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"Eu sou uma tímida arrojada. Sou tímida, mas me lanço"

Clarice Lispector revela detalhes da vida na entrevista aos escritores Marina Colasanti e Afonso Romano de Sant’anna ao Museu da Imagem e do Som - MIS-RJ, em 20/10/1976

Se eu fosse eu|Do R7

“Vou me seguindo e não sei o que vai dar”.

Quero somente que se saiba o seguinte: que hoje, 20 de outubro de 1976, “tá” chovendo, eu “tô”com vestido de camurça… Estou com meus amigos Afonso Romano de Sant’anna e Marina Colasanti e quero saber que valor tem isso depois que eu morrer?

Assim termina a entrevista de Clarice aos escritores Marina Colasanti, Afonso Romano de Sant’anna e a João Salgueiro, diretor do Museu da Imagem e do Som do Rio Janeiro, em 20 de outubro de 1976.

Uma Clarice nunca antes percebida. Muito diferente de como guardamos a imagem dela, daquela entrevista ao jornalista Júlio Lerner, em fevereiro de 1977, no programa Panomara, na Tv Cultura. Ali, o mundo viu uma Clarice cansada, demonstrando irritação e falta de paciência. Meses depois, a escritora morreu, vítima de câncer no ovário. Tânia Lispector Kaufmann, irmã de Clarice, sempre revelou que nunca gostou daquela entrevista. Foi exibida depois da morte dela, conforme combinado com o jornalista Júlio Lerner.

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Já nessa entrevista ao MIS, em 1976, recuperada agora, ouvimos uma Clarice calma, serena, à vontade com os amigos, gargalhando até! E soltando frases enigmáticas, rindo, sempre obcecada por cigarro e Coca-Cola:

- Eu estou com vergonha de dizer, mas estou com sede: tem Coca-cola?… (risos)

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No áudio histórico e incrível, o barulho das borbulhas de gás do refrigerante caindo no copo. A gente imagina Clarice se deliciando ali, assim como devaneia na Literatura.

A morte, o prazer de uma Coca-Cola e crise existencial, temas recorrentes na obra de Clarice.

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Clarice Lispector: Quando eu parto de uma ideia que me guia, eu não reescrevo, o que não quer dizer que não mexa muito nas palavras… Obrigada.. Esse é o século da Coca-Cola!

Afonso Romano de Sant’anna: Quando você morrer…

Clarice Lispector: Será que terá Coca-Cola e Pepsi ainda? Daqui a não sei quanto tempo?

Faz revelações do que gostava de ler, de como cresceu e viveu em Recife, sobre a mãe doente… Sempre com naturalidade desconcertante:

Marina Colasanti: Ela tem boa coleção de retratos. Vários artistas pintaram Clarice.

Clarice Lispector: O negócio é o seguinte: é que eu, ao que parece, tenho o rosto um pouco exótico. E isso atrai muito os pintores.

Atraía pintores, escritores, estudantes, músicos. Políticos ficavam venerados.

Um misto de uma mulher prática e ao mesmo tempo emocional, que num simples bate papo com amigos, se revela.

Conta sem cerimônia dessa paixão que provocava nos homens. Quando morou em Berna, na Suíça, na década de 40, deu detalhes sobre a obsessão de um estudante de Filosofia:

Clarice Lispector: Ele tinha se apaixonado por mim, era um homem casado na Suíça, de modo que nunca mais voltou. (risos)

Curiosamente, o estudante se chamava Ulisses. Nome que Clarice adotou em personagens nos romances e contos e ao fiel escudeiro, o cachorro vira-latas que acompanhou a escritora até à morte, em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.

A gente imagina Clarice sentada ali; numa mão um cigarro, na outra, um copo de Coca-Cola e muito à vontade para dizer como é o processo de escrita:

Clarice Lispector: Eu nunca sei de antemão o que eu vou escrever. Têm escritores que só se põem a escrever quando têm o livro na cabeça. Eu não. Vou me seguindo e não sei no que vai dar. Depois vou descobrindo o que eu queria.

Ainda bem que foi assim. Sem imaginar, deixou um legado de obras intransponíveis, submersivas e ao mesmo tempo, reais, guturais, dessas que deixam a gente sem fôlego, e em que só uma Coca-Cola resolve.

Na entrevista, ela cita uma frase de um amigo, que disse a ela:

“O que é bom não precisa de explicação”.

Respondendo à pergunta do começo do texto, João Salgueiro, então diretor do MIS-RJ, diz:

“Bom, o valor é fundamental, o seu nome fica na Literatura Brasileira pra sempre”.

Clarice Lispector: Ficará? Eu não escrevo para a posteridade.

João Salgueiro: Mas já está independente da sua vontade.

É mesmo. O bom não tem explicação, Clarice. Nem Coca-Cola. E sua obra já ficou para a eternidade, com chuva e vestido de camurça.

“Vou me seguindo e não sei o que vai dar”.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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