Kanye West: o que é o transtorno do rapper que gerou piadas na web?

Cantor deveria lançar álbum nesta sexta (24) após ser alvo de internautas que especularam crise bipolar; R7 ouviu especialistas para entender patologia

Especialistas explicam transtorno mental de Kanye West

Especialistas explicam transtorno mental de Kanye West

Reprodução/TMZ

Kanye West, que deveria lançar o álbum DONDA nesta sexta-feira (24), fez o anúncio durante uma série de tuítes no começo da semana.

As publicações, que foram alvos de piadas, ganharam grande repercussão na mídia. Principalmente, pelo rapper ter dito que Kim Kardashian, a mulher dele, estaria tentando interná-lo em uma clínica psiquiátrica.

Como o músico já comentou em entrevistas para David Letterman, ele luta contra o transtorno bipolar. "É como um cérebro torcido, como um tornozelo que torceu", disse o cantor. 

O R7 conversou com o psiquiatra Henrique Bottura, diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista, para entender melhor como a bipolaridade pode se apresentar. Ele reiteirou que nem todos os pacientes demonstram os mesmos sintomas de forma padronizada.

As pessoas diagnosticadas com a doença podem apresentar insônia, dificuldade em concluir tarefas, impulsividade, gastos financeiros exagerados e até apresentar delírios. O ego "exacerbado", que o psquiatra explicou como "a pessoa achar que ela é mais do que ela é de verdade", também chega a ser um sintoma comum no quadro. 

"A bipolaridade é uma alteração da funcionalidade do humor, que pode se expressar em vários níveis e facetas do indíviduo. A pessoa com transtorno bipolar tem variações de humor entre dois pólos: um humor acelerado, ou seja, a pessoa fica com os processos psíquicos exacerbados e pode pensar rápido demais, agir impulsivamente e, às vezes, até alucinar em função dessa exacerbação", detalhou Bottura.

O segundo pólo do transtorno, segundo o especialista, é o humor deprimido: "Existe uma perda de sensação de prazer, de esperança na vida, que pode gerar uma perda da vontade, da capacidade de realização, alteração do padrão do sono, do apetite e até [perda da capacidade] cognitiva".

O psquiatra disse que as possibilidades de delírio na fase depressiva também podem existir. No entanto, as alucinações são diferentes entre si. 

A psicóloga Isabella Rezende, que adere à vertente sócio-histórica, ressaltou que não é possível diagnosticar se Kanye está tendo uma crise de bipolaridade já que os fãs acompanham o cantor "de longe". Para a profissional, o rapper poderia "apenas estar sendo o Kanye". 

"Reduzir ele a esse diagnóstico – se isso for, de fato, um período bipolar, já que ninguém pode saber disso a não ser quem está perto de Kanye e os profissionais que o acompanham –, está relacionado ao racismo", apontou sobre a conclusão precipitada que as pessoas teriam criado apenas por saberem do transtorno mental do rapper.

Um dos pontos mais importantes que a profissional destacou é a compreensão de que a personalidade de uma pessoa com algum tipo de patologia não deve ser resumida a um diagnóstico. Ela também aproveitou para resumir diferentes tipos de tratamento na psicologia.

"Para a sociedade, uma pessoa com depressão, esquizofrenia, bipolaridade não tem a doença, ela é a doença."
Isabella Rezende

"Tem uma parte da psicologia que trata o paciente de uma forma bem 'biomédica' e a outra parte entende que o transtorno mental é uma forma de existir", diz. "A patologia é uma dentre várias expressões daquela pessoa e não deve condenar aquele sujeito."

Para completar o pensamento, Isabella explicou como grande parte da população enxerga uma pessoa diagnosticada com algum tipo de transtorno mental.

"Para a sociedade, uma pessoa com depressão, esquizofrenia, bipolaridade não tem a doença, ela é a doença", falou.

A vertente que a psicóloga mais se identifica, acredita que a internação é um processo para excluir os adoecidos da população considerada "dentro do padrão". 
Para ela, a internação não é ruim em qualquer ocasião, mas não deve ser o primeiro ou o único recurso.

"É colocar a pessoa dentro de muros e separar entre os que enxaixam na sociedade e os que não se encaixam", opinou.

"Diminuir o índice de internação demonstra um avanço na ciência, é um fator que vejo com bons olhos.
Dr. Henrique Bottura

Já para Bottura, o critério da internação é avaliado e necessário quando o paciente gera risco de vida para si e para outras pessoas.

"As internações diminuíram muito desde o século passado, internava-se por qualquer motivo antigamente", declarou. "A pessoa podia chegar a passar a vida inteira em um hospital psiquiátrico", relembrou, antes de falar sobre o avanço científico da área. 

"Diminuir o índice de internação demonstra um avanço na ciência, é um fator que vejo com bons olhos. Mas a internação se torna necessária quando a pessoa oferece risco de vida a si e aos outros."

O tratamento psiquiátrico muda de caso em caso. É onde Bottura considerou que "mora o desafio da psiquiatria". Isso quer dizer que o mesmo remédio pode funcionar para uma pessoa e pode não funcionar para outra, sendo que ambas possuem a mesma patologia psíquica.

"Por que não é o suficiente Kanye dizer que está se sentindo como no filme 'Corra'?"
Isabella Rezende

Como o racismo afeta a saúde mental de uma pessoa negra?

Kanye falou de racismo em música com Travis Scott

Kanye falou de racismo em música com Travis Scott

Reprodução/Twitter

Além de sofrer com patologias psiquícas, Kanye é um homem negro. O próprio artista já denunciou, por meio da arte e da internet, situações racistas que viveu.

Uma das ocasiões em que ele comentou sobre o assunto foi na música Wash Us in The Blood, parceria musical com Travis Scott que denuncia a violência policial contra negros nos Estados Unidos.

Para explicar o fênomeno, o estudo Raça, racismo e saúde: a desigualdade social da distribuição do estresse, realizado por André Faro e Marcos Emanoel Pereira, mostrou que "a distribuição desigual de recursos e pior acesso à educação, saúde, habitação, justiça e trabalho" afetam a saúde mental dos afro-descendentes. Fatores diretamente ligados, para os pesquisadores, ao racismo estrutural.

Como forma de comparação entre duas realidades distintas, a psicóloga Isabella relembrou do caso de Demi Lovato, uma mulher branca que também sofre com a mesma patologia de Kanye.

"Quando Demi Lovato, por exemplo, disse que sofria com bipolaridade e ia tirar um tempo das redes sociais, as pessoas acharam bonito", relembrou. "Agora, quando um homem negro publica uma série de tuítes que, aparentemente, são aleatórios, dizem que ele está tendo um 'surtos', além de fazerem críticas ou até piadas", destacou.

Para a especialista, a forma como as pessoas tratam um homem negro com transtorno, como o de Kanye, dizem respeito ao racismo.

"Quando a gente vê uma pessoa negra falando de sofrimento psíquico, a gente pode partir para dois tipos de estereótipos: o primeiro que diz que a mulher negra 'aguenta' certos sofrimentos porque ela é forte; o segundo, por exemplo, que estipula o homem negro como agressivo e o caracteriza como 'surtado'", afirmou.

Após o cantor entregar que focaria na música, muitas pessoas disseram para Kanye dar atenção apenas à saúde mental. Isabella rebateu as falas dos usuários da web e relembrou a época da escravidão no Brasil.

"Os brancos já tiveram o poder de dizer o que o negro iria fazer com o próprio corpo ou não", relembrou. "A gente enxergar essa situação do Kanye e dizer o que ele tem que fazer também é a branquitude querendo exercer o poder e tentando definir o que ele precisa fazer para se cuidar."

O cantor, inclusive, chegou a falar que estava se sentindo preso pela família como no filme Corra, de Jordan Peele, sobre a história de um homem negro que se tornou refém de uma família branca.

"Para as pessoas, não é suficiente Kanye, por exemplo, dizer que está se sentindo preso como no filme", fala Isabella, antes de questionar, de forma retórica, o tratamento: "E por que será que não é o suficiente?".

Qual é o papel da família?

Kanye West ao lado da mulher e dos filhos

Kanye West ao lado da mulher e dos filhos

Reprodução/Instagram

No caso de Kanye, a mulher dele, Kim, escreveu uma publicação após os diversos tuítes do músico dizendo que ela queria interná-lo. A socialite pediu por compaixão e empatia com relação à patologia do marido.

Contudo, ele não gostou da carta online e usou o Twitter, mais uma vez, para dizer que a mulher e a sogra, Kris Jenner, "publicaram um comunicado sem a autorização do rapper".

Em conversa com o psiquiatra, a família do indivíduo adoecido também é desafiada em situações de transtorno mental. Bottura explicou que a dificuldade surge devido à "condução do tratamento, convivência, assimilação do fenômeno" que os parentes enfrentam no cotidiano.

"A família precisa ser sensível para perceber a apresentação de uma variação do funcionamento global dos indivíduos"
Dr. Henrique Bottura

O papel dos familiares em casos como esse é, principalmente, exercitar a sensibilidade. 

"A família precisa ser sensível para perceber a apresentação de uma variação do funcionamento dos indíviduos", disse o médico ao falar sobre as mudanças comportamentais que uma pessoa adoecida sofre.

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"Depois de perceber a alteração, a família passa a ter uma responsabilidade para levar [o paciente] a um ambiente de tratamento, porque a família não trata, a família dá suporte."

No caso do transtorno bipolar, Bottura destacou a dificuldade de percepção já que, muitas vezes, o paciente acredita "estar em uma ótima fase de vida" e exemplifica: "Mas [o adoecido] acaba comprando um carro no cartão de crédito quando, na verdade, não tem dinheiro para a aquisição."

O psiquiatra ainda ressalta que o indivíduo com transtorno bipolar, especificamente, não costuma ter o senso crítico para avaliar o próprio estado de saúde. Na fase de "mania", por exemplo, que diz respeito à exacerbação do humor, o paciente chega a acreditar que "nunca esteve tão bem na vida".

O aconselhamento dos profissionais de saúde é buscar ajuda profissional em caso de suspeita de patologias psíquicas. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também pode ser acionado em caso de suicídio por meio do número 188.

A luta do artista contra o transtorno teria piorado após a morte da mãe, Donda, em 2007. O cantor ainda a homenageou no clipe da música DONDA, homônima ao álbum de estreia.

*Estagiária do R7, sob supervisão de Camila Juliotti