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publicado em 24/12/2012 às 17h36:

O gosto do Natal (servido quente)

The New York Times News Service / SindicatoThe New York Times News Service / Sindicato

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Nova York – Sou uma mulher holandesa-alemã-húngara-polonesa-russa-judia-norte-americana, mas, em dezembro, eu me transformo num cavalheiro britânico do século XIX.

Essa explosão de anglofilia é meio constrangedora; afinal, se devo pensar em mim mesma como um inglês ocasional, preferiria muito mais ser figurante de um filme de Ken Loach, um daqueles torcedores fanáticos e beberrões, a um personagem de Dickens.

Apesar disso, monto a árvore de Natal, preparo um belo assado, reservo o caldinho que ficou na assadeira para preparar o Yorkshire pudding. Nada disso, porém, é novidade: minha mãe, cujo pai era anglófilo explícito, sempre fazia um assado no Natal e ainda arrematava a refeição com um pudim de ameixa. (Eu sempre troco minha parte do doce por uma fatia caprichada de queijo Stilton, servido com vinho do Porto.)

Entretanto, este ano vou acrescentar um novo elemento ao meu falso banquete inglês de Natal: uma grande tigela de "wassail", tipo de ponche quente feito com cidra (ou cerveja tipo ale), especiarias e uma guarnição opcional de torradas. Sim, torradas.

A minha esperança é que a bebida aqueça os meus convidados a ponto de fazê-los permanecer à mesa um pouquinho mais – e, quem sabe, servir de estímulo para uma ou duas canções.

O "wassail" vem ressurgindo em alguns bares de Nova York, principalmente aqueles com tendências à nostalgia, preparado em caldeirões ou panelões; já a maioria das pessoas, se tiver qualquer associação com ele, é mais provável que seja através da música. As chances de "Here We Come a-Wassailing" ser tocada no supermercado da esquina, junto com "The Christmas Song" ou "Frosty the Snowman", são bem grandes.

E é aí que está sua beleza: mais do que uma bebida saborosa, ele faz parte de uma longa tradição (quase esquecida) de celebração da vida que o inverno parece determinado a sufocar. É uma mistura cheirosa, que aquece, feita aos montes para ser compartilhada, ou seja, tem que ser degustada num grupo grande. Não dá para tomar "wassail" sozinho.

Na língua inglesa, é um substantivo, um verbo e até uma saudação.

A palavra vem da expressão do inglês medieval "waes hael", usada para desejar boa saúde uns aos outros, como o bom e velho brinde: "À sua saúde". A música que nos é mais conhecida ("Here we come a-wassailing among the leaves so green") é relativamente nova, composta em meados do século XIX.

Danny Lopez, cônsul geral britânico em Nova York, me explicou que "wassailing" é "uma cerimônia antiga que envolve cantoria e bebedeira à saúde das árvores"; muitos praticantes, porém, deixam as árvores de lado e vão cantando de porta em porta, compartilhando votos de Boas Festas e drinques.

O historiador Roy Christian, em seu livro de 1966, "Old English Customs", descreveu o "wassailing da maçã" que acontecia em vários vilarejos do sudoeste da Inglaterra: "Os aldeões formavam um círculo ao redor da maior macieira do pomar. Pedaços de torrada embebidos em cidra eram pendurados nos galhos para os pintarroxos, que representam os 'bons espíritos' da árvore. O líder da cerimônia entoa um cântico e atira contra os galhos para afastar os maus espíritos. Depois, todos cantam pedindo que ela produza muitos frutos". (Talvez isso explique o uso da torrada como guarnição da bebida.)

Hoje em dia, sociedades históricas locais ainda mantêm viva a tradição, mas ela pouco significa para o Natal da maioria dos britânicos. O gosto é meio vago até para quem cresceu bebendo.

Stephen Gardner tem 50 anos e é um ilustrador do Brooklyn que desenha e pinta cenas de bar. Ele conta que bebia "wassail" quando era adolescente e vivia em Devon. "Sempre achei que fosse coisa de gente mais velha", conta ele. "Era muito forte e lembro que era uma coisa que meio que me empurravam enquanto esperava os amigos acabarem de se arrumar para a gente ir para os pubs."

Os ingredientes exatos também não são bem definidos. No site da River Cottage, uma organização inglesa que oferece cursos de artes alimentares tradicionais, um comentário chamou a atenção em dezembro de 2008: "Alguém aí tem uma receita boa de 'wassail'? Andei procurando na rede, mas parece que uma é completamente diferente da outra!".

Pelo que eu sei, quatro anos depois, ninguém mandou nenhuma receita para a tal pessoa. Eu também fico frustrada porque encontrei receitas que usam vinho e outras que usam cerveja tipo ale; algumas são fortificadas com xerez, suco de abacaxi é até ovos; outras, cobertas com pão e flor de maçã. A impressão é a de que o número de receitas é infinito, mas a maioria usa maçãs (inteiras, na forma de cidra ou ambos) e especiarias.

O que despertou meu interesse foi a versão diferente que experimentei no Drink, um bar aconchegante no Brooklyn. Adam Collison, um dos sócios, baseou sua receita na que aprendeu quando trabalhava num empório de Baltimore. Feita com cidra, mas com um sabor bem distinto dado pela cereja ácida, que equilibra e anula um pouco a doçura da maçã. Nunca tinha tomado um ponche com aquele sabor, que lembrava vagamente cherry soda, mas era reforçado pelo uísque e uma mistura complexa de gengibre, canela, pimenta, cravo, noz-moscada, pimenta-da-Jamaica e casca de laranja.

O "wassail" tem outras versões campeãs em Nova York. Lee Papo, dona do Gordon Bennett, um pub britânico em pleno Brooklyn, trabalhou muitos anos em bares ingleses e irlandeses da cidade; um amigo seu, que foi criado em Brighton, lhe deu a receita de família, que leva cidra e cerveja ale.

Porém, os expatriados que compõem parte da clientela do bar nunca tinham ouvido falar no ponche. Mas agora manjam tudo. "E adoram", garante Lee, em parte porque deixa o bar com um cheirinho irresistível.

Ela serve a bebida, preparada num panelão, em canecas aquecidas. "Geralmente uma pessoa da mesa pede e, na rodada seguinte, todo mundo acompanha", ela explica. "Com certeza, aproxima as pessoas. No inverno do ano em que abrimos, o tempo estava péssimo, com muitas nevascas, mas veio um casal de esquiadores lá do Lower East Side, três vezes, só para tomar 'wassail'. É o tipo da coisa que tem a cara de Nova York."

A bartender Jenn Dowds serve "wassail" no Churchill, um pub em Midtown Manhattan tão mergulhado na anglofilia que, nos banheiros, uma gravação repete os discursos de Churchill. Ela descreve sua ascendência como "a típica salada norte-americana: poloneses, ingleses, escoceses e índios". Não cresceu bebendo "wassail", mas tanto ela como os sócios, ingleses e irlandeses, acharam natural incluí-lo no cardápio.

"Eu não sabia o que era, mas queria fazer drinques quentes", explica. Ao pesquisar a história do "wassail", ela caiu no mesmo dilema: vinho, cidra ou cerveja? Especiarias, sim, mas quais? Alguma guarnição? Depois de alguns experimentos, ela criou uma receita que leva cidra e vinho Madeira, cuja doçura equilibra o amargo da cerveja. Nas confraternizações de grupos grandes que acontecem no bar, ela serve a bebida numa tigela grande. "O drinque encoraja o espírito comunal", diz ela.

Jenn foi muito cuidadosa em sua pesquisa e seus experimentos, o que transparece em sua receita equilibrada, que é a que vou usar na minha festa de Natal. A cerveja e o vinho a diferenciam da cidra, tão comum, mas sem torrada, ovo nem outras excentricidades, os sabores são conhecidos e devem agradar a todos.

Entre os fiéis consumidores estão a Royal Heritage Society do Vale de Delaware, que mantém a tradição viva desde 1982. Rob D'Amico, o zelador da Mansão Ormiston, a casa antiga que abriga a sede do grupo, prepara o "wassail" para a confraternização de fim de ano há seis anos baseado na receita de uma ex-presidente da sociedade. Ele confessa, porém, que "ela me encorajou a fazer experimentos, ou seja, não há quantidades exatas de canela, açúcar ou cravo".

Segundo ele, a bebida ajuda o pessoal a relaxar. "Depois de uma xícara ou duas, os mais tímidos já conseguem se juntar à cantoria."

A julgar pelas fotos que eu vi, o "wassail" na Mansão Ormiston lembra muito uma cena de Charles Dickens ? e se há alguém a quem culpar pelo perpetuamento (e talvez até invenção) da noção do Natal tradicional britânico, esse alguém só pode ser ele.

"Um Conto de Natal" nos lembra de que ninguém deveria ser privado de uma vida decente, um jantar substancioso, uma bebidinha, o brilho da esperança natalina. Scrooge se transforma. Tiny Tim não morre. E o "wassail" continua vivo.

Agora é a sua vez. Assuma a sua anglofilia. Prepare um assado e o deguste com Yorkshire pudding, "wassail" e torta de carne. E que Deus abençoe a todos nós.

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times._NYT_

 
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