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publicado em 29/10/2009 às 19h57:

Veja o primeiro capítulo de Led Zeppelin – Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra

O Amanhecer do Agora - capítulo 1

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Você é Jimmy Page. Estamos no verão de 1968 e você é um dos mais conhecidos guitarristas de Londres – e um dos menos famosos. Mesmo os dois últimos anos com os Yardbirds não lhe trouxeram o reconhecimento que você sabe que merece. As pessoas falam dos Yardbirds como se Jeff Beck ainda fosse o guitarrista, e não você, apesar de tudo o que fez por eles; desistindo das apresentações de dinheiro fácil que compraram sua casa perto do rio; dando a eles uma última volta no carrossel com sucessos
de linha de frente como Happening Ten Years Time Ago, mesmo com Mickie Most sugando a vida deles e obrigando-os a fazer bobagens como Ha Ha Said the Clown; ficando com eles enquanto desapareciam de vista, junto com sua própria autoestima. Eles ainda significam algo nos Estados Unidos, pouca coisa, mas em casa estão acabados. E qual é o sentido de vagar pelos Estados Unidos, eles e a outra meia dúzia de conjuntos num único pacote, ganhando menos em uma semana do que você em uma única apresentação, quando ninguém sabe seu nome nem quanto você é importante para o esquema todo?

Jeff Beck? Jeff é um velho camarada, mas quem foi que o recomendou? Quem lhe fez o favor quando ele estava lá em cima? Você – Jimmy Page. Aquele que rejeitou os Yardbirds depois que Clapton saiu, não porque tivesse medo, como Eric, de que o desejo de alcançar o estrelato arruinasse sua imagem de “purista do blues” – você nunca foi um desses, seu amor pelo folk, rock’n’roll, jazz, música clássica, indiana, irlandesa, qualquer coisa e tudo, significava que você sempre sentiu pena daqueles pobres coitados
que só conseguiam gostar de uma forma de música – mas porque secretamente você tremia com a perspectiva de percorrer os pubs e clubes do país, sacolejando na traseira de uma van de merda como já fizera antes com Neil Christian and the Crusaders, acabando por ficar tão doente que não conseguiu sair da cama durante três dias. Sem poder sequer ganhar o pão com isso. Coisa para um bando de soldados.

E então você recomendou seu velho camarada Jeff, que estava sem fazer nada. E ficou assistindo enquanto os Yardbirds com Beck decolavam como um foguete... For Your Love, Heart Full of Soul, Shapes of Things, um sucesso atrás do outro… Logo depois, você também foi parar nos Yardbirds. Não era para durar, e você nunca prometeu nada, mas tinha de admitir que estava tudo bem. Mesmo que fosse apenas para dar uma força até eles encontrarem alguém para substituir Samwell-Smith, fazendo o baixo vibrar como uma risada, o som era bom. Quando eles sugeriram colocar Chris no baixo, com você e Jeff na guitarra, não deu para acreditar! Você ficou imaginando por quanto tempo Jeff conseguiria lidar com isso, mas enquanto durou foi realmente muito bom. Não só o som – você e Jeff sempre tocaram bem juntos –, mas o astral, o cenário. Parecia um presságio quando você viu que estava agendado para aparecer com eles no filme de Antonioni, Blow Up. Tudo de que precisava era fazer de conta que estava tocando em um clube, descarregar a energia, uma grande gargalhada. Apesar de Jeff ter resmungado quando o velho diretor lhe pediu para destruir sua guitarra. Ele teve de fazer isso seis vezes,  fingindo ser Pete Townshend, antes de o velho italiano ficar feliz. Por
Deus, ele resmungou! Mas você não conseguia parar de rir.

Então ele saiu. Jeff Beck, o grande herói da guitarra que não tinha disciplina alguma, brilhante numa noite, menos na outra; o chamado gato  cool que não conseguia compor uma canção original para salvar sua vida  e que tinha liquidado tudo para Mickie Most e seus sucessos prontos. Jeff  é um camarada e você não gosta de falar mal dele, mas até Jeff sabe que Hi Ho Silver Lining era um monte de bobagens velhas; todo mundo sabe  que era um monte de bobagens velhas. No entanto, lá estava ela assim que
ele deixou os Yardbirds, cortesia de Mickie, nas paradas e nas discotecas,  no rádio e sendo dançada por todas as garotas de pernas finas e minisssaia no Top of the Pops.

Bem, bom para Jeff Beck, mas e quanto a você, Jimmy Page? O que vai fazer agora que Jeff foi cuidar das suas coisas e os Yardbirds estão finalmente acabando? Você não sabe. Ou melhor, sabe, mas só instintivamente. Você ainda não tem a prova, mas a resposta – você tem praticamente certeza – está em pegar os Yardbirds e fazer algo a partir deles, pegar seu rock’n’roll gasto e a chamada experimentação – seus truques – e  transformá-los em algo muito mais deliberado; algo que o faça arfar, não  apenas suspirar, algo para concorrer realmente com Hendrix e o Cream e  os Stones e os malditos Beatles. Que realmente mostre ao mundo quem é
quem e o que é o quê.

Mas você também tem receio de perder o pouco de fama que conquistou, por menor que seja. A maioria das pessoas pode pensar que Jeff Beck  ainda é o guitarrista dos Yardbirds, mas pelo menos ouviu falar dos Yardbirds. Quem ouviu falar de Jimmy Page, além dos produtores e dos chefões das gravadoras, dos varredores e das lindas recepcionistas dos estúdios? Além de todos os guitarristas que você substituiu nas sessões ao longo dos anos – o cara do Them. O cara do Herman’s Hermits, os inúmeros outros
de cujo rosto você não se lembra mais e que de qualquer maneira nunca reconheceriam o que você fez por eles, que nunca agradeceram...  Pelo menos você sabe onde está. Autoconfiante, bem de vida, acostumado a depender apenas de si mesmo, sempre foi alguém que sabia exatamente onde estava, mesmo quando era garoto e tocava nas sessões para os mais velhos como Val Doonican. Sempre andou de cabeça erguida, sempre soube qual era o seu valor mesmo quando os outros o minimizavam,
mandando você para a sessão seguinte – às vezes três em um único  dia, seis dias por semana, sem que você soubesse o que lhe pediriam para tocar em seguida, ganhando um bom dinheiro, sem correr os riscos – e nenhuma glória, também, quando dava certo.

Agora é sua vez de brilhar. Você está com 24 anos, é um profissional de gravação calejado que sabe tudo sobre o trabalho em estúdio, pegando as dicas de produtores famosos como Shel Talmy e Mickie Most, tocando com outros profissionais de estúdio como Big Jim Sullivan e Bobby Graham, dividindo um cigarro nos intervalos, conversando a respeito, cruzando caminhos inúmeras vezes ao longo dos anos como gatos pretos da sorte. Agora você quer fazer algo para si mesmo. Sempre quis. Chegou a hora. Algo grande, como Eric com o Cream – só que melhor. Como Jeff com Rod Stewart e Ronnie Wood – só que melhor. Como George Harrison
e Brian Jones com suas cítaras da Índia, apesar de você ter sido o primeiro – só que muito, muito melhor, espere e verá.

Primeiro, porém, precisa juntar as peças, encontrar os cantos do quebra-cabeça. Os anos em que trabalhou nos bastidores – no escuro, um pistoleiro contratado, fazendo o que lhe mandavam, olhando e ouvindo e assimilando, dividindo um cigarro e rindo às escondidas –, aprendendo mais do que apenas tocar. Você sabe onde colocar os microfones. “A distância dá profundidade”, como gostavam de dizer os veteranos. Você agora sabe como operar a mesa, o que faz com que os grupos sejam bons
e que os grupos bons fiquem melhores. Sabe que não basta saber tocar, do contrário havia muito tempo seria uma estrela. Também aprendeu algumas coisas a respeito do negócio. Reconhece o valor de um nome e de uma boa gravadora por trás de você, os caras certos de terno. E para isso sabe que vai precisar de ajuda. Mas você está começando com vantagem. Os Yardbirds ainda tem um nome – só isso –, e você não vai abrir mão disso. Ainda não. Primeiro deve ter certeza; tem de ser preciso; seu timing,
como profissional, terá de ser perfeito, você sabe disso.

O problema é que o tempo está se esgotando. Só 24 anos, mas a música já está andando sem você. Você não diria isso em voz alta, mas sabe que é verdade. O Cream já está chegando ao fim e você sente que nem começou. Para todo mundo, Hendrix é o deus da guitarra, mas você ainda nem mostrou o que é capaz de fazer, não teve a oportunidade, além das sessões de
gravação e dos estúdios esfumaçados e das bandas desmoronando por dentro, perdidas em algum lugar na estrada americana, só contando os dias até surgir algo melhor. O tempo está se esgotando e, apesar de nunca ter dito isso em voz alta, você está começando a pensar se não teria perdido o maldito barco; se não tomar cuidado, terá de voltar para as sessões de gravação. “Virar uma daquelas pessoas que odeio”, como você diz aos amigos.

A última turnê dos Yardbirds termina em Montgomery, no Alabama, com a apresentação nos Speedway Fairgrounds, um dia depois de Bobby Kennedy ter sido assassinado em Los Angeles. Vocês veem na televisão do hotel e todos fazem “óó” e balançam a cabeça e acendem mais cigarros. Mas isso não significa nada para você em comparação com a dissolução do grupo. Em meados de junho você está de novo em casa, na casa perto do rio, em Pangborne – uma casa vitoriana junto ao Tâmisa, a cerca de 40 quilômetros de Londres, com um daqueles ancoradouros no porão, não que você tenha um barco –, imaginando que diabos vai fazer agora.

Felizmente, você tem uma carta escondida na manga; alguém que sabe o que você pode fazer, quem você é e o que poderia se tornar, e que compartilha com você a determinação de fazer algo, de tirar o coelho da cartola: Peter Grant. “G”. O gigante supersensível que coadministra os Yardbirds com Mickie e que te manteve em segurança durante todas as viagens, especialmente naquela terrível última turnê pelos Estados Unidos, quando Keith Relf estava saindo dos trilhos, ficando bêbado no palco todas as noites e apenas Chris Dreja ainda parecia interessado em manter as coisas de pé. G, que sentou no carro ao seu lado, preso no trânsito da Shaftesbury Avenue, poucos dias depois de voltarem dos EUA, ambos sabendo que a banda tinha acabado, falando do que iam fazer agora. G, que senta e te ouve dizer finalmente, com a voz tranquila, educada, o que você vinha pensando em segredo durante todo esse tempo, falando finalmente em voz alta: que você acha que pode pegar o grupo e fazer melhor, colocar novos membros, compor novas músicas, fazer melhor.

 
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