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publicado em 29/10/2009 às 19h57:

Leia a crítica de Alô, Alô, Terezinha

Heitor Augusto, do Cineclick

Em Alô, Alô, Terezinha, Nelson Hoineff (especialista em televisão e diretor da série Documento Especial) não explica Chacrinha, mas mimetiza o apresentador. O diretor buscou dezenas de Chacretes, as animadoras de palco que tinham dezenas de homens aos seus pés. Redescobriu calouros que foram buzinados. Pediu a cantores tidos como bregas para apresentarem antigas músicas. Trouxe boas imagens de arquivos. Mesmo sem citar um dos principais bordões de Chacrinha, seguiu essa filosofia no longa: “quem não se comunica, se trumbica”.

Ou seja, há um erro de princípio na abordagem do filme. Ao optar por imitar seu personagem, o filme parte do pressuposto de que a figura do Chacrinha não merece críticas e o único caminho a ser seguido é reverenciá-lo (ou copiá-lo). Ou seja, Alô, Alô, Terezinha serve como objeto de diversão passageira, mas passa batido na oportunidade de revisitar e problematizar, de fato, o tipo de comunicação que ele fazia.

Chacrinha se popularizou durante a ditadura e viveu seu ápice na televisão quando a repressão começava a ceder. Seu humor explorou gagos, feios, desdentados, gays e por aí afora. Lucrou com a beleza estonteante das Chacretes e, em troca, deu a elas um status de estrelato que talvez elas jamais alcançassem.

Há, na linha narrativa do longa, uma postura favorável ao humor de Chacrinha. O diretor estabelece uma relação de troca com seus entrevistados, cuja maioria vive do sucesso do passado. Hoineff dá a eles a possibilidade da recuperação e recriação de momentos de sucesso. Eles dão ao cineasta o que eles pedem: um deprimente espetáculo.

Isso não significa que eu esteja defendendo o politicamente correto como saída. Trata-se de apontar que essa escolha de Hoineff pelo espetáculo é tudo, menos inocente, e revela um desejo de buscar a empatia com o público por meio de escracho e humilhação do outro.

Alô, Alô, Terezinha carrega a dualidade do riso e do asco. Um esquete montado por Hoineff pode ser, ao mesmo tempo, feliz e deprimente. É engraçado ver um ex-calouro envelhecido tentando imitar o gogó de Agnaldo Timóteo dentro de um ônibus. Esse mesmo senhor, quando jovem, foi reprovado nos calouros do Chacrinha e, desde então, não se recuperou. O entrevistado chora frente à câmera, que se mantém ali colada para, a partir do sofrimento do outro, levar o espectador também às lágrimas. Mas do que estamos rindo mesmo? Da frustração de alguém que carrega uma dor por toda a vida?

Nas entrelinhas do filme, percebe-se que o diretor se protege com a justificativa “eu apenas coloquei a câmera, foram eles que pediram para se expor”. Desculpa que não caberia a um documentarista, que sempre tem a opção de dizer “sim” ou “não”. Em Alô, Alô, Terezinha, Hoineff opta sempre pelo “sim”.

Chacrinha foi, sim, o maior comunicador da televisão brasileira, à frente até mesmo de Barros de Alencar. Para tal, foi fundo no seu entendimento de popular. Sucesso que permitira, no futuro, a existência de humoristas como João Kleber. E todos sabemos o quão “divertidos” eram seus programas. Talvez, com a distância histórica, ele assuma status de cult, posição hoje gozada pelo Velho Guerreiro. “Quem não se comunica, se trumbica”.

 
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