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publicado em 26/03/2010 às 14h39:

Paulo José e Ana Kutner ressuscitam
poetisa Ana Cristina César

Pai e filha, atores recriam no palco obra da poetisa carioca que se matou aos 31 anos

Miguel Arcanjo Prado, enviado do R7 a Curitiba

Paulo José estreia nesta sexta (26), às 21h no teatro Guairinha, no Festival de Curitiba, a peça Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César.

Na montagem, ele atua ao lado da filha Ana Kutner. Juntos, contam a história da poetisa carioca Ana Cristina César (1952-1983), ou Ana C., como costumava assinar. A peça traz foco à obra da escritora ainda desconhecida do grande público.

Ela pertenceu à chamada “geração do mimeógrafo” dos anos 1970, que trouxe novos ares à poesia brasileira, com nomes como Waly Salomão e José Carlos Capinam. Ana morreu prematuramente aos 31 anos, quando se atirou da janela do apartamento onde vivia com seus pais, em Copacabana, no Rio.

Em conversa com o R7, Ana Kutner e Paulo José contaram que o espetáculo é uma tentativa de ir em busca da artista e de sua obra.

O ator trabalhou ao lado de Ana C. na Globo, nos anos 1970, quando a escritora era responsável por dar pareceres em relação aos textos da série Caso Verdade, da qual Paulo José era roteirista. Ele recorda que os dois vivam em conflito.

- Na peça, eu faço um personagem que sou eu mesmo. Eu brigava muito com ela. Havia muita ironia e provocação.

O ator lembra que foi duro saber que a colega havia escolhido morrer tão cedo.

- Foi um choque para todo mundo. Ela era muito birrenta. Era uma mulher bonita e inteligente. Mortes como a dela são perdas irreparáveis. Ela deixou um bilhete para o Armando [Freitas Filho, melhor amigo de Ana C.] que havia escrito 30 dias antes de morrer. Ela já havia tentado se matar se atirando de um automóvel na av. Niemeyer, mas acabou caindo no mar e sobreviveu. Depois, resolveu se atirar da janela da casa dos pais. Ela era uma suicida. Tem pessoas que têm uma vocação para a morte. 

Ana Kutner, que vive a conflituosa poetisa, foi buscar sua Ana C. na obra da própria artista.

- Acho que o motivo da morte dela talvez seja a grande questão da peça. Ela era genial. Um verdadeiro ícone. O que eu sinto era que ela sofria por um excesso de genialidade. Não cabia dentro dela. Talvez ela não tenha aguentado esperar. Às vezes, a maturidade poderia ajudá-la.

Ana conta que a peça foi um trabalho em família, já que, além de contracenar com o pai, representa uma dramaturgia construída por seu marido, Walter Daguerre, em cima do texto original de Maria Helena Kühner.

- Fazer essa peça valeu por 20 anos de terapia [risos]. Mas tinha horas no ensaio em que eu queria trancar os dois na sala e sair correndo [risos].

Durante a conversa, Paulo José, que também dirige o espetáculo, fez questão de exibir um bilhete dado a ele por Armando Freitas Filho, amigo da poetisa e hoje curador da obra de Ana C. Ele, que se emocionou desde a primeira leitura do texto, aprovou a representação da amiga no teatro, a qual chamou de “magnífica”.

O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.


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