Bastidores da indústria pornô: o que ninguém conta sobre filmes adultos 

Engrenagens de mercado bilionário são alimentadas às custas de opressão, violência, frustração, traumas psicológicos e busca por padrões inalcançáveis

Ex-atriz pornô Vanessa Daniele deixou mercado pornográfico em 2016

Ex-atriz pornô Vanessa Daniele deixou mercado pornográfico em 2016

Reprodução/Instagram

“Eu tinha certeza de que não passaria dos 30 anos. Quando eu percebi o quanto eu era escrava de um sistema desumano, que é a indústria do sexo, e que eu poderia ser mais do que eu era, poderia ir por caminhos diferentes, achei que era tarde”. Vanessa Daniele, ex-atriz pornô, é testemunha de um mercado que fatura bilhões de dólares todos os anos com a exploração de corpos e a idealização do desejo. 

A jovem, de 32 anos, que era conhecida como Bárbara Costa, quando atuou em filmes eróticos, tem uma trajetória marcada por tragédias. Ela foi abusada sexualmente ainda na infância, estuprada na adolescência e, sem perspectiva, virou garota de programa. Das ruas para as cenas de sexo explícito o caminho pareceu quase natural.

Mesmo assim, há quem acredite que seja fácil e uma porta de entrada para o “mundo dos famosos”. A realidade, no entanto, é cheia de longas horas de trabalho, baixa remuneração, episódios de abuso sexual, traumas psicológicos, tentativas de suicídio e relatos de arrependimento. Da outra ponta, consumidores são cada vez mais afetados por uma dinâmica falsa de representação da realidade. 

A reportagem do R7 mergulha no universo de filmes adultos para mostrar os bastidores das produções, as engrenagens que as mantêm funcionando e, também, as consequências para a saúde mental de quem trabalha e assiste compulsivamente à material pornográfico. Ex-atrizes revelam o “lado B” da profissão e as dificuldades para abandonar o passado.

Rotina: violência e exploração

Ron Jeremy, lenda viva da indústria pornográfica, é acusado de abuso de sexual

Ron Jeremy, lenda viva da indústria pornográfica, é acusado de abuso de sexual

Divulgação

No início da semana, Ron Jeremy, um dos maiores astros da indústria pornográfica foi acusado formalmente de 20 novos casos de agressão sexual contra 12 mulheres e uma adolescente pela promotoria de Los Angeles, nos Estados Unidos. Os crimes teriam acontecido entre os anos de 2004 e 2019, com vítimas de idades entre 15 e 54 anos.  

Em julho, quando Jeremy foi acusado pela primeira vez, por abusos que teriam acontecido entre os anos de 2014 e 2019, uma série de outras denúncias vieram à tona. Segundo o jornal Los Angeles Times, as queixas contra ele já passam de 55, desde o ano 2000. 

De acordo com a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, no Brasil, a pornografia lidera o ranking de notificações registradas na plataforma online. A iniciativa conta, entre outras instituições, com a união de esforços entre procuradorias regionais, a Petrobras e o Google. Só em 2019, o sistema recebeu 48.576 denúncias anônimas, das quais o material em questão acabou sendo removido apenas em 9.732 casos.

A demora entre a violação e a denúncia, segundo o psicólogo Yuri Busin, doutor em neurociência do comportamento, pode estar relacionada com a dificuldade em distinguir a ficção da realidade. “Você acaba tendo uma certa confusão entre o que é e ou que não é uma agressão sexual, porque dentro de um set existe todo um preparo para tudo aquilo. Aquilo é um filme, é uma produção mesmo. Aquilo não é essencialmente a realidade, embora tente transpor a realidade para as telinhas”, explica Busin. 

Região central de São Paulo concentra diversas salas de cinema pornô

Região central de São Paulo concentra diversas salas de cinema pornô

Divulgação

Vanessa Daniele trabalhou como atriz pornô ao longo de cinco anos, mas demorou para tomar consciência de uma série de explorações. “Eu vivi partes que somente depois eu pude entender o quanto estava sendo humilhada. Quando você trabalha na indústria do sexo, você não faz mais parte da vida em ‘sociedade’. Você se torna invisível e sem possibilidade de evoluir em alguma coisa que seja para você mesmo.” 

Para o psicólogo Yuri Busin, há uma “idealização” quanto à atividade, que muitas vezes na prática se mostra “desgastante” e “difícil”. “Realmente acontece de ter uma projeção, de achar aquilo superbacana. Que a pessoa vai fazer isso, vai fazer aquilo. Porém, esquece o que existe por trás. Aquilo não é tão fácil quanto parece.” 

Os protagonistas dessas produções precisam lidar, ainda, com a exploração de seus corpos em troca de baixa remuneração. Sites pequenos, por exemplo, chegam a oferecer apenas R$ 100 por hora. Em uma das maiores produtoras de conteúdo pornográfico do país, a Brasileirinhas, atores do sexo masculino recebem, em média, R$ 500 por hora, enquanto as mulheres, R$ 3 mil por semana, mais ou menos.

Arte/R7

Experiência traumática

Débora Dunhil, ex-atriz pornô, acredita que tenha participado de quase 300 cenas de sexo ao longo da carreira. A artista, que hoje atua em quadros de pegadinhas nos programas de João Kleber, na RedeTV!, e sonha em fazer faculdade, sente até hoje os efeitos do período em que trabalhou com conteúdo adulto. Os ataques por meio das redes sociais são frequentes. 

“Já fui obrigada a me retirar de restaurantes, baladas. Até eventos onde eu estava trabalhando, não fui mais chamada pelo simples fato de as pessoas saberem que eu fui atriz de filmes [pornográficos]. Hoje, eu superei isso, mas já atentei contra minha própria vida. Perdi dois relacionamentos por causa do meu passado também, porque as pessoas têm vergonha de me assumir”, conta a também influenciadora digital. 

Recentemente, Débora Dunhil participou de um reality show em Portugal

Recentemente, Débora Dunhil participou de um reality show em Portugal

Reprodução/Instagram

A dificuldade de ex-atrizes para encontrar um parceiro na vida real, de acordo com o psicólogo Yuri Busin, estaria associada com uma possível “confusão” entre os limites entre ficção e realidade. Para o doutor em neurociência do comportamento, existem alguns transtornos que, talvez, “sejam mais fáceis das pessoas desenvolverem. Principalmente alguma depressão, ansiedade, talvez muita dificuldade de relacionamento com pares amorosos fora da indústria”, e complementa: “Isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de serem encontradas depois”. 

Vanessa Daniele diz que estava “muito deprimida” quando decidiu que deveria deixar a indústria pornográfica, em 2016, após “várias tentativas de suicídio”. À época, prestes a “mudar de vida”, ela lançou um canal no YouTube, na tentativa de fazer algo que fosse aceito pela “sociedade” e que pudesse lhe devolver a possibilidade de ser “bem tratada”. 

Entretanto, não foi exatamente isso o que aconteceu. “Recebi muitos comentários ruins, negativos e pesados. O canal era o plano A e o plano B era me jogar de um prédio." Hoje em dia, ela conta que vive do que ganha trabalhando com marketing de influência. Embora a fase tenha ficado no passado, a ex-atriz precisa lidar com uma outra dificuldade: a impossibilidade de controlar a circulação do conteúdo por meio da internet: “Eu lido com remédios psiquiátricos e terapia regulares”.

Consumo de pornografia

Em 2016, em vídeo no YouTube, o ator Terry Crews revelou vício por pornografia

Em 2016, em vídeo no YouTube, o ator Terry Crews revelou vício por pornografia

Reprodução/Instagram

Os homens ainda são os que mais acessam conteúdo pornográfico no Brasil. De acordo com Clayton Nunes, CEO da produtora Brasileirinhas, eles representam 64% dos usuários da plataforma, enquanto as mulheres são 36%. Se por um lado há discrepância entre os gêneros nesse quesito, de outro, ambos parecem sofrer efeitos psicológicos e sociais bem parecidos. 

A conclusão é de um estudo comandado por pesquisadores das universidades de Connecticut, Yale e da Califórnia, nos Estados Unidos, que apontou algumas consequências do consumo de material erótico. O hábito, quando se torna compulsivo, pode inclusive se transformar em vício. 

Em 2016, o mundo se surpreendeu com o relato do ator Terry Crews. O astro, que ficou conhecido por papéis na série Todo Mundo Odeia o Cris e o filme As Branquelas, revelou que a compulsão por pornografia teria começado aos 12 anos. "A pornografia atrapalhou a minha vida de várias formas", disse na web série produzida por ele no YouTube. "Se o dia virou noite e você ainda está assistindo, você provavelmente tem um problema. E esse era eu."

Arte/R7

O psicólogo Yuri Busin explica que quando o hábito vira obsessão é hora de procurar ajuda profissional. O indivíduo entra numa espécie de vício e passa a recorrer a esses estímulos externos na busca por prazer. “O sujeito começa a pensar que precisa fazer mais aquilo para obter os prazeres na vida dele. O que era uma rota de fuga para buscar um prazer se torna realmente uma grande dor.” 

Outro aspecto que vem se mostrando nocivo nos últimos anos é a projeção do “espetáculo pornográfico” na vida real. O ator Rodrigo Barros, protagonista da série Três Quartos, trama que aborda, entre outras coisas, questões relacionadas à sexualidade, conta como passou a rever o próprio consumo e, principalmente, o papel desses filmes como referência de sexo. “Isso afeta nossos corpos, já que nos cobramos fisicamente quanto a tamanho, corpo e cobrança por desempenho", diz.

A comparação pode colocar o indivíduo dentro de um ciclo de autocobrança. “Acaba entrando num fluxo tanto de autocobrança quanto de frustração de achar que todo mundo tem que ser um ator pornô e fazer tudo aquilo que vê em filmes pornôs. Isso traz muito sofrimento às vezes e uma confusão entre realidade e o lúdico do filme”, completa Yuri Busin.