Escritora Jéssica Balbino lança livro e documentário sobre mulheres que fazem cultura nas periferias

Foram mais de 420 entrevistadas para traçar o perfil inédito de uma geração de lutadoras

Juca Guimarães, do R7

Jéssica Balbino entrevistou escritoras que moram na periferia Gustavo Rodrigues/Divulgação

Aos 31 anos, a jornalista e escritora Jéssica Balbino é uma das principais representantes da cultura hip-hop dentro da imprensa brasileira. Além do trabalho de apuração e registro de tudo o que acontece nas periferias, ela também é responsável por um recorte inédito na cena que destaca a partipação das mulheres na produção cultural contemporânea.

A pesquisa “Pelas Margens: vozes femininas na literatura periférica” é o resultado do mestrado da jornalista pela Unicamp e se desdobra em um livro e um documentário de 60 minutos. 

R7: Você entrevistou mais de 420 mulheres escritoras para mapear os dados da sua pesquisa. Qual a principal conclusão a que você chegou? Qual as características mais fortes da mulher escritora de periferia?

Jéssica Balbino: Na verdade, eu mapeei 425 mulheres. No início, eu comecei a fazer um levantamento e percebi que eram muitas as mulheres da periferia que escreviam, então, resolvi deixar um formulário aberto, para que elas pudessem se automapear e fazer o cadastro na pesquisa. Em seis meses, 425 mulheres preencheram o questionário e aí eu tabulei alguns dados, fazendo mapas que identificam as etnias delas, o número de publicações, as regiões que mais publicam, etc.

Alguns dados foram cruzados com dados de analfabetismo e tudo mais, aí, consegui criar esse panorama das mulheres na literatura marginal, mas, respondendo a questão, o que eu senti ao longo do trabalho, lendo os dados que estas 425 pessoas gentilmente cederam, ao topar participar da pesquisa, foi de que as mulheres da periferia, ao contrário do que dizem, têm voz. O que nos falta é ouvir estas vozes. É estarmos dispostos a partilhar da audição. Então, a característica mais forte destas mulheres é a luta. É esse movimento que não para. É o desafio de ser mulher e ser ouvida. E elas fazem isso muito bem através da literatura.

R7: As mulheres na literatura periféricas representam uma grande força dentro do segmento?

Jéssica Balbino: Sem dúvidas que sim. As mulheres são sempre uma grande força, não apenas na literatura periférica. Mulheres são uma grande força viva, natural e dentro da literatura isso não é diferente. O que ocorre é que como vivemos em uma sociedade machista, isso também não é diferente na literatura marginal/periférica e no ambiente dos saraus e slams. Embora nós mulheres esperássemos que fosse diferente, não é, então, é necessário ser forte.

Nós estamos num meio onde os homens estão ao nosso lado, conhecem nossa luta, sabem disso porque em todas as oportunidades que temos, falamos sobre isso no microfone, no entanto, eles seguem nos oprimindo e daí essa urgência de força. Mas, ultimamente, tenho pensado e refletido muito sobre isso. 

Se a gente pensar na interseccionalidade, vamos entender que ser mulher já é que ser forte. Ser mulher de periferia, mais ainda. Ser mulher, negra e de periferia, mais ainda. E ser mulher, negra, de periferia e fazer literatura marginal é ter que ser forte, mas, olha que interessante, durante as entrevistas para a pesquisa, perguntei sobre isso para a Elizandra Souza, que é um dos principais nomes desta literatura que falamos aqui e ela me quebrou ao responder que certa vez viu uma palestra com a Sueli Carneiro, em que esta dizia que estava criando a filha para ser frágil, porque o mito da mulher forte é cansativo e aí, me pus a pensar sobre isso e faz todo sentido. A vida nos obriga ser fortes e isso cria, de certo modo, um lugar comum. Cria um certo conformismo. Como se fosse uma obrigação ser forte, como se fosse proibido ser frágil e aí não avançamos nesse setor também.

O Emicida, na música ‘Mãe’, no disco mais recente, fala sobre isso “O sonho é um tempo onde as minas não tenham que ser tão fortes”, e aí, passei a sonhar com isso também. A gente tem que ser fortes, mas não necessariamente que a gente queira ou busque isso. Então, as mulheres são a força, mas lutam pelo direito de serem frágeis, de serem o que quiserem.

R7: Durante os 15 anos de pesquisa, como você viu a evolução da literatura periférica?

Jéssica Balbino: Nossa, nestes 15 anos muita coisa aconteceu, não apenas na literatura periférica, mas no país e no mundo, né. No Brasil, nós fizemos uma transição de um governo elitista para um governo tido de esquerda e que abriu várias possibilidades, várias caixas de diálogo, que nos trouxe esperança e esperança essa que nos foi tirada também neste período, então, estamos ainda em tempos sombrios, né. Mas, a literatura evoluiu sim. Na pesquisa, eu fiz um levantamento da participação das mulheres nas antologias, que foi algo que vi outros pesquisadores como a Érica Peçanha do Nascimento e o Eleilson Leite fazendo e apliquei.

O que eu constatei é que existe uma lacuna de 21% no número de participações femininas frente às participações masculinas nestas antologias, mas, também percebi que nos últimos anos houve um aumento considerável de antologias 100% femininas, feitas somente pelas mãos das mulheres, desde os textos à editoração, diagramação, assessoria de imprensa, etc e isso diz muito sobre o momento que vivemos também. Houve também um aumento no número de antologias, de publicações por si, muitas destas viabilizadas por editais que vão ao encontro do que falei no início desta resposta. Então, percebo que a literatura evoluiu, mas ainda é preciso pensar sobre ela.

Acho que o próximo caminho é a estética, a crítica literária dessa produção. Vejo que estamos indo nessa direção, mas é um movimento e por movimentar-se, muda constantemente.


R7: Você é uma jornalista e escritora militante. No jornalismo também está crescendo o espaço para os jovens da periferia?

Jéssica Balbino: Eu vejo que o jornalismo atravessa uma fase de várias mudanças que estão ligadas ao acesso à tecnologia, né? Então, muita coisa mudou nas plataformas e até na forma de se fazer jornalismo, exceto pela checagem, precisão e propriedade para falar, que estas são coisas que a meu ver, nunca mudarão.

Eu sou uma mulher de periferia que faz e sempre fez jornalismo. Já passei por fanzines no meu bairro a editora de um grande portal de notícias do país, mas não sei dizer se está crescendo o espaço para os jovens da periferia ou se é uma cota. Pelo menos não no jornalismo ‘tradicional’ isso ainda é obscuro pra mim. Não sei se fui uma exceção por ser uma, como diz o Marcus Faustini, ‘intrusa social’, que me infiltrei forçadamente em alguns espaços ou se isso é recorrente. Mas, o que observo e isso me deixa muito feliz, é que os jovens de periferia tem criado seus próprios veículos, seus próprios meios de contar as próprias histórias, porque nós sabemos que a periferia nunca aparece no noticiário, e quando aparece, é com uma conotação negativa, então, ter pessoas como eu, de periferia, num grande veículo, é um grande avanço. Trazemos esse olhar, essa vivência, essa efervescência da periferia e nos faz "cavar" pautas nesse sentido.

E mais, quando temos mídias como o Mural, Agenda da Periferia, Fala Guerreira, Periferia em Movimento, Do Lado de Cá, temos a periferia falando dela mesma e isso é muito importante. É autorrepresentação, né. Você não precisa mais se ver retratado de uma forma que não condiz com a sua realidade, mas pode ser sua própria mídia. Neste sentido, eu vejo que há um esforço maior em reportar a própria vivência, vejo que há um jornalismo de periferia sendo construído e fico muito feliz. Isso é muito importante.

Luciana Faria/ Divulgação


R7: No documentário são 19 entrevistadas. Como foram as filmagens? 

Jéssica Balbino: Quando eu pensei na minha pesquisa, entendi que eu queria fazer algo que virasse uma ponte entre a periferia e a academia. Não queria só fazer a dissertação e vê-la na biblioteca da universidade, eu queria algo que as pessoas pudessem acessar, pudessem ler e compreender. Algo que chamasse a atenção para o momento que estamos vivendo, que é esse protagonismo das mulheres na cena da literatura brasileira, aí,  pensei em fazer uma reportagem 360º, que seria um recorte jornalístico da pesquisa.

Criei o site Margens e fui colocando algumas reportagens, fotos, vivências e ainda este ano devo colocar a reportagem completa. E, para ser uma reportagem como eu queria, deveria ter não somente texto e fotos, mas vídeos e comecei a pensar em  como poderia viabilizar isso.

A ideia inicial era fazer uma reportagem em vídeo mesmo, com um tom documental, mas uma reportagem.  Falei com alguns conhecidos que dispunham de equipamentos de vídeo e que poderia me ajudar nesse processo. As entrevistas foram feitas no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e foi um momento bacana. Eu fiz a produção, direção e entrevistei as mulheres.  Na hora de fazer os convites, eu pensei nas que tinham uma expressividade bacana no cenário e que poderiam contribuir com a pluralidade da pesquisa. Cheguei a convidar mais mulheres, porém, nem todas tinham agenda nas datas que fizemos as gravações.

Para além das entrevistas, captei cenas em saraus e slams. O processo todo durou 7 meses e foi feito a muitas mãos. Vários colegas captaram imagens, entrevistas e me ajudaram nessa construção, desde a produção, as viagens, tudo. Foi um filme feito com poucos recursos, muita disposição e ajuda. Durante as gravações fizemos um café, um encontro, um bate-papo, uma vivência que foi bem importante, porque elas também puderam se ouvir enquanto eram questionadas sobre diferentes temas e para mim foi uma experiência única. O que eu mais amo fazer na vida é entrevistar pessoas, ouví-las falar e poder fazer isso sobre um tema que eu sou tão apaixonada foi inigualável.

A edição foi feita por um grupo de mulheres e a partir disso nasceu o Pirapora Estúdio, que é um projeto promissor. Enfim, surgiram vários desdobramentos a partir daí. 

R7: O conteúdo do documentário, com esses 19 depoimentos, retrata proporcionalmente o resultado geral da pesquisa?

Jéssica Balbino: O resultado é um documentário de 60 minutos, com a participação das 19 escritoras falando sobre diferentes temas dentro do universo da literatura, passando pelos saraus e slams, autorrepresentação, editoração, ser mulher, empoderamento, incômodos, etc. Então, podemos dizer que elas representam proporcionalmente sim, o mapeamento. Durante a defesa da dissertação na Unicamp, ao invés de falar sobre o trabalho, eu exibi o documentário, deixando com que as autoras falassem por si. Foi bem bacana.

Agora, a ideia é percorrer alguns locais exibindo o filme e travando conversas com os presentes, apresentando esse recorte da nossa literatura. Depois, pretendo colocar alguns vídeos menores na reportagem e transformar o documentário todo em uma websérie. Dá para pensar vários recortes a partir do material e espalhar isso de diferentes formas.  E para além do documentário, devo imprimir também o livro com a dissertação, como mais uma forma de distribuir a pesquisa.


R7: Como surgiu em você a vontade de ser jornalista? Já gostava de escrever, era curiosa?

Jéssica Balbino: Nossa, isso é muito legal. A vontade de ser jornalista surgiu quando eu era adolescente ainda. Quando eu conheci o hip-hop, eu senti um arrebatamento muito grande e uma vontade imensa de ser parte daquilo, mas eu não tenho talento pra dançar, grafitar, riscar uns discos ou cantar, aí, eu acompanhava, pesquisava muito sobre, lia tudo que chegava de material e conversava muito com as pessoas, aí comecei a definir que eu gostaria de ser jornalista. Era o que eu realmente gostava e sabia fazer.

Paralelo a isso, eu já lia e escrevia muito, desde criança. Sempre me refugiei do bullying por ser gorda nos livros, nos estudos e aí, encontrar o hip-hop e essa sede de conhecimento só me levaram nessa direção.  Quando eu tive acesso às revistas da Caros Amigos com a coleção Literatura Marginal, do Ferréz, soube que era daquela forma que eu gostaria de escrever. Que jornalismo era aquilo. Que era aquilo que eu queria ser.

Desde os 15 anos que eu participo com rigor da cena, tanto do hip-hop como da literatura marginal e nunca parei. Neste ano completei 10 anos da graduação e meu TCC foi um livro-reportagem sobre hip-hop e eu não parei mais. É o que me direciona, me dá tesão, me faz ser quem sou. Sou apaixonada por isso tudo e depois de 10 anos passados conciliando essa paixão e as redações de jornais, TVs, rádios e sites, eu finalmente estou fazendo só isso e tem sido incrível.

O processo para fazer o documentário levou sete meses Luciana Faria/Divulgação

 R7: Quem é a equipe que fez o documentário?

Jéssica Balbino: Foi feito a muitas mãos. Em agosto de 2015 fiz um evento do Margens no Sesc Campinas e ali a fotógrafa Luciana Faria, que nos acompanhou começou a captar alguns imagens que eu pensei que seriam importantes no documentário. Depois, quando estruturei a ideia mesmo da reportagem, o Vras77 fez as filmagens durante todo o fim de semana no CCSP comigo.

Em seguida, o Eddie Silva, da produtora Grito33,  captou cenas em saraus e slams, para usarmos como cenas de corte no vídeo. Uma amiga, a Thaís Helena, que agora integra a Pirapora Estúdio, captou algumas cenas comigo e eu mesma, nas andanças, fiz algumas imagens, principalmente na Cooperifa.

Entre as mulheres entrevistadas estão Mel Duarte, Rose Dórea, Lu Sousa, Viviane de Paula, Luz Ribeiro, Anna Zêpa, Elizandra Souza, Raquel Almeida, Jenyffer Nascimento, Juliana Bernardo, Débora Garcia, Janaína Moitinho, Michele Santos, Lunna Rabetti, Ryane Leão, Aline Binns, Luiza Romão e Roberta Estrela D´Alva.

R7: Você escreveu o roteiro?

Jéssica Balbino: Então, não existia uma equipe, algo pré-determinado, foi no melhor estilo freestyle, no melhor estilo Glauber Rocha. Eu sabia o que eu queria e tinha um roteiro, mas não o segui totalmente, porque as entrevistas e as coisas que aconteceram na cena serviram de bússola e deram o tom do documentário. Ele é composto por depoimentos e cenas de corte que ilustram o que está sendo falado. É o registro do momento que estamos vivendo na literatura marginal/periférica a partir do que as mulheres estão dizendo.

Não houve recursos para pensar numa estética de cinema, numa captação de som como deve ser em um projeto como esse. Foi bem no susto mesmo, no ‘pega a câmera e vamos fazer’.  É documental. Tem o tom e a urgência de uma reportagem mesmo. É uma forma de contar a história a partir da nossa vivência, da nossa ótica, da nossa singularidade. Ele é bem atual, bem pulsante. E é um material inédito, né. É a nossa história contada por nós mesmas.

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