Sim. Gravei o disco Bambambã, que é um disco com interpretações bem teatrais. Fiz turnê. Também fiz as Bacantes, no Oficina, na virada de 1999 para 2000. Depois, fui fazer peça no Satyros. Fiz a primeira peça com eles na praça Roosevelt. Lembro do Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] passando cera no chão antes de o teatro abrir [risos]. Conheci o Ivam [Cabral, ator] quando eles estavam voltando de Portugal. Ele tinha trazido um autor francês, Bernard-Marie Koltés e eu havia feito a tradução. Fizemos Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte, no elenco tinha o Ivam, a Patrícia Vilela, o Daniel Gaggini, o Tadeu Perroni...

leticia coura foto bob sousa5 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura integra o trio Revista do Samba, reconhecido até na Europa - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Ainda não tinha a Phedra D. Córdoba?
Letícia Coura — Não! Eu lembro do dia em que a Phedra foi ver o Retábulo pela primeira vez. Lembro que o Ivam ficou todo intrigado, perguntando quem era aquela senhora [risos]... Depois a Phedra fazia ótimas apresentações no bar dos Satyros!

Miguel Arcanjo Prado —E a música?
Letícia Coura — Aí lancei meu segundo disco, Vian, em um show no Satyros, com direção do Rodolfo, com os poemas do autor francês Boris Vian musicados. O Ivam foi muito importante nesta época e fazia o show comigo, criamos juntos. Era em linguagem de cabaret. Foi uma época boa... O Satyros tinha coisa a semana inteira. Quando não fazia meu show, ficava na bilheteria. Depois, montei a Revista do Samba, que é o trio no qual estou até hoje ao lado do Vitor da Trindade e do Beto Bianchi. Foi a gente que fez o show da reabertura do Bar Brahma, na clássica esquina da Ipiranga com São João.

Miguel Arcanjo Prado — O grupo tem muito prestígio.
Letícia Coura — Olha, gravamos o primeiro disco, Clássicos do Samba, e logo fizemos turnê na Europa. O segundo disco, Outras Bossas, só saiu na Europa. Em 2005, fizemos o projeto Revista Bixiga Oficina do Samba, resgatando sambas paulistanos e trabalhando com as crianças do bairro.

Miguel Arcanjo Prado — E aí você passou a se dividir entre o grupo e as peças do Oficina?
Letícia Coura — Sim. Fiz Os Sertões, O Banquete, tudo... Neste ano, em Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, que agora vamos apresentar no Mirada, lá em Santos, faço a Cleyde Yáconis. Já fiz também a Tarsila do Amaral... São personagens muito ricas e emblemáticas. Sempre trabalho a música dentro do Oficina. E sabe qual é o meu grande sonho?

Miguel Arcanjo Prado — Qual?
Letícia Coura — É um dia consegui fazer a discografia inteira das peças do Oficina. Porque a história musical do grupo é muito rica e merece ser registrada para o futuro.

leticia coura foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

A cantora e atriz Letícia Coura, no Teat(r)o Oficina: onde une teatro e música - Foto: Bob Sousa

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ze celso bob sousa2 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

O fundador e diretor do Teat(r)o Oficina, José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, à vontade, no banheiro de seu apartamento, em São Paulo, onde deu entrevista ao R7 - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

O sol começa a cair quando Bob Sousa e eu chegamos ao Teat(r)o Oficina, no número 520 da rua Jaceguai, no Bixiga, para entrevistar e fotografar José Celso Martinez Corrêa, um dos maiores diretores teatrais do Brasil e do mundo. Ele ainda não está.

Otto Barros, diretor de cena do grupo, nos convida a entrar. Acomodamo-nos na arquibancada criada por Lina Bo Bardi, para quem a nova peça é dedicada por conta do centenário de nascimento da arquiteta. Uma porta se abre. Ainda não é o Zé, mas a atriz Nash Laila, que logo vai para o fundo do teatro e se deita no chão. Esperamos.

Pouco depois, aparece Beto Mettig, assessor do grupo, com o aviso urgente: Zé não virá mais ao Oficina nos ver. O convite agora é irmos ao seu encontro, em seu apartamento, no Paraíso, onde ele nos aguarda. Corremos para lá.

Zé Celso desce no elevador até o hall para nos receber. Dá abraços e beijos. Conta que o lê o blog e nos diz: "Até que enfim o teatro tem vocês, gente que gosta de teatro". Ficamos lisonjeados. O elevador chega no seu andar, e ele nos convida a entrar no apartamento.

Mineiramente, peço licença. Logo, Zé nos conduz, enquanto diz: "Separei um lugar incrível para fazermos a entrevista". Abre a porta de seu banheiro. E começa a dirigir: "Miguel, você se senta aí, na privada. E eu fico aqui, nesta cadeira. Bob fique à vontade para fazer as fotos".

No bate-papo, repleto de inteligência e visão minuciosa de tudo ao redor, Zé Celso falou, sobretudo, de sua nova peça, Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada, ou apenas Cacilda 5, que estreia neste sábado (26) — veja serviço ao fim da entrevista — com mais um capítulo da odisseia do Oficina sobre Cacilda Becker (1921-1969).

A montagem faz do embate entre as atrizes Cacilda Becker e Tônia Carrero no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) uma alegoria do teatro brasileiro, aproveitando para dar sua visão artística a temas atualíssimos, que vão desde a ambição da especulação imobiliária, que coloca abaixo o pouco de poesia que restou em São Paulo, entulhando a Selva de Pedra com mais espigões, até a tão falada temporada paulistana de The Old Woman - A Velha, peça de Bob Wilson com Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe.

Nada fica distante do olhar atento de Zé Celso, reconhecido no mundo como um dos gênios do teatro. E o melhor: ele é nosso e faz da cultura brasileira seu principal material artístico. Aos 77 anos, está à frente do Oficina desde 1958.

Zé Celso deu também seus pitacos em outros temas. Falou da recente Copa do Mundo, do avião que caiu na Ucrânia e da sangrenta guerra entre Israel e Palestina. Além de revelar em quem pretende votar para presidente na próxima eleição e qual peça deseja montar em breve.

Leia com toda a calma do mundo.

ze celso bob sousa11 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

Zé Celso conversa com o jornalista Miguel Arcanjo Prado em seu banheiro - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Como está Cacilda 5?
José Celso Martinez Corrêa —
Estava tudo um caos, mas aí tive uma inspiração. Esta peça foi uma loucura, porque tivemos só um mês e meio para ensaiar. Então, nesta terça-feira, chegamos ao ensaio geral e estava todo mundo sem o texto, ninguém tinha decorado direito. Aí, percebi que estava com medo, apavorado. E a pior coisa que existe é o medo. Foi aí que entendi que devíamos assumir tudo isso. Então, transformei o espetáculo no show do vexame. Porque entendi que o obstáculo maior para o artista é a paranoia. Resolvi radicalizar mesmo: a peça é um grande ensaio.

Miguel Arcanjo Prado — Como é a peça?
José Celso Martinez Corrêa —
Os artistas estão se preparando para um ensaio de Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello, no novo TBC, que eu chamei de Teatro Berrini de Comédia. Sabe esses teatros chiques que estão por aí?.... Então, é como se fosse uma dessas superproduções. Tipo um Bob Wilson... Aí, o teatro é invadido pelos Coros de Pega Fogo das ruas do mundo. Os personagens do TBC têm desejo de atuação, querem exercer poder da presença... Eles estão em busca da  própria encenação da peça. Com a chegada da Tônia Carrero, as coisas mudam; Cacilda vai vê-la ali, linda e também apaixonada pelo teatro, e ainda como o novo amor de Adolfo Celi. É uma barra. É quando Cacilda sai do TBC e vai para os novos caminhos da sua odisseia...

Miguel Arcanjo Prado — Como está o elenco?
José Celso Martinez Corrêa —
O elenco está ótimo, eles têm uma força descomunal! A Camila Mota e a Sylvia Prado vão fazer a Cacilda novamente, são duas atrizes excelentes, estão fazendo cenas incríveis. Eu me emociono sempre quando vejo.

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha do Bob Wilson?
José Celso Martinez Corrêa —
Eu gosto do Bob Wilson, mas o que ele é na verdade é um artista plástico do teatro, ele faz quadros. Eu sou do te-ato.

ze celso bob sousa3 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

O diretor Zé Celso, logo após a entrevista em seu apartamento, mostra fotos da história do Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o que vai acontecer com o "Teatro Berrini de Comédia" da peça?
José Celso Martinez Corrêa —
E esse teatro será invadido pelos Pega Fogo das Ruas, junto do público. O Marcelo Drummond está fantástico como o diretor que fará testes com os atores. Esse teatro comercial que é feito por aí... Eu mesmo fiz uma novela na Globo para ver o que era [Cordel Encantado, em 2011]. Não gostei da experiência! Fiquei pensando que com todo aquele aparato técnico eles poderiam fazer coisas incríveis! Mas, não, fazem aquela coisas... Nesta cena vamos usar o janelão, que fica do lado oeste do Oficina, que dá para a rua da Abolição. Vai ter uma névoa... Os personagens, os artistas do antigo TBC, o coro de Pega Fogo das Ruas vão todos se misturar, numa quebra de classes. Vamos mostrar a Cacilda no momento em que veio a Tônia Carrero para competir com ela. A Tônia será a atriz Joana Medeiros, que também está fantástica. Imagina isso, a Cacilda viu de repente a figura da Tônia ao lado dela e precisou reagir. O Roderick Himeros fará o Adolfo Celli, que vai se apaixonar pela Tônia. Ele está ótimo também, numa construção muito linda.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês dedicam a peça a Lina Bo Bardi?
José Celso Martinez Corrêa —
Sim! Isso é muito importante de ser dito. A peça celebra o centenário da Lina [arquiteta que criou a sede do Tea(r)o Oficina e também criou o prédio do Masp]. A Lina dizia que o Oficina-Terreiro era o "Chão de Terreiro com as Galerias do Teatro Scala de Milano, dando para as catacumbas di Silvio Santos". Vamos iluminar o público por trás, com grandes holofotes, para concretizar a visão dela.

Miguel Arcanjo Prado — Você gosta de estreia?
José Celso Martinez Corrêa —
Estreia é o pior público que existe! Vamos estrear um grande ensaio, que vai ir crescendo, junto ao público, até atingir a beleza, com a multidão. Os meninos falaram de chamar todo mundo. Eu não sei o que vai ser. A peça vai ser um grande ensaio com o público. Ela vai mudando a cada apresentação.

Miguel Arcanjo Prado — O que você achou da Copa do Mundo no Brasil?
José Celso Martinez Corrêa —
A Copa trouxe o humor de volta, tinha uma leveza no ar. Pelo menos até o 7 a 1 na semifinal. Eu achei a Copa ótima. Acho um absurdo quererem dizer que a Copa deu errado, tentarem jogar a culpa na Dilma. É claro que o 7 a 1 é inesquecível, mas faz parte do esporte e foi uma espécie de revelação de Exu. Porque os alemães bateram o tambor lá na Bahia... Eles entraram usando vermelho e preto no campo. Isso foi um sinal. Agora, temos o Dunga de técnico outra vez. O Brasil precisa mesmo é de um técnico estrangeiro, que venha para cá e mergulhe na nossa antropofagia. Que faça o que aconteceu com o TBC, que trouxe diretores estrangeiros para mergulharem na nossa cultura antropofágica oswaldiana. Porque hoje falta aquela malemolência do nosso futebol. E isso foi trazido pelos negros, esse modo de jogar com arte. E é preciso dizer que quem começou a valorizar essa herança africana no nosso futebol foi Nelson Rodrigues e sua família. Antes, era um prazer ver um jogo de futebol. Era lindo. Hoje, é aquela coisa fria, truncada, uma dureza... A gente tem de redescobrir aquele futebol que era um verdadeiro espetáculo. Até porque o futebol é o verdadeiro espetáculo do mundo. O Cristiano Ronaldo no chão, fazendo aquelas caras...

ze celso bob sousa4 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

Zé Celso gostou da Copa, mas detestou a abertura; revelou: votará em Dilma - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o que você achou da abertura da Copa?
José Celso Martinez Corrêa —
Aquilo foi um horror! Uma vergonha! O Brasil que tem as escolas de samba, o Boi-Bumbá, aquela festa linda em Parintins, lá na Amazônia, apresentar aquela pobreza, aquela coisa sem graça. No encerramento, até que melhorou um pouquinho, porque trouxeram um pouco do Carnaval e da escola de samba, mas não chegou perto da riqueza gigante da cultura brasileira. A cultura popular brasileira é genial, é única, é exuberante!

Miguel Arcanjo Prado — E a vaia que a Dilma levou?
José Celso Martinez Corrêa —
Eu acho que a Dilma deveria ter assumido aquela vaia, e não ficar retraída, com medo. Quando ela aparecia na TV dava para ver a bílis no rosto dela. Toda travada. Aquela outra, não, a Angela Merkel, da Alemanha, ela até sorria. Tudo bem que ela estava ganhando, mas ela estava muito mais leve. Agora, a Dilma estava com muito medo. Ela precisa parar com isso! Eu adoraria dirigir a Dilma! Ela deveria ter recebido a vaia de braços abertos, com gozo. Ainda mais por ser uma vaia daquela arquibancada, que é a elite branca, nervosa porque ela governou para a outra classe mais pobre. Então, ela deveria ter recebido aquela vaia como um elogio. É vaia que temos? Então, podem me vaiar! [abre os braços, sorrindo]

Miguel Arcanjo Prado — Em quem você vai votar nas eleições para presidente?
José Celso Martinez Corrêa —
Eu vou votar na Dilma. Não porque seja do PT, porque não sou de partido nenhum. Mas, porque o PT ainda mantém um diálogo com o social, com a cultura. O PSDB não faz isso. É um horror a relação que os tucanos têm com a cultura e com o teatro. E a água em São Paulo que está acabando? Eu não tomo mais essa água do volume morto. Nós vamos ficar sem água! Isso parecia uma coisa distante, mas é agora!

Miguel Arcanjo Prado — E como anda a questão do terreno no entorno do Oficina que ainda pertence ao Grupo Silvio Santos?
José Celso Martinez Corrêa — O Juca Ferreira [secretário municipal de Cultura de São Paulo] está fazendo um bom trabalho. Para mim, a reabertura do Cine Belas Artes no último fim de semana foi um grande marco, com aquela gente toda em frente, abraçando o cinema. Foi lindo, eu me emocionei muito. O novo Plano Diretor de São Paulo prevê a criação de um corredor cultural no Bixiga, um enorme caminho da cultura que vai passa pelo Oficina, o TBC, a Vai-Vai. Espero que haja a troca do terreno, parece que vão conseguir um para o Grupo Silvio Santos perto do SBT, naquela região da rodovia Anhenguera, que é linda, mas não vai ser preservada, o que é uma pena. O do entorno do Oficina ficaria para a cultura. Mas a gente nunca tem certeza do que vai acontecer... A especulação imobiliária é o Creonte dos dias de hoje, tanto que fiz um Creonte especulador na peça, que está sendo feito brilhantemente pelo Marcelo Drummond. A especulação é o grande mal do mundo de hoje! Está um absurdo. Muitos grupos teatrais estão sofrendo com isso. Mas isso também fez com que os teatros que são vítimas da especulação se juntassem. Somos dez grupos unidos nesta guerra. Estamos caminhando juntos nisso. E isso é lindo, é igual à união que houve na França nos anos 1920 que reergueu o teatro francês. O terreno no entorno do Oficina tem de ser da cultura!

Miguel Arcanjo Prado — Como você vê a Guerra entre Israel e Palestina?
José Celso Martinez Corrêa —
Acho um horror o que está acontecendo agora na Palestina. Aquilo é um verdadeiro massacre dos palestinos. Aquilo parece Guerra de Troia, um massacre de um povo, matando todo mundo, não deixando vivos nem crianças, mulheres e velhos, para não deixar rastro, para não sobrar nenhum. E ainda eu fico horrorizado ao ver declarações absurdas de autoridades israelenses defendendo o massacre da população palestina, dizendo que tem de matar mesmo. O horror! E esse avião agora que foi abatido na Ucrânia cheio de passageiros, daquele jeito? As coisas estão terríveis...

Miguel Arcanjo Prado — Você tem algum novo projeto de espetáculo em mente?
José Celso Martinez Corrêa —
Quero fazer Senhora dos Afogados, do Nelson Rodrigues, que tem a família Drummond, um sobrenome mineiro como você.

ze celso bob sousa5 Entrevista de Quinta, no banheiro, com Zé Celso: Transformei medo em espetáculo, diz diretor

"Quero fazer Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues", diz Zé Celso - Foto: Bob Sousa

Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada (Cacilda 5)
Quando: Sábado e domingo, 19h. De 26/7/2014 a 14/9/2014
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada) e R$ 5 (moradores do Bixiga com comprovante de residência)
Classificação etária: 14 anos

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