Pop Ferreira Gullar é eleito imortal pela Academia Brasileira de Letras

Ferreira Gullar é eleito imortal pela Academia Brasileira de Letras

A cadeira número 37 agora ocupada pelo poeta de 84 anos era de Ivan Junqueira

  • Pop | Do R7

Ferreira Gullar é o novo eleito imortal da ABL

Ferreira Gullar é o novo eleito imortal da ABL

AgNews

Ferreira Gullar foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras nesta quinta (9). Numa sessão com 19 dos 37 acadêmicos presentes, o poeta e tradutor maranhense obteve 36 votos. 18 membros votaram por correspondência, um voto foi em branco.

A cadeira número 37 agora ocupada pelo escritor de 84 anos era de Ivan Junqueira, que morreu no dia 3 de julho de 2014. Também já ocuparam o posto: Silva Ramos, fundador – que escolheu como patrono o poeta Tomás Antônio Gonzaga –, Alcântara Machado, Getúlio Vargas, Assis Chateaubriand e João Cabral de Melo Neto.

Concorriam com Gullar os escritores José William Vavruk e José Roberto Guedes de Oliveira, e o poeta Ademir Barbosa Júnior.

Gullar tem toda a sua obra poética editada pela José Olympio, que recentemente relançou seus títulos com novíssimo projeto gráfico. Entre os livros estão A luta corporal (1954), que influenciou toda uma geração; Poema Sujo (1976), considerado um marco da literatura brasileira e traduzido para diversas línguas; e Em alguma parte alguma (2010), que em 2011 ganhou o Prêmio Jabuti.

Veja o perfil de Ferreira Gullar divulgado pela ABL
Ferreira Gullar nasceu José de Ribamar Ferreira em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930, numa família de classe média pobre. Segundo o perfil da ABL, o escritor passou a infância "numa espécie de paraíso tropical e, quando chegou à adolescência, ficou chocado em ter que tornar-se adulto, e tornou-se poeta".

Com seus dezoito anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero-Recreativo, onde, aos domingos, havia leitura de poemas. Descobriu a poesia moderna apenas aos dezenove anos, ao ler os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Tornou-se um poeta experimental radical, que tinha como lema uma frase de Gauguin: “Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés”.

"Eu queria que a própria linguagem fosse inventada a cada poema", diria ele, sobre seus poemas. E assim nasceu o livro que o lançaria no cenário literário do país em 1954: A Luta Corporal.

Os últimos poemas deste livro resultam de uma implosão da linguagem poética, e provocariam o surgimento na literatura brasileira da “poesia concreta”, de que Gullar foi um dos participantes e, em seguida dissidente, passando a integrar um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto.

O movimento neoconcreto surgiu em 1959, com um manifesto escrito por Gullar, seguido da Teoria do não-objeto, estes dois textos fazem hoje parte da história da arte brasileira, pelo que trouxeram de original e revolucionário. São expressões da arte neoconcreta as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, hoje nomes mundialmente conhecidos.

Gullar, por sua vez, levou suas experiências poéticas ao limite da expressão, criando o livro-poema e, depois, o poema espacial ,e, finalmente, o poema enterrado. Este consiste em uma sala no subsolo a que se tem acesso por uma escada; após penetrar no poema, deparamo-nos com um cubo vermelho; ao levantarmos este cubo, encontramos outro, verde, e sob este ainda outro, branco, que tem escrito numa das faces a palavra “rejuvenesça”.

O poema enterrado foi a última obra neoconcreta de Gullar, que afastou-se então do grupo e integrou-se na luta política revolucionária. Entrou para o partido comunista e passou a escrever poemas política e participar da luta contra a ditadura militar que havia se implantado no país, em 1964. Foi processado e preso na Vila Militar. Mais tarde, teve que abandonar a vida legal, passar à clandestinidade e, depois, ao exílio. Deixou clandestinamente o país e foi para Moscou, depois para Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires. Voltou para o Brasil em 1977, quando foi preso e torturado. Libertado por pressão internacional, voltou a trabalhar na imprensa do Rio de Janeiro e, depois, como roteirista de televisão.

Durante o exílio em Buenos Aires, Gullar escreveu Poema Sujo – um longo poema de quase cem páginas – que é considerado a sua obra-prima. Este poema causou enorme impacto ao ser editado no Brasil e foi um dos fatores que determinaram a volta do poeta a seu país. Poema Sujo foi traduzido e publicado em várias línguas e países.

De volta ao Brasil, Gullar publicou, em 1980, Na vertigem do dia e Toda Poesia, livro que reuniu toda sua produção poética até então. Voltou a escrever sobre arte na imprensa do Rio e São Paulo, publicando, nesse campo, dois livros Etapas da arte contemporânea (1985) e Argumentação contra a morte da arte (1993), onde discute a crise da arte contemporânea.

Outro campo de atuação de Ferreira Gullar é o teatro. Após o golpe militar, ele e um grupo de jovens dramaturgos e atores fundou o Teatro Opinião, que teve importante papel na resistência democrática ao regime autoritário. Nesse período, escreveu, com Oduvaldo Vianna Filho, as peças Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e A saída? Onde fica a saída? De volta do exílio, escreveu a peça Um rubi no umbigo, montada pelo Teatro Casa Grande em 1978.

Mas Gullar afirma que a poesia é sua atividade fundamental. Em 1987, publicou Barulhos e, em 1999, Muitas Vozes, que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano. Em 2002, foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.

Veja o que já foi dito sobre Ferreira Gullar

"Gullar é o último grande poeta brasileiro", Vinícius de Moraes, poeta

"Ferreira Gullar se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua porque nelas não cabiam a fúria e a intensidade daquilo que se dispôs a expressar", Ivan Junqueira, antecessor de Gullar na cadeira 37

"Gullar é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje", Sérgio Buarque de Holanda, historiador.
 

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