Domingueira Em 2021, o aniversário de duas obras-primas da música negra

Em 2021, o aniversário de duas obras-primas da música negra

Marvin Gaye (1971) e Stevie Wonder (1976) lançaram álbuns que figuram entre os melhores de todos os tempos. E marcaram uma das eras de ouro da música negra dos EUA

  • Domingueira | Do R7

Duas obras-primas que nos acompanham há 50 e 45 anos, respectivamente

Duas obras-primas que nos acompanham há 50 e 45 anos, respectivamente

Arte R7

Listas de "melhores" são sempre polêmicas e nunca estão imunes a críticas. Se o tema for música e a pretensão for escolher "os melhores de todos os tempos", o perigo será ainda maior. Mas nós gostamos dessas listas, mesmo que seja para falar mal delas. Por isso, elas são inevitáveis.

A revista Rolling Stone faz uma das mais respeitadas listas de "melhores álbuns de todos os tempos". A primeira edição foi divulgada em 2003, e teve uma atualização em 2013. Só que, em 2020, a revista resolveu refazer sua lista do zero. Pediu que 300 artistas, produtores, críticos e pessoas da indústria musical fizessem sua lista pessoal de 50 melhores álbuns. Compilou o resultado e fez a lista com os 500 mais bem colocados.

Dois álbuns do topo da lista são obras-primas da música negra dos Estados Unidos. Um foi lançado em 1971, o mesmo ano de lançamento de Maggot Brain (Funkadelic), There's a Riot Goin' On (Sly and the Family Stone), Shaft (Isaac Hayes), Just as I Am (Bill Withers), Roots (Curtis Mayfield) e Pieces of a Man (Gil Scott-Heron). O outro, em 1976, ano de I Want You (Marvin Gaye) e Look Out for #1 (Brothers Johnson).

O primeiro álbum de que estamos falando é What's Going On, de Marvin Gaye. Que é, também, o primeiro lugar na lista da revista Rolling Stone. Sim, isso quer dizer que é considerado o melhor álbum musical de todos os tempos pelos votantes da lista.

Você pode perguntar: merece? Eu sugiro que você o ouça, caso ainda não o conheça. Agora que todos os álbuns estão a nosso dispor nos aplicativos, a qualquer momento, ouça correndo. Você não vai se arrepender, mesmo se discordar da lista da RS. Mas, respondendo à sua pergunta: para mim, merece. Na minha lista pessoal, está na mesma posição.

Para gravar esse álbum, Marvin Gaye comprou briga com a gravadora Motown. Berry Gordy, dono da gravadora, queria mais um álbum de músicas românticas, de preferência com duetos, como os anteriores de Marvin. O cantor sentiu que o momento do país – em meio à Guerra do Vietnã e ao movimento pelos direitos civis dos negros – merecia algo diferente.

Marvin vivia ainda um momento de crise pessoal, depois da morte de Tammi Terrel, em 1970. Sua companheira em vários duetos de sucesso, Tammi não resistiu após oito cirurgias para combater um câncer no cérebro. A perda da sua parceira de Ain't No Mountain High Enough, entre outras canções, fez Marvin se recolher e só voltar a se apresentar ao vivo em 1972.

What's Going On é um álbum conceitual, que fala de brutalidade policial, guerra, vício em drogas e, de maneira pioneira, devastação ecológica. Tudo embalado por orquestrações sofisticadas, conversas, barulhos de estúdio e mistura de múltiplos efeitos vocais do próprio Marvin Gaye. Jazz, gospel e soul convivendo nas mesmas faixas. Um deleite, para ser ouvido do começo ao fim.

O outro álbum-tema deste artigo é Songs in the Key of Life, de Stevie Wonder. O quarto na lista da revista Rolling Stone. Superado por (além do álbum de Marvin Gaye) discos de Beach Boys (Pet Sounds) e Joni Mitchel (Blue). Ou seja, dois álbuns de rock. O lançamento de Stevie Wonder em setembro de 1976 é, portanto, o segundo melhor álbum de música negra de todos os tempos.

Assim como Marvin Gaye antes de What's Going On, Stevie Wonder vivia um momento de crise pessoal. Apesar de vir de três grandes sucessos comerciais seguidos (Talking Book, InnervisionsFulfillingness' First Finale) e de ter se tornado um dos maiores nomes da indústria musical dos Estados Unidos, Stevie anunciou em 1974 que pretendia abandonar a carreira. 

O cantor, compositor e multi-instrumentista chegou a planejar um concerto de despedida. Ele pretendia, depois de se aposentar, ir para Gana, na África, para trabalhar com crianças com deficiência. Mas em agosto de 1975 tudo mudou. Stevie Wonder assinou com a gravadora Motown o maior contrato da história da música até aquele momento. O contrato previa sete álbuns, em sete anos, por 37 milhões de dólares. Além do dinheiro, o documento garantia ao artista liberdade criativa absoluta.

Cento e trinta pessoas trabalharam nesse álbum. Entre elas, nomes como Herbie Hancock, George Benson, Minnie Ripperton e Mike Sembello. Mas o grande nome do álbum é o próprio Stevie Wonder, que fez sessões intermináveis de gravação e chegou a refazer, ele mesmo, trechos gravados por outros músicos que não lhe haviam agradado.

Songs in the Key of Life tem algumas canções clássicas do artista, como Isn't She Lovely, Sir Duke, I Wish e As. É um álbum quádruplo, que ainda veio com um EP extra, com, entre outras faixas, Ebony Eyes. Stevie Wonder ganhou, em 1976, os prêmios Grammy de álbum do ano, melhor performance vocal pop, melhor performance vocal de R&B e produtor do ano.

Neste finzinho de 2021, nossa sugestão é que você comemore esses dois aniversários. Os 50 anos de What's Going On e os 45 anos de Songs in the Key of Life merecem a festa. E você merece ter esse prazer. E, no caso de querer mais algumas dicas, na galeria abaixo estão alguns outros bons discos de música negra que foram lançados nesses mesmos anos.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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