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Patricia Lages
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Pedagogia cada vez mais longe da realidade do professor

Enquanto burocratas estabelecem regras descoladas da realidade, professores ficam cada vez mais sobrecarregados e qualidade do ensino cai

Patricia Lages|Do R7 e Patricia Lages

Professores sobrecarregados por burocratas que desconhecem a realidade das escolas
Professores sobrecarregados por burocratas que desconhecem a realidade das escolas Professores sobrecarregados por burocratas que desconhecem a realidade das escolas (Freepik)

Entre as milhares de sugestões de pauta que recebi na semana passada, uma me chamou a atenção pela abordagem fantasiosa e totalmente descolada da realidade da maioria das escolas brasileiras. Nela, uma neuropedagoga traça diretrizes de como os professores devem trabalhar em sala de aula para garantir uma “educação inclusiva” e atender aos alunos com necessidades especiais. Destaco abaixo apenas três das diversas demandas que, segundo a especialista, um “bom professor” deve atender:

• Ajustar seus métodos de ensino, materiais didáticos e abordagens pedagógicas para atender às necessidades individuais de cada aluno;

• Ser criativo, inovador, pensar fora da caixa, desenvolver atividades estimulantes e adaptar-se ao estilo de aprendizagem de cada aluno;

• Enfrentar obstáculos e situações difíceis com calma e determinação, trabalhando em conjunto com psicólogos, terapeutas e especialistas em inclusão.

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Agora, vamos à realidade do professor brasileiro do ensino fundamental que leciona para 35 alunos por sala, em média. O site Educador Brasil Escola descreve a situação:

“O excesso de tarefas causa um esgotamento físico e intelectual. Comportamento resultante do sistema de ensino extremamente burocrático adotado no país. O professor brasileiro é cercado de um arsenal de burocracias, como: diários, planos de aula, fichas avaliativas, formulários, entre outros. Incluindo ainda a imensa quantidade de trabalho que o professor leva para casa, tais como: plano de aula, elaboração de atividades, provas, trabalhos, correções, testes, projetos etc. […] A defasagem salarial não supre todo o trabalho realizado fora da escola, nos finais de semana e feriados. […] O professor ainda se submete aos vários tipos de violências ocorridas na sala de aula, dentre as principais estão: violência verbal, assédio moral, violência moral. Além de pressões exercidas por parte da coordenação por melhorias de notas, fiscalização semelhante à vigilância nas salas.”

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Por causa dos baixos salários, 45% dos professores atuam em mais de uma escola e 30% em mais de uma rede de ensino. Mas a jornada é pesada mesmo para os que trabalham em uma única escola, pois podem dar quatro aulas consecutivas por dia ou seis intercaladas. Com isso, cada professor pode chegar a lecionar para mais de 200 alunos.

Atualmente, com a espécie de surto de síndromes – segundo diversos estudos científicos, erroneamente diagnosticados – como TDAH, dislexia, autismo etc., quantos desses alunos apresentam algum tipo de necessidade especial?

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Dito isto, seria humanamente possível ajustar métodos, materiais e abordagens pedagógicas para atender às necessidades dos alunos individualmente? O que fazer para adaptar-se ao estilo de aprendizagem de cada um? E em que momento o professor trabalharia em conjunto com outros profissionais para discutir as demandas particularesdos estudantes?

Esses burocratas deveriam sair de suas salas confortavelmente climatizadas e ir à campo para, minimamente, conhecerem a realidade do ensino no país. Dessa forma, quem sabe, entenderiam que, ao sobrecarregar o professor com demandas irreais, jogam a qualidade do ensino em um poço ainda mais fundo.

É preciso que esses teóricos se aproximem da prática para entenderem as necessidades do corpo doscente e passarem a cobrar medidas efetivas do poder público e não o contrário. Por fim, o Brasil só se tornará um país sério quando o professor for devidamente valorizado, tanto pelos políticos, quanto pelos cidadãos em geral e, principalmente, pelos pais dos alunos que, muitas vezes, jogam suas responsabilidades sobre os ombros do educador. Quanto aos alunos, não seria nada mal se voltassem a ficar de pé assim que seus professores entram em sala de aula. Respeito nunca deveria sair de moda.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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