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publicado em 25/12/2012 às 19h44:

Jamie Foxx livre

The New York Times News Service / SindicatoThe New York Times News Service / Sindicato

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"Os brancos me xingavam quando eu era pequeno", relembra Jamie Foxx, que cresceu no que chama de ambiente "racialmente carregado" de Terrell, no Texas. "Eu tive que lidar com isso. E justamente por ter acontecido comigo, consegui entender bem o conteúdo do roteiro de 'Django'."

Ele se refere ao novo filme de Quentin Tarantino, "Django Livre", que estreia nos EUA no dia de Natal. A história se passa no sul dos Estados Unidos, antes da Guerra de Secessão, e traz Foxx na pele de personagem título, um escravo que ganha a liberdade e se torna caçador de recompensas ao lado de seu mentor, o Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Os dois saem numa missão de resgate de sua adorável esposa (Kerry Washington), que está nas mãos de um fazendeiro violento do Mississippi (Leonardo DiCaprio).

"Quando um projeto se torna algo mágico e especial", diz ele, "significa que, a certa altura, ele reflete a história de sua vida".

O longa é um remake de "Django" (1966), estrelado por Frances Nero ? que, por sinal, faz uma pontinha no filme de Tarantino.

"O fato de ele ter aprovado foi a cereja do bolo", conta Foxx, por telefone, de sua casa na Califórnia. "Para mim, isso quer dizer que ele sentiu que estávamos sendo fiéis."

Mesmo assim, acha que "Django Livre" vai surpreender muita gente.

"Acho que a surpresa agradável para muita gente é o fato de ser um faroeste", afirma ele, "e manter as características do gênero, mesmo lidando com o lance da escravatura. Aliás, a certa altura, ela se torna quase secundária, principalmente depois que ele se torna um caçador de recompensas. Aí a coisa parte para a vingança e o resgate de sua garota".

Para Foxx, as cenas mais difíceis foram as de violência contra a mulher de Django, Broomhilda.

"A pessoa mais corajosa do filme é Kerry Washington", prossegue ele. "Nós todos somos homens. Já é de se esperar coisas ruins e sacanagem contra um cara, mas a cena em que Kerry teve que se chicoteada foi difícil demais para todo mundo. Eu não consegui assistir."

O ator comenta que Tarantino tocou música nos intervalos das filmagens para ajudar o elenco a lidar com esses momentos.

"Perguntei se podiam tocar uma música de um cantor gospel chamado Fred Hammond, 'No Weapon'", conta Foxx. "A cena se passava em Shack Row e eles iam chicoteá-la. O Quentin colocou alto-falantes em todo o lugar e, de repente, a melodia começou a tocar."

"Tinha uma senhora de Nova Orleans, era figurante", ele prossegue. "Ela nunca tinha pisado num set antes, mas conhecia a música. De repente, jogou as mãos para o alto e começou a se balançar para frente e para trás com o garoto que tinha que abraçar em cena."

Foxx deu uma olhada para Tarantino e os dois caíram no choro.

"Ele ficou muito abalado, com os olhos cheios de lágrimas", conta. "Eu também não consegui segurar a emoção."

Para Foxx, que estudou música e já foi cantor e pianista, trabalhar com Tarantino é como estar no palco de um show.

"Quentin Tarantino está mais para cantor hip-hop que para diretor", ele insiste. "Já falei isso para ele. O cantor de hip-hop lança um single, vaza um negócio aqui, dá uma palhinha acolá, porque sabe que é coisa quente. Assim é o Quentin. Ele não escreve só as palavras, o diálogo parece mais um musical."

"Django Unchained" é o primeiro trabalho de Foxx com Kerry Washington desde "Ray" (2004), no qual ela interpreta a mulher de Ray Charles, Della Bea Robinson. Por sua interpretação do cantor, Foxx levou o Oscar de Melhor Ator.

"Voltamos a Nova Orleans, onde filmamos 'Ray', para rodar 'Django'", contou a atriz numa entrevista separada. "Brinquei com Jamie dizendo: 'Da última vez, a combinação lhe rendeu um Oscar. Podemos fazer isso de dez em dez anos, vir para Nova Orleans e você ganha uma estatueta'."

Nascido Eric Marlon Bishop, Foxx foi criado pelos avós, Mark e Estelle Talley, que o adotaram depois que os pais se divorciaram. Até hoje ele considera a avó sua mãe e agradece a ela parte de seu sucesso.

"Ela me fazia tocar piano meia hora todo dia, enquanto a molecada lá fora jogava futebol", diz ele. "Eu reclamava para chuchu, ficava maluco, mas ela insistia: 'Você tem que pensar a longo prazo. Quem sabe vira alguma coisa se pensar que isso é para o seu futuro?'."

"Foi ela que segurou todas as minhas barras, mas era durona."

Disciplina era a regra de ouro na casa dos Talley. O jovem Eric não podia ficar na rua; em vez disso, virou escoteiro e entrou para o coral da igreja.

"Não tinha essa de querer dar uma de esperto", ele relembra. "Nada de gracinha, de desrespeito. Ela não entendia muita coisa, mas sabia que queria ser respeitada."

Ela estava determinada a fazer com que o neto causasse uma boa impressão, mesmo ainda novinho.

"Nunca esqueço, ela vivia me dizendo para melhorar a postura", ele continua. "'Ombros para trás! Aja como se tivesse bom senso!' Se a gente ia a algum lugar e eu fazia bagunça, ela dizia: 'Aja como se você soubesse o que está fazendo! Como se tivesse bom senso!'."

Uma participação na banda do colégio mudou a vida do rapaz.

"Eu me lembro da primeira vez, na escola, em que soprei num trompete e saiu o som", diz ele. "Cara! Deu certo! Sabia que, se aprendesse a tocar, conseguiria muito mais."

Claro que, tão novo, Foxx ainda não se via em Hollywood, mas sempre soube que seu futuro estava muito além do Texas.

"Quando vivia em Terrell, sentia que não devia estar ali", revela. "Às vezes, tenho a impressão de que, quando nasci, algo começou a me dizer aonde eu deveria ir."

Depois de ser escalado como quarterback no time de futebol americano do colégio, Foxx até pensou em seguir a carreira esportiva, mas foi a música que se consolidou como sua passagem para sair do Texas: ele entrou na United States International University, que hoje é a Alliant International University, em San Diego, com uma bolsa de estudos para estudar música e, em 1994, lançou seu primeiro álbum, "Peep This".

Entretanto, já nessa época outros caminhos começaram a se abrir: em 1989, sua namorada o desafiou a subir ao palco de um clube de comédia local; ele topou e descobriu que tinha talento para o stand-up. Não demorou muito e ele já estrelava "In Living Color" (1991-1994) e "Roc" (1992-1993).

Foxx estreou no cinema fazendo uma ponta no filme de Barry Levinson, "A Revolta dos Brinquedos" (1992); depois, vieram "Feito Cães e Gatos" (1996), "O Trambique do Século" (1996) e "Amor por uma Noite" (1997), até que Oliver Stone, sentindo o potencial dramático não desenvolvido do jovem comediante, o escalou para "Um Domingo Qualquer" (1999), o que lhe abriu as portas para uma série de filmes como "Ray", "Soldado Anônimo" (2005), "Miami Vice" (2006), "Em Busca de um Sonho" (2006) e "O Solista" (2009).

Ele foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por seu desempenho em "Colateral" (2004), mesmo ano em que ganhou como Melhor Ator por "Ray"; de quebra, vai encarnar o presidente dos EUA no inédito "Ataque à Casa Branca", de Roland Emmerich.

Fora das telas, Foxx, que completou 45 anos em treze de dezembro, passa todo o tempo que pode com a filha de 18 anos, Corrine, que mora com a mãe.

"Dá para acreditar que ela já tem essa idade?", brinca ele. "Como foi que aconteceu? Ela é uma garota linda."

O ator acrescenta que se esforça ao máximo para dar à filha a mesma orientação que recebeu da avó.

"Eu lido com a situação típica", conta. "É a mesma coisa entre todo pai e suas filhas. Tento ensiná-la a se proteger o tempo todo. Sempre digo: 'Guarde um pouco de amor para si mesma, não se dê inteira para os outros'."

"Essas meninas são dramáticas demais", suspira Foxx. "Já ouvi coisa do tipo: 'Pai, não posso mais continuar'. E continuo dizendo: 'Ame a si mesma primeiro'."

É claro que, às vezes, ajuda muito ter um pai que é astro de cinema, mas o segredo, diz ele, é saber dosar esses momentos.

"Tem hora que preciso esquecer o 'lance Jamie Foxx'", conta o ator. "Tenho que deixar o ator de lado para que ele não a ofusque e não afete aquilo que ela precisa e quer fazer."

"Claro que uso meus recursos para as coisas boas, tipo conseguir bons ingressos para o show do Justin Bieber", acrescenta ele, rindo. "Aí vale a pena, mas tem horas em que tenho que ficar só na minha, de boca fechada."

(Cindy Pearlman é jornalista freelancer em Chicago.)

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times._NYT_

 
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