Fiz aborto, e daí? 

A batalha pelo fim do estigma ganha força nas redes sociais 

  • R7 Meu Estilo | Deborah Bresser, Do R7

Milhares de mulheres compartilharam suas histórias de aborto no Twitter

Milhares de mulheres compartilharam suas histórias de aborto no Twitter

Reprodução/Twitter

— A gravidez é o que acontece, por vezes, quando as pessoas fazem sexo sem preservativo. E um aborto é o que acontece quando uma mulher fica grávida e não quer procriar. Isso, se ela tiver sorte. Eu fiz um aborto a cinco quadras do meu apartamento, na Planned Parenthood, porque eu sou muito sortuda. Lembro-me desta experiência com nada além de gratidão.

Amelia Bonow, a norte-americana autora deste depoimento, foi a mulher que desencadeou, depois de uma postagem no Facebook, um movimento mundial para que as mulheres revelassem suas histórias de aborto. Usando a hashtag #ShoutYourAbortion (grite seu aborto, em português), o engajamento foi imediato, mobilizando mais de 100 mil pessoas. 

O movimento, que foi motivado pela proposta do Senado americano para retirar financiamento do grupo de saúde feminina Planned Parenthood (que realiza abortos legalmente), serviu para dar luz a uma realidade que existe, está aí, mas da qual ninguém fala: mulheres fazem abortos todos os dias, em todas as partes do mundo. 

Isso ficou claro nas histórias reveladas no Twitter. Há mulheres casadas, que optaram pelo aborto por já terem filhos demais. Outras, por serem muito jovens para ser mães. Algumas, por não querer colocar a maternidade na frente da carreira. E muitas outras que se disseram vítimas de violência sexual. Em comum, a completa ausência do desejo de ter aquele filho. 

Amelia defendeu o direito ao aborto

Amelia defendeu o direito ao aborto

Reprodução/Facebook

O pré-julgamento feito com as mulheres que abortam é generalizado. "Você estava sendo cuidadosa ou não? Queria deixar o cara ejacular em você? Você sabia que ele ia fazer? Por que você não tomou a pílula do dia seguinte? Você estava se relacionando com mais de uma pessoa? Sabe de quem era? Você estava perdida? É este o seu primeiro aborto ou o seu terceiro?" Para Amelia, nada disso importa.

Ela fez questão de revelar que sua decisão, acatada por seu namorado, pois encontrou amparo em um centro de atendimento em Nova York. Ela acredita que a retirada do financiamento proposto pelos políticos americanos pode ameaçar esse acolhimento, que, para ela, foi fundamental. O que é preciso, em sua opinião, é falar sobre o assunto. 

— Muitas vezes, as mulheres precisam dar detalhes das circunstâncias em que fizeram o aborto, como uma justificativa para o procedimento. Às vezes, quando uma mulher conta sua história, é como se dissesse: "por favor, continue a me respeitar, embora eu tenha feito o aborto que estou prestes a te contar, porque não era o tipo ruim de aborto e eu não sou uma mulher má."

Filhos dos estupros 

No Brasil, onde o aborto é crime, punido com até três anos de prisão, o estigma pode se transformar em cadeia. Mulheres que se submeteram a abortos, mesmo nos casos em que a lei permite, amargam histórias deprimentes.  

A engenheira química Ana Eufrásio, hoje com 44 aos, vai transformar em livro suas tristes lembranças. Estuprada aos 19 anos, Ana tomou um comprimido abortivo, escondida da família e dos amigos. 

— Assim que descobri, tinha pesadelos durante à noite, de que eu estava abrigando um demônio dentro de mim. Não conseguia dormir. 

A gravidez resultante de estupro é um dos casos em que procedimento de interrupção da gestação é considerado legal e, somente nestes casos, pode ser realizado em todos os estabelecimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) que possuem serviço de obstetrícia. Os outros são quando não há outro meio de salvar a vida da mulher e nos casos de diagnóstico de anencefalia fetal. 

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Para realizar a interrupção legal da gestação, o estabelecimento deve seguir normas técnicas, cabendo ao gestor de saúde municipal ou estadual organizar e garantir o atendimento profissional para realizar o procedimento. O ginecologista Thomaz Gollop, coordenador do Grupo de Estudos sobre Aborto, alerta que mesmo nos casos legalmente permitidos, o acesso aos serviços é difícil, pois há poucos lugares que realizam o procedimento no Brasil. 

De acordo com o Ministério da Saúde, em 2014, o SUS registrou 1.575 casos de abortos legais no Brasil. Em casos de abortamento, podem ser utilizadas as seguintes técnicas: curetagem, esvaziamento ou aspiração manual intra-uterina (AMIU) e medicamentosa (com o uso do medicamento Misoprostol). Essas três técnicas são usadas individualmente ou combinadas, conforme a necessidade da paciente, não sendo necessária a informação sobre o que ocasionou o abortamento para a assistência à mulher.

Ana Eufrásio fez aborto após ser estuprada

Ana Eufrásio fez aborto após ser estuprada

Reprodução/Facebook

Ana Eufrásio não sabia de nada disso. Não teve nenhum tipo de amparo ou acompanhamento. E, para piorar, anos depois, já casada, engravidou. No entanto, enfrentou um aborto espontâneo, quando então foi vítima de violência obstétrica. A culpa e a tortura a que foi submetida comprometeram para sempre seu desejo de ser mãe. 

— Eu estava com meu companheiro, com quem sou casada há 17 anos, e acabei sofrendo um aborto espontâneo. Fui para o hospital para tentar segurar a gravidez, mas não foi possível. Fui literalmente torturada, fizeram a curetagem sem anestesia, foi a sangue frio. Achavam que eu tinha provocado aquele aborto e merecia ser castigada por isso. Hoje tenho pânico de pensar em gravidez.

Por conta de todas  as experiências que viveu, Ana Eufrásio é a favor do aborto por escolha da mulher, e pela descriminalização. 

— É preciso que ela seja assistida e tenha um tratamento humanizado. Nenhuma mulher merece passar pelo que eu passei.

De acordo com o levantamento realizado pela pesquisadora Debora Diniz, da Universidade de Brasília e do Instituto de Bioética Anis, entre as brasileiras até 49 anos de idade, uma em cada cinco já recorreu a um aborto inseguro na vida. De acordo com os estudos, a maioria dessas mulheres é casada, católica e tem profissão. Uma estimativa de 2013, realizada a partir do número de internações do SUS por abortamento induzido pelo professor Mario Monteiro, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, aponta que pelo 700 mil abortos são realizados anualmente no Brasil.

O dr. Thomaz Gollop pondera que o argumento de que a mulher que faz aborto é irresponsável é um total absurdo.

— Nenhuma mulher faz aborto assoviando, como se não fosse nada. No entanto, ter um filho é um projeto de vida e afetivo para décadas, e isso a mulher tem de saber se tem condições de assumir. A maternidade e a paternidade são questões de direito indivudual, que devem ser decididos de acordo com seus princípios e suas condições de vida. Infelizmente, o aborto inseguro é a quinta causa de morte materna no Brasil. E a primeira causa em Salvador.

Políticos querem punir profilaxia da gravidez 

O Brasil, entretanto, na contramão do mundo, vê tramitar no Congresso Nacional um projeto  que coloca em risco a interrupção legal de uma gravidez resultante de violência ). O projeto Projeto de Lei 5.069, de 2013, de autoria do presidente da casa, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) altera a Lei 12.845, de 2013, que dispõe sobre atendimento a vítimas de violência sexual, excluindo o item que possibilita que a mulher receba contraceptivos de emergência para evitar uma gravidez em caso de estupro — a chamada profilaxia da gravidez.

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A proposta retira do atendimento obrigatório a profilaxia da gravidez, que consiste na indicação da chamada pílula do dia seguinte. A justificativa está no entendimento equivocado de que a contracepção de emergência é aborto. O Ministério da Saúde já divulgou cartilhas explicativas em que nega essa possibilidade, esclarecendo que “não existe qualquer sustentação científica para afirmar ou fazer suspeitar que a anticoncepção de emergência seja método que resulte em aborto, nem mesmo em percentual pequeno de casos”.

O dr. Thomaz Gollop diz que achar que a pílula do dia seguinte é um método abortivo revela absoluto desconhecimento de como ela funciona.

— Proibir é um absurdo completo, pura ignorância. A pílula do dia seguinte inibe a ovulação, por isso deve ser tomada até o quinto dia após a relação sem proteção. O medicamento também altera o muco do colo do útero, protegendo a mulher de uma gravidez indesejada.

O projeto, que está em debate na Comissão de Constituição e Jusitça, já está causando polêmica, uma vez que muda o Código Penal e determina pena de prisão de cinco a dez anos  ao médico, farmacêutico ou enfermeiro que induza, convença, faça propaganda e oriente as mulheres a interromper a gravidez.

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