Games Crítica: Backbone é uma ótima mistura de adventures e estilo noir

Crítica: Backbone é uma ótima mistura de adventures e estilo noir

Game da RawFury conta com belos visuais e bons diálogos para prender o jogador em uma história densa de detetive

  • Games | Filipe Siqueira, do R7

Jogo mistura adventure, investigação e noir

Jogo mistura adventure, investigação e noir

Divulgação/Raw Fury

Você provavelmente conhece muito bem o estilo noir: detetives que desvendam mistérios insondáveis, mulheres fatais, perigos em cada esquina, uma narrativa subjetiva que continuamente se confunde com a objetiva. Enquanto o cinema praticamente abandonou tais temas, os games — principalmente os que carregam algum elemento retrô — os abraçam com voracidade.

Backbone é uma versão parcialmente moderna do noir, com um embrulho distópico e envolto em novas luzes, uma mistura entre nostalgia e frescor. O grande feito do game é justamente conseguir lidar com essa carga de mistérios e referências muito bem.

E faz um pouco mais. É uma mistura de jogos de detetive, com muitos interrogatórios, mecânicas point-and-click em 2D, com alguns momentos de furtividade. Há ainda temas sendo tratados: luta de classes, corrupção de governos, quem realmente manda nas grandes cidades.

Os visuais são bem bonitos

Os visuais são bem bonitos

Divulgação/Raw Fury

A história também é inicialmente manjada para fãs do gênero. Em uma cidade onde diferentes espécies de animais antropomórficos convivem em um opressor sistema de castas liderado por primatas, um detetive particular guaxinim chamado Howard Lotor recebe a missão de investigar um possível marido traidor, mas acaba sugado em uma conspiração que envolve animais transformados em alimento para uma classe superior, a máfia, mulheres desaparecidas, drogas misteriosas, corrupção governamental e até uma possível entidade digna dos contos de H. P. Lovecraft.

Howard é o personagem noir perfeito. Um senso de humor corrosivo e repetitivo, uma vontade imparável de fazer o certo e ajudar os oprimidos, estômago fraco e curiosidade. Logo ele faz amigos — Renee, a jornalista que se junta ele na investigação — e inimigos poderosos, principalmente criminosos tarimbados e governantes macacos. Ao longo dos atos do jogo ele vai adentrando cada vez mais a verdade até encarar quem é ele, em uma série de diálogos um tanto esquizofrênicos admiráveis.

Backbone também é bonito. Muito do noir é sobre ter estilo, uma atitude  que aproxima os detetives de investigadores do mais puro horror humano, sem perder a sensibilidade que os conecta com a audiência.  Cada ato do game é também uma nova peça de um quebra-cabeça bastante assustador. Cada passo adiante na história alimenta a sensação de que as coisas jamais voltarão a ser como antes.

É um equilíbrio complexo e para alcançá-lo o estúdio EggNut usa uma pixel art escura, mas carregada com cores que só posso descrever como distópicas. Os personagens são pixelados e trafegam por ambientes muito detalhados e com níveis variados de profundidade — o resultado não é exatamente inédito, mas provavelmente jamais perderá o impacto, principalmente por causa das texturas de chuvas e poças d'água.

Dialogar nem sempre é fácil no game

Dialogar nem sempre é fácil no game

Divulgação/Raw Fury

Mas o principal elemento estético aqui são as músicas. É algo estranho de se falar de videogames, tão centrados em mecânicas e ação, mas Backbone guarda uma série de momentos-chave em que as músicas são gatilhos emocionais perfeitos.

Se você jogou Red Dead Redemption, provavelmente lembrará de um momento do tipo quando John Marston entra no México e tal momento é cristalizado pela música Far Way, de José Gonzales, que intensifica a sensação de solidão absoluta vivida pelo protagonista. É um grande momento por si só, mas a música o faz se tornar uma das maiores cenas dos games, tudo sem tirar o jogador do controle.

Backbone tem — guardadas as devidas proporções — ao menos três desses momentos. O game parece preparado para eles, que servem para guiar o jogador emocionalmente com sutileza. A ideia dos produtores foi investir em minimalismo musical ao longo do jogo para explodir tais encontros com faixas cantadas, que funcionam até em cenas que podem ser estáticas. Parece uma aposta arriscada, mas funciona bem em um game de pouco mais de 4h.

Como contraste, as mecânicas do game são relativamente simples. O jogador andará de um lado para outro em distritos da Cidade — que não tem nome oficial, mas registros apontam um mapa muito similar ao de Vancouver —, entrará em locais suspeitos, resolverá alguns quebra-cabeças, interrogará outros animais e vasculhará computadores. Ajuda muito o fato do game ter vindo totalmente localizado em português, com uma boa tradução e adaptação.

Como um verdadeiro detetive, deve-se manter atento às opções de diálogo, que podem ser encerrados de forma abrupta caso a escolha errada seja feita. Muitas dessas opções não possuem objetivos diretos além de manter a conversa e obter informações sobre o mundo do game e contexto. Mas, em uma narrativa noir, saber mais significa adentrar mais a história, mesmo que a informação não seja usada dentro dos sistemas binários de um videogame.

Fazer as coisas pensando apenas em terminar o game é um ato bobo aqui, que fará o jogador (você) perder o que de melhor Backbone tem a oferecer: uma ambientação densa, um ótimo texto, visual bonito e momentos cristalizantes.

Você entenderá perfeitamente assim que experimentar.

Backbone
Desenvolvedora: EggNut
Publisher: Raw Fury
Lançamento: 08/06/2021 (PC) e 28/10/2021 (PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series X/S)

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