Hollywood se adapta às novas formas de se ver cinema

Salas de cinema americanas têm passado por dificuldades ainda maiores por causa da covid-19, conforme afirmam produtores nos EUA

Hollywood também ficou vazia com a pandemia

Hollywood também ficou vazia com a pandemia

Mario Anzuoni/Reuters/18-05-20

Hollywood, o distrito das estrelas próperas, está passando por um momento inédito em sua história. Que poderá revolucionar, por causa da pandemia, todo o mercado cinematográfico dos Estados Unidos, modificando a relação dos estúdios com as salas de cinema. Estas, se já lutavam para sobreviver ao surgimento do streaming, ficaram em situação ainda mais complicada por causa da pandemia.

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Frederico Lapenda preside festival de Beverly Hills

Frederico Lapenda preside festival de Beverly Hills

Acervo pessoal

Para o produtor brasileiro Frederico Lapenda, diretor executivo da produtora 921 Media, em Los Angeles, e radicado há mais de 30 anos na cidade americana, as mudanças já começaram com as alterações nos calendários dos festivais. 

"Em um ano normal, a corrida para o Oscar começa no Festival de Cannes, que neste ano foi cancelado.  O filmes que iam ser lançados de março a agosto foram transferidos temporariamente para setembro. E as produções pararam. Até agora a Academia não mudou a data do 93º Oscar (fevereiro de 2021)."

Mas Lapenda completa dizendo que a sempre rígida Academia (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas) teve de abrir mão de uma norma para manter as possibilidades da cerimônia da entrega do Oscar ainda ser realizada na data prevista.

"Uma norma importante que faz um filme se qualificar para um Oscar, que é a de ser lançado no cinema em duas praças (Los Angeles e Nova York) por uma semana e ser criticado pelos jornais da cidade, já foi alterada. Isso poderá não ocorrer necessariamente, em função de o calendário ter sido encurtado", destaca.

A Academia, em abril último, já havia facilitado regras de elegibilidade ao possibilitar que filmes não exibidos nas telonas este ano disputem o Oscar.

No ano passado, por exemplo, isso não pode acontecer com a produção "O irlandês", que teve de ser lançada em sessão especial de cinema, mesmo tendo sido produzida por um veículo de streaming.

Para poderem participar das disputas do Oscar, os filmes devem ser lançados até 31 de dezembro, regra que permanece válida.

Festival de Beverly Hills adiado

Lapenda conta que teve de adiar o Beverly Hills Film Festival, do qual ele é presidente, por causa da covid-19.

"Esse ano o festival faria 20 anos, mas devido à pandemia adiamos. Alguns festivais foram realizados virtualmente e outros cancelados. Ainda não decidimos se vamos cancelar esse ano ou fazer online", observa.

Segundo ele, a situação atual acelerou uma mudança que já vinha ocorrendo na relação entre os estúdios e as salas de cinema, principalmente no que diz respeito ao lançamento de filmes. Um debate que vinha se estendendo há pelo menos três anos está mais próximo de se concretizar em 2020.

"Há muito tempo que produtores sonham em fazer o famoso 'day and date', que significa lançar o filme nos cinemas e PVOD (vídeo premium sob demanda) ao mesmo tempo. Os donos dos cinemas lutam contra esse modelo. O grande medo deles é que os telespectadores mudem a forma de assistir cinema", ressalta.

Com a disseminação da covid-19, o PVOD se tornou a única alternativa momentânea de lançamento dos filmes. No modelo praticado há décadas, os estúdios precisavam esperar por pelo menos três meses, dentro de uma janela de exibição nos cinemas, antes das produções serem apresentados em outras plataformas.

"Os filmes agora estão sendo lançados via PVOD, como fez a Universal, que lançou o 'Throlls World Tour' há cerca de um mês, que já gerou mais de 100 milhões de dólares. Foi o maior lançamento digital de um filme em todos os tempos", diz.

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Já a MGM, segundo ele, está segurando o lançamento do no filme "007 - Sem Tempo Para Morrer", feito também com a Universal. Por enquanto o lançamento, que ocorreria em abril, foi adiado para novembro.

A AMC Theatres (American Multi-Cinema, na sigla original) maior cadeia de cinema americana tem passado por dificuldades, segundo confirmou Lapenda.

"Este tipo de lançamento pode destruir as redes de donas de salas como a AMC, que ja vem performando abaixo do esperado e agora já ameaçou boicotar os filmes da Universal e de qualquer estúdio que faça PVOD", completa.

Lapenda conta que as receitas das salas de cinema vinham das concessões (comida e bebida) e mais 10% a 20% da bilheteria, de acordo com a negociação. Os outros 80% a 90% das vendas dos ingressos ficavam com os estúdios, mas os números vêm decrescendo. A capacidade financeira das salas de cinema caiu mais de 50% com a pandemia. E desta forma, ele avalia, o modelo de negócios para de funcionar. 

A Nato (National Association of Theater Owners) e outros donos de cinemas, neste mês de maio, já pediram ajuda financeira ao governo americano para pagar seus 150 mil funcionários e aos bancos para pagar o aluguel dos imóveis.  

A situação tem abalado todo o mercado que envolve o cinema, desde projetistas até funcionários de estúdios, pagos por job. Muitos destes profissionais também foram incluídos no programa emergencial de auxílio financeiro do governo.

Neste embate, Lapenda acredita que as empresas OTT (Over The Top Delivery), que trabalham com conteúdo sob demanda, como a Netflix, Hulu (controlada pela Disney) e Amazon, estão levando vantagem nos Estados Unidos, após terem investido muito dinheiro para desenvolver esse modelo.

"Eles estão sendo os grandes vencedores no momento", diz.

Saída de casa

Para Roberta Augusto, vice-presidente de marketing e distribuição da Lionsgate, em Los Angeles, ainda poderá haver espaço para as salas de cinema, principalmente se for explorado um nicho específico. E diante da necessidade das pessoas saírem de casa, pelo menos em um período logo após a quarentena.

“Acredito que teremos um ambiente competitivo saturado quando os cinemas reabrirem, e minha aposta é que os filmes voltados para as crianças terão uma melhor chance de ter um bom desempenho, já que há muita expectativa das pessoas poderem esperar para sair de casa e se divertirem. Eu também acho que o investimento nas campanhas de marketing para as próximas produções deverá ser fortemente focado nos esforços digitais”, acrescenta.

É nisso que as salas continuam apostando para sobreviverem. Mais do que na paixão das pessoas pelo cinema. Na paixão delas por ir ao cinema.

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