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ENO 0448 1024x681 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

Liberdade de expressão artística: atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis posam na redação do R7 após serem absolvidos pela Justiça de acusação de padre por conta de uma cena de peça de teatro - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Tony Reis e Mariano Mattos Martins estão aliviados. Os dois atores foram absolvidos na última segunda (8) pela Justiça Criminal de São Paulo no processo movido pelo padre goiano Luiz Carlos Lodi da Cruz. Este acusava os artistas do Teat(r)o Oficina e também o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, de ferir seu sentimento religioso em uma cena da peça Acordes.

A encenação aconteceu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite da comunidade acadêmica, que estava em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na votação. O padre não estava presente nem viu a peça inteira, mas assistiu à cena pela internet, em vídeo subido no YouTube, e resolveu acionar a Justiça contra o grupo.

O juiz José Zoega Coelho, do Juizado Especial Criminal do Fórum da Barra Funda, emitiu sentença favorável aos artistas, que foram absolvidos, e Zé Celso, que tem 78 anos, teve a acusação prescrita por conta de sua idade avançada. Caso esta decisão não houvesse sido proferida, os artistas poderiam pegar até um ano de cadeia.

Os atores do Oficina, considerado o principal grupo teatral do Brasil e um dos mais respeitados em todo o mundo, foram defendidos pelos advogados Fernando Castelo Branco e Fernanda de Almeida Carneiro. A sentença ainda cabe recurso, mas, segundo os advogados do Oficina, o Ministério Público não costuma insistir em casos como este. Zé Celso não pode comparecer à audiência, pois está fortemente gripado.

Mariano, paulista de Osasco, e Tony, baiano de Salvador, aceitaram o convite do Atores & Bastidores e compareceram à redação do Portal R7 para esta exclusiva Entrevista de Quinta.

Falaram do medo que sentiram ao poderem pegar um ano de cadeia por fazer teatro e ainda a situação de marginalidade que a profissão de ator de teatro vive no Brasil.

Leia com toda a calma do mundo.

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Se não fossem absolvidos, como aconteceu, a acusação do padre poderia render até um ano de cadeia para os atores do Teat(r)o Oficina - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como vocês souberam que estavam sendo processados por fazer uma cena de uma peça de teatro e como vocês reagiram?
MARIANO MATTOS MARTINS — A gente soube pelo próprio Teat(r)o Oficina. Aí já veio intimação em nossa casa. Foi um susto. Precisamos acionar os advogados e correr atrás.
TONY REIS — Também foi o Oficina que me avisou. Chegou em casa um oficial de Justiça e me mandou assinar uma intimação. Não pensei que nossa performance poderia chegar a esse nível jurídico.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual a reação de ser processado criminalmente por uma atividade artística em tempos de suposta democracia?
MARIANO MATTOS MARTINS — No começo, ainda não estávamos enquadrados como crime. Era uma denúncia. Primeiro ficamos boladíssimos, porque não tínhamos conhecimento jurídico para saber o que ia acontecer. Falei para o Tony, "caramba, fizemos dois palhaços na peça, que maluco acontecer isso, os caras estão fazendo isso mesmo?". Estão! A gente teve de ir depor em uma delegacia de Perdizes [bairro da zona este paulistana onde fica a PUC, onde a peça foi encenada].
TONY REIS — Eu fui em um dia, e ele em outro.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Eu me lembro, eu cobri.
MARIANO MATTOS MARTINS — A gente pensou que iria acabar ali. Mas quando foram tendo audiências e virou um processo criminal, percebemos que aquilo estava ficando sério e precisava de uma resposta séria também. Começamos a conversar muito no Oficina para nos alimentarmos de argumentos para combater aquilo, que era uma coisa muito reacionária com a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como suas famílias reagiram quando souberam que vocês estavam sendo processados?
TONY REIS — Eu venho de uma família muito simples de Salvador. Eles vivem na Bahia. Foi muito complicado. Minha irmã me ligou, muito nervosa, me perguntando se eu iria ser preso. Eu falei para ela ter calma, que não era isso que ela estava pensando. Eu expliquei que um padre de Goiás não havia gostado de uma apresentação que fizemos na PUC, que ele viu pela internet, e resolveu nos processar. Fui tentando acalmá-la, e tentando convencê-la de que não iríamos pegar essa detenção. Mas eu também estava muito preocupado, porque não tinha certeza de nada.
MARIANO MATTOS MARTINS — Minha família é pequena e ficou muito preocupada. Mas também recebemos muitas mensagens de amigos e desconhecidos, dando apoio, dizendo que estavam muito preocupados com este momento que o País está vivendo.
TONY REIS — Todo mundo mandou mensagens de apoio, achando ridículo tudo aquilo que estava acontecendo. Eu pensei: o que eu sei fazer é arte e se isso agora é crime o que eu vou fazer da minha vida?

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês ficaram com medo?
TONY REIS — Eu fiquei morrendo de medo, sim.
MARIANO MATTOS MARTINS — Claro. Nós somos jovens. Não somos como o Zé que tem mais de 70 anos e um monte de coisa prescreve. A gente ficou, cara, realmente com a perna bamba. A gente está trabalhando e estamos sendo ameaçados pelo próprio conteúdo do nosso trabalho? A gente achou tudo isso bem estranho. Mas os nossos advogados são muito bons e nos deram calma. Disseram que tinham feito uma defesa muito forte e que era para a gente ficar tranquilo. Até a audiência de segunda-feira, dia 8, a gente estava pensando: caramba, o que vai acontecer?

MIGUEL ARCANJO PRADO — O padre viu a cena no  YouTube. A gente sabe que teatro é presencial, só existe com o espectador e o ator ali, um de frente para o outro. O que acham disso ter acontecido: alguém que não viu a peça poder processá-la?
MARIANO MATTOS MARTINS —Acho que legalmente ele até possa ter tido o direito de fazer isso. Mas, acho que a própria Justiça dar voz a isso, ao mesmo tempo que é estranho, está sendo importante porque a gente está aqui, discutindo isso, não só a criminalização da arte como também a posição da cultura na sociedade. Como as outras esferas se comunicam com a cultura. Por um lado, vejo uma coisa bem bizarra alguém estar sentado na cadeira dele e, com um dedo no computador ver uma cena e em outro dedo ligar para denunciar. E ficar lá sentadinho no canto dele.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu queria perguntar isso: vocês conheceram o padre? Ele veio às audiências?
TONY REIS — Não. Nós não o conhecemos. Ele não veio em nenhum momento.

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Sombra e luz: atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis ficaram assustados ao serem processados por fazer teatro - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Há muito preconceito contra o teatro?
TONY REIS — Sim. O teatro é discriminado 24 horas, não temos direito a nada, não temos patrocínio, somos marginalizados o tempo todo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês acham que na sociedade brasileira ainda existe o pensamento de que ator de verdade é só o que está fazendo novela na televisão e que o ator de teatro é só alguém que está tentando chegar na TV?
MARIANO MATTOS MARTINS — Sem dúvida. A minha família sempre me pergunta quando eu vou fazer novela. Peraí, eu já estou fazendo meu trabalho. Se houver um convite para fazer novela, eu vou pensar e posso aceitar, mas é só um outro trabalho de atuação. Eu já trabalho como ator no teatro. É uma profissão riquíssima e tive que estudar muito para trabalhar como trabalho, ralei muito. O próprio público com o advento da internet acabou indo para outros lugares. O teatro tende a ficar mais vazio, editais públicos são pouquíssimos, os patrocinadores não querem investir em teatro... Se você pegar a tabela de diária do Ministério da Cultura, a remuneração do ator de teatro é a mais baixa de todas. Poxa, por quê? Se você precisa fazer uma cena, você precisa do cenógrafo, do iluminador, do figurinista. Todo mundo ganha. Por que só o ator pode trabalhar de graça? É normal no teatro dizerem: "o ator não precisa receber cachê". Temos de fazer um grito contra essa miséria que nossa profissão está sendo colocada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O povo pensa que fazer teatro é hobby?
TONY REIS — Sim. As pessoas, infelizmente, ainda não veem como uma profissão. Pensam que estamos brincando. Me perguntam: "Você recebe mesmo? Como paga suas contas?". Gente, trabalhamos em um dos teatros mais respeitados do País e do mundo, que é o Oficina, com o Zé Celso, o maior diretor desse País. Eu chego no teatro toda tarde e não tenho hora para sair. É bem mais que as oito horas de quem trabalha em escritório. O povo só tem noção do tamanho do nosso trabalho quando vai assistir. Aí, fica boquiaberto.
MARIANO MATTOS MARTINS — E fora as cinco horas que estamos em cena, a gente ensaia muitas vezes oito horas por dia antes de a peça estrear. Trabalhamos muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando ao processo, o padre alegou que a cena na qual o boneco parecido com o Papa era decapitado feriu seu sentimento religioso. Pensei no filme O Exorcista, que tem vários signos religiosos sendo ultrajados... Outras centenas de filmes de terror por aí usam muitos aspectos religiosos e ninguém fala nada. Vocês acham esse olhar que criminalizou a cena de vocês é um olhar absurdo para um produto artístico em um ambiente democrático?
MARIANO MATTOS MARTINS — Mais que um olhar absurdo é um olhar descontextualizado. Hoje, nós vivemos isso com a internet. Qualquer coisa fora de contexto pode ser classificada como cada um quiser. E você pode, inclusive, classificar como crime uma coisa que não é. A arte é soberana neste tipo de discussão, até porque, depois dos anos de ditadura, nós conquistamos a liberdade de expressão artística. E o mundo luta por isso. As pequenas liberdades precisam de luta diária para acontecerem. É um momento sinistro que vivemos no Brasil. Daqui a pouco processam Picasso porque ele fez o quadro Guernica, baseado na Guerra Civil Espanhola. Tudo pode coexistir: o evangélico, o negro, o gay, o teatro, o católico. Isso é uma democracia. Ninguém precisa convencer a outra pessoa. Todo mundo tem o poder próprio, inteligência, livre arbítrio de fazer escolhas. A visão que nos criminalizou menospreza o próprio público e sua capacidade de pensar: "é óbvio que este boneco não é o Papa, é um boneco de três metros de altura, é uma alegoria artística".

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que vocês acharam de a peça Edifício London, de Lucas Arantes com o grupo Os Satyros, haver sido proibida pela Justiça antes mesmo da estreia por ter sido inspirada no caso Isabella Nardoni?
MARIANO MATTOS MARTINS — Acho que proibir a arte de falar de qualquer assunto é ditadura. Agora mesmo foi votada a questão das biografias, que foram liberadas. A expressão artística tem a liberdade em sua essência. Se eu falo uma coisa e quero mostrar meu ponto de vista, vou me expressar pela arte e não me esconder atrás dela, como o promotor insinuou que a gente havia feito.
TONY REIS — Ele falou na cara da gente, na cara do Zé Celso, que a gente se escondia atrás da arte.
MARIANO MATTOS MARTINS — É exatamente o contrário. A arte não é esconderijo, a gente usa a arte como ferramenta para interpretar a realidade. A arte é isso. Ao invés de você ir lá e matar uma pessoa na vida real, você pode trazer a situação para a cena e colocar as pessoas para pensar. A arte diminui a violência, aumenta a consciência social, ambiental e tantas outras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O palco é um lugar de diálogo?
MARIANO MATTOS MARTINS  — Claro! Totalmente. As pessoas não saem de uma peça sem entender nada. Alguma coisa comunica, mesmo que inconscientemente. Leva a pensar. Às vezes você pensa em uma peça por dias e ela vira uma referência para você.
TONY REIS — Teatro é pura cultura, não pode ser criminalizada. O que eles querem é que haja pouca gente no teatro, porque tocamos o público. A TV, o cinema, você consegue ser passivo. No Oficina, a gente fala olhando nos seus olhos.

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Mariano Mattos Martins e Tony Reis, com a cidade de São Paulo ao fundo: eles fazem teatro para colocar o público para refletir sobre sua realidade - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por isso o teatro incomoda tanto?
MARIANO MATTOS MARTINS — Sim. O teatro incomoda porque o teatro penetra, mesmo. Ele fala a real. Vai jogando com você. A teatro não deixa a pessoa numa posição passiva. O problema é que muita gente por aí não quer ter uma atitude ativa na vida. No teatro, quando você vê um ser humano de carne e osso ali na sua frente você automaticamente se projeta nele de algum modo. E passa a refletir.
TONY REIS — E estamos supervivos ali.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que lição vocês estão tirando dessa situação que passaram?
MARIANO MATTOS MARTINS — Acho que isso fortalece a arte teatral. Fortalece uma discussão que precisamos ter sobre o posicionamento da cultura dentro da sociedade. Porque ela é importante, sim. E, ao mesmo tempo, ela convoca o público para olhar para o teatro com outros olhos. O teatro é importante, sim. É uma luta infinita. E essa história vai trazer as vozes de outros movimentos que estão sendo perseguidos de alguma forma.
TONY REIS — Vi quantos jovens nos escreveram, movimentaram o Facebook. Conseguimos mostrar o que estava acontecendo e chamar a atenção de todos eles. E foi muito positivo que isso não ficou oculto, e graças também a você, que cobriu a história desde o começo. Vi tudo isso e percebi que o teatro ainda tem quem o defenda, o valorize.
MARIANO MATTOS MARTINS — O Oficina foi para a Rússia e vimos que lá teatro é um programa diário.  Na França também. Depois de Paris, São Paulo é o lugar que mais tem teatro, eu já pesquisei isso. É um patrimônio da cidade, do País, é um gerador de trabalho para muita gente.

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O ator Mariano Mattos Martins: "Faço teatro como uma missão" - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
MARIANO MATTOS MARTINS — Eu faço teatro porque alguma coisa dentro de mim quer fazer teatro desde que nasci. Faço como uma missão. Quando vejo que chega nas pessoas volta para mim, de arrepiar. Faço porque é importante. Não é a única coisa que sei fazer, mas das coisas que sei fazer é a mais humana e a mais transformadora de pessoas. Vem uma alegria, uma satisfação. Cheguei ao Oficina com 15 anos e foi um impacto. Faço teatro desde criança. Mas quando vi o Oficina me apaixonei perdidamente. Passei dez anos trabalhando lá. Ali tem uma chama de teatro, de ação, de conexão com o público. No Oficina, fiz minha segunda faculdade, mais um mestrado e um doutorado. É um teatro que primeiro de deforma e depois te reconstrói e abre sua cabeça para o mundo. Quando cheguei lá perguntei: como isso existe e eu não sabia? Isso é brasileiro. É um patrimônio.
TONY REIS — Sempre falo que fui escolhido pelos deuses do teatro. Acho lindo poder levar tantos sentimentos ao público. Quando vi que conseguia fazer isso percebi que era o que queria para minha vida. Comecei de brincadeira e depois levei a sério e comecei a estudar. Vivo uma situação complicada, sou negro, ator e o que me fez ficar no Oficina é porque é um teatro político, que valoriza o negro. Quando vi que no Oficina havia muitos atores negros e que os negros não faziam papéis subalternos eu percebi que ali era meu lugar. E no Oficina, que é um teatro ritualístico, eu sinto a mesma energia que eu sentia na Bahia. Eu me sinto em casa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como está o Zé?
MARIANO MATTOS MARTINS — Ele ficou doente e não pode ir à audiência final.  Ainda está se recuperando da gripe. Falei com ele ao telefone. Ele ficou aliviado com a decisão da Justiça.  Até porque ele passou por coisas muito piores na época da ditadura, mas ele concordou comigo que o momento atual é delicado, é uma ditadura diferente, estamos sendo cercados de vários lados. E ele confia na gente.
TONY REIS — Vamos comemorar a decisão favorável a nós da Justiça no sábado agora, com a peça O Banquete, e no domingo, com a peça Pra Dar um Fim no Juízo de Deus. Queremos que todo mundo que nos apoiou apareça no Oficina para celebrar essa vitória com a gente!

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O ator Tony Reis: "O Oficina valoriza o negro, sinto a energia da Bahia" - Foto: Eduardo Enomoto

SERVIÇO:
Quando e o quê:
Dia 13/06, sábado – O Banquete – 18h (5h de duração)
Dia 14/06, domingo – Pra Dar um Fim no Juízo de Deus – 20h (1h de duração)
Dia 27/06, sábado – O Banquete – 18h (5h de duração)
Dia 28/06, domingo – Pra Dar um Fim no Juízo de Deus – 20h (1h de duração)
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos

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Ze Celso foto JENNIFER GLASS Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Zé Celso vai comemorar absolvição no palco do Oficina com seus atores - Foto: Jennifer Glass

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A Justiça decidiu que o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, do Teat(r)o Oficina, são inocentes na ação criminal movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Anápolis, Goiás.

O padre havia acusado os artistas de crime contra seu sentimento religioso católico por conta de uma cena da peça Acordes, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite de alunos, professores e estudantes em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na eleição.

O padre goiano viu a peça pela internet, no YouTube. Sentindo-se ofendido com a cena na qual um boneco semelhante ao Papa Bento 16, que na obra inspirada em Bertolt Brecht representava a figura do autoritarismo, resolveu então processar criminalmente os três artistas do grupo Oficina, além da produtora da companhia teatral, Ana Rúbia.

O juiz José Zoega Coelho, do Juizado Especial Criminal do Fórum da Barra Funda, recebeu na tarde desta segunda (8) a defesa dos advogados de Zé Celso, Mariano e Tony. Ele pediu tempo para analisar o documento e, nesta terça (9), foi divulgada sua sentença, emitida ainda na segunda e com decisão favorável aos artistas.

O juiz acolheu integralmente os argumentos apresentados pelos advogados do Oficina, Dr. Fernando Castelo Branco e Dra. Fernanda de Almeida Carneiro. Foi extinta a punibilidade do diretor Zé Celso, em decorrência da prescrição, e absolvidos os atores Mariano Mattos Martins e Tony Reis, tendo em vista que o fato narrado na denúncia não constitui crime.

A sentença ainda cabe recurso, mas, segundo os advogados do Oficina, o Ministério Público não costuma insistir em casos como este.

Zé Celso e seus atores informaram ao Atores & Bastidores do R7, que acompanhou de perto a história deste o primeiro instante, que vão comemorar a vitória junto ao público nos próximos fins de semana. A festa será em cena, quando apresentarão as quatro últimas sessões das peças O Banquete, nos dias 13 e 27 de junho, às 18h, e Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, nos dias 14 e 28 de junho, às 20h, na sede do Oficina, na rua Jaceguai, 520, no Bixiga, em São Paulo.

Ze Celso Pradarumfim foto Ayume Oliveira Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Zé Celso, no palco do Oficina: diretor de 78 anos quase foi preso outra vez por simplesmente fazer teatro; a primeira foi durante a ditadura civil-militar e pela qual foi indenizado em 2010 pelo Governo Federal - Foto: Ayume Oliveira

Leia, abaixo, a sentença do juiz, divulgada nesta terça (9):

"1 – Quanto ao Réu José Celso Martinez Correa: decorridos mais de dois anos desde a data dos fatos e considerando as penas máximas abstratamente cominadas, o prazo prescricional previsto no artigo 109, V, do Código Penal já transcorreu integralmente, sem superveniência de qualquer causa suspensiva ou interruptiva do referido prazo. Anoto que, in casu, tal prazo reduz-se pela metade, considerando o fato do agente ser maior de setenta anos nesta data (Código Penal, artigo 115). Ante o retro exposto, reconheço a prescrição da pretensão punitiva estatal e JULGO EXTINTA a punibilidade relativamente aos fatos objeto do termo circunstanciado, imputados a JOSÉ CELSO MARTINEZ CORREA o que faço com fundamento nos artigos 107, IV; 109, V, 110 e §§ e 115 todos do Código Penal.

2 – Quanto aos demais Réus, entendo ser o caso de absolvição sumária, nos moldes do artigo 397, III, do Código de Processo Penal. Com efeito, a denúncia imputa aos Réus a conduta de vilipendiar publicamente objeto de culto religioso, estes que seriam uma cruz de pedra que ornamenta a praça da cruz, no interior das dependências da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e ainda a figura do papa, representada por um boneco, durante determinada encenação teatral que ocorria naquela praça, naquela universidade.
No entanto, como destacado em defesa preliminar – cujos argumentos aqui se acolhem às inteiras, como razões de decidir – a conduta típica é bastante restrita, no tocante à elementar do tipo “objeto de culto religioso”. Objeto de culto é tão somente aquele inerente ao serviço do culto, ou seja, utilizado durante alguma celebração religiosa (missa, procissão etc).

Outros objetos, ainda que a eles se atribuam valor ou estima de fundo religioso, não estão abrangidos pela proteção penal, ora em comento, se também não forem próprio de qualquer ato inerente à liturgia – aos ritos e celebrações religiosos.

A cruz de pedra é símbolo religioso por excelência. Mas especificamente aquela cruz, situada em simples pátio central da edificação, não é objeto que se empregue em culto ou ritual religioso. Assim também não é objeto de culto a figura, simbólica, do Papa.

Deste modo, os fatos, tais como descritos na denúncia, não englobam todas as elementares do tipo penal. Só por este fundamento, já não seriam típicos, donde a necessidade da absolvição sumária.

Mas ainda que assim não fosse, tenho que os elementos indiciários também não consubstanciam justa causa para o exercício da ação penal. Os elementos indiciários (notadamente as imagens da encenação teatral disponíveis na internet) não apontam que qualquer dos atos apontados na denúncia com caracterizadores do vilipêndio à cruz tenha sido diretamente dirigido ao objeto. O que se vê é que os atos descritos na denúncia foram praticados no contexto da encenação, para a qual a presença ou não da cruz era de todo irrelevante.

Por outro lado, a análise da encenação, em seu inteiro teor e sentido, revela que, a toda evidência, o elemento subjetivo dos Réus não estava voltado contra os objetos referidos na denúncia (consciência e vontade de vilipendiá-los, cruz e figura simbólica do papa). A encenação tinha como cerne a crítica a conhecidos posicionamentos da igreja Católica que prevaleciam ao tempo da encenação e que eram notoriamente associados ao pontificado do Papa Bento XVI – posicionamentos que, hoje, ao que se nota, alteraram-se profundamente.

Como os elementos indiciários apontam no sentido do exercício de um a crítica à Igreja Católica, nisso não se pode ver ocorrência de ilícito penal. A liberdade de manifestação do pensamento, constitucionalmente assegurada, aqui socorre os Réus. Nenhuma igreja está imune à crítica, por qualquer meio ou forma de expressão, notadamente a teatral. Ademais, não é incomum a crítica a religiões, a igrejas e a fôrmas de manifestações do sentimento religioso.

Não se nega que a forma adotada para a crítica possa, em princípio, ser considerada ofensiva para alguns. Mas enquanto a tônica seja o exercício do direito de crítica, a encenação teatral não entra no campo do ilícito penal. Ante o retro exposto, julgo extinta a punibilidade do Réu JOSÉ CELSO MARTINEZ CORREA, nos termos do artigo 107, IV, do Código Penal (prescrição) e absolvo sumariamente MARIANO MATTOS MARTINS e ANTONIO CARLOS DA CONCEIÇÃO REIS, do delito do artigo 208, do Código Penal, que lhes foi imputado, o que faço com fundamento no artigo 397, III, do Código de Processo Penal.

Finalmente, quanto a ANA RUBIA DE OLIVEIRA MELO, nos termos da manifestação do d. Representante do Ministério Público (fls. 85)
que acolho como razões de decidir, determino o arquivamento do inquérito policial, com a ressalva do disposto no artigo 18, do CPP.

P.R.I.

Juiz José Zoega Coelho
Juizado Especial Criminal Central da Comarca de São Paulo

São Paulo, 08 de junho de 2015"

Tony Reis e Mariano em cena de ACORDES Foto Fermozelli Fotoarte Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Absolvidos: os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins em cena da peça Acordes, do Oficina, alvos de denúncia de padre goiano e processo na Justiça - Foto: Fermozelli

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ze celso julia chequer r7 Justiça analisa defesa do Oficina; Zé Celso e atores ainda podem ser presos

Doente, Zé Celso não pôde ir à audiência desta segunda (8) - Foto: Julia Chequer/Arquivo R7/7-4-2010

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, do Teat(r)o Oficina, compareceram à audiência no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, na tarde desta segunda-feira (8). Eles são acusados, juntamente com o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, de "crime contra o sentimento religioso".

A ação foi movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Goiás, depois que este assistiu pelo YouTube, na internet, um vídeo com cenas da apresentação da peça Acordes na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 2012, durante a greve de alunos, professores e funcionários que protestavam contra a posse da professora Anna Cintra no cargo de reitora, já que esta havia ficado em terceiro lugar na votação feita com a comunidade acadêmica.

Ao ver em seu computador uma cena na qual um boneco se assemelhava ao Papa Bento 16, o padre goiano resolveu entrar na Justiça contra o diretor e os dois atores que faziam a cena, alegando que esta feria seu sentimento religioso.

Zé Celso, também arrolado no processo, não compareceu à audiência desta segunda, que durou cerca de 20 minutos, em virtude de uma forte gripe.

O diretor, que tem 78 anos, enviou atestado médico por meio dos advogados Fernando Castelo Branco e Fernanda de Almeida Carneiro, que apresentaram a defesa dos três artistas ao juiz por escrito, conforme permitido no processo.

Diante do material, o juiz pediu tempo para analisá-lo de forma minuciosa.

Zé Celso e atores do Oficina podem ser presos

Desse modo, não houve ainda uma decisão final sobre o futuro dos três artistas do Oficina. O crime do qual são acusados pode render pena de até um ano de cadeia, caso a decisão da Justiça, cuja data ainda não foi divulgada, seja favorável ao padre goiano.

A primeira audiência foi em 5 de novembro de 2014, quando os atores se recusaram a assinar um documento de reconhecimento de culpa. Eles ouviram do promotor que estariam “se escondendo através do teatro para dizer impropérios e incitar a violência”.

Indignado, Zé Celso considerou absurda a acusação, que classificou como “um crime contra a arte do teatro”.

O Oficina é considerado o mais importante grupo teatral do Brasil, e Zé Celso é um dos encenadores latino-americanos mais reconhecidos em todo o mundo, tendo sido perseguido, preso e exilado durante a ditadura civil-militar que vigorou no Brasil entre 1964-1985.

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Tony Reis e Mariano em cena de ACORDES Foto Fermozelli Fotoarte Justiça analisa defesa do Oficina; Zé Celso e atores ainda podem ser presos

Tony Reis e Mariano Mattos Martins em cena da peça Acordes, do Oficina - Foto: Fermozelli

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julia chequer ze celso Zé Celso e atores do Oficina podem ser presos

Zé Celso pode ter prisão decretada no Fórum Criminal da Barra Funda, em SP - Foto: Julia Chequer/Arquivo R7-7/4/2010

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, do Teat(r)o Oficina, podem ter prisão decretada na tarde desta segunda (8) por terem encenado uma peça de teatro.

O motivo da ação judicial é a apresentação da peça Acordes, feita na PUC-SP em 2012 pelos artistas do Oficina. A obra é baseada em texto do dramaturgo alemão Bertold Brecht.

A peça foi considerada ofensiva por um padre de Goiás, que a assistiu pelo YouTube e depois entrou na Justiça contra os artistas.

Os três atores foram intimados pela Justiça Pública a estar às 16h desta segunda (8) no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Esta é a segunda vez que precisam comparecer a uma audiência no local.

Os artistas do Oficina são defendidos pelos advogados Fernando Castelo Branco e Fernanda de Almeida Carneiro.

A primeira audiência foi em 5 de novembro de 2014, quando os atores se recusaram a assinar um documento de reconhecimento de culpa. Eles ouviram do promotor que estariam  “se escondendo através do teatro para dizer impropérios e incitar a violência”.

Zé Celso considerou absurda a acusação, que classificou como “um crime contra a arte do teatro”.

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Entenda o caso

Segundo os artistas do Oficina, a sessão especial de Acordes na PUC-SP foi feita a convite de alunos, professores e funcionários que estavam em greve em 2012.

Estes se manifestavam contra a imposição do nome da professora Anna Maria Marques Cintra como reitora da instituição, já que esta havia ficado em terceiro lugar na votação com a comunidade acadêmica.

Por isso, o Oficina foi convidado para apresentar a peça que falava sobre autoritarismo e o papel popular para provocar mudanças.

Para adequar a peça ao contexto da Pontifícia Universidade Católica, Zé Celso colocou a imagem de um religioso para representar a figura do autoritarismo, na forma de um boneco parecido com o Papa Bento 16.

Na metáfora proposta pela peça, o boneco é decapitado, como forma de simbolismo da ruptura com o autoritarismo. Segundo o Oficina, a própria Reitoria autorizou a entrada do grupo na PUC.

O vídeo com a encenação foi parar no YouTube, onde o Padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Goiás, o assistiu e resolveu então entrar na Justiça contra o Oficina e ainda abriu um inquérito policial.

O padre utilizou o artigo 208 do Código Penal, que criminaliza o escarnecimento de alguém publicamente por motivo de crença ou culto religioso e prevê até um ano de cadeia.

Segundo o grupo, Zé Celso, Mariano e Tony afirmaram à Justiça que jamais tiveram o intuito de zombar de objetos religiosos ou escarnecer da fé católica. Explicaram  que tratava-se de uma obra de arte teatral feita em um cenário de liberdade de expressão artística, garantida pela Constituição.

Na audiência de novembro do ano passado, os atuadores do Oficina não aceitaram a proposta de acordo feita pelo representante do Ministério Público, Matheus Jacob Fialdini, que queriam que estes assumissem a culpa para encerrar o caso.

Como eles se recusaram a assinar o documento, a nova audiência desta segunda-feira foi marcada para definir a sorte dos três artistas.

O Oficina é considerado o mais importante grupo teatral do Brasil, e Zé Celso é um dos encenadores latino-americanos mais reconhecidos em todo o mundo, tendo sido perseguido, preso e exilado durante a ditadura civil-militar que vigorou no Brasil entre 1964-1985.

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Tony Reis e Mariano em cena de ACORDES Foto Fermozelli Fotoarte Zé Celso e atores do Oficina podem ser presos

Tony Reis e Mariano Mattos Martins em cena da peça Acordes, do Oficina - Foto: Fermozelli

 

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Ze Celso foto JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

Zé Celso em cena da peça que traz texto radiofônico de Artaud - Foto: Jennifer Glass

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Diante do sucesso de púbico, o Teat(r)o Oficina resolveu criar uma sessão extra no último fim de semana da peça Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, encenada em sua sede, no Bixiga, em São Paulo.

Assim, haverá sessões na sexta (10), às 22h30, no sábado (11), às 21h, e no domingo (12), às 20h.

A obra escrita por Artaud é dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, e traz no elenco, além do diretor, os atores Marcelo Drummond, Pascoal da Conceição, Camila Mota, Roderick Himeros, Joana Medeiros, Nash Laila, Daniel Kairoz, Lucas Andrade, Madalena Bernardes e Ariel Rocha.

O ingresso custa R$ 40 a inteira, R$ 20 a meia-entrada, e moradores do bairro do Bixiga pagam apenas R$ 5. O Oficina fica na rua Jaceguai, 520. A peça dura uma hora e a classificação etária é 18 anos. As apresentações têm legendas em inglês.

Veja mais fotos da montagem:

Pascoal da Conceicao foto JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

O ator Pascoal da Conceição em cena da peça no Oficina - Foto: Jennifer Glass

Pradarumfim foto2 JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

Cena do espetáculo dirigido por Zé Celso no Oficina - Foto: Jennifer Glass

Pradarumfim foto JENNIFER GLASS Oficina faz sessão extra para encerrar temporada de peça de Artaud

Lucas Andrade, Joana Medeiros e Nash Laila em cena do espetáculo - Foto: Jennifer Glass

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Ze Celso Pradarumfim foto Ayume Oliveira Zé Celso e Oficina voltam a texto de rádio de Artaud

Zé Celso, no palco do Oficina: de volta a Artaud 19 anos depois - Foto: Ayume Oliveira

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Após mergulho intenso na saga de Cacilda Becker, o Teat(r)o Oficina estreia seu novo espetáculo, desta vez um texto de Antonin Artaud (1896-1948). Na verdade, trata-se de uma nova montagem para a mesma peça que o Oficina montou 19 anos atrás.

A peça Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, foi escrita para o rádio e é adaptada para os palcos por José Celso Martinez Corrêa, o nosso Zé Celso. A montagem estreia neste sábado (21), equinócio de outono, como lembram os artistas do Oficina.

A temporada será curtíssima: somente até 12 de abril, sempre aos sábados, 21h, e domingos, às 20h, no Oficina (veja serviço ao fim). E tem mais: a nova produção só dura uma hora. O que é verdadeiro milagre quando se trata do grupo mais aguerrido do teatro brasileiro.

Pascoal da Conceicao Pradarumfim foto2 Ayume Oliveira Zé Celso e Oficina voltam a texto de rádio de Artaud

Pascoal da Conceição está de volta ao elenco do Oficina na montagem - Foto: Ayume Oliveira

Zé Celso cria uma espécie de Juízo Final nos atuais tempos de "Apocalipse do Crash Global, em pleno rebaixamento do poder humano na Cultura, emerge no corpo a corpo vivo com o poder do Teatro, para refazer nossa anatomia, livre dos automatismos dos juízos que nos impedem de viver", como define.

Já praxe no grupo, as sessões terão legendas em inglês (pode levar seu amigo gringo) e também serão transmitidas ao vivo pelo site do Oficina.

Camila Mota Pradarumfim foto Ayume Oliveira Zé Celso e Oficina voltam a texto de rádio de Artaud

Camila Mota: "o rito dialoga com maneiras de reinterpretar a vida" - Foto: Ayume Oliveira

A atriz Camila Mota diz que "o rito dialoga com maneiras de reinterpretar a vida, dando voz para o texto ser ouvido no lugar em que ele precisa ser ouvido, com toda a sua contemporaneidade e para além do estigma do autor louco”, fazendo referência ao histórico do ícone do teatro na França.

Perseguido, a vida inteira, Artaud foi internado por nove anos em hospícios, só lendo libertado no fim da Segunda Guerra Mundial. A peça foi escrita pouco tempo depois, em 1948, pouco antes de sua morte.

Marcelo Drummond Pradarumfim foto Ayume Oliveira Zé Celso e Oficina voltam a texto de rádio de Artaud

Em dose dupla: Marcelo Drummond também participou da montagem de 1996 - Foto: Ayume Oliveira

A primeira montagem do Oficina para o texto foi em 1996, no Masp, o Museu de Arte de São Paulo, para celebrar o centenário de Artaud. O sucesso foi tanto que ganhou em seguida temporada no Oficina e, depois, na Casa das Rosas, também em São Paulo. A peça ainda fez turnê na Bahia, onde se apresentou na capela do Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, pelo interior de São Paulo, em Recife e no Rio.

"Sua grande beleza de Ator, que se vê em seus filmes, estava detonada por torturas de choques elétricos do sistema psiquiátrico da época", lembra Zé Celso, sobre Artadu. "Mas a sabedoria nascida de seu Corpo machucado por todas as suas dores fez dele o grande Curandeiro do século 20. Em 1948 tinha escrito o texto para uma transmissão pela Radio Nacional Francesa - que foi proibida, mas foi gravada e  publicada, tornando-se uma Cápsula Revolucionária da Cultura do Corpo Humano”, declara.

Roderick Himeros Pradarumfim foto Ayume Oliveira Zé Celso e Oficina voltam a texto de rádio de Artaud

Carne nova: Roderick Himeros faz parte do time de jovens atores da montagem - Foto: Ayume Oliveira

O elenco traz gente nova, mas há quatro nomes que integraram o elenco da primeira montagem de 19 anos atrás: Zé Celso (Velho Artaud), Marcelo Drummond (Artaud Monge Massieu), Pascoal da Conceição (Artaud Marat) e Camila Mota (Artaud Beatriz Cenci). Eles se unem em cena aos novatos Roderick Himeros (Índio Tarahumara Xamã do Rito), Joana Medeiros, Nash Laila, Daniel Fagundes, Rodrigo Andreolli, Lucas Andrade e Ariel Roche (Artauds Despedaçados).

Fazendo a música ao vivo estão Carina Iglesias (percussão xamânica) e Felipe Massumi (cello e canto). Completam o time Marília Gallmeister e Carila Matzembacher, na arquitetura cênica, enquanto o vídeo tem direção de Igor Marotti e a direção de cena fica sob comando de Otto Barros.

Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, de Antonin Artaud
Quando: Sábado, 21h, domingo, 20h. 60 min. Até 12/04/2015.
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia); moradores do Bixiga pagam R$ 5
Classificação etária: 18 anos

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Foto Paulo Pinto LIGASP Fotos PúblicaCarnavalSPNene de Vila Matilde2 Zé Celso é reverenciado no desfile da Nenê

Zé Celso é destaque no desfile da Nenê de Vila Matilde - Foto: Paulo Pinto/LigaSP/Fotos Pública

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Um dos maiores diretores teatrais da história do Brasil, Zé Celso Martinez Corrêa, do Teat(r)o Oficina, foi destaque no desfile da Nenê de Vila Matilde.

O artista dispensou fantasia luxuosa e preferiu apostar na simplicidade de uma bata e calça branca, destacando-se em meio ao show de cores da escola.

Eufórica, a agremiação da zona leste paulistana encerrou o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial, no sambódromo do Anhembi, em São Paulo, já no começo da manhã deste sábado (14).

O enredo da Nenê foi Moçambique - A Lendária Terra do Baobá Sagrado. A tradicional escola, que já obteve 11 títulos do Carnaval paulistano, fez desfile luxuoso e embalado pelo ritmo afro.

elisete jeremias Zé Celso é reverenciado no desfile da Nenê

Elisete Jeremias, diretora da ala Um Povo que Sorri, com atores do Oficina - Foto: Divulgação

Zé Celso participou ativamente do Carnaval da Nenê neste ano, já que o diretor viveu em Moçambique durante seu exílio na década de 1970 e participou da revolução naquele país.

Cerca de 80 atores do Teat(r)o Oficina desfilaram na ala Um Povo que Sorri, sob direção de Elisete Jeremias, que foi durante muitos anos diretora de cena do Oficina. A ala teve coreografia de Marcio Telles e encenação de Marcelo Drummond.

Foto Paulo Pinto LIGASP Fotos PúblicaCarnavalSPNene de Vila Matilde3 Zé Celso é reverenciado no desfile da Nenê

Moçambique no Anhembi: Zé Celso vibra durante passagem da Nenê - Foto: Paulo Pinto/LigaSP/Fotos Pública

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liz reis foto bob sousa O Retrato do Bob: Liz Reis, fogo puroFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

No intenso grupo de atores do Teat(r)o Oficina, Liz Reis logo chama a atenção. A atriz nascida em Santo André, no ABC Paulista, também é diretora e transita entre palco e academia com propriedade. É pós-graduada em artes pela USP (Universidade de São Paulo). Atua nas montagens Cacilda!!!, Cacilda!!!! e Cacilda!!!!!, sob direção do gênio Zé Celso Martinez Corrêa. Mas já esteve também ao lado de outros nomes potentes de nossos palcos, como Rudifran Pompeu, Marco Antônio Braz e Marcelo Marcus Fonseca, do Teatro do Incêndio. Afinal, Liz é fogo puro.

*BOB SOUSA é fotógrafo e autor do livro Retratos do Teatro (Editora Unesp). Sua coluna O Retrato do Bob é publicada no Atores & Bastidores do R7 toda segunda-feira, com grandes nomes dos palcos. Já às sextas, a coluna O Retrato do Bob sai no blog R7 Cultura, com personalidades do mundo cultural.

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ze celso1 bob sousa O Retrato do Bob: Zé Celso, cabeça do teatroFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O que seria do teatro brasileiro sem José Celso Martinez Corrêa? Zé Celso é pura arte viva, inquietante, provocativa. Não teme, enfrenta. Não se acomoda, inova. Tem sede de teat(r)o sem fim. Em tempos de retrocesso, no último mês precisou depor no Fórum Criminal da Barra Funda por conta de uma cena teatral. Denunciou o absurdo. No último fim de semana, fez barulho no Fentepp, o Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente. Defendeu com veemência nossos palcos acuados pela especulação imobiliária. E ele ainda prepara muita coisa para dezembro, mês farto em seu Teat(r)o Oficina. Nesta terça (2), recebe a escola de samba Nenê de Vila Matilde para uma noite de samba, já que seu grupo será a ala Um Povo que Sorri, que encerrará o desfile da agremiação e do Carnaval paulista em 2015. Vão cantar Moçambique, velha conhecida de Zé Celso no exílio. No dia 5 de dezembro, celebra o centenário da arquiteta Lina Bo Bardi, que projetou o Oficina ao lado de Edson Elito. Já entre 12 e 23 de dezembro, faz apresentações dos cinco espetáculos da série Cacilda. No último dia, acontece também o Rito da Ethernidade de Luis, que rememora o irmão de Zé Celso, o diretor Luis Antônio Martinez Corrêa, assassinado em 1987. O teatro brasileiro precisa de Zé Celso, sua cabeça. Evoé.

Saiba mais sobre o Teat(r)o Oficina

*BOB SOUSA é fotógrafo e autor do livro Retratos do Teatro (Editora Unesp). Sua coluna O Retrato do Bob é publicada no Atores & Bastidores do R7 toda segunda-feira, com grandes nomes dos palcos. Já às sextas, a coluna O Retrato do Bob sai no blog R7 Cultura, com personalidades do mundo cultural.

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WALMOR Y CACILDA CLAUDIA JUNQUEIRA Zé Celso protesta pelo teatro no fim do Fentepp

Zé Celso defende o teatro em fala no Fentepp e recebe o abraço do fotógrafo Bob Sousa - Foto: Claudia Junqueira

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Quem assistiu à sessão de Walmor y Cacilda 64: Robogolpe nesta sexta (28), no ginásio municipal de Presidente Prudente, interior de São Paulo, viu José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, fazer um discurso veemente em defesa dos teatros brasileiros contra a especulação imobiliária. O diretor foi motivado, sobretudo, pelo despejo do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos de sua sede, em São Paulo, no dia anterior.

O espetáculo do Teat(r)o Oficina encerra o 21º Fentepp (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente), com a segunda sessão neste sábado (29). A organização do evento é da Prefeitura de Presidente Prudente em parceria com o Sesc São Paulo e apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Foram 25 espetáculos apresentados, entre eles o do Oficina e também Nossa Cidade, com direção de Antunes Filho, que abriu o evento.

bob sousa1 Zé Celso protesta pelo teatro no fim do Fentepp

Oficina incendeia o Fentepp com seu espetáculo Walmor y Cacilda 64: Robogolpe - Foto: Bob Sousa

"Espaço sagrado"

Zé Celso falou sobre o despejo do Bartolomeu pela INK Incorporadora na última quinta (27), em São Paulo, fato que emocionou toda a classe teatral brasileira. Os pertences dos artistas foram retirados à força do local, por ordem da Justiça. Houve até acompanhamento policial para que os artistas não resistissem.

Indignado, Zé Celso bradou que "o teatro é um espaço sagrado".

— Onde for fechado um teatro deveria ser aberto outro no mesmo lugar.

Foi ovacionado pelo público. O fotógrafo Bob Sousa, colaborador do Atores & Bastidores do R7, estava na plateia e, ao fim do espetáculo, fez questão de cumprimentar Zé Celso pela atitude corajosa de defesa da classe teatral contra a especulação imobiliária. Para Bob, Zé é uma liderança necessária à classe artística.

— Um nome como Zé Celso encabeçar essa causa é muito importante para o teatro.

Zé Celso e seu Teat(r)o Oficina lutam há muito tempo também para manter o terreno no entorno do teatro, no Bixiga, que pertence ao Grupo Silvio Santos. Por conta da resistência dos artistas é que ainda não foram erguidas novas torres no local, o que prejudicaria a arquitetura do teatro criado por Lina Bo Bardi e Edson Elito há 20 anos.

Veja a cobertura do Fentepp no R7!

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