Odair Braz Jr Marvel deu fim à carreira musical do Batman, Thor e Aranha no Brasil

Marvel deu fim à carreira musical do Batman, Thor e Aranha no Brasil

O grupo Super Heróis fez muito sucesso nos anos 80 e sumiu após a editora americana acusar violação de direitos autorais

  • Odair Braz Jr | Do R7

O cinema nunca viu heróis da Marvel e DC juntos, mas teve na TV brasileira

O cinema nunca viu heróis da Marvel e DC juntos, mas teve na TV brasileira

Reprodução

O ano é 1979, quando chega aos cinemas brasileiros Superman: O Filme, primeiro longa do herói interpretado por Christopher Reeve. Foi um sucesso imenso no mundo todo e também por aqui, provocando o lançamento de álbum de figurinhas, bonecos, pôsteres e mais um monte de coisas. O desenho animado Superamigos também era exibido na TV brasileira e ajudava a popularizar Batman, Superman, Mulher-Maravilha, entre outros heróis da DC Comics. E a Marvel, claro, tinha muitos fãs no país com suas HQs e desenhos animados.

Resumindo: dá para perceber que as crianças e jovens brasileiros gostavam mesmo desse negócio chamado super-heróis. Então, por que não tentar se dar bem por aí usando esse tema? Além disso, 1979 foi o Ano Internacional da Criança e o produtor e compositor da gravadora RCA Victor, João Walter Plinta, pensou mesmo em desenvolver algo específico para esse público usando fantasias de heróis dos quadrinhos. Mais do que isso, o Village People e a disco music estavam bombando na época. O grupo de Nova York tinha hits planetários como Macho Man, Y.M.C.A., In The Navy e Go West e fazer um som parecido com o deles era algo que Plinta julgou ser o ideal.

O grupo já com a Mulher-Maravilha na formação

O grupo já com a Mulher-Maravilha na formação

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Assim, Plinta — que morreu em abril de 2019 — teve a ideia de criar um produto seguindo essa linha. E, ué, se os personagens dos quadrinhos estão fazendo sucesso na TV e no cinema, por que não usá-los musicalmente para vender disco para a molecada? Fazia todo o sentido. Ainda mais explorando a disco music, que também era ouvida pelas crianças e jovens.

Foi assim que o produtor criou o grupo Super Heróis, desse jeito, sem o hífen. A estreia foi no mesmo ano de 1979 e seguiu uma carreira até quase a metade dos anos 1980. Fez bastante sucesso com as crianças, principalmente na TV, com diversas apresentações em programas como o do Bozo, Raul Gil, Trapalhões, Chacrinha, Carlos Imperial, entre outros. Esse foi, possivelmente, o primeiro trabalho de Plinta totalmente voltado para crianças e ele seguiria por esse caminho nos anos seguintes com diversos outros artistas.

Gilson Dias, o Thor do grupo, com a câmera na mão

Gilson Dias, o Thor do grupo, com a câmera na mão

Arquivo pessoal

É bem provável que você que está lendo este texto não tenha visto as apresentações na TV ou mesmo nem conheça o grupo. Mas já pode ter esbarrado com o Super Heróis pela internet. É que o conjunto já virou meme, viralizou há alguns poucos anos quando o blog Não Salvo fez uma postagem mostrando um vídeo do grupo no programa do Carlos Imperial. Nesse ano de 2020 o diretor Edgar Wright, dos ótimos filmes Baby Driver e Scott Pilgrim — e que quase dirigiu o primeiro Homem-Formiga —, tuitou a respeito do Super Heróis (inclusive mostrando um vídeo do conjunto no Bozo) e escreveu: “este é o único universo cinemático que me interessa”, fazendo referência aos filmes da Marvel e DC. E também é fato que os vídeos vivem rodando a internet, afinal são sim pra lá de curiosos e divertidos.

Assista à uma apresentação no Bozo:

E a grande pergunta que surge é: como é que houve um grupo assim no Brasil? Misturando Marvel, DC e um intruso da TV (Kung Fu) e usando alguns dos personagens mais famosos das duas principais editoras de quadrinhos dos Estados Unidos?

Este colunista ficou curioso para saber essas respostas e entender a história do grupo. Depois de buscas e mais buscas no Google, zero respostas foram encontradas. Ninguém nunca falou sobre a trajetória do Super Heróis, mas numa dessas buscas acabei encontrando um post de 2016 de um blog lembrando do grupo, dizendo que fez sucesso nos anos 80 e coisas assim. Nada de mais. Mas havia um comentário de uma pessoa dizendo que tinha sido o Robin do conjunto e falando algumas coisas sobre a turma. Nesse post, o Robin disse que era dono de uma loja de artigos esportivos em Ribeirão Preto e deu o nome, Rock Shop. A partir daí, foi pegar o telefone e ligar. Assim, entrei em contato com Manoel Carvalho, o Noel, e passei a levantar a história toda. Que é bem curiosa, inclusive com a Marvel Comics entrando no meio. Acompanhe:

NASCEM OS SUPER HERÓIS

Com a ideia na cabeça e com um esquema já armado com a RCA — que hoje pertence à Sony —, Plinta partiu para criar o grupo. Sabendo o que queria, o produtor, que andava sempre nos bastidores da TVS — primeiro nome do SBT — e também cantava no coral do Show de Calouros, começou a procurar pessoas que coubessem em seu projeto. Boa parte dos integrantes do grupo saiu desta mesma atração de Silvio Santos, como foi o caso do Gilson Dias, que interpretava o Thor e que hoje é o guardião do material e da história do grupo, inclusive com um perfil no Instagram (@gruposuperherois). “Eu tinha mais ou menos uns 15 anos e estava trabalhando em supermercado. E surgiu a oportunidade de uma apresentação no Silvio Santos, em janeiro de 79, no Show de Calouros. O Plinta viu a performance e me convidou para fazer um teste. Disse que estava criando um grupo musical”. Essa apresentação de Gilson foi de dança e era disso que Plinta estava atrás: gente que soubesse, principalmente, dançar. O produtor estava de olho em todos os garotos e garotas jovens, na faixa de seus 16, 17 anos que soubessem dançar razoavelmente bem. Também houve um teste de voz, segundo conta Gilson. “A gente ia só fazer o coralzinho de fundo, então não precisava ser um cantor excepcional”.

Os rapazes e o produtor João Plinta (de barba)

Os rapazes e o produtor João Plinta (de barba)

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O mesmo aconteceu com Noel Carvalho, o Robin. Ele, que era funcionário da TVS, também fez uma apresentação de dança no mesmo Show de Calouros, de Silvio Santos. “Eu participei, fui bem e não tinha ideia da audiência do programa. Todo mundo no meu bairro ficava me cumprimentando. E o João [Plinta] pediu que eu fosse na gravadora RCA fazer uns testes cantando. Me deu algumas músicas para cantar e perguntou se eu sabia fazer backing vocal”.

Noel relata que fez as audições e havia mais um monte de gente também sendo testada para as vagas. Alguns meses depois, ele estava novamente andando pelos bastidores da TVS quando encontrou Plinta. “E aí eu perguntei se tinha virado alguma coisa na história do tal grupo e ele disse ‘você tá dentro’”. Até aquele momento, o rapaz não tinha noção sobre o que se tratava a ideia de João. Então, o produtor explicou, como conta Noel: “Ele arrumou todos os outros participantes e queria fazer algo em cima do [grupo americano] Village People, que tinha vindo ao Brasil [em 1978]. Ele disse ‘se o cara pode ser policial, outro pode ser índio, por que não cada um ser um herói?’”.

Village People, inspiração para o Super Heróis

Village People, inspiração para o Super Heróis

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Depois de vários testes, Plinta escolheu a rapaziada que faria parte do grupo. Inicialmente eram apenas homens. Assim, Noel virou Robin, Gilson ficou com Thor, Cláudio Rivera encarou o Homem-Aranha, Ricardo assumiu o manto do Batman e Assis encarnou o Kung Fu (depois foi substituído por Lincoln I.). Este último não é o personagem Shang-Chi, da Marvel, embora tenha o visual extremamente parecido. Segundo os integrantes, o personagem seria inspirado no lutador da série dos anos 70 chamado Kung Fu, com David Carradine e que foi extremamente popular no Brasil. O Superman — que na época era chamado de Super-Homem mesmo — era interpretado por José Franco Bueno, o Benê, único cantor profissional do grupo e que já tinha uma carreira na música há muitos anos. Ele fez parte da banda Os Môscas, no fim dos anos 60 e que teve uma certa relação com a Jovem Guarda. Plinta também foi integrante deste grupo. Benê, segundo vários relatos, mudou-se para os Estados Unidos há bastante tempo. Ele morreu há alguns anos.

Um pouco depois de o grupo já ter sido lançado, a superequipe teve um grande reforço: a Mulher-Maravilha, única personagem mulher do Super Heróis e que seria interpretada pela Vera Lúcia Egídio. Ela conta que desde pequena ficava fascinada pelas dançarinas do Chacrinha e isso lhe dava muita vontade de aparecer na TV. “Quando fiz 17 anos pedi para minha mãe me levar e foi quando conheci o Valentino Guzzo [famoso produtor da TVS/SBT, e que interpretava a Vovó Mafalda no programa do Bozo], que me colocou no programa para dançar no Show de Calouros”.

Veja a apresentação no programa do apresentador Carlos Imperial:

Vera conta que ficou amiga de Guzzo e ele sempre a colocava para aparecer no programa de Silvio Santos, dançando e dublando alguma música famosa. Numa dessas vezes, ela chamou a atenção de Plinta, que lhe deu um cartão e pediu que o procurasse. Mais uma vez, não deu muitas explicações do que se tratava. Mas ela, que sempre foi desconfiada, não ligou e ficou tudo por isso mesmo. Após uma nova apresentação da moça no programa de Silvio, Plinta voltou a convidá-la e falou o que queria: “Ele disse que estava montando um grupo musical com super-heróis e que gostaria que eu fosse a Mulher-Maravilha. Eu ainda achei que era meio caô, mas fui lá. Aí ele me explicou como era o grupo e eu não tinha nada a perder mesmo”.

Vera Lúcia, a Mulher-Maravilha, em um show do Super Heróis

Vera Lúcia, a Mulher-Maravilha, em um show do Super Heróis

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Como Vera não entrou para o grupo logo que foi chamada pela primeira vez, Plinta deu andamento aos trabalhos e gravou o primeiro compacto do Super Heróis sem a Mulher-Maravilha (mas ela aparece na capa). É por isso também que a heroína da DC Comics não participa de alguns vídeos de programas de TV que estão pela internet. O curioso é que a música Somos Todos Super Amigos, a primeira que foi trabalhada pela superequipe, cita todos os personagens da equipe em sua letra, mas não a Mulher-Maravilha, o que causava certa estranheza na TV, uma vez que ela estava no palco mas não aparecia na canção. Ninguém entendia nada e também não havia explicação. Coisas daquele tempo.

Os integrantes tinham como responsabilidade principal se preocupar com as coreografias e o visual do grupo. Cantar não era a prioridade deles, a não ser por Benê, que realmente colocou sua voz integralmente nas canções. Vera Lúcia dá alguns detalhes sobre as gravações: "Naquele época, você sabe, todo mundo cantava, tinha efeitos e tudo. Tem duas músicas que eu gravei, mas com a ajuda do produtor". A Mulher-Maravilha diz que nem se considera uma cantora de fato: "é porque eu fiz só essas duas coisas e nunca mais fiz nada. Aí eu parei".

E quando a gente fala sobre o visual dos heróis, não tem como não prestar atenção aos uniformes usados pelos integrantes. Eles são cheios de brilho, um tanto quanto exagerados, tinham algumas alterações em relação às roupas das HQs e traziam aquele lado meio tosco, principalmente se comparado ao que vemos hoje nos concursos de cosplay. Isso para nem falar no cinema e TV, porque aí já seria ignorância, né? Gilson explica: “Quem fez as fantasias na época foram as costureiras da TV Tupi. O produtor disse a elas que precisava de roupas de super-heróis. E, naquele tempo, a TV precisava de muito brilho e muita cor. Por isso que as roupas tinham tantas lantejoulas. As costureiras não tinham o tino de pegar um colante com a cor certa”.

Pode reparar nas imagens espalhadas nessa matéria para ver que lantejoula realmente era o que não faltava. Os “erros” nas vestimentas aparecem num Homem-Aranha com roupa branca e o logotipo do Batman na testa do herói. Com o tempo, os próprios integrantes foram dando uma aperfeiçoada nos uniformes.

Noel, o Robin, tocando bateria em seu estúdio

Noel, o Robin, tocando bateria em seu estúdio

Arquivo pessoal

Seja como for, com roupas não muito fieis, dançando disco music e sem combater o crime, esse pessoal que formava o Super Heróis acabou se transformando, de fato, no Super-Homem, no Batman, na Mulher-Maravilha, no Robin, no Kung Fu e no Thor brasileiros. Durante um bom tempo eles eram a representação física do que as crianças e jovens viam nos cinemas, nas séries de TV, gibis e desenhos animados. "Foi um período muito legal na nossa vida, porque além de cantar, a gente tinha que encarnar o personagem... porque vinha uma criança pra te abraçar. Ela achava que você era mesmo o Batman, o Robin, queria tirar foto... acho que nós fomos os primeiros cosplays do Brasil", diz Noel. Vera tem o mesmo sentimento do colega: "eu fazia [o trabalho no grupo] porque você faz o show e vê aquelas crianças, aquele pessoal te olhando... é a coisa mais linda. Não tenho lembranças ruins dessa fase, é só carinho, só amor".

E era meio que isso mesmo, apesar de nem serem heróis oficializados, eles acabam virando os personagens da TV e das HQs, pelo menos no Brasil.

AS MÚSICAS

A música do Super Heróis é uma das coisas mais curiosas dessa história toda e é algo que pertence totalmente àquele momento específico da trajetória das gravadoras no Brasil.

João Plinta era um compositor e produtor bem experiente. Era músico e também cantava. Nos anos 70, assim como vários outros artistas brasileiros, tinha um nome em inglês e cantava nesse idioma. Se chamava Danny Rush e teve até um semi-hit, com um cover de Is It Ok If I Call You Mine, que foi tema de uma propaganda do jeans Staroup. Claro que essa marca já não existe há anos, mas era bem conhecida na época.

Plinta, a partir de um certo ponto de sua carreira, passou a trabalhar como produtor musical, fazendo trabalhos para TVs, aparecendo em trilhas sonoras de novelas e também atuava em gravadoras, como a RCA Victor, uma das maiores do Brasil no passado.

Naqueles anos, muitas gravadoras tinham um departamento criativo, que servia para observar oportunidades e desenvolver produtos musicais que vendessem bem. Assim surgiam grupos para crianças, cantores e cantoras bonitões, artistas com estilos musicais inspirados no que fazia sucesso no exterior, brasileiros fingindo que eram estrangeiros cantando em inglês — Fábio Jr. e Gretchen, por exemplo — e por aí afora. Alguns artistas desse tipo não cantavam ou, se o faziam, era bem pouco e contavam com uma ajuda integral ou parcial de outros cantores, artistas contratados pelas gravadoras e que atuavam nas gravações. Veja: não eram todos os cantores que se utilizavam desse expediente, Fábio Jr., por exemplo, cantava mesmo. A história completa do que as gravadoras faziam nessa época é relatada no livro Pavões Misteriosos: 1974-1983 – A Explosão da Música Pop no Brasil, do jornalista André Barcinski.

O grupo Super Heróis no programa do apresentador Carlos Imperial

O grupo Super Heróis no programa do apresentador Carlos Imperial

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O grupo Super Heróis é uma cria desse tipo de estratégia. Aliás, estratégia muito bem sucedida que gerou grandes sucessos ao longo dos anos 70, 80 e 90. Através dessa maneira de atuar, depois de lançar o conjunto, Plinta também ajudou a colocar no mercado outros “produtos” como A Patotinha, compôs Vem Fazer Glu-Glu para Sérgio Mallandro, trabalhou com as Harmony Cats e Patati e Patatá. Ele também é o responsável pela versão para o português de Os Dedinhos, hit eterno da apresentadora Eliana.

Via de regra, boa parte dos produtos mais populares daquela época, no Brasil, eram “fabricação” das gravadoras, tudo feito em estúdio e com a ajuda de muitos músicos e cantores. Falando assim, em “fabricação”, parece ser algo do mal e que enganava as pessoas. Tinha um certo nível de “produto de gravadora”, como se dizia, mas era um jeito de trabalhar muito comum naquele tempo. As empresas, fosse ela a RCA, a CBS, a PolyGram, Chantecler, enfim, todas elas procuravam criar e desenvolver alguns artistas e torná-los viáveis comercialmente. Quando as empresas enxergavam algum potencial em alguém, davam uma forcinha no que fosse necessário para tudo funcionar bem. A Patotinha, por exemplo, foi um sucesso grande como grupo musical infantil. Mas as meninas do conjunto nunca cantaram nada, embora aparecessem em todos os programas de TV da época como artistas. As vozes eram gravadas por outras cantoras profissionais como Silvinha (mulher de Eduardo Araújo e que também lançou discos próprios), Angela Márcia (casada com Sérgio Reis) e pelas integrantes do grupo Harmony Cats. Jessé, os irmãos Christian e Ralf, Dudu França, entre outros, também faziam esse tipo de trabalho antes de se tornarem famosos. No caso da Patotinha, algumas das integrantes até viraram cantoras de verdade anos mais tarde.

Plinta é quem pensou em tudo para o Super Heróis ser o que foi. Ele achava que seria bom ter personagens queridos pela molecada cantando e dançando e também foi quem determinou o estilo musical e os temas que seriam abordados nas canções. Havia músicas compostas por Plinta e outras que eram versões de canções de sucesso em inglês. Além do produtor, os arranjos foram desenvolvidos por Hélio Santisteban, que foi integrante do Pholhas, banda brasileira famosa nos anos 70 que cantava em inglês músicas próprias além de fazer covers de hits americanos.

Vera, a Mulher-Maravilha made in Brazil

Vera, a Mulher-Maravilha made in Brazil

Arquivo pessoal

Como foi falado ali em cima, as gravadoras lançavam produtos para aproveitar oportunidades. Era a tal da “fabricação” e o Super Heróis foi muito isso aí. Assim, as canções tinham em Benê o único cantor de fato. Os demais integrantes já disseram que faziam os backing vocals, mas também tinham ajuda de cantores profissionais no coro. O próprio João Plinta cantou em algumas faixas. Silvinha e Angela Márcia também. Angela, inclusive, tem participação na voz da Mulher Maravilha em Dance Comigo. Era assim que a coisa funcionava nas gravadoras e com alguns de seus lançamentos, o que deixava todo mundo feliz. As músicas saíam com uma cara mais profissional e os artistas-heróis podiam se concentrar apenas em suas performances na TV e, em shows, faziam playback.

E tudo bem. Esse esqueminha não diminui em nada o mérito do pessoal do Super Heróis. Lá no final dos anos 70 e início dos 80, todo mundo sabia que eles faziam playback. O grande barato era ver os super-heróis da Marvel e DC cantando e dançando. Eles eram um tipo de artista que ninguém se interessava em saber se eram cantores de verdade ou não. Isso ficava para Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gal Costa, Elis Regina etc e tal. E as gravadoras também tinham essa noção. Um executivo da RCA da época contou para esta reportagem que as empresas sabiam que esse tipo de produto tinha prazo de validade e, por isso mesmo, lançavam com tudo pronto e redondinho, que era para vender o máximo que desse rapidamente.

SUCESSO TELEVISIVO

O primeiro lançamento do Super Heróis foi um compacto duplo, aquele disco de vinil em tamanho menor que o de um LP, com quatro músicas: Dance Comigo, Eu Também Vou, Preserve O Que É de Todos e Somos Todos Super Amigos. Esta última virou um hit nas apresentações nos programas de TV cujos vídeos circulam bastante nas redes sociais.

Já em 1979, ano em que chegou às lojas, o grupo passou a fazer apresentações em praticamente todos os programas de TV que contavam com atrações musicais. O primeiro deles foi o do Raul Gil, ainda na TV Tupi. O seu Raul é considerado o padrinho do grupo, pelo menos para os integrantes. Acabaram indo a vários outros, mais de uma vez e foram figurinhas carimbadas no programa do Bozo, na TVS/SBT. Apareceram também nos programas de Dárcio Campos, Bolinha, no do Carlos Imperial, Almoço Com As Estrelas e também na Globo, nos Trapalhões e no do Chacrinha.

E o Super Heróis foi bem isso aí: um fenômeno televisivo. As músicas praticamente não tocavam em rádios, até porque é sempre mais difícil emplacar canções infantis nas emissoras, fossem elas AM ou FM. Daí que o grupo aparecia SEMPRE nos mais variados canais e tudo se transformava numa grande farra, claro. E é mesmo pra lá de divertido/engraçado/curioso ver Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha, Robin, Thor e Kung Fu cantando e dançando na nossa frente. Imagine se fosse hoje, você não acharia, pelo menos, diferente? Pois é. Era essa a sensação na época, a de ver super-heróis em carne, osso e fantasia cantando na TV. Ninguém estava nem ligando se eles estavam dublando ou se eram licenciados oficiais das editoras de quadrinhos. Eram os anos 70/80, gente!

O sucesso na TV permitiu que o grupo passasse a se apresentar ao vivo. O primeiro show foi na discoteca paulistana Aquarius, que tinha Mister Sam — que lançou Gretchen — como D.J. "Nós fizemos esse show em que a gente ficava em cima de uma cabine, que se levantava, tinha todo aquele efeito de fumaça... era uma discoteca para jovem e era o que tinha de mais moderno no Brasil", revela Robin.

O supergrupo em foto promocional

O supergrupo em foto promocional

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As aparições na TV facilitavam a venda de apresentações e assim os integrantes passaram a viajar pelo Brasil. Claro que os shows eram todos feitos com playback, assim como na TV. De novo, tudo bem. As crianças e o público em geral não queriam saber e sempre compareceram em peso. O Super Heróis chegou a cantar no Maracanã, com 200 mil pessoas. Foi num evento de fim de ano para a chegada do Papai Noel e havia a participação de outros artistas também, ou seja, as pessoas não lotaram o estádio só para ver o grupo. Mas o fato é que eles se apresentaram para milhares de pessoas naquela oportunidade. E em outras também. Os integrates contam que fizeram mais de 200 shows ao todo.

No final de 1979 a RCA soltou novas músicas do Super Heróis, dessa vez num compacto simples. Chegaram aos fãs as canções Viemos de Longe e Bem-vindos à Terra. Essas novas faixas permitiram aos personagens continuar aparecendo na televisão.

Ninguém sabe dizer exatamente quanto os compactos do Super Heróis venderam. Gilson, o Thor, conta que uma vez Plinta disse o seguinte: “Ele contou pra gente: ‘em poucos meses vendemos 250 mil discos’. Mas quem cuidava disso era o Plinta e ele não era de contar muita coisa pra gente. Éramos muito jovens”. Não dá para ter certeza sobre esse número de vendas, mas se foi isso, ou algo próximo a isso, foi um ótimo desempenho para um grupo criado a partir do nada e que não gerava muitas despesas.

Os integrantes do Super Heróis tinham um contrato com a RCA e eram remunerados, mas não ganhavam muito dinheiro. Pelo contrato, eles receberiam 7% sobre a venda de discos, mas o valor era dividido por todos os heróis. “A gente não via retorno, não. Sobrava merreca para cada um”, ri Gilson. Noel também reclama um pouco da parte financeira: "Não recebemos quase nada da gravadora. Só uma vez que deram pra gente um adiantamento pra cada um". O contrato era de três anos de duração. Eles também recebiam uma graninha com os shows que faziam pelo país.

A MARVEL ENTRA NA BRINCADEIRA

Com a boa repercussão nas TVs, vendendo discos e fazendo muitos shows, apareceu a chance de o grupo se apresentar em Portugal. Em dezembro de 1982 o Super Heróis partiu para aquela que seria sua primeira — e única — turnê internacional.

Para se ter uma ideia do sucesso do grupo, havia muita gente aguardando a chegada do avião. Quando o voo estava se aproximando do aeroporto de Lisboa, Noel, Gilson Vera e a turma toda colocaram suas roupas de palco e desceram da aeronave já como super-heróis. “A gente fazia muito sucesso em Portugal. Chegamos lá e estava cheio de crianças esperando, equipes de reportagem. Descemos já com as roupas dos heróis. Teve até um negócio engraçado: a Mulher-Maravilha tinha despachado as botas e teve de aparecer no aeroporto de tênis mesmo. Saiu até no jornal que ela desceu sem as botas”, revela Gilson.

O primeiro compacto do grupo

O primeiro compacto do grupo

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O conjunto permaneceu em Portugal por quase um mês e assim fez shows em diversas cidades como Porto, Queluz, Lisboa. Cantaram em festas de empresas, em fábricas, ginásios etc. Também apareceram em alguns programas de TV locais.

Curiosamente, a viagem a Portugal, o provável auge da carreira do grupo, também marcou o início do fim. É que foi a partir da turnê no país que a Marvel Comics ficou sabendo da existência da versão musical e rebolativa de seus personagens. Veja: estamos em 1983 e o Super Heróis estava em atividade desde 1979. Quer dizer, levou quatro anos para a editora americana notar a existência do conjunto e, ainda assim, isso aconteceu por causa de uma viagem ao exterior. Não havia internet e receber, nos Estados Unidos, notícias de um grupo musical vestido de super-herói no Brasil, era algo praticamente impossível de accontecer.

Paulo Fedato, produtor da gravadora na época, conta sobre a cobrança da Marvel e diz que não foi nada muito traumático ou cheio de advogados. “Foi uma correspondência normal, sem nenhum trâmite legal”. Fedato fala que ninguém na gravadora pensou que poderia dar algum problema usar o Homem-Aranha e Thor, personagens que pertenciam (e pertencem) à editora. Sem falar que ainda havia Batman, Robin e Mulher-Maravilha, que eram da DC Comics. Além do Kung Fu, propriedade da Warner Bros. “Não pensaram. A lei de direitos, de uso de marca, era desconhecida, mas jamais houve má-fé da RCA”.

Gilson confirma o pedido da Marvel e, na sua versão, a editora mandou uma notificação para o empresário que levou o grupo para Portugal. Essa pessoa, diz Gilson, recebeu uma carta da Marvel relatando todo o problema de direitos autorais e que não poderia mais haver shows do Super Heróis. “O Plinta também recebeu uma notificação no Brasil”, conta. Quer dizer, a editora dos EUA atacou em Portugal e no Brasil provavelmente de forma simultânea. 

A atitude da Marvel, legalíssima, causou um problemão para a RCA, para Plinta e para o próprio grupo. Afinal, o que estava acontecendo ali era a violação de direitos autorais de forma explícita e se a editora entrasse na Justiça, ganharia o processo facilmente. Assim, o jeito foi mudar tudo. “Mudou o nome do grupo de imediato. A RCA era uma empresa corretíssima, era do grupo NBC”, revela Paulo Fedato, mostrando que a gravadora aceitou na mesma hora fazer as mudanças necessárias. Noel complementa: "Não tínhamos mesmo autorização nem da DC e nem da Marvel. Tanto que a Marvel caiu de pau em cima da RCA e disseram 'ou termina o grupo ou muda de nome'". Vera Lúcia, por sua vez, revela que quando estava em Portugal com o restante do grupo, não tinha ideia do que estava acontecendo. "Eu nem sabia que precisava ter os direitos autorais".

Assim, o Super Heróis teve que deixar de existir e deu lugar para um novo grupo, o Novos Heróis. Saíram os personagens famosos e entraram no lugar outros, totalmente desconhecidos e com fantasias genéricas. Desse jeito daria para consertar o problema com a editora americana e ainda continuar trabalhando. A gravadora tinha mesmo de dar sequência ao projeto, é que ao longo de 1982 houve a gravação de um disco inteiro — sim, um LP — do Super Heróis. O lançamento estava previsto para o ano seguinte e havia uma parceria com o SBT, que tinha a intenção de dar um programa para o grupo. Bem, mas aí aconteceu o que aconteceu.

Com a proibição da Marvel, surge o Novos Heróis

Com a proibição da Marvel, surge o Novos Heróis

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Mesmo com um outro grupo na prática, a RCA não desistiu de lançar o disco que já estava pronto. A questão é que ficou uma coisa meio bizarra, já que o álbum foi produzido para ser lançado com o Super Heróis. Assim, as músicas todas citam os personagens originais nominalmente, estão lá Batman, Super-Homem, Robin, Peter Parker, Bruce Wayne, Clark Kent etc. Fora isso, a ideia era também colocar outros heróis no time, no caso, Capitão América e Ultraman. Até os policiais da série televisiva CHiPs entrariam na dança, inclusive com uma música só para eles na qual conversam com os personagens da Marvel e DC. E as novas canções, também produzidas por Plinta, entravam ainda mais no mundo da ficção e mencionavam Star Wars, Star Trek, Buck Rogers e por aí afora.

O Novos Heróis foi à luta sem as marcas famosas, com alguns novos membros e nomes diferentes de personagens. Assim, a formação teve o Homem-Espacial (antigo Super-Homem), Super-Palhaço (ex-Homem-Aranha), Mulher-Cósmica (ex-Mulher-Maravilha), Silver Boy (ex-Robin) e ainda houve a entrada da Princesa Solar. Esta última foi interpretada por Sully, cujo sobrenome ninguém soube dizer.

Com essa equipe reformulada e com um disco feito para o Super Heróis, o Novos Heróis fez mais de dez participações na TV, quase todas no programa do Bozo, no SBT. Isso não foi coincidência, uma vez que o canal de Silvio Santos tinha de promover o disco, já que existia a ideia daquele programa para o conjunto, o que acabou não rolando por conta da perda dos personagens famosos. Nessa fase, a turma também conseguiu emplacar shows e assim se manteve até meados de 1985, mas não mais com a mesma repercussão da época em que estavam lá os heróis da Marvel e DC.

O fato é que a exigência da Marvel caiu como uma bomba nuclear em cima dos nossos super-heróis. O golpe foi forte e a editora tinha mesmo toda a razão em fazer a cobrança. A nova versão do grupo, o Novos Heróis, foi o jeito que se deu para tentar continuar com o sucesso, mas a magia foi quebrada. A graça já não era a mesma e é aquela coisa: esse tipo de projeto tem prazo de validade e ela, definitivamente, havia expirado.

Deu certo enquanto durou o uso dos heróis das editoras americanas. O Super Heróis realmente marcou uma geração e a molecada que assistiu ao grupo na TV, lá no fim dos anos 70 e início dos 80, não esquece. E a internet, com seus memes e redes sociais mantêm os vídeos rodando por aí, com milhares de visualizações.

Hoje em dia temos os Vingadores do Brega

Hoje em dia temos os Vingadores do Brega

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Dá para dizer que existe até um legado do Super Heróis. Depois deles, houve o surgimento de muitos outros artistas e/ou grupos voltados para o público infantil. Tiveram o Balão Mágico, A Patotinha, Os Abelhudos, Trem da Alegria etc. O Mamonas Assassinas costumava se apresentar usando personagens dos quadrinhos e de séries, como você deve se lembrar. Atualmente existe também uma banda em Belém que toca brega, forró e pisadinha chamada Vingadores do Brega. Na formação estão Capitão América, Homem-Aranha (com uniforme tradicional e o preto), Deadpool, Flash e Batman. Lembra alguém? Pois é.

Cuidado com a Marvel, Vingadores do Brega!

Super-heróis no palco da TV Bandeirantes, ainda sem a Mulher-Maravilha

Super-heróis no palco da TV Bandeirantes, ainda sem a Mulher-Maravilha

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CENA PÓS-CRÉDITOS

Gilson Dias se formou em jornalismo e é repórter cinematográfico com passagens pela Record TV e SBT. Mora em São Paulo.

Vera Lúcia é formada em psicologia e vive no interior paulista.

Manoel Carvalho mora em Ribeirão Preto, dá aulas de patinação, tem uma loja de artigos esportivos e um estúdio para ensaios de bandas.

Os demais integrantes do grupo não foram localizados.

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