Reabertura dos cinemas é marcada por insegurança e instabilidade 

'A situação vai ficar insustentável se não abrirmos em agosto', declara André Sturm em entrevista ao R7; especialistas falam de situação do mercado

Reabertura dos cinemas é marcada por insegurança

Reabertura dos cinemas é marcada por insegurança

Reprodução

Os cinemas do Brasil, fechados desde o começo da pandemia da covid-19, em março, enfrentam uma verdadeira luta para retomar as atividades. 

O Governo do Estado de São Paulo liberou a reabertura dos cinemas na próxima segunda-feira (27). No entanto, a Prefeitura da Cidade de São Paulo barrou a medida na sexta-feira (24) para a capital paulista. 

Em entrevista ao R7, André Sturm, diretor do Petra Belas Artes, disse que discorda da medida e que vai tentar reverter a decisão. O cinema quer ser o primeiro a reabrir as portas no Brasil no dia 6 de agosto.

Diante da notícia, o Petra Belas Artes ainda não definiu uma nova data para receber o público novamente, até o momento desta publicação. O diretor garantiu que o cinema só abrirá com o aval do órgão público da cidade.

Sturm ainda falou que se comprometeu a não demitir nenhum funcionário durante a pandemia. Apesar de ter cumprido a promessa até o momento, ele disse ter receio de não conseguir manter os empregos se os cinemas não voltarem a funcionar no próximo mês.

"A situação vai ficar insustentável se não abrirmos em agosto. Posso te dizer com a maior certeza que agosto é o limite dos exibidores. Se não pudermos abrir até lá, não tem mais como manter os funcionários e, em muitos casos, sequer o aluguel. Eu não quero usar esse argumento porque pode parecer que estamos ameaçando, mas não tem mais como pagar. São cinco meses fechados, faz a conta de quanto isso custa... Muita gente fez a redução dos sálarios, mas tem um prazo. Agosto tem que começar a pagar", declarou o diretor.

No dia 17 de junho, o Belas Artes aderiu ao cine drive-in, mas, mesmo com a iniciativa, o rombo econômico se mantém. "O drive-in ajuda financeiramente, diminui o prejuízo, mas, no nosso caso, não zera", entregou Sturm ao também falar sobre as diversas despesas do local, que costumam girar em torno de R$ 1 milhão a cada 4 meses de funcionamento. 

Ainda segundo o diretor, a insegurança e a instabilidade do mercado se dá pela demora da prefeitura em permitir a reabertura dos cinemas. Além disso, os "buracos" de estreia na programação também podem ser um problema, já que as distribuidoras não devem lançar filmes sem a retomada das atividades nas salas de exibição.

"Por que só no cinema, a pessoa não pode comprar o ingresso na hora e na bilheteria?"
André Sturm

Para Sturm, uma terceira questão se deu devido ao protocolo lançado pelo Governo do Estado de São Paulo: as medidas estabelecidas eram "muito duras". 

"A principal delas é de que não pode vender ingresso pela bilheteria, tem que fazer venda pela internet", contou. "Eu considero isso extremamente injusto, porque em todas as atividades comerciais de São Paulo – desde comprar um pastel na feira a ir ao banco, supermercados e até delivery – você pode pagar na hora com máquina de cartão. Mas por que só no cinema a pessoa não pode comprar na hora?", questionou Sturm. 

O diretor contou que, em 2019, 92% das vendas de ingressos foram realizadas na bilheteria. Ele justificou ao dizer que "ir ao cinema não é algo que as pessoas planejam, mas decidem na hora".

"Eu arrisco te dizer que 50% das pessoas decidem o longa que vão ver na bilheteria. Com exceção dos grandes blockbusters como algum filme do Quentin Tarantino", falou, antes de criticar a decisão do Governo do Estado de São Paulo. "Como você pode exigir que um negócio que funciona no ponto de venda, venda pela internet? E também é absolutamente elitista, pois boa parte da população brasileira não sabe comprar na internet, já que você precisa ter aplicativo, cartão de crédito, e isso já elimina um monte de gente."

"O cinema é um espaço seguro, respeita os protocolos e está pronto para a retomada"
Laís Bodanzky

Para Laís Bodanzky, diretora-presidente da Spcine, a insegurança na reabertura dos cinemas também surge porque "não dá para abrir os cinemas se não houver público". 

"O cinema tem toda uma matemática financeira que precisa se fechar", disse, antes de explicar um pouco melhor sobre a economia interna das redes cinematográficas.

"Não adianta abrir as salas de cinema se não tem público. Por isso, a reabertura precisa ser com cautela e compreendendo, justamente, que existe um desejo real do público de voltar às salas. Por isso a campanha 'Juntos Pelo Cinema' [que visa a retomada da indústria de forma segura] é tão importante. Para mostrar que, sim, é um espaço seguro, respeita os protocolos e está pronto para a retomada."

Os cinemas ainda precisam se readaptar economicamente, já que as salas não podem funcionar em sua totalidade e apenas 40% dos ingressos podem ser vendidos.

"Uma sala de cinema sempre teve a sua matemática financeira pautada em salas lotadas, mas hoje, a sala lotada não é mais a mesma como era antes. É preciso rever todas essas questões, que não são simples para essa economia", explicou a diretora.

Laís também reiterou a preparação necessária dos funcionários para a reabertura: "Mas eu acho que estão todos se preparando para aguentar durante um tempo essa volta gradual. Vai voltar, mas precisa desse espaço de tempo para a retomada. É uma retomada lenta, é necessário, sim, muita atenção".

"A questão dos filmes não nos causa receio, mas temos que ficar monitorando a cada semana. A gente meio que fica trocando pneu com carro andando"
Paulo Celso Lui

Paulo Cesar Lui, presidente do Seecesp (Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas no Estado de São Paulo), segue a mesma linha que Laís. Ele também participa do movimento "Juntos Pelo Cinema" e explicou que as atividades das demais redes cinematográficas deveriam iniciar no dia 13 ou 20 de agosto.

Para o presidente, a insegurança não surge com os protocolos de segurança de higienização, mas da monitoração constante dos filmes e os conteúdos que podem ser apresentados ao público. Afinal, um grande marco que a pandemia deixou na indústria foi o adiamento das estreias.

"A questão dos filmes não nos causa receio, mas temos que ficar monitorando a cada semana. Já que os grandes lançamentos hoje em dia são globais, a gente meio que fica trocando pneu com carro andando, mas começa a realizar a reabertura e observar a questão dos filmes [na programação]", declarou Paulo.

Uma aposta que os cinemas do Brasil farão, segundo Paulo Lui, serão voltados aos longas nacionais durante o período de readaptação das salas de programação.

Laís aproveitou para comentar a exibição de filmes clássicos que acontecem, por exemplo, em drive-ins e devem seguir para as salas de exibição.

"Todas as distribuidoras seguraram os lançamentos para entender o momento certo para a retomada das atividades", adicionou a presidente da Spcine. "O que é interessante é que alguns filmes ainda serão lançados e o que eu acho que, na minha opinião, é interessante, é a retomada de grandes clássicos do cinema de grandes títulos nas salas grandes."

Sturm conseguiu "com muito orgulho" que a Acine (Agência Nacional de Cinema) liberasse as estreias cinematográficas fora do ambiente de cinema. Anteriormente, os filmes teriam de passar pelas salas de exibição antes de serem reproduzidos em outras plataformas como o VOD (video on demand).

A nova vigência definiu que o lançamento do filme Macabro, estrelado por Renato Goés, poderá ser na próxima terça-feira (28), no Cine Belas Artes drive-in. 

Grandes redes ainda não definiram reabertura

O Itaú Cinema informou que pretendia reabrir as portas no próximo mês. No entanto, a porta-voz afirmou que "na situação atual, o cenário do cinema muda a cada semana".

O grupo garantiu que vai seguir todas as normas estabelecidas pelas autoridades: uso de máscara, álcool em gel nas estações, constante limpeza dos locais, distância entre as pessoas das filas, redução no número da venda de ingressos e espaço entre as cadeiras.

Outras redes como Cinemark, UCI e PlayArte ainda não têm data de reabertura definida e devem ter mais informações a partir da próxima semana.

*Estagiária do R7, sob supervisão de Camila Juliotti