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Se eu fosse eu
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A paixão segundo G.H. A paixão de um diretor. A paixão de uma atriz.

Estamos todos apaixonados 

Se eu fosse eu|Do R7

Um enredo, a princípio, banal. Uma mulher. Um apartamento. Uma barata. Uma desilusão amorosa. E uma paixão. Devoradora. Foi assim com a G.H., uma escultora de elite de Copacabana que tem uma descoberta interior depois de limpar o armário do quarto. A empregada se despede. G.H. decide pela arrumação. Da vida.

“Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém está me dando a mão”. Foram várias demãos no armário de busca interior. G.H. decide limpar tudo. Espera encontrar um quarto sujo. E fica paralisada com uma barata.

Numa entrevista aos jornalistas Affonso Romano de Sant’anna, Marina Colasanti e João Salgueiro, no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em outubro de 1976, quase 20 anos depois do lançamento do livro, Clarice revelou o processo que veio a seguir. G.H. decide provar o interior branco da barata. De repente, a mãe se transforma. O mundo se transforma! Metamorfose. “Eu sabia que o erro básico de viver era ter nojo de uma barata. E eu sabia que enquanto eu tivesse nojo, o mundo me escaparia e eu me escaparia.”

O devaneio de enfrentar uma barata, inseto tão repugnante quanto temido, se transformou em ousadia. Levar para as telas um dos maiores romances de Clarice parecia pura vaidade. O diretor Luiz Fernando Carvalho encarou a parede do quarto vazio com muitas ideias na cabeça e voou. Ele, solitário na imaginação, desenhou G.H. frágil e soberba. 

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Maria Fernanda Cândido topou ficar de frente com ela mesma. Ué, não é qualquer um que se permite. Com traços polacos, atravessou barreiras e oceanos e virou a Gengis Khan de Clarice. Gigante pela própria natureza, a atriz se transmutou em G.H. e as duas devoraram a barata para se entender, sobreviver. “Eram baratas verdadeiras, de laboratório”, revelou Maria Fernanda. “Enormes, poderosíssimas, belíssimas, todas muito vivas, e todas de verdade”. 

Verdade seja dita: o filme é fiel à obra-prima de Clarice, com metamorfoses sutis. A gente sofre com G.H. A gente tenta entender como uma pessoa pode se permitir comer uma barata para respirar: “O que estou sentido agora é uma alegria. Através da barata viva estou entendendo que também eu sou o que é vivo. Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei”.

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Luiz Fernando Carvalho, o diretor, confessou que no período de criação, ficou solitário querendo alcançar. “E solidão é não precisar”, diz o livro. Maria Fernanda Cândido contou que saiu muito melhor dessas filmagens. Clarice, de longe, deu a mão a todos. “Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.” Diz G.H. Mas você podia dizer. Ou eu. Ou todos nós.

"Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria."
"Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria." "Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria."

Escrito em 1963, e publicado um ano depois, Clarice revelou uma curiosidade sobre o livro aos amigos Affonso Romano de Sant’anna e Marina Colasanti. “Eu estava na pior das situações, tanto sentimental, como de família, tudo complicado. Escrevi ‘A Paixão’ que não tem nada a ver com isso. Não reflete!

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Affonso questiona:

- Você acha que não reflete?

- Acho em absoluto! Porque não escrevo como catarse para desabafar não... Eu nunca desabafei num livro. Para isso servem os amigos... Eu quero a coisa em si.”

Clarice queria a coisa em si e queria tudo que a desafiasse. Ver os romances de Clarice nas telas de cinema seria, com certeza, motivo de orgulho para ela, que tanto era fã de uma salinha com pipoca e coca-cola. “A Hora da Estrela”, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, e agora “A Paixão segundo G.H.”, deixam os sofás das salas mais macios e profundos.

Escrito em 1963, e publicado um ano depois, Clarice revelou uma curiosidade sobre o livro aos amigos Affonso Romano de Sant’anna e Marina Colasanti. “Eu estava na pior das situações, tanto sentimental, como de família, tudo complicado. Escrevi ‘A Paixão’ que não tem nada a ver com isso. Não reflete!

Não importa se você gostou ou não do livro. Se gostou ou não do filme. O amor já está, está sempre. Diz G.H. Mas você podia dizer. Ou eu. Ou todos nós.

"Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei."
"Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei." "Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei."

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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