Glauco Villas Boas em foto dos anos 1980
25 de Maio de 2012
Jornalista fala da época em que o cartunista colaborava para a Folha de S.Paulo
Nessa época eu descobri que ele era um cara genial, gênio mesmo, e também gente boa, despretensioso e divertidamente irresponsável. Era uma época anterior às comodidades da internet, antes do e-mail, então os cartunistas precisavam ir até o jornal para desenhar. Às vezes, em um dia combinado para ele fechar um trabalho, depois de algum atraso eu tinha de telefonar cobrando sua presença. Quando perguntava a que horas ele chegaria, Glauco podia responder coisas do tipo “Pois é, é que eu estou aqui no Ceará e aí...”. E estava lá mesmo. Mas sempre encontrava uma solução, como mandar por fax e pedir a um colega da editoria de Arte que finalizasse. Nunca me deixou na mão.
Um par de anos depois, eu passei a ser o redator da primeira página do jornal e Glauco era um dos autores mais assíduos da charge do dia, aquela que até hoje é publicada na página dois da Folha. Depois de pautado pelo chefe da redação, que resumia as principais notícias que sairiam no dia seguinte, ele sentava diante da prancheta para bolar alguma coisa.
O maior receio dele era desenhar algo forte demais para o público do jornal. Então muitas vezes ele vinha me mostrar o rascunho e perguntava, sempre do mesmo jeito: “Será que pode?”. Salvo alguma coisa muito picante ou escatológica, eu incentivava e dizia para ele mostrar à chefia. Depois que recebia a aprovação, ele passava por trás da minha cadeira e dizia: “Podeu!”.
Ontem, em Osasco, não “podeu”.
Glauco Villas Boas foi morto na madrugada desta sexta-feira (12) em Osasco, São Paulo, em frente à sua casa durante uma tentativa de assalto. Raoni, seu filho de 25 anos, também morreu.
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