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26 de Outubro de 2014

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publicado em 26/12/2012 às 19h09:

Onde ainda ecoa uma guerra, outra é esperada

The New York Times News Service / SindicatoThe New York Times News Service / Sindicato

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Herat, Afeganistão – Para um país desfigurado por décadas de conflitos, parece cabível que o Afeganistão tenha um espaço reservado para refletir sobre a guerra.

O Museu Jihad, em uma encosta arborizada na capital provinciana ocidental de Herat, tem muitas funções: é um templo aos heróis mujahidin que combateram os soviéticos nos anos 70 e 80, e um memorial às centenas de milhares de afegãos que foram massacrados ou que fugiram da guerra.

Ele também é, para muitos afegãos, um retrato não tão velado de um futuro provável: eles observam os dioramas de violência histórica no museu com um aperto no estômago, temendo que as cenas se repitam em breve, depois da missão de combate da OTAN aqui em 2014.

"Acho que os piores dias ainda estão por vir", disse Obaidullah Esar, de 51 anos, um ex-combatente que passeava pelo museu em uma tarde recente.

O museu é uma rotunda azul, verde e branca, com o exterior coberto por centenas de nomes de vítimas da guerra, tudo em um jardim com canteiros de flores e fontes de água.

Ele exibe armamentos soviéticos apreendidos, como tanques de guerra, um caça MIG e helicópteros. E tem um hall da fama de retratos dos comandantes mujahidin.

A atração principal é um diorama gráfico mostrando modelos de moradores afegãos se erguendo em um cenário infernal de guerra para cortar as cabeças dos opressores soviéticos, em uma linha narrativa, se não triunfante, bastante animadora: os soviéticos cometendo atos hediondos contra os aldeões pobres, agricultores cercando os tanques soviéticos com varas, guerreiros soviéticos sendo estrangulados e baleados. No final, o exército de mujahidin marcha vitorioso de volta para casa.

Ainda assim, se essa visão é mais triunfante do que estritamente histórica, é uma das poucas narrativas da época facilmente acessíveis aqui.

"Já que a maioria dos afegãos não recebeu educação e nós não temos bons historiadores para escrever nossas histórias, nossas crianças não sabem quem foram os russos, por que os afegãos lutaram contra eles e qual foi o resultado da resistência deles", disse Sayed Wahid Qattali, de 28 anos, político bem sucedido e empresário que é filho de um ex-comandante jihadi. O pai de Qattali abriu o museu com a ajuda de Ismail Khan, chefe militar mujahidin e ex-governador de Herat.

Qattali diz que uma das motivações para construir o museu é a relutância dos livros de história oficiais do país em relatar os eventos dolorosos das últimas quatro décadas. Em uma tentativa de despolitizar a história de um país conturbado de diferentes formas por tensões étnicas, os livros escolares contam a história do Afeganistão com profundidade apenas até os anos 70, pulando eventos principais desde então, como a invasão soviética, a guerra civil, o regime Talibã e a invasão comandada pelos Estados Unidos e sua presença militar.

Qattali quer que o museu preencha essa lacuna, em particular contando sua versão das façanhas dos mujahidin – antes que o tempo passe e o próximo capítulo da história seja inevitavelmente escrito.

Sua família lucrou durante a relativa calma dos últimos 10 anos, com negócios que iam de granjas até a empresa de segurança que protege os comboios de combustível da OTAN. E ele tem sua própria emissora de TV.

Recentemente, ele passeou pelo jardim do museu, exibindo os troféus mujahidin, como o caça MIG.

"Os afegãos têm uma lembrança muito ruim disso", disse ele, balançando a cabeça, antes de caminhar sobre um lançador de foguetes de 82 milímetros apoiado sobre a grama. Perto de um helicóptero soviético, atrás de alguns arbustos, Qattali encolheu os ombros e pareceu ainda mais sinistro.

"Muitas pessoas foram mortas por esse tipo de helicóptero", disse ele. "Nós perdemos muitos parentes e pessoas queridas. Mas claro, lutamos até o fim."

Dentro do museu, pés silenciosos e descalços – pede-se aos visitantes que tirem os sapatos – passam por armários de vidro com rifles com séculos de existência, apreendidos de soldados britânicos em conflitos anteriores. Os britânicos também foram expulsos e suas armas foram usadas contra os soviéticos, mostrando um talento afegão de pegar quaisquer armas que os invasores trouxerem e usá-las para proveito próprio.

Um visitante do museu pode pensar que o armamento atualmente fornecido ao Afeganistão pela coalizão liderada pelos Estados Unidos poderá um dia estar empilhado aqui também.

Depois das armas, um longo corredor com mais de 60 retratos icônicos de comandantes mujahidin que ganharam fama durante a guerra contra os soviéticos e, mais tarde, contra o Talibã: homens como Ahmed Shah Massoud e Abdul Haq.

Embora eles dividam uma corredor, os chefes militares dificilmente estavam unidos.

Depois que os soviéticos deixaram o Afeganistão em 1989, os jihadistas lutaram ferozmente entre si, causando sua própria devastação. Uma triste história que não é contada aqui, embora uma faceta dela esteja implícita: no Museu Jihad, os retratos dos chefes militares aliados a Khan apareciam orgulhosamente na frente e no centro, enquanto aos rivais como Gulbuddin Hekmatyar receberam pouca importância, praticamente escondidos como um adendo no canto.

Mesmo que as faces do partidarismo assombrem esse museu, elas também pairam sobre a política de hoje em dia na capital, Cabul. Muitos desses homens e seus apoiadores dificilmente compartilham o mesmo espaço no governo. Quando os afegãos expõem seus temores de uma guerra civil por vir, esses também são os homens que eles imaginam liderando a guerra.

Depois do hall da fama, a escada nos leva à atração mais dramática do museu – a paisagem pintada com figuras de giz, tanques e aldeões consumidos em um inferno de guerra ao redor de Herat, esta província onde se formou uma parte da resistência inicial aos soviéticos e ao governo apoiado pelos mesmos. Um alto-falante ecoa os barulhos e explosões da guerra.

A mensagem óbvia aqui é lembrar que a guerra é horrível, e que, se ela voltar, trará destruição e forçará as pessoas a fugirem para a vida no exílio no Irã e no Paquistão, como muitas pessoas das gerações passadas fizeram, Qattali disse. Ele admite, porém, que há também uma mensagem codificada para o Talibã aqui: se as pessoas comuns de Herat tivessem que encarar novamente um invasor, elas lutariam.

Na verdade, Khan já está mobilizando seus seguidores nessa região, levantando controvérsias ao incitá-los a se prepararem para lutar ao lado do exército afegão contra o Talibã depois que as tropas internacionais partirem.

"Os afegãos irão finalmente encarar a verdade – isto é, depois que os soldados norte-americanos partirem e o Talibã voltar, eles não terão escolha a não ser combater o Talibã se quiserem proteger o que conquistaram nos últimos 10 anos", Qattali disse.

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times._NYT_

 
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