RPM implodiu e levou junto a banda de Ciro Pessoa, o Cabine C

Músico, que morreu nesta terça (5) vítima de covid-19, processou Paulo Ricardo e Luiz Schiavon por causa do fracasso do álbum de sua banda

Paulo Ricardo e Schiavon (os dois à esquerda) junto com o RPM nos anos 80

Paulo Ricardo e Schiavon (os dois à esquerda) junto com o RPM nos anos 80

José Bassit/Estadão Conteúdo - 18.09.1988

Se você tem menos de 35, 40 anos é bem provável não tenha muita noção do que foi o RPM lá pelo meio dos anos 80. A banda liderada por Paulo Ricardo fez um sucesso avassalador, vendendo milhões de discos e colocando hit em cima de hit nas rádios. Uma verdadeira beatlemania brasileira.

Enfim, com milhões de cruzados (a moeda do Brasil na época) nas contas bancárias, a turma do RPM começou a viajar nas ideias e tentou virar uma criatura com vários tentáculos espalhados pelo mundo do entretenimento brasileiro ali por 1986. O quarteto pensou, por exemplo, em lançar um longa-metragem com a banda no estilo Os Reis do Iê-Iê-Iê, filme que mostra os primeiros anos da beatlemania e estrelado pelos próprios integrantes da banda inglesa. No caso aqui, seria estrelado pelos membros do RPM, claro. Bom, não deu certo e a produção não chegou nem a ir para o papel.

Um outro empreendimento feito pela banda paulistana foi a criação de uma gravadora, a RPM Discos. Este seria um selo pelo qual o grupo lançaria seus próximos trabalhos e também serviria para gravar outras bandas e artistas. E é aí que entra Ciro Pessoa, cantor, guitarrista, compositor e líder da banda Cabine C. Ciro morreu nesta terça (5), vítima de covid-19.

Ciro foi um dos fundadores do Titãs e ajudou o compor as primeiras canções da banda paulistana que também faria bastante sucesso no início dos anos 80. Mas logo ele saiu do grupo e montou o Cabine C. Com um som um pouco mais, digamos, sombrio, letras cheias de lirismo e boas canções, o grupo chamava a atenção do mundo da música e despertou o interesse em algumas gravadoras, como a Warner, por exemplo. O fato é que não houve acerto com esta empresa e, no fim das contas, quem sobrou para a banda assinar foi a RPM Discos. Assim, o Cabine C foi o primeiro — e único — contratado da companhia da empresa fundada por Paulo Ricardo e Luiz Schiavon.

Ciro Pessoa, líder do Cabine C, morreu esta semana

Ciro Pessoa, líder do Cabine C, morreu esta semana

Ana Ottoni/Folhapress - 07.10.2013

O Cabine C gravou assim seu álbum de estreia, Fósforos de Oxford, muito influenciado pelo rock europeu, tipo Cocteau Twins, Siouxie and the Banshees etc. Gravado nos Estúdios Transamérica, em SP, o disco produzido por Luiz Schiavon (tecladista do RPM) foi lançado em 1987. “Lançado” é quase um exagero. Sem nenhum investimento em divulgação, com uma péssima distribuição feita pela gravadora RCA e um cenário decadente para o rock brasileiro, Fósforos de Oxford foi um retumbante fracasso de vendas apesar de ser um bom disco, inclusive bem elogiado pela imprensa da época. Praticamente ninguém ficou sabendo do álbum, praticamente ninguém soube da existência do Cabine C e isso foi um erro fatal numa época em que o sucesso era medido por discos vendidos. 

Para dar retorno, uma banda tinha de vender muito bem. Isso seria relativamente fácil entre 1982 e 1986. Foi quando estouraram dezenas de grupos e artistas brasileiros como Blitz, Ritchie, Lobão, Barão Vermelho, Titãs, Metrô, o próprio RPM, Ira!, entre tantas outras. Bandas de rock era o que as gravadoras queriam, o que as rádios e as TVs queriam. Mas tinha que estar dentro daquele período citado ali em cima, 82 a 86. Em 87, 88 o vento virou e as coisas já não iam mais tão bem para o rock. Vieram os novos sertanejos, a axé music, música eletrônica etc. Então, além de não ter um lançamento decente de seu álbum de estreia, o Cabine C também chegou num momento já complicado para o rock na mídia brasileira. A modinha tinha passado.

Com este megafracasso logo em seu início de vida, a RPM Discos, que consumia muito dinheiro para permanecer viva, implodiu completamente e faliu. Tempos depois, o próprio Paulo Ricardo falou em entrevistas que ele e Schiavon se descobriram péssimos empresários. O RPM também entrou em crise de relacionamento e chegou ao fim após seu álbum de 1988 (depois voltaram, acabaram, voltaram, acabaram etc). Ciro Pessoa processou os músicos transformados em empresários por causa de possíveis prejuízos causados ao Cabine C. Não deu em nada, o processo caducou e ficou tudo por isso mesmo. A banda de Ciro nunca mais lançou nada e hoje é lembrada apenas como uma grande promessa do rock underground paulistano.