Músicas em homenagem aos esquecidos da cidade

Em Adoniran - Meu Nome É João Rubinato, o diretor Pedro Serrano aborda um personagem singular, tido como uma espécie de signo proletário de São Paulo. Rubinato era filho de imigrantes italianos pobres. Exerceu mil atividades durante a vida, de entregador de marmitas a cômico, ator, compositor, e, por fim, ícone maior da paulistanidade.

Adoniran Barbosa soube, como nenhum outro, enxergar a dura poesia concreta escondida nos cantos da metrópole cinza e indiferente. Conforme conta o produtor musical Pelão, ele, já famoso, gostava de entrar pelos cortiços do Bexiga, seu bairro de eleição, "para ver as pessoas". Falar com elas, ver como estavam, como tocavam suas vidas difíceis. Reencontrava o material de inspiração de sambas melancólicos como Iracema, Pode Apagar o Fogo, Mané, Saudosa Maloca e outros tantos.

Outro depoimento pungente é o do artista gráfico Elifas Andreato, que criou a capa do disco comemorativo dos 70 Anos de Adoniran Barbosa - quando o compositor já não gozava da fama anterior e enfrentava dificuldades. Elifas desenhou o rosto de Adoniran como um palhaço com lágrimas nos olhos. Um executivo da gravadora disse ao artista que talvez Adoniran não entendesse a homenagem. Então Elifas bolou uma capa alternativa, mais convencional.

Tempos depois, disco pronto, recebe um telefonema do próprio Adoniran o repreendendo: "Elifas, eu sou mesmo aquele palhaço triste da primeira capa e não o alemão que você desenhou depois".

O filme desfaz por completo o mito de que Adoniran era apenas engraçado. Sob seu humor sardônico, a fala "errada" e italianada, o aparente descaso por temas fundamentais, havia toda uma preocupação com os desvalidos deste mundo, com os "vagabundos que não têm onde dormir", como diz a letra de um dos seus sambas. Os "vagabundos" continuam por aí, abandonados e hostilizados pela cidade ora indiferente ora agressiva. Foi endereçada a eles a poesia triste de Adoniran, que, esquecido em seus últimos anos, só voltou às manchetes ao morrer. Assim é o Brasil. Só valorizamos o que perdemos.

Bem, hoje talvez nem isso.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.