E terminou a criação televisiva mais genial de todos os tempos. Veja que não coloco a qualidade do descer das cortinas (assunto mais discutido no mundo nos últimos dias) na equação.
Lost é hors concours em genialidade na TV e ponto. Por caminhos tortos (como mostraram as últimas duas temporadas) ou por roteiro muito bem sustentado (primeira à quarta temporada).
Porque mudou a maneira como as pessoas se relacionam com os meios de comunicação, porque fez com que o público se tornasse cúmplice de um enredo que colocava urso polar em ilha tropical, fumaça negra contra luz do centro da Terra e viagens no tempo. E porque amarrou tudo isso com uma história (ia colocar lição, mas evitei a pieguice a tempo) de vida sob disfarce de trajetória do herói – enredo conhecido desde que o mundo zerou o cronômetro do tempo há 2010 anos.
Proposital tudo isso?
Certamente não.
Pois o criador, J.J. Abrams, deixou mais furos do que um texto na web conseguiria pontuar.
Não explicou o que eram a sequência de números da escotilha, a luz, a fumaça negra, o português que algumas pessoas falaram ao final de um ano, os Outros, o urso polar, por que três negros não estavam na Igreja no final (Walter, Michael e Ecko. Ops.), o impedimento magnético de Desmond e a ilha em si. Nem precisei me esforçar pra lembrar desses. Se (re)visse as seis temporadas novamente agora, o número alcançaria os quatro dígitos.
Só que Abrams conseguiu minimizar a importância de todos esses buracos com uma estratégia simples, mas sempre eficiente – transformou o plástico em orgânico, a ficção científica em herói. Pele vestida por Jack, que não por acaso ficou com a mocinha (Kate) no final. E só ele morreu.
Sim. Na linha cronológica onde as respostas devem estar (na que é conhecida pelo mundo real, onde nós vivemos, e não nas 17 realidades paralelas de
Lost), apenas Jack morreu. Para expurgar os pecados dos imperfeitos que lhe foram mais caros desde a cena um do seriado, quando o avião da Oceanic cai na ilha.
O lugar comum é resumir que o final de
Lost é a morte de todos.
Não é bem isso. Ou melhor: não é nada disso.
Como diz o pai de Jack em uma das cenas finais: “todos morrem. Uns mais cedo, outros mais tarde”. E Jack enxerga o avião consertado à base de fita adesiva (pode ser mais tosca que essa a tapadura do buraco?) deixando a ilha enquanto dá o último suspiro.
A realidade paralela da última temporada é seu (Jack) purgatório. E J.J. Abrams ignora completamente o que assistimos até o final da quarta temporada, quando dava uma solução e levantava outros dois mistérios com a promessa de que tudo se amarraria ao final.
No caminho de todas essas transformações e mudanças de curso, conseguiu colocar palavras como spoiler e torrent em domínio popular.
Gostaria de saber qual foi a audiência mundial total (TV + web) do último episódio da série. Pois
Lost obrigou um curso prático de safadeza na web a milhares (milhões?) de pessoas. Eu inclusive. Simplesmente o tempo/espaço, como prega o enredo, precisou ser ignorado – e não dava pra esperar por semanas a transmissão de um episódio que fora veiculado nos EUA. E tome torrent, legenda compatível, player para assistir.
Dizem que o episódio final teve 13,5 milhões de telespectadores em média a acompanharem ao vivo nos EUA. Quantos assistiram nas horas seguintes? A resposta deve vir na sequência da série. Pois executivos de Hollywood não permitem final com mitologia aberta à toa. Ali tudo é considerado. Previously.
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