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publicado em 08/03/2010 às 20h26:

Repórter Record: saiba mais sobre os bastidores do programa desta segunda-feira

O programa de hoje fala sobre a realidade dos presídios capixabas; leia relato da repórter Thatiana Brasil

Thatiana Brasil, especial para o R7

Quando fui chamada para fazer o Repórter Record sobre os presídios capixabas, confesso que fiquei com um frio na barriga. Sabia que estaria frente a frente com uma triste realidade. Mas, ainda assim, pelo que já havia estudado sobre o assunto, achei que estava preparada para ver de perto o estado de abandono em que se encontrava o sistema carcerário daquele lugar. Ledo engano.

Nada. Nenhuma matéria de jornal, pesquisa na internet ou relatório do Ministério Público poderia retratar com tanta exatidão o que vi e senti durante a reportagem. Neste caso, sem o poder da imagem e do som, fica complicado transmitir com fidelidade e emoção a mensagem ao leitor. Estava tudo ali, ao vivo e a cores!

Minha primeira gravação na cidade de Vitória foi no Departamento de Polícia de Vila Velha. Só ali pude entender o que me esperava. Jamais imaginei ver algo tão degradante. Como alguém, em sã consciência, poderia imaginar que um dia iria se deparar com uma cela projetada para 36 detentos abrigando mais de 300 homens? Parece um filme de terror... é inacreditável! Homens amontoados. Presos que, sequer, conseguem ficar em pé ao mesmo tempo. Seres humanos que defecam na mesma marmita usada para as refeições diárias!

Quando entrei neste lugar senti, logo de cara, o olhar de desespero de quem estava ali e ao mesmo tempo a revolta e a frieza dos criminosos. Senti medo. Tive a nítida sensação de que, a qualquer momento, um deles poderia surtar. Mas, precisava seguir em frente. Deixei a emoção de lado e coloquei o profissionalismo em primeiro lugar. A intrusa ali era eu! Era preciso estar preparada para uma reação violenta dos presos. Afinal, o que esperar de um homem em condições tão desumanas? Qual o valor da vida para quem vive assim?

A sensação que tive é que os detentos não tinham nada a perder. Ali, quem entra é ameaçado de morte. Os presos não suportam mais tanta gente. Criminosos chegam a todo o momento e para conseguir colocá-los lá dentro, só a base de tiro... muito tiro! Eles atiram e os presos se afastam. Só assim a porta da cela pode ser aberta. É a maneira encontrada pelos policiais para driblar a resistência dos detentos. As marcas podem ser vistas na parede. É impressionante!

O que parecia trágico ficava ainda pior com o passar do tempo. No presídio de Novo Horizonte tivemos acesso a contêineres usados como celas. Fomos a única equipe de TV a mostrar o que restou das celas metálicas. A unidade já tinha sido interditada, mas só foi desativada com a descoberta da nossa presença no Estado. As denúncias deixaram o governo em alerta. Só entramos nos presídios com a ajuda de fontes preciosas.

A preocupação da equipe em ser fiel aos acontecimentos e ao cenário deplorável das unidades sempre foi motivante. No Presídio de Novo Horizonte, precisamos ser fortes... Ficamos indiferentes ao cheiro repugnante de fezes, urina, rato morto. Entramos nas celas metálicas sem nos preocupar com a falta de higiene e o risco de leptospirose.

Sabíamos que era imprescindível levar ao telespectador a realidade nua e crua do sistema. Só assim nos transportaríamos para o outro lado da tela. Queríamos ser os olhos de quem assistisse a uma reportagem como esta.

Também foi esse o sentimento quando entrevistei a mãe de um ex- presidiário. O que dizer de uma mulher que relata a dor de perder um filho esquartejado? Como conseguir convencê-la da importância de seu depoimento? Nessa hora precisei conversar com ela. Mantive a minha posição de jornalista e consegui chegar até ela entendendo o sentimento de mãe - que também sou.

Tocar na ferida não é fácil. Nossa entrevistada pensou em desistir. Em nenhum momento forcei aquela mãe que perdeu seu único filho a falar. Mas, mostrei para ela que outras mulheres passavam pelo mesmo sofrimento. Só quem estivesse sentido isso na pele, poderia transmitir uma mensagem de indignação, de mudança.

Peguei o avião de volta com a certeza de que algo precisa ser feito. O sistema prisional deve ser preparado para recuperar essas pessoas. Presos que precisam, sim, pagar pelos crimes que cometeram. Mas, o que fazem com eles também não é crime? Não é ilegal? Qual o futuro desses detentos? Qual a possibilidade de recuperação dessas pessoas?

Desembarquei em São Paulo com uma certeza: responder a violência com mais violência nos leva a um caminho sem volta. Durante todos os dias em que estive no Estado do Espírito Santo, o tratamento desumano dado aos detentos não saiu da minha cabeça. Durante vários dias, dormi pensando nisso. Tratar presos como animais só estimulam sentimentos de ódio e vingança. A aparente inércia das autoridades competentes pode custar caro. A eles, a mim e a você.


 
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