Cinema e Séries Especialistas discutem condições da indústria do cinema no pós-Covid

Especialistas discutem condições da indústria do cinema no pós-Covid

Tragédia com Alec Baldwin em set levanta debate sobre pressão em algumas produções para economizar custos e concluir projetos

Resumindo a Notícia

  • Aumento da demanda por novos conteúdos gerou enorme pressão em alguns sets
  • Após tragédia em 'Rust', especialistas refletem sobre condições de Hollywood
  • Demanda insaciável por conteúdo novo gerou condições de filmagem precipitadas
Alec Baldwin matou acidentalmente a diretora de fotografia Halyna Hutchins

Alec Baldwin matou acidentalmente a diretora de fotografia Halyna Hutchins

Angela Weiss/AFP - 01.04.2019

O aumento da demanda por novos conteúdos gerou enorme pressão em alguns sets de filmagem para economizar custos e concluir projetos. Depois da tragédia do western Rust, especialistas refletem sobre as condições da indústria de Hollywood no pós-pandemia.

No dia em que Alec Baldwin matou acidentalmente a diretora de fotografia Halyna Hutchins, de 42 anos, durante um ensaio, a produção enfrentava problemas porque uma equipe de câmeras havia deixado o set em protesto por melhores condições de trabalho.

Vários produtores que trabalhavam no filme, com orçamento de menos de 7 milhões de dólares — considerado baixo para um filme de ação —, também tinham pouca experiência. Sem o apoio de um estúdio grande, Rust era financiado por um pequeno grupo de empresas, e a expectativa era vendê-lo a uma plataforma de streaming, segundo o Wall Street Journal.

Essa é a nova realidade de Hollywood, em que a demanda insaciável por conteúdo para alimentar as plataformas de streaming em expansão gerou condições de filmagem precipitadas, segundo os especialistas.

Especialistas refletem sobre as condições da indústria de Hollywood no pós-pandemia

Especialistas refletem sobre as condições da indústria de Hollywood no pós-pandemia

Divulgação

"Há muita pressão para concretizar os projetos, e depois da Covid parece haver inclusive mais  porque as pessoas estão tentando lançar seus filmes, têm prazos a cumprir", diz Joyce Gilliard, figurinista que sobreviveu por pouco a uma das mais conhecidas tragédias de Hollywood.

Gilliard quebrou o braço quando um trem atropelou uma equipe de produção durante as filmagens de Midnight Rider, em 2014, matando uma cinegrafista. A tragédia de Rust trouxe de volta o "enorme estresse pós-traumático", disse em entrevista à AFP.

"Se as produções e os estúdios não pensam em segurança, isso se espalha para o resto do pessoal", acrescentou. "Começa de cima."

Os produtores de Rust não responderam aos vários pedidos da AFP para comentar o tema.

Enquanto avança a investigação sobre o que ocorreu no Rancho Bonanza Creek, no Novo México, onde o filme era rodado, especialistas afirmam que é impossível estabelecer uma relação direta entre redução de custos e negligência.

Mas Gregory Keating, professor de direito da Universidade do Sul da Califórnia, diz que "armas são usadas como cenografia nos sets há mais de 100 anos" e que, se os protocolos estabelecidos fossem seguidos, seria impossível que alguém fosse morto por uma bala em um set.

"O erro sempre é não tomar as precauções que deveriam ser tomadas. E o contexto aqui é que a redução de custos parece algo relevante nesse ponto", diz ele. "É mais caro fazer as coisas do jeito certo."

Em coletiva de imprensa na quarta-feira, o xerife de Santa Fe, Adan Mendoza, disse que, na sua opinião, "houve certa complacência no set". "Acho que há coisas que devem ser tratadas pela indústria do cinema e possivelmente pelo estado", afirmou.

As contratações em Rust estão em análise depois da revelação de que o armeiro Neal W. Zoromski, com décadas de experiência em Hollywood, havia rejeitado uma oferta de trabalho no filme por identificar "enormes sinais de preocupação" na negociação com os produtores.

Zoromski contou ao jornal Los Angeles Times que os produtores rejeitaram seu pedido para ter uma equipe de duas pessoas: um assistente e um encarregado de armas. Para os produtores, uma única pessoa deveria ser encarregada dos dois trabalhos.

"Nunca se deve ter um assistente fazendo as funções de um encarregado de armas. São dois trabalhos demandantes", afirmou ele em entrevista ao jornal.

Uma equipe de câmeras se retirou do set na manhã da quinta-feira, no mesmo dia em que ocorreu o acidente fatal, e foi substituída por contratados de última hora que não pertenciam a nenhum sindicato.

Os sindicatos têm um papel crucial ao exigir o cumprimento das normas para proteger seus membros, explicou Keating.

"Se o encarregado de armas é um funcionário vinculado a um sindicato e não pode ser demitido, essa pessoa está em melhor posição para dizer 'não há forma de nos comportarmos assim, não se atreva a fazer isso...'", afirmou Keating.

A armeira de Rust era Hannah Gutierrez Reed, de 24 anos. Filha de um veterano do setor, Gutierrez Reed só havia trabalhado em um filme antes desse western. Ela tampouco respondeu aos pedidos de entrevista da AFP.

Um encarregado de eletricidade que pediu para não ser identificado disse à AFP que desde que as produções voltaram aos sets, depois dos confinamentos da pandemia, tem sido mais difícil do que nunca contratar pessoas.

"Existe esse frenesi, essa demanda por conteúdo para compensar o tempo perdido", disse. "Acho que o que impera é a mentalidade de 'só termine, termine, termine'."

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