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Patricia Lages
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Ciência reafirma que escrever à mão melhora o aprendizado

Escolas nos EUA e Canadá voltam atrás e restabelecem o ensino da letra cursiva e o uso de livros impressos

Patricia Lages|Do R7 e Patricia Lages

Escrever à mão beneficia o aprendizado
Escrever à mão beneficia o aprendizado Escrever à mão beneficia o aprendizado (Pexels by Pixabay)

Não há dúvida de que a tecnologia veio para ficar e que, no geral, ela traz grandes benefícios a todos nós. Porém, por mais que tenhamos avançado nessa área, os seres humanos continuam sendo seres humanos, com as mesmas necessidades e com o mesmo funcionamento.

Quando olhamos a História como um todo, concluímos que um ou dois séculos são pequenos períodos, por isso, toda a evolução tecnológica que estamos testemunhando nas últimas décadas é algo ainda muito novo. Não nos é possível saber, por exemplo, quais serão os impactos que a internet causará às crianças, quais malefícios a luz das telas trarão ou se haverá um aumento das deficiências auditivas pelo uso constante de fones de ouvido.

Porém, em relação à substituição total do analógico pelo digital nas escolas, já temos amostras importantes de que é preciso dar alguns passos atrás. Caso da Suécia, que há 15 anos substituiu totalmente o ensino analógico pelo digital, mas descontinuou o programa no ano passado. Os alunos suecos foram os primeiros do mundo a estudar apenas com e-books e a trocar os cadernos por tablets e computadores, mas em 2022, o Ministério da Educação notou uma queda acentuada na interpretação de texto, fazendo com que o ensino 100% digital fosse suspenso.

Ainda não se sabe o quanto esse distanciamento dos livros físicos e da escrita à mão foi prejudicial aos estudantes suecos e nem se a volta ao analógico será capaz de reverter o quadro. O que sabemos é que os seres humanos não são digitais, são analógicos, e que o nosso cérebro precisa de tempo para aprender e memorizar.

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A importância da escrita à mão

A ciência afirma que uma das formas de respeitar o “tempo do cérebro" é escrever à mão, principalmente em letra cursiva, onde cada palavra é formada por um movimento contínuo, tornando o processo mais fluido.

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No Brasil, a letra cursiva é obrigatória e faz parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desde a alfabetização. O mesmo ocorre em países como Espanha, França, Itália, Portugal e Reino Unido. Já nos Estados Unidos e Canadá, esse tipo de escrita havia sido praticamente abolido. Porém, ao notar prejuízos no desenvolvimento dos alunos, o Canadá voltou a exigir a escrita cursiva no ano passado e agora é a vez dos Estados Unidos, onde mais de 20 estados também restabeleceram a exigência.

Para Virginia Berninger, professora de Psicologia Educacional da Universidade de Washington, a escrita é essencial. “Esse mito de que a caligrafia é apenas uma habilidade motora é errado. Usamos as partes motoras do nosso cérebro, o planejamento motor, o controle motor, mas muito mais importante é a região do cérebro onde o visual e a linguagem se unem, os giros fusiformes, onde os estímulos visuais realmente se tornam letras e palavras escritas”.

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Um estudo publicado na revista científica Psychological Science avaliou alunos de uma universidade americana dividindo-os em dois grupos: os que anotavam à mão e os que anotavam digitando. O resultado apontou que os alunos que anotaram à mão tiveram melhor aprendizado do que os que digitaram. Isso porque o processo de digitar as letras não gera as mesmas ativações cerebrais que a escrita.

Como afirmou Berninger, quando escrevemos à mão, formando as palavras letra a letra, unimos um exercício motor a um exercício mental e essa junção de habilidades exige mais tempo e atenção, resultando na melhora do aprendizado.

Como escritora e entusiasta da escrita à mão, acredito que escrever de próprio punho também é um exercício afetivo. Uma das tarefas escolares de que mais gostei foi escrever uma carta para um colega de classe e enviá-la pelo correio. Como os destinatários eram sorteados, era preciso obter informações sobre o colega e buscar afinidades para poder desenvolver o assunto. A maioria dos alunos gostou tanto da experiência que a troca de cartas foi além da tarefa e se tornou um hábito entre diversos grupos.

Saber que alguém investiu tempo em escolher o papel e a caneta, que buscou o momento certo e um local tranquilo para escrever e ver o capricho de uma caligrafia bem escrita é uma demonstração de afeto que nem mesmo o teclado do computador mais moderno do mundo poderá substituir. Muitas vezes, voltar ao passado pode significar o caminho para um futuro melhor.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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