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Patricia Lages
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"Não é que tenhamos um curto espaço de tempo para viver, mas o desperdiçamos demais"

Frase de Sêneca, nascido em 4 a.C., se mostra bastante atual, pois enquanto parece faltar tempo, sobra desperdício

Patricia Lages|Do R7

Entre a vasta obra de Sêneca, filósofo pertencente à escola estoica — de moral rigorosa focada no exemplo — destaca-se o diálogo Sobre a Brevidade da Vida.

Nele, Sêneca trata o desperdício de tempo como desperdício de vida e dá conselhos práticos ae cada um para que tome as rédeas de seu tempo, dando aos dias um sentido maior do que simplesmente passar por eles.

“A vida é longa o bastante e foi concedida em medida suficientemente generosa para permitir a realização de coisas maiores, se o tempo for bem investido. Mas, quando é desperdiçado no luxo e no descuido, quando não é dedicado a bons fins, finalmente forçados pela necessidade última, percebemos que ele passou antes de sabermos que estava passando”, escreveu o filósofo.

No prefácio de uma das edições da obra (Ed. Camelot), a professora e filósofa Lúcia Helena Galvão destaca sete fundamentos do diálogo de Sêneca que cabem perfeitamente na vida moderna, em que a ideia de que não há tempo caminha lado a lado com o desperdício de tempo.

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Ao olhar para o passado e avaliar o uso do tempo, o que mais encontraremos além do rastro da banalidade?
Ao olhar para o passado e avaliar o uso do tempo, o que mais encontraremos além do rastro da banalidade? Ao olhar para o passado e avaliar o uso do tempo, o que mais encontraremos além do rastro da banalidade?

1. A vida não é curta, e sim mal aproveitada

Galvão destaca que “só retém aquilo que foi vivido com ‘corpo e mente juntos’”. Há quase dez anos tenho começado minhas palestras sobre finanças e empreendedorismo dizendo que, se as pessoas estiverem ali de “corpo presente, mas mente ausente”, só perderão seu tempo.

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Nessa hora as pessoas se mexem nas poltronas, guardam seus celulares, dão um sorriso amarelo e só então começam a prestar atenção (ainda que não por muito tempo e eu tenha de repetir a frase).

É preciso que sejamos intencionais, que tenhamos o cuidado de manter o foco, e não cair na armadilha de que podemos fazer várias coisas “ao mesmo tempo”. Essa ideia é ilusória e só nos faz perder tempo, oportunidade e, como disse Sêneca, vida.

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2. Há que evitar o desperdício de tempo em inércia e vícios

Atualmente temos a junção de inércia e vício literalmente na palma de nossas mãos. Os smartphones se transformaram em uma extensão de nós mesmos e, se não estivermos atentos, eles roubarão nosso tempo e nos tornarão cada vez mais dependentes da “dopamina digital” que as redes sociais fornecem em doses cada vez maiores.

3. Quem não possui nenhum objetivo fixo vive ao sabor das marés

Lúcia Helena nos traz a imagem de um náufrago em alto-mar, que se vê jogado de um lado para o outro sem nenhum controle de seu destino. Mas, ao ver a ponta de uma corda e perceber que ela está fortemente amarrada à terra firme, se agarra a ela e a traciona um pouco a cada dia, “sem pressa e sem pausa”, diz a filósofa e completa:

“Esta meta, este rumo claro e bem definido resgatam-no da escravidão das marés e o tornam livre para dar sentido e valor a cada um de seus dias, a cada um de seus esforços. Assim é com o sentido de vida humano, seu propósito humano de realização: ligado firmemente a ele, cada movimento das mãos desse homem é um pouco do futuro que já foi conquistado, que já foi trazido ao presente; nenhum tempo é desperdiçado”.

Onde está a sua corda e para onde ela o está levando?

4. Quem lhe deu algum momento de atenção é melhor que tu, que nunca dás esta mesma atenção a ti mesmo

Trazendo a reflexão para um dos meus principais assuntos, o empreendedorismo, uma das maiores queixas dequeles que desejam abrir um negócio ou começar uma atividade de renda extra é não saber o que querem fazer, o que gostam de fazer ou ainda o que têm talento para fazer.

Enquanto os mais jovens acham que podem fazer tudo e se perdem em meio a um emaranhado de possibilidades, os mais velhos dizem ter passado a vida fazendo o que os outros queriam, sem ter ideia do que fazer quando ninguém os está guiando.

Não ter tempo para conhecer a si mesmo é perder tempo. É como viver à deriva, tal qual o náufrago em alto mar, mas sem achar a ponta da corda ou mesmo sem tracioná-la um pouco a cada dia.

5. Será que buscas o outro só para fugir de ti mesmo?

A pergunta filosófica da professora traz imediatamente outra: como querer conhecer o outro sem conhecermos a nós mesmos? Minha reflexão, não tão rica em palavras quanto à de Lúcia Helena, traz mais um ponto de vista: será que as pessoas se interessam tanto pela vida dos outros somente para evitar pensar em suas próprias vidas?

6. Por que defendes teu patrimônio, mas entregas com facilidade o teu tempo?

Como disse Albert Einstein, o tempo é relativo. Sobre isso, Galvão faz um paralelo entre haver muito tempo disponível para banalidades, mas não haver tempo para a leitura de um bom livro: “Mas quando a banalidade bate à nossa porta, somos pródigos e entregamos nosso tempo sem medidas nem moderação. Um dia, ao olhar para o passado e avaliar o uso do nosso tempo, o que mais encontraremos além do rastro da banalidade?”, questiona.

7. Reservamos para nós apenas as sobras da vida!

Muitos cuidam de alimentar o corpo, mas nem todos cuidam de algo mais importante, destacado por Carl Jung, fundador da psicologia analítica: “O homem do século 20, que tanto fala em economia, é, na verdade, um esbanjador; esbanja o mais precioso: o espírito”.

E a pergunta é: como anda o seu espírito: bem alimentado ou quase beirando a inanição?

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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