Cegueira e morte: saiba os riscos de bebidas alcoólicas adulteradas

Além de potencializar os efeitos nocivos do álcool, impurezas químicas são capazes de envenenar um indivíduo, alertam médicos

Bebidas adulteradas potencializam efeitos do álcool no organismo

Bebidas adulteradas potencializam efeitos do álcool no organismo

Willian Moreira/Futura Press/Estadão Conteúdo

O Carnaval é a época do ano em que a venda de bebidas alcóolicas nas ruas explode. Basta andar em meio a blocos nas grandes cidades para ver ambulantes com garrafas de todas as cores. 

O grande problema em consumir bebidas alcoólicas de origem duvidosa são as intoxicações que podem ocorrer, alertam médicos. 

Uma pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) analisou 152 amostras de bebidas alcoólicas coletadas nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Nas bebidas foi encontrado metanol, cobre e outras substâncias tóxicas, como compostos de carbonilo, derivados de cianeto e carbamato de etila.

“Normalmente eles utilizam um outro tipo de álcool para fazer render mais. O metanol é o mais perigoso e não é metabolizado da mesma maneira [que o etanol] pelo organismo. Este álcool é como se fosse um veneno, você tem uma intoxicação”, afirma o gastrocirurgião e endoscopista Eduardo Grecco.

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Grecco destaca que o metanol potencializa o efeito do álcool, levando a quadros de desidratação intensa, alcoolização mais rápida e até coma alcoólico.

O toxicologista Anthony Wong, chefe do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que a metabolização do metanol no corpo gera a formação de formaldeído e ácido fórmico, substâncias "extremamente venenosas".

“Essas substâncias causam lesões graves no fígado, pâncreas, rim e olhos. Os sintomas são dor abdominal, náuseas, vômitos, dor de cabeça, convulsões e, eventualmente, morte”, afirma Wong.

Segundo Grecco, o metanol age no sistema nervoso e é conhecido por causar cegueira.

Outra substância presente nas bebidas adulteradas é o iodo. Os médicos explicam que é utilizada em uísques falsificados para imitar a coloração amarelada.

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Wong alerta que o iodo pode causar lesões na tireoide e, em alguns casos, perda da função da glândula, levando ao hipotireoidismo. Além disso, é uma substância que, dependendo da concentração, pode causar queimaduras químicas e úlceras no esôfago e estômago. 

O cobre, outra substância encontrada nas bebidas adulteradas analisadas pela Unifesp, é necessário em pequenas quantidades para algumas atividades do corpo. Porém, Wong ressalta que em grandes quantidades pode causar hepatite tóxica, anemia e lesões cerebrais.

As outras substâncias apontadas pela pesquisa da Unifesp, como compostos de carbonilo, derivados de cianeto e carbamato de etila, são impurezas químicas. Grecco explica que atacam o fígado de maneira mais prejudicial que o álcool.

Ele lembra que o próprio álcool etílico, presente naturalmente nas bebidas alcoólicas, é agressor, mas que as bebidas adulteradas fazem com que os danos ao corpo sejam ampliados, tanto no momento da ingestão quanto a longo prazo.

Grecco afirma que sempre que for consumir bebida alcoólica é importante beber água. Ele orienta que caso a pessoa tenha vômito, dificuldade para falar e falta de equilíbrio, é importante ir para o hospital.

“Se não tiver os sintomas, o máximo que vai acontecer é uma ressaca brava. Nos casos em que a pessoa está muito mal, é importante ir para o hospital, mesmo se for bebida alcoólica não adulterada”, afirma.

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Para evitar esse tipo de situação os médicos recomendam consumir bebidas alcoólicas apenas em ambientes de confiança, observar se os outros frequentadores do bar estão reclamando da bebida, observar o rótulo, embalagem, cor e sabor, suspeitar de preços muito baratos e procurar pelo selo de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

Grecco indica ainda, pedir um pouco da bebida pura antes de tomar misturada com frutas. “Para uísque, você pode colocar um pouco em um pão, o uísque original vai ficar transparente. O iodo presente no adulterado, em contato com o amido, vai deixar o pão roxo ou preto.”

*Estagiária do R7 sob supervisão de Fernando Mellis

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