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Se eu fosse eu
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A Mulher que Arrancava Declarações De Qualquer Entrevistado

Clarice Lispector entrevista Elis Regina. Elis, sincerona, se rendeu à outra sincerona. Deu no que deu.

Se eu fosse eu|Do R7

“Clarice Lispector sempre vale a pena”. Palavras de João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli.
“Clarice Lispector sempre vale a pena”. Palavras de João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli. “Clarice Lispector sempre vale a pena”. Palavras de João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli.

Começa assim:

“Pequenina, de traços delicados, cabelo cortado rente à cabeça, movimentos livres, gesticulando um pouco, com uma inteligência alerta e rápida, facilidade de expressão verbal – eis Elis Regina, pelo menos uma delas.

- Por que você canta, Elis? Só porque tem voz magnífica? Conheço pessoas de ótima voz que não cantam nem no banheiro.

- Sei lá, Clarice, acho que comecei a cantar por uma absoluta e total necessidade de afirmação. Eu me achava um lixo completo, sabia que tinha uma voz boa, como sei, e então essa foi a maneira para a qual fugi do meu complexo de inferioridade. Foi o modo de me fazer notar.

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Clarice misturava amizade, admiração e respeito. Os entrevistados desabrochavam ao lado dela. Um bate papo revelador. Fortes declarações sem meias palavras.

- Se você não cantasse, seria uma pessoa triste?

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- Seria uma pessoa profundamente frustrada, e que estaria buscando uma outra forma de afirmação.

Duas mulheres fortes, cheias de personalidade, frente a frente, pura fascinação. De uma para a outra. Elis não titubeou, nem deixou pra lá. Nem dois pra cá, nem dois pra lá. Respondeu na lata. Autêntica. A entrevista foi publicada no dia 30 de agosto de 1969. O país respirava a ditadura militar. A arma de Elis: palavras enfileiradas e refrões de força. Um canhão de emoções. Nunca ninguém tinha visto tamanha personalidade na voz. Misturada a uma autoafirmação conflituosa, à procura da independência, quase atrás da porta.

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Afinal, era bom ser como nossos pais? Não sei. Não quero lhe falar. Clarice diria: eu sei que o amor é uma coisa boa. Por isso, cuidado meu bem. A Clariciana Elis está na esquina. Nas provações, em comum, a romaria de sentimentos. De sonho e de pó. Era cantar ou morrer. Escrever ou morrer. A vida venceria para Elis e Clarice. Os sinais antes fechados, agora se abriam para as duas jovens.

- A vida tem sido boa para você?

- Muito boa. Acho até que tenho mais do que mereço ter. E não estou fazendo demagogia barata: eu acho mesmo isso.

Clarice, sempre tão misteriosa, aqui se revela. É uma grande entrevistadora. Não se intimida com a importância do entrevistado. A conversa, de igual pra igual, permitiu que essas duas mulheres, Marias, Madalenas, mães sensíveis, conversassem como se estivessem fumando na sala.

Clarice misturava amizade, admiração e respeito e assim, conseguia declarações genuínas e sinceras dos entrevistados. Poucos jornalistas conseguiram tanto. Era sempre um bate papo revelador. Essa entrevista foi um ano antes do nascimento de João Marcelo Bôscoli, filho de Elis com Ronaldo Bôscoli. Filho a quem Elis dedicou uma das mais lindas dedicatórias de amor. Uma roseira inteira pra ele: “Queria te dizer que não sei como achava graça nas coisas antes de você surgir, porque eu sinto uma falta incrível de você. Quando não está por perto, os troços perdem o sentido e a razão. Outra coisa que você precisa saber é que você construiu pacas. Você me pegou um bagaço daqueles, me ajeitou, me maneirou, me devolveu a risada do ginásio, criou uma fonte de investimento em minhas áreas menos desenvolvidas.”

Quase quarenta anos depois da morte de Elis, João Marcelo escreveu um belo livro, uma resposta à declaração de amor da cantora que deixou o Brasil órfão, em 1982.

João Marcelo deixou a Mãe grande, sempre com Maiúscula no livro. Mãe é Mãe. Elis é Mãe. Clarice é Mãe. De um jeito ou de outro, somos todos Mães e Pais. Somos mesmo como nossos Pais. Somos misteriosos nessa tal tarefa de existir. Clarice termina a entrevista com o seguinte texto:

“Estava mais ou menos encerrada a entrevista, se bem que esta pudesse se completar muito mais. Foi o que aconteceu quando Elis me deu carona no seu carro e conversou comigo. Infelizmente não posso transmitir a conversa, que me mostrou uma Elis Regina responsável, misteriosa nos seus sentimentos, delicada quanto aos sentimentos dos outros. Uma Elis Regina, enfim, que tem mais problemas do que o de ser acusada de mau coleguismo. Mostrou-me uma Elis Regina que não quer ferir ninguém. Se há outras Elis, no momento, não me foi dado ver. A que eu conheci tem uma espontaneidade e uma simpatia raras”.

A entrevista de Elis Regina à Clarice está no livro “Clarice Lispector – Entrevistas”, de Claire Williams, com preparação de originais e notas biográficas de Teresa Montero.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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