Pop 'Gauchália rock’n’roll' era sonho de Júpiter Maçã, diz ex-cascavellete

'Gauchália rock’n’roll' era sonho de Júpiter Maçã, diz ex-cascavellete

Ele desejava unir tropicália com rock gaúcho, afirma Frank Jorge; colegas do 'Man' dizem o que ele estaria fazendo se estivesse vivo

  • Pop | Lucas Nanini, do R7, em Brasília

O músico Júpiter Maçã durante show

O músico Júpiter Maçã durante show

André Peniche/Divulgação

Flávio Basso tinha uma forte marca musical, mas transitou por diversos gêneros ao longo da carreira. Mesmo quem o acompanhava mais de perto tinha dúvidas sobre qual seria seu próximo passo na música. Do rock básico à bossa nova, da psicodelia ao eletrônico, ele desenvolveu trabalhos tão distintos, que poucas vezes se viu na discografia de um artista. Passados seis anos desde a morte dele, os fãs se perguntam: o que estaria fazendo Júpiter Maçã, que completaria 54 anos nesta quarta-feira (26), se estivesse entre nós? Frank Jorge, ex-colega de Cascavelletes, acredita que uma das coisas que ele tentaria fazer seria criar a "gauchália rock'n'roll", uma mistura de tropicália com rock gaúcho.

Se nos tempos de TNT e Cascavelletes, a música de Flávio tinha os pés fincados no rock básico, emulando Chuck Berry, Beatles, Elvis Presley e Rolling Stones, a partir da criação do alter ego Woody Apple, no começo dos anos 1990, iniciou-se uma trajetória repleta de referenciais de variadas vertentes, indo de Bob Dylan a João Gilberto, passando por Doors, Stereolab, Byrds e, claro, Syd Barrett.

Não demorou muito para Woody Apple se transformar em Júpiter Maçã e logo de cara fazer dois de seus registros mais celebrados por crítica e público: a fita-demo com os Pereiras Azuiz, em 1995, e o álbum de estreia na carreira solo, o seminal Sétima Efervescência, em 1996/1997. A partir de então, Flávio não parou mais de apontar para diversas direções, ainda que sempre com um toque pessoal.

Imaginário próprio

Frank Jorge conta que quando viu Júpiter pela primeira vez no palco notou que ele tinha algo diferente, que imprimia uma marca ao som que fazia e à performance. Ver Flávio no palco fazendo um rock inspirado nos anos 1950/1960, na contramão do que era mais vigente na época, a new wave, o punk e o pós-punk, foi "esclarecedor" para quem buscava uma identidade musical, declara Frank, que foi baixista dos Cascas.

O músico Flávio Basso, também conhecido como Júpiter Maçã

O músico Flávio Basso, também conhecido como Júpiter Maçã

André Peniche/Divulgação

"O cara não tinha uma mínima autocensura de dizer as coisas do jeito que ele tinha vontade, do jeito que ele imaginava. Isso foi para mim um superaprendizado", diz o músico. “Ele tinha um imaginário próprio de criação, não era um cara de ficar se abastecendo muito [de outros artistas]. Ele foi criando seu jeito. Por mais que pudesse soar Stones ou Bob Dylan, ele soava muito ele mesmo.”

Júpiter fazia canções um pouco ao modo do movimento antropofágico, do modernismo, absorvendo o que era feito fora para digerir e criar uma arte nova. Não é à toa que uma de suas inspirações foi a tropicália, o que se nota especialmente no álbum Uma Tarde na Fruteira, de 2006/2007.

'Sétima Efervescência', álbum de estreia de Júpiter Maçã em carreira solo

'Sétima Efervescência', álbum de estreia de Júpiter Maçã em carreira solo

Reprodução

Frank confidenciou ao R7 que Júpiter tinha vontade de desenvolver um trabalho que misturasse o movimento com a música produzida no Rio Grande do Sul. “Talvez um disco ‘gauchália rock’n’roll’, inspirado na tropicália. Ele gostava de Caetano, gostava de Mutantes. Isso é uma coisa que ele me contou uma vez.”

Flávio era mesmo um cara que gostava de arriscar e de se expressar como achava que devia, independentemente do que estivesse acontecendo na cena. Fosse pelo teor das letras ou pelo estilo de som, ele vivia intensamente cada fase e encarava as transformações de modo natural. Quando se desfez do Flávio Basso do TNT e Cascavelletes e abraçou o universo psicodélico, uma parte do público torceu um pouco o nariz.

'Efervescente Vida & Obra'

'Efervescente Vida & Obra'

Rafael Cony/Divulgação

“No Rio Grande do Sul, as pessoas estranhavam porque queriam ouvir músicas do TNT, dos Cascavelletes, e ele se recusava a voltar a ser o velho Flávio do TNT, dos Cascavelletes. Ele incorporou esse alter ego de Júpiter Maçã, essa coisa meio psicodélica, e a gente tinha esse aproach do power trio, meio The Who, de fazer uns improvisos. Ele estava num clima Syd Barret”, afirma Marcelo Gross, que foi baterista da banda do “Man” após as gravações da Sétima Efervescência.

Apesar do primeiro impacto, a plateia gaúcha logo compreendeu a mudança de rumo. Na terra de Júpiter ou em outros cantos do país, a audiência em torno do novo personagem foi se formando e se consolidando. E o resto virou história. “Foi muito interessante acompanhar as pessoas descobrindo esse disco”, diverte-se Gross.

O músico também tocou com Júpiter no álbum Plastic Soda, de 1999, que mostrava Flávio mesclando seu som com bossa nova. O CD todo gravado em inglês foi concebido depois que o artista viu um show de João Gilberto no teatro Araújo Vianna, no Parque Farroupilha (Redenção), em Porto Alegre.

Talvez um disco ‘gauchália rock’n’roll’, inspirado na tropicália. Ele gostava de Caetano, gostava de Mutantes. Isso é uma coisa que ele me contou uma vez

Frank Jorge, ex-Cascavelletes

Para Gross, fazendo rock ou flertando com outros gêneros, é certo que Júpiter apresentaria trabalhos interessantes se estivesse entre nós. “Ele estaria fazendo principalmente boas canções, que eram o forte dele, e é o que a gente mais sente falta dele, aquelas canções, aquelas maluquices, aquelas tiradas.”

Júpiter Maçã no palco; músico faria 54 anos nesta quarta (26)

Júpiter Maçã no palco; músico faria 54 anos nesta quarta (26)

André Peniche/Divulgação

Gross fala que o Man deixou um legado de ótimas composições, que mostram um artista inventivo que não se acomodava dentro de um padrão. “Às vezes se ressentia que as pessoas não entendiam o que ele estava fazendo, ou esperavam isso ou aquilo dele. Mas ele sabia que de uma forma ou outra o que fazia iria tocar as pessoas.”

Ele estaria fazendo principalmente boas canções, que eram o forte dele, e é o que a gente mais sente falta dele, aquelas canções, aquelas maluquices, aquelas tiradas

Marcelo Gross, ex-baterista de Júpiter Maçã

‘Oitava Efervescência’

Júpiter conhecia e apreciava a banda gaúcha Colarinhos Caóticos e um de seus integrantes, em particular. O contato com Egisto Dal Santo resultou no trabalho mais celebrado de Flávio, o álbum Sétima Efervescência. Egisto produziu, tocou instrumentos, fez backing vocals, dublou gnomos e mostrou um caminho para que a psicodelia de Júpiter se materializasse em CD.

Flávio Basso, o Júpiter Maçã

Flávio Basso, o Júpiter Maçã

Rafael Cony/Divulgação

O produtor conta que o músico queria que as gravações fossem como se eles estivessem em 1969 — ano seguinte ao nascimento de Júpiter e não por acaso citado na música Sociedades Humanoides Fantásticas, com a menção da chegada do homem à Lua.

“Aquilo ali é o som de verdade. A gente tirou o som de verdade, usamos pedais analógicos, nada computadorizado. Falei para ele: ‘Quer voltar pra 1969? Em 1969 não tem nada disso [equipamentos eletrônicos]’. Eu usei um eco EMT reverb com placa de ouro, que ninguém usava. O som da batera é aquilo ali, do jeito que soa mesmo. O som não tem cara de moderno, mas é som de verdade”, diz Egisto.

O produtor acredita que, apesar das constantes mudanças no rumo musical, Júpiter estaria buscando um meio-termo entre as coisas que fazia no início da carreira e elementos que foi descobrindo ao longo da trajetória. “Ele estaria na mesma procura de misturar o lado beatle com as coisas modernas.”

Falei para ele: ‘Quer voltar pra 1969? Em 1969 não tem nada disso [equipamentos eletrônicos]’. Eu usei um eco EMT reverb com placa de ouro, que ninguém usava. O som da batera é aquilo ali, do jeito que soa mesmo. O som não tem cara de moderno, mas é som de verdade

Egisto Dal Santo, produtor de 'Sétima Efervescência'

De inspiração a parceiro

Luiz Thunderbird é um dos maiores entusiastas da obra de Júpiter Maçã. Ele diz que sempre pensou que um cara como o Caetano Veloso pegaria o Júpiter pelo braço e o faria acontecer como artista da grande mídia. “Eu tinha esperança de chegar alguém e dizer ‘vou abraçar esse cara e mostrar ao Brasil’. As pessoas ainda vão descobrir o Júpiter”, afirma.

A admiração pelo “Man” veio muito antes da parceria entre os dois — Thunderbird escreveu com Flávio e produziu a canção Modern Kid e também tocou baixo na banda dele. Thunder diz que foi a um show dos Cascavelletes em São Paulo em que se pegou pensando se deveria mesmo levar a música a sério. “Foi muito marcante para mim, aquele cara meio Mick Jagger, com aquela energia toda, era rock explícito. Ali eu pensei ‘ou a gente aprende a tocar ou vou acabar com essa banda’.”

Júpiter durante a gravação de 'Modern Kid'

Júpiter durante a gravação de 'Modern Kid'

André Peniche/Divulgação

O baixista considera Júpiter um dos maiores e mais criativos nomes do rock nacional, com uma compreensão musical muito forte. Esse traço foi percebido na estrada e também no processo de criação das canções, nos ensaios e nas gravações.

“A gente fez Modern Kid no mesmo dia em que a gente fez a conta no Twitter. Fizemos juntos. Foi sem intenção de fazer uma obra. Eu encontrei com ele na Oscar Freire [rua de São Paulo], tomamos muitos cafés, rolou muita conversa sobre cinema. Ele pegou o violão e em uma hora fizemos a música. Foi lindo. E eu ainda tive a honra de produzir”, conta Thunder.

O baixista manifestou o desejo de retomar a “Orquestra Jupiteriana”, um projeto em tributo à obra de Flávio Basso, reunindo pessoas que participaram da trajetória dele ao longo dos anos. “Quero montar de novo com o Tatá Aeroplano, chamar o Felipe Maia para tocar batera, outros caras que conheceram o Júpiter. Eu vou retomar a Orquestra Jupiteriana para fazer uma celebração da obra do Júpiter. Aguardem”, promete.

Foi muito marcante para mim, aquele cara meio Mick Jagger, com aquela energia toda, era rock explícito. Ali eu pensei ‘ou a gente aprende a tocar ou vou acabar com essa banda’

Luiz Thunderbird, músico

‘Cheiro do novo’

Um dos amigos de palco e estúdio de Júpiter, que também virou produtor dele, é Lucas Hanke, que acompanhou Flávio durante oito anos, participando também como membro da “banda” do Man na curta temporada de Júpiter Maçã Show, que foi ar pela MTV. Para ele, Flávio estava à frente do seu tempo e sempre “pescando tendências”. “Ele adorava o cheiro do novo”, afirma.

Júpiter em sessão de fotos em 2009

Júpiter em sessão de fotos em 2009

André Peniche/Divulgação

Ao lado do diretor e fotógrafo André Peniche, Hanke foi o responsável por levar às plataformas digitais a famosa fita-demo com os Pereiras Azuiz. Ele também está à frente do “Júpiter Day”, evento em homenagem ao Man que acontece tradicionalmente em Porto Alegre no dia do aniversário de Flávio. Neste ano, a edição foi adiada para 17 de junho devido ao aumento nos casos de Covid-19. A programação com exposições e shows acontecerá no Teatro Opinião, em Porto Alegre.

Sobre o que Flávio estaria fazendo se estivesse vivo, Hanke diz pensar que ele poderia refletir sobre o passado e apontar para o futuro, sem medo de ousar. “Acho que ele estaria novamente no mergulho em tropicália psicodélica do Tarde na Fruteira com pitadas de eletrônico futurista do Hisscivilization”.

André Peniche, que tem abastecido as plataformas digitais com obras de Júpiter, reunido “singles soltos” e versões alternativas para uploads oficiais na rede, diz acreditar que o músico poderia estar em um “novo ressurgimento”, “fazendo as coisas um pouco mais no trilho”, “com a cabeça no lugar, um pouco mais feliz”.

“Eu vejo o quão legal é essa iniciativa de subir as músicas nas plataformas digitais. Quanta gente descobriu o Júpiter desde que a gente começou a pôr a casa em ordem. Acho que isso teria dado um gás à carreira dele”, declara.

Arte/R7

‘Casa de mamãe’

Júpiter Maçã sempre falou de sua mãe, Iara Suessenbach, como uma de suas inspirações. O violão que ela tocava em casa aguçou a curiosidade do pequeno Flávio — que chegou a colocá-la como tão influente em sua vida quanto John Lennon, Paul McCartney e Ray Davies (The Kinks). Ela ainda ganhou, ainda que como “cenário”, uma menção na canção Casa de Mamãe, do álbum Uma Tarde na Fruteira.

“Eu tocava violão (na verdade, arranhava) e cantava. Na época era bem afinada, e ele ficava me ouvindo do quarto dele. Somente anos mais tarde foi que me contou isso, disse que adorava ficar me ouvindo”, falou Iara.

Júpiter e a mãe, Iara Suessenbach

Júpiter e a mãe, Iara Suessenbach

Iara Suessenbach/Acervo Pessoal

A mãe do músico reconhece que o trabalho do filho não era tão dentro dos padrões, mas que entendeu o que o filho queria expressar. “No início, pouco depois da sua adolescência, aquelas músicas com letras fora do convencional me deixavam meio surpresa e pensativa, pois sou do tempo antigo [risos]. Mas aos poucos fui me acostumando e amo suas músicas.”

Entre as composições preferidas do filho, Iara cita Beatle George, Mademoiselle Marchand, A Marchinha Psicótica do Dr. Soup, Lobo da Estepe e Sob um Céu de Blues, as duas últimas do repertório dos Cascavelletes.

A versatilidade musical de Flávio pode ter nascido a partir do que ouvia com a mãe. Segundo Iara, quando ele tinha 12 anos ficava ouvindo o repertório que ela colocava em casa, que tinha músicas românticas e italianas, samba, temas de novelas, valsa e trilhas de filmes, entre outros. Iara não deixa de citar os Beatles, a banda mais amada de Júpiter. “Sim, ele adorava Beatles, inclusive aprendeu inglês lendo livros em inglês sobre a vida deles.”

Iara se diz agradecida pelo trabalho do filho, pelo reconhecimento que ele teve. Ela também afirma que tem orgulho de ser a “mãe do Júpiter” e que tentou lutar para que ele vencesse o alcoolismo. “Lutei o máximo que me foi permitido para ajudá-lo, mas infelizmente ele não conseguiu vencer a doença. Mas isso em nada atrapalhou a admiração que tive por ele, como artista (compositor e cantor) e também como ser humano e como filho. Ele foi um filho maravilhoso.”

Assim como Iara, os fãs de Flávio Basso compreendem a personalidade do músico, o admiram cada vez mais, não se cansam de ouvir e revisitar a obra dele e estão sempre ávidos por novidades. Neste aniversário do “Man”, eles provavelmente estão se perguntando: o que Júpiter Maçã estaria fazendo se estivesse entre nós?

André Peniche e Júpiter Maçã durante gravação da música 'Modern Kid'

André Peniche e Júpiter Maçã durante gravação da música 'Modern Kid'

Edu Cesar/Divulgação

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