Cinema e Séries 'Filme feito entre amigos', diz diretor do documentário 'Jambalaia'

'Filme feito entre amigos', diz diretor do documentário 'Jambalaia'

Breno Moreira contou que ideia do longa partiu de um amigo e morador de um dos edifícios que foram demolidos em 2018 no Rio

Breno Moreira é o diretor do longa-metragem 'Jambalaia'

Breno Moreira é o diretor do longa-metragem 'Jambalaia'

Fotos de Reprodução/Facebook

Em 2018, cerca de 400 famílias ficaram desabrigadas depois que cinco prédios no Complexo do Jambalaia, localizado em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, foram demolidos pela Prefeitura, sob a alegação de que corriam o risco de desabamento

Sob o olhar dos moradores do local, a história foi contada pelo diretor Breno Moreira no longa-metragem que leva o nome do edifício Em entrevista ao R7, ele disse que a ideia surgiu de um amigo, que viva no Jambalaia.

"Paulinho, um dos personagens do filme e meu amigo, queria que eu fizesse um vídeo para ajudá-lo a sair de lá. Quando cheguei, fui conhecendo as pessoas e tive a ideia de fazer um longa, porque eu vi que as histórias eram muito maiores do que um vídeo", justificou Breno. "Eu acabei convivendo com essas pessoas por muitos dias, então, isso fez com que o contato fosse realmente genuíno. Eu entrei na casa das pessoas que me convidaram para entrar. E acho que a presença da câmera faz parte deste encontro", completou.

O longa-metragem Jambalaia não só exibe a vida das pessoas que moravam no complexo, como também registra o dia marcado para a implosão dos prédios e mostra a nova vida dos moradores fora de lá.

"Era um projeto para filmá-los no Jambalaia mas, durante o processo de filmagem, o prefeito na época, Marcelo Crivela, resolveu tirá-los dos prédios e dar aluguel social. Com um cheque de R$ 400 mensais, eles procuraram um lugar para morar. Acabei registrando essas três partes: eles morando no prédio; eles sabendo que estavam saindo; o despejo e a nova moradia", explicou.

Leia a entrevista na íntegra

R7: Jambalaia é seu primeiro longa-metragem, qual o maior desafio deste trabalho?
Breno Moreira: Acho que pode ter sido o orçamento, um filme de baixíssimo orçamento, onde a própria produtora inicialmente bancou o projeto. A equipe era muito pequena e a gente resolveu fazer boa parte do filme em negativo, o que fez com que uma parte do dinheiro fosse gasta especificamente nisso.

R7: Para essa "estreia" em longas, vamos dizer assim, por que a escolha sobre a ocupação e a vida das pessoas que moravam ali?
Breno: Eu sou muito fã do Eduardo Coutinho, talvez seja minha maior referência no cinema brasileiro, que é um diretor que fez filmes de conversa. Ele se preocupava muito mais com as pessoas do que todo resto, era um diretor que, além de ser bastante estético — podem dizer o contrário, mas o considero bastante estético —, ele era um caro muito ético. Então, resolvi usá-lo como referência para esse primeiro o filme.

R7: Aliás, como surgiu a ideia do documentário?
Breno: A ideia do documentário surgiu quando o Paulinho, um dos personagens do filme e meu amigo, me chamou para ir pra lá (no Jambalaia). Ele queria que eu fizesse um vídeo pra ajudá-lo a sair de lá. Quando cheguei, fui conhecendo as pessoas e tive a ideia de fazer um longa, porque eu vi que as histórias eram muito maiores do que um vídeo.

R7: O documentário é deste ano, mas tudo aconteceu em 2018, como se deu o processo de filmagens?
Breno: O documentário foi lançado agora, neste ano, a pandemia acabou atrapalhando muito o processo de finalização do filme. Realmente, era um projeto para filmar no Jambalaia, mas, durante o processo de filmagem, o prefeito na época, Marcelo Crivela, resolveu tirar os moradores dos prédios e dar aluguel social. Com um cheque de R$ 400 mensais, eles procuraram um lugar para morar. Acabei registrando essas três partes: eles morando no prédio, eles sabendo que estavam saindo, o despejo e a nova moradia.

'Jambalaia' estreou recentemente no Festival Guarnicê de Cinema

'Jambalaia' estreou recentemente no Festival Guarnicê de Cinema

Reprodução/Instagram

R7: Alguns dos depoimentos das pessoas que participam do documentário e que moravam no Jambalaia são muito fortes. Como foi convencê-las a falar, a contar o que aconteceu, relatar os problemas...? 
Breno:
Eu acabei convivendo com essas pessoas por muitos dias, então, isso fez com que o contato fosse realmente genuíno. Eu entrei na casa das pessoas que me convidaram para entrar. E acho que a presença da câmera faz parte deste encontro.

R7: Você teve dificuldades em gravar com os moradores?
Breno:
Eu não tive dificuldades de entrevistar essas pessoas, muito pelo contrário, elas tinham uma facilidade imensa de falar, nunca tinham sido ouvidas dessa forma. E todas elas, ou quase todas, tinham muita coisa pra dizer, mesmo que, muitas vezes, de forma não tão clara. Quando se pega as entrevistas em geral, dá pra entender que eles eram muito felizes no Jambalaia, apesar de todas as dificuldades. E eram muito unidos, era bonito de ver como eles se ajudavam e viviam mesmo com imensa dificuldade. Às vezes, tinham momentos muito felizes que, realmente, eu nunca vou esquecer. E muitos destes momentos a gente conseguiu registrar em câmera e estão no filme também.

R7: Como avalia a importância de um documentário como este, narrando a história que foi contada, porém, sob o olhar das pessoas?
Breno: Acho que a importância de um documentário como esse é registrar, mais uma vez, como o Estado diz se importar com pessoas como essas... Na verdade, com todas as pessoas, mas estas que deveriam ser as que mais precisam do cuidado do Estado foram as que eles mais atrapalharam. A minha avaliação da importância deste documentário é essa.

R7: Como tem sido e recebido a repercussão do Jambalaia?
Breno:
O Jambalaia estreou agora no Brasil, no Festival de Guarnicê, foi bem interessante. Eu não consegui ir, infelizmente, por conta da pandemia, mas a gente acompanhou online e foi bem legal. 

R7: Gostaria de acrescentar alguma coisa que eu não perguntei?
Breno:
É um filme feito entre amigos, a equipe de câmeras é toda amiga. Foi um pedido do Paulinho, que realmente é meu amigo e um dos personagens do filme, inclusive, as crianças, os filhos dele têm feito vários outros filmes comigo. E são pessoas que hoje fazem parte da minha vida e que eu conheci no Jambalaia.

Assista ao trailer do documentário

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