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Patricia Lages
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O que há por trás do pensamento “gosto mais de bicho do que de gente”

Por que o amor aos animais parece estar atrelado à indiferença e ao desprezo aos seres humanos?

Patricia Lages|Do R7

Mais de 10 mil animais já foram resgatados com vida em todo o Rio Grande do Sul O cavalo ‘Caramelo’ se tornou símbolo da resistência animal após ficar ilhado por quatro dias

Talvez a frase aparentemente inocente “gosto mais de bicho do que de gente” tenha surgido da decepção de muitos com a degradação do comportamento humano. Porém, há que se considerar os desdobramentos que esse conceito tem causado e ainda pode causar.

Em 2013, um acontecimento em um parque público da região de Villa Groggia, em Veneza, foi parar nas manchetes de diversos jornais italianos: uma senhora solicitou às autoridades que as crianças fossem proibidas de brincar no local sob a alegação de perturbarem seu cachorro. O pedido foi acatado e crianças de 2 a 8 anos foram, de fato, proibidas de brincar ali.

Outro exemplo do que acontece quando a sociedade perde a mão é uma frase que se tornou comum entre os amantes dos felinos e chegou a virar estampa de camiseta: “Nos livramos das crianças, o gato era alérgico”. Trata-se de uma piada? Pode até ser, mas a questão é que, se o contrário for dito, provavelmente perderá a graça na hora.

Imagine o que aconteceria a uma lanchonete que ousasse criar um hambúrguer simulando o gosto e a textura da carne canina. Certamente seria “cancelada” nas redes sociais e amargaria um tremendo boicote. Por outro lado, em 2014, o restaurante Terminus Tavern, em Londres, lançou um sanduíche “sabor carne humana”, batizado de “hambúrguer canibal”.

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Para dar um ar de realismo à coisa, os criadores afirmaram terem lido a declaração de um homem que praticava o canibalismo descrevendo o sabor: uma mistura de carne suína, costela, vitela e fígado de frango. Alguma comoção? Não, nenhuma. Ao contrário, o sanduíche foi utilizado para promover a quinta temporada da série The Walking Dead.

Somos todos iguais perante a lei?

No artigo “O Projeto Tamar”, de 2005, o jurista Ives Gandra Martins afirma que, para alguns parlamentares brasileiros, as tartarugas são mais importantes que os seres humanos.

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“O denominado projeto Tamar protege a vida das tartarugas desde 1980, com equipe especializada monitorando todas as noites, de setembro a março, 1.100 praias no litoral, e de janeiro a junho, as ilhas oceânicas. Protege-se, desta forma, 14.000 ninhos, algo em torno de 650.000 filhotes. Quem destruir um único ovo de tartaruga comete crime contra a fauna e poderá ir para a cadeia (Lei 9.605/93)”, diz o artigo.

Não é preciso dizer que o cidadão comum não tem a mesma proteção, porém, o objetivo do jurista é traçar um contraponto com um projeto da deputada Jandira Feghali (PCdoB), apresentado à época, em que um bebê pode ser abortado sob qualquer circunstância e motivo até o último minuto antes do parto. Se um ovo de tartaruga não pode ser destruído, por já representar uma vida, por que um feto humano é tratado de forma diferente?

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Para citar mais um exemplo, vejamos o artigo 49 da Lei 9605/98: “Destruir, danificar, lesar ou maltratar, por qualquer modo ou meio, plantas de ornamentação de logradouros públicos ou em propriedade privada alheia: Pena de detenção de três meses a um ano, ou multa, ou ambas as penas cumulativamente”.

Segundo análise publicada no site Jusbrasil, essa lei considera crime ambiental o ato de destruir ou danificar mesmo quando não há intenção.

“Esse crime é punido mesmo quando você danifica a planta sem querer. Exemplo: você chega do trabalho e, ao entrar com o carro na garagem, se distrai e acaba passando por cima de um arbusto que estava ali enfeitando a calçada. Parece um absurdo, não é? Sim, eu também acho. Inclusive defendo que esse crime, na modalidade culposa (sem intenção de causar o dano ou de assumir esse risco), é inconstitucional (fere a intervenção mínima do Direito Penal)”, diz o texto de Danilo de Albuquerque, advogado criminalista.

A desproporcionalidade quando se trata de direitos humanos, animais e ambientais é latente, mas não é de hoje. No Antigo Egito, onde diversos animais eram adorados, as práticas religiosas envolvendo sacrifícios em seus rituais poupavam os animais, mas ofereciam seres humanos, preferencialmente crianças, por sua pureza, mas também adultos, desde que tivessem um físico perfeito.

Sobre isso, o escritor inglês G.K. Chesterton, cunhou uma frase tão emblemática quanto real: “Onde quer que haja adoração a animais, ali haverá sacrifício humano.” Seja em maior ou menor grau, é isso que temos visto: por trás da veneração aos animais quase sempre está o sacrifício – tanto em direitos quanto em forma de desprezo – aos seres humanos.

Na semana passada, o salvamento do cavalo de Canoas (RS) foi muito mais cobrado e comemorado do que os salvamentos das pessoas atingidas pela tragédia gaúcha. Também não é preciso dizer que as diversas pessoas que aguardavam resgate sobre os telhados não causaram a mesma comoção.

É evidente que todos devemos cuidar do meio ambiente e dos animais e que as leis que os protegem acabam, por fim, protegendo o mundo como um todo. Porém, esse endeusamento desmedido tem promovido a desvalorização da vida humana, o que, por fim, coloca em risco o mundo como um todo.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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