ONGs criam programa UFMT em prol das minorias

Visando o bem estar das minorias que, somadas, já formam a maioria, ONGs oficializam novo programa

Visão aérea de uma comunidade (ou favela?)

Visão aérea de uma comunidade (ou favela?)

Tom Fisk/Pexels

O programa Uma Fala Muda Tudo já vinha sendo testado há décadas e, devido ao grande sucesso, agora se tornou oficial. Diversas organizações não governamentais – que trabalharam incansavelmente nos últimos anos para dividir a imensa população brasileira em pequenos grupos minoritários – se uniram para lançar o programa que promete proteger seus frágeis e indefesos membros.

De agora em diante, todas as pessoas que não aderirem à nova fala serão devidamente canceladas, pois estarão violando os termos inclusivos, tolerantes, diversos e politicamente corretos, o que é inaceitável em pleno século 21. Para estar por dentro da nova língua, seguem as principais adequações:

•  Mendigos
Correto: pessoas em situação de rua
Motivo: embora mendigo signifique pessoa que pede esmola, que vive da caridade alheia, é constrangedor chamá-lo assim. Dá a impressão de que ele não tem como se sustentar.
É errado chamar moradores de rua de “moradores de rua”, pois rua não é moradia, portanto, não se pode morar em algo que não tenha sido feito para tal finalidade, embora eles morem lá. Ao chamá-los de pessoas em situação de rua eles ficarão muito mais felizes e orgulhosos de permanecerem exatamente onde estão. Assim, todos poderão ignorá-los sem nenhum peso na consciência.

• Empregada doméstica
Correto: secretária do lar, pessoa que ajuda lá em casa, anjo da guarda ou a moça que limpa minha casa
Motivo: referir-se a uma pessoa que foi empregada para trabalhar em um local doméstico (não comercial) de “empregada doméstica” é ofensivo. Ninguém deve ser chamado de empregado, embora esteja empregado enquanto milhões de desempregados dariam tudo para serem chamados assim. Aliás, desempregado não, pessoa em situação de desemprego.

• Criado-mudo
Correto: mesa de cabeceira
Motivo: conta-se que na época da escravidão, escravos passavam a noite silenciosamente à cabeceira de seus senhores, velando seu sono. Após a abolição, o escravo foi substituído por um móvel ao lado da cama, significando que não havia mais um ser humano ali e que ninguém deveria ficar acordado a noite toda enquanto os outros dormiam. O móvel que lembrava a todos da liberdade que todos devem ter, demonstrando a insanidade da escravidão, em algum momento da história, tornou-se símbolo de desrespeito para com os descendentes dos escravos – que nunca foram escravos – e que deveriam ficar felizes em ter um objeto em praticamente todos os lares em memória das atrocidades feitas com seus antepassados. Chame de mesa de cabeceira ainda que seja um gaveteiro, não importa que não faça o menor sentido, afinal, alguma coisa nessa história faz?

• Favela
Correto: comunidade
Motivo: favela significa área urbana caracterizada por moradias precárias e infraestrutura de urbanização deficitária. Ou seja, não descreve de modo algum o local que possui moradias precárias e infraestrutura de urbanização deficitária. Já o termo comunidade, que significa concordância, harmonia, noções abstratas comuns a diversos indivíduos é muito mais assertiva. 

• Pobre
Correto: humilde
Motivo: pobre significa desprovido ou mal provido do necessário, de poucas posses, que não tem recursos próprios, logo, como poderia descrever a pessoa que é desprovida do necessário, de poucas posses, que não tem recursos próprios? Portanto, ainda que o pobre seja orgulhoso, o correto é chamá-lo de humilde.

• Todos
Correto: todes
Motivo: a palavra “todos” na Língua Portuguesa já é um termo neutro que engloba homens e mulheres, logo, não daria margem para nenhuma discussão, o que é inaceitável. Por isso o termo “todes” foi criado, assim, todos (ou seria “todes”?) serão obrigados (ou seria “obrigades”?) a usar uma palavra que não existe em substituição de uma que atendia perfeitamente à proposta de incluir a todos, ou melhor, “todes”. Enfim... basta usar “es” no final das palavras que já são neutras para que elas se transformem em, digamos, “super hiper master neutras”. Mas nada de usar “mulheres” e “rapazes”, seus “espertinhes”, não venha avacalhar tudo com jeitinho brasileiro!

A nova língua tem uma infinidade de termos que não caberiam aqui, portanto, não “seje preguiçose” e pesquise cada um deles para se tornar uma “pessoe muite” melhor.

Esta crônica é uma ficção, mas poderia não ser...

Últimas