Odair Braz Jr 20º disco de Bruce Springsteen tem emoção e perfeição roqueira

20º disco de Bruce Springsteen tem emoção e perfeição roqueira

Letter To You, gravado em apenas quatro dias, será lançado nesta sexta-feira (23) e traz o Boss mais roqueiro do que nunca

  • Odair Braz Jr | Do R7

Springsteen na foto que ilustra a capa do novo álbum

Springsteen na foto que ilustra a capa do novo álbum

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Todos os meses ou semanas há artistas lançando seus discos e músicas. Normal. E então chega aquele dia em que alguém como Bruce Springsteen lança seu novo trabalho. Aí é um evento totalmente diferente e não tem como não dar uma parada para saber o que é exatamente aquilo que está na sua frente. Afinal, é Bruce. É lenda da música americana e do rock.

Springsteen está por aí, como um profissional da música, desde 1973, lançado discos fundamentais – alguns deles estão entre os melhores da história do rock – e fazendo turnês das mais celebradas. Incansável há 47 anos, o músico libera nesta sexta (23), seu 20º álbum chamado Letter To You. São doze canções gravadas em apenas quatro dias, no final de 2019, com seus companheiros da E. Street Band. E, veja bem, todas as canções foram gravadas com todos os músicos tocando juntos ao vivo, numa tacada só. Não houve regravações e nem adicionou-se outros instrumentos posteriormente. Bruce queria assim para mostrar a E. Street, que o acompanha desde os anos 70, em toda sua glória e potência. E, dá para dizer, o bicho pega.

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Letter To You, é bom que se diga, é um disco de rock puro, direto, sem muito espaço para divagações sonoras. Sim, é rock, aquele senhor moribundo que muita gente já diz até estar morto. Mas aí, é ouvir as canções desse disco para descobrir que a história não é bem assim. Springsteen, aos 71 anos, consegue dar significado profundo em suas letras e urgência e delicadeza nos arranjos. Ao mesmo tempo em que pesa a mão em alguns momentos, também sabe ser suave.

O artista sempre fez rock, claro. Todo mundo sabe disso. Seus álbuns mais recentes como Magic (2007), Working On A Dream (2009), Wrecking Ball (2012) e High Hopes (2014) são roqueiros, mas há momentos em que a coisa não flui exatamente bem. Há umas digressões em algumas faixas, uns pequenos desvios aqui e ali. O que muita gente também gosta, diga-se, mas são variações em cima do tema. E aqui não é preciso nem citar Western Stars, trabalho de 2019 em que Springsteen toca junto com uma pequena orquestra e sem a E. Street Band.

Em Letter To You, Bruce fala sobre amor, coragem, amizades e perdas

Em Letter To You, Bruce fala sobre amor, coragem, amizades e perdas

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Em Letter To You os desvios não acontecem. É como se Bruce tivesse juntado num disco só todas as suas grandes qualidades como músico. Tem ótimas letras, a banda toca como nunca, há detalhes característicos do som de Springsteen e uma pegada crua, diretona, sem penduricalhos.

TEMAS

E o interessante disso tudo, é que Bruce usa essa urgência e crueza do rock para falar de assuntos delicados como envelhecer, perdas, amizade e espiritualidade. É, nesse sentido, um disco que versa sobre questões importantes pelas quais o músico passa nessa altura de sua vida.

A música que abre o disco, One Minute You’re Here, dá o tom do que se pode esperar. “O trem preto vem pelo trilho / Assobiando seu apito longamente / Num minuto você está aqui / No próximo já se foi” diz a letra. Last Man Standing segue por esse mesmo caminho e é uma música que Bruce fez quando soube da morte de George Teiss, que foi seu companheiro em sua primeira banda, The Castiles. Springsteen é o último integrante desse seu antigo grupo que ainda está vivo. I’ll See You In My Dreams fala um pouco sobre despedida, sobre o desejo de se encontrar novamente com alguém que se foi.

Esses assuntos todos, de perda e solidão, permeiam essas e outras faixas. Ou seja, há um certo tom melancólico em parte do álbum, mas que surgem através de músicas energéticas, com refrões fortes e Bruce cantando como nunca e como se não tivesse a idade que tem. Você simplesmente não percebe que quem canta ali é alguém com 71 anos. Não faz a menor diferença a idade dele aqui.

A capa do novo disco

A capa do novo disco

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Em Ghosts, música lançada na internet há dois meses, o músico canta “Vivo, posso sentir o sangue nos meus ossos / Eu estou vivo e estou aqui / Estou vivo e voltando para casa”. Dá para imaginar a emoção e o poder desta canção num concerto de Bruce com milhares de pessoas. Ghosts nasceu para ser tocada ao vivo, lugar onde o músico é insuperável.

Veja o clique de Ghosts:

Ao longo do disco, Bruce fala ainda sobre espiritualidade (The Power of Prayer), enganadores (Rainmaker), Trump (House Of A Thousand Guitars), fé (If I Was A Priest) e amor (em várias, de alguma maneira).

Letter To You, canção que dá nome ao álbum, é como uma declaração de amor de Bruce aos seus fãs. E é daquelas que o músico escreve com o coração, com total honestidade e sinceridade. Elementos, aliás que estão presentes por todo o disco e, obviamente, se espalham por sua obra.

O novo trabalho que chega às plataformas digitais nesta sexta tem ainda um brindezinho para os fãs das antigas. São doze canções, sendo que três delas foram criadas no início dos anos 70 e nunca haviam sido lançadas oficialmente, embora circulassem em outras versões entre fãs. E também podem ser encontradas na internet. São elas: Janey Needs a Shooter (de 1972), If I Was a Priest e Song For Orphans (ambas de 1971). As três canções quase entraram nos dois primeiros álbuns do músico, mas por um motivo ou outro acabaram ficando de fora. Revirando seu material inédito (ou quase), Springsteen as resgatou agora para, segundo disse à Rolling Stone americana, porque “queria cantar com a voz adulta as ideias da juventude”.

BRUCE É BRUCE

Em todos os sentidos, Letter To You é um tipo de disco que quase não se faz mais hoje. Primeiro que é um álbum inteiro com doze músicas que sai num momento em que dizem que as pessoas não consomem mais canções dessa maneira. Ouve-se músicas soltas, pulando de um artista para outro. Mais que isso, um disco gravado de uma vez só, com todos tocando ao vivo é uma prática que também caiu em desuso, praticamente ninguém mais faz isso. O que é uma pena, porque a diferença é perceptível e deixa o som muito mais inteiro. Palpável.

Bruce na neve do Central Park, em Nova York

Bruce na neve do Central Park, em Nova York

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E nesse seu 20º trabalho de estúdio, Bruce Springsteen nos mostra porque é o que é. Canções sinceras, escritas com o coração e sinceridade. Numa era altamente tecnológica, o músico nos lembra da importância do mundo analógico e orgânico e como as mensagens e a palavra som diferente dessa maneira.

Mas, claro, não é qualquer um que pode fazer isso e as quase cinco décadas em atividade deixam claro que Bruce Springsteen, definitivamente, não é qualquer um.

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