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'Nos anos 70 faziam muitas piadas sobre Elvis, até por ter completado 40 anos', diz biógrafo do cantor

Peter Guralnick, autor de 'O Último Trem para Memphis' e 'Amor Descuidado', fala sobre os anos finais do cantor americano

Odair Braz Jr|Do R7

Elvis em foto enigmática no início dos anos 1970, antes de um show em Las Vegas
Elvis em foto enigmática no início dos anos 1970, antes de um show em Las Vegas Elvis em foto enigmática no início dos anos 1970, antes de um show em Las Vegas

Não tem dia melhor para falar do Rei do Rock do que o próprio Dia Mundial do Rock, certo? Tudo bem que a data só é comemorada no Brasil, mas é um evento perfeito para pôr no ar uma entrevista com o escritor Peter Guralnick, o maior e mais importante biógrafo de Elvis Presley, artista que personifica o estilo.

Conversei pela primeira vez com Peter, como prefere ser chamado, no ano passado, quando foi lançado por aqui, na esteira da chegada de Elvis às telas, seu livro O Último Trem para Memphis. Agora já está nas principais livrarias (físicas e online) por aqui a continuação, Amor Descuidado (editora Belas Letras), que segue mostrando a trajetória pessoal e profissional de Elvis. Esse segundo volume retoma a história do cantor exatamente de onde o anterior parou e começa mostrando Presley em 1960, voltando da Alemanha, onde foi servir ao Exército americano. Para isso, obviamente, o jovem astro teve de pausar sua carreira musical por dois anos. Seu retorno para os Estados Unidos foi triunfal, e Elvis pôde revelar ao mundo por que era chamado de Rei do Rock. O retorno foi com força total, coisa que o próprio cantor tinha dúvidas de que fosse acontecer. "No Exército, Elvis estava extremamente preocupado, achava que iria perder tudo", explica o escritor numa nova entrevista exclusiva à coluna. A ida do músico para o Exército foi cercada de dúvidas sobre o futuro e aconteceu num momento em que sua mãe, Gladys, havia morrido fazia apenas alguns meses. Então, foram muitas mudanças e incertezas, mas tudo isso foi pelos ares quando, em 1960, ele voltou à ativa.

Esse segundo volume, junto do primeiro, formam o trabalho de Guralnick sobre Elvis. Biógrafo de mão cheia, o escritor já havia lançado anteriormente livros sobre o cantor de soul music Sam Cook e sobre Sam Phillips, dono da gravadora Sun Records, que deu a Elvis sua primeira chance. Ler um livro de Peter é também estar de frente para uma aula de história. Sua pesquisa é tão profunda e tão cheia de detalhes que é quase possível enxergar os personagens que vão aparecendo ao longo do texto. Sério mesmo: é impressionante ler qualquer coisa que tenha sido escrita por Guralnick, porque ele não deixa lacunas e não faz julgamentos bobos. Ele busca a verdade, quer revelar o que realmente aconteceu e, para isso, praticamente recria por meio de palavras os eventos que retrata.

E aqui, em Amor Descuidado, o autor coloca toda a sua maestria a serviço da história de Elvis a partir de 1960 até sua morte, em 1977. Toda essa fase longa, de 17 anos, está contemplada nesse segundo volume. Então, você vai poder tirar suas próprias conclusões sobre todos os eventos, trabalhos e até polêmicas pelas quais Presley passou. Você poderá ler detalhes sobre suas canções, passando pelas roupas consideradas extravagantes por muitos, chegando ao vício em medicamentos, seu divórcio de Priscilla Presley e os detalhes do relacionamento com seu empresário, o famoso Coronel Parker.

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Capa de 'Amor Descuidado'
Capa de 'Amor Descuidado' Capa de 'Amor Descuidado'

Aliás, a ligação Elvis-Parker foi muito retratada no filme Elvis, lançado em 2022, produção a que Guralnick afirma não ter assistido. Peter já mostra nesta conversa uma visão bastante diferente daquela apresentada no cinema pelo diretor Baz Luhrmann, especialmente em relação ao empresário de Presley. O autor entrevistou Parker no passado, várias vezes, e tem a noção exata de quem ele foi e o que pensava sobre Elvis, e é um tanto diferente do que se viu nas telas.

Acompanhe:

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Você assistiu a Elvis, filme do diretor Baz Luhrmann?

Não, não vi. Não é para mim [risos].

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No filme, o Coronel Parker é mostrado praticamente como um vilão na história do Elvis. Ele era isso mesmo?

Eu vi alguns trailers, e eles colocaram um sotaque estranho no Coronel [ele nasceu na Holanda], um sotaque do Leste Europeu. Ele não tinha sotaque. Se ele tivesse sotaque não teria ficado nesse país de 1929, quando estava no Exército — ele dizia que era de West Virginia —, até os próximos quase 70 anos. Se ele tivesse aquele sotaque, ninguém iria acreditar que era de West Virginia. Eu já vi alguns filmes de Baz Luhrmann e sinto que eles são mais sobre o espetáculo do que sobre as pessoas. Então, não quis ver o filme.

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Há uma ideia difundida de que o Coronel Parker recebia metade dos ganhos de Elvis. Isso é verdade ou mais um mito sobre o empresário?

Ele não ganhava 50%. Basicamente, ele ganhava 25%, mais ou menos o que praticamente todos, ou quase todos, os empresários ganhavam na época. E o Coronel não era só um empresário. Ele fazia toda a publicidade, toda a promoção, fazia tudo, e essas coisas custavam um bom dinheiro. Mas, mesmo com isso, ele recebia apenas a comissão de 25%. Elvis ficava com 75%. E o dinheiro que entrava para o Coronel não saía do bolso do Elvis, vinha do dinheiro gerado pelos filmes, pela venda de discos e também de outras receitas. Não é como se Elvis recebesse um cheque de 50 mil dólares e, desse dinheiro, tirasse 25% para Parker. Não é assim que as coisas funcionavam.

O escritor Peter Guralnick, principal biógrafo de Elvis Presley
O escritor Peter Guralnick, principal biógrafo de Elvis Presley O escritor Peter Guralnick, principal biógrafo de Elvis Presley

E o relacionamento deles mudou um pouco ali no fim dos anos 60, não?

Sim, as coisas mudaram entre 1967 e 1973, quando eles... Nessa época, Parker ainda recebia os 25%... E em 73 eles quase se separaram, mas houve um acordo complicado nesse ano que é difícil de justificar. Nessa época, as coisas ficaram complicadas entre eles. O Coronel queria, por exemplo, afastar Elvis das turnês, mas não conseguiu. Ele começou a dizer a Elvis o que deveria fazer, como deveria se comportar e como tratar os fãs. Queria que Elvis estivesse bem de saúde e, por isso, tentou tirá-lo das turnês, mas também não conseguiu. Nessa época, o Coronel ganhava ainda os mesmos 25%, mas passou a haver alguns meios pelos quais ele conseguia receber um pouco mais do que isso. Eventualmente, recebia 50% de algumas coisas, mas nunca 50% sobre tudo. Nunca chegou nem perto disso.

Provavelmente você ficaria louco se assistisse ao filme e visse como o Coronel foi mostrado.

[risos] É... Eu não quis ver o filme não só por causa do Coronel, mas porque não queria ver gente que conheci de verdade, como Sam Phillips, representada por meio de um desenho animado ou coisa assim, sabe? [O longa-metragem de Luhrmann tem algumas sequências em desenho animado]. Acho que é muito difícil representar pessoas exatamente do jeito que elas eram. Acho que você tem de respeitar as pessoas, tratá-las corretamente, e não diminuí-las. Não gosto dessas coisas. Acho que evitei ter ficado bem chateado ao escolher não ver o filme [risos].

A segunda parte de seu livro sobre Elvis começa quando ele volta para os Estados Unidos após servir ao Exército na Alemanha. Você acha que esse Elvis é diferente daquele que existia antes do Exército?

O segundo livro apresenta todos os tipos de desafio que Elvis teve de enfrentar. Mas eu queria mostrar, com Elvis voltando para o país, o grande otimismo que ele sentia naquele momento. Quis mostrar sua grande ambição artística. Os discos que ele fez nos três ou quatro anos após sua volta, 1961, 1962, 1963, estão entre os mais artisticamente ambiciosos que já fez. São alguns dos mais bem-feitos também. Sua interpretação e a escolha das músicas são extraordinárias. O álbum Elvis Is Back é o maior exemplo disso. E o alcance do material, sua dedicação... e sua voz, que se desenvolveu significativamente enquanto estava na Alemanha com o Exército. Elvis aprendeu algumas técnicas, mas isso nem é importante, porque Elvis era mesmo um autodidata. Ele era um cara brilhante que podia aprender sozinho qualquer coisa. Ele tinha curiosidade sobre tudo.

Em Amor Descuidado você chega até a morte de Elvis, certo?

Bom, o fim da história dele todo mundo sabe, é trágica. Então, nesse segundo livro eu quis enfatizar vários momentos da carreira de Elvis, como a gravação do disco [gospel] How Great Thou Art, o especial de 1968, as sessões de gravação de 1969 no American Studios, em Memphis, sua estreia em Las Vegas, que foi altamente ambiciosa, com ele apresentando todos os tipos de música. No livro eu quis mostrar a profundidade de seu comprometimento com a música e sua ambição, e que ele não foi para Vegas só para ganhar dinheiro.

Quando sua mãe morreu%2C é como se Elvis tivesse tirado de si a razão de existir

(Peter Guralnick)

Bem, a partir dos anos 1960 parece que tudo mudou para Elvis.

Você me perguntou se eu acho que ele mudou [quando voltou do Exército], e eu digo que tudo mudou para Elvis quando sua mãe morreu. Ele e sua mãe compartilhavam uma afinidade espiritual desde quando ele era criança. Gladys tinha uma visão do que Elvis poderia ser no futuro, e ela e Elvis dividiam algum tipo de fé. Elvis também era muito próximo de seu pai, Vernon. Mas ele não era uma pessoa visionária como Elvis e sua mãe. E, quando sua mãe morreu, é como se Elvis tivesse tirado de si a razão de existir. Seu sucesso inicial era um jeito de presentear sua mãe, seu pai. Ele acreditava ter recebido um dom e tinha um propósito quase espiritual para esse dom. Ele realmente acreditava nisso. E, quando sua mãe morreu, ficou destruído. Ficou se perguntando qual o seu propósito na Terra. Ele compartilhava uma visão de mundo com sua mãe, e, de repente, tudo aquilo acabou. Foi tirado dele.

Elvis chegou mesmo a pensar que sua ida para o Exército poria fim a sua carreira?

Enquanto estava no Exército, Elvis estava extremamente preocupado, achava que perderia tudo, que sua carreira tinha chegado ao fim. E esse foi um dos melhores períodos de sua amizade com o Coronel Parker. Quando Elvis estava na Europa, Parker se comunicava muito com ele por meio de cartas e o atualizava sobre tudo. Nesse período, o Coronel fez acordos para Elvis e ia lhe dando confiança, assegurando que tudo estava bem. Mostrava que os ganhos de Elvis continuariam entrando e que o sucesso permaneceria. Nesse período, foi feito o acordo para Elvis estrelar vários filmes. Essas cartas de Parker eram um apoio psicológico que o Coronel dava a Elvis. Porque Elvis estava mesmo muito preocupado, contrariado e deprimido na Alemanha, mesmo sendo mostrado de uma maneira positiva na imprensa. E as cartas do Coronel são essas obras-primas de apoio psicológico. Você pode ver tudo isso em Amor Descuidado. Você poderá ver a importância do Coronel nesse segundo livro.

Em Amor Descuidado você descreve o encontro entre Elvis e os Beatles. Por que você acha que esse encontro foi tão chato? Você acha que Elvis não queria ter se reunido com eles?

Existia muita insegurança nos dois lados. Alguns dos rapazes dos Beatles queriam ficar chapados, e alguns dos homens de Elvis ficaram chapados com eles. Elvis não estava se sentindo confortável com a situação. Não importa se era um evento profissional ou não, mas era parcialmente profissional. Acho que Elvis não gostava da ideia de que os Beatles disputavam posição com ele nas paradas musicais. A coisa não foi muito confortável, e acho que alguns deles, como John Lennon, que achava que levava vantagem sobre Elvis, acabaram mantendo uma certa distância. E acho que esse encontro não foi muito significativo. Aliás, foi mais significativo para Brian Epstein [empresário dos Beatles], que encontrou o Coronel Parker, com quem trocou várias cartas depois disso.

Elvis em seu famoso especial de TV de 1968, que é descrito em detalhes no livro
Elvis em seu famoso especial de TV de 1968, que é descrito em detalhes no livro Elvis em seu famoso especial de TV de 1968, que é descrito em detalhes no livro

Os anos 1970 trouxeram muitas mudanças para a vida e a carreira de Elvis. Muita gente considera essa uma década ruim para ele artisticamente. Você concorda com essa visão?

Bem, essa década começa com um renascimento artístico de Elvis, que tem início, na verdade, em 1967, quando ele lança três canções — Guitar Man, You Don’t Know Me e U.S. Male — que representam uma volta às suas raízes musicais. E em 1968 você tem o especial de TV, que é um momento único, no qual se vê Elvis cantando suas músicas de maneira emocionante e falando com o público sobre estar nervoso, inseguro. Tudo isso aparece nessa performance elétrica. Isso tudo aconteceu no fim dos anos 1960, numa outra década, mas que desencadeou o que Elvis viria a ser nos anos 1970. Em 69 ele faz as gravações em Memphis com [o produtor] Chips Moman, das quais sai Suspicious Minds. É um grande momento artístico. E ainda em 69 ele estreia no International Hotel, em Las Vegas. Para Elvis, isso foi uma marca artística, e até uma parte dos anos 1970 é possível notar seu comprometimento com as performances ao vivo. Em 1971 ele começa a fazer turnês pelos EUA. Em 72, faz uma turnê muito maior, e é nesse mesmo ano que ele e Priscilla se separam.

Você acredita que o divórcio abalou Elvis de maneira definitiva?

Bem, não sou psicólogo, mas de 1973 em diante qualquer um pode ver que Elvis estava clinicamente deprimido. Nesse sentido, os anos 1970 foram uma década ruim para ele? Foi muito ruim! Principalmente depois de 1973, não por razões externas, mas pelo seu isolamento, falta de esperança, apatia. Tudo isso foi muito motivado pelo uso de medicamentos sem controle, apesar de prescritos por médicos. E era mesmo de maneira descontrolada, porque todos os médicos a que ele recorria estavam em sua folha de pagamento. Então ele conseguia o medicamento que queria. O médico que o tratou por mais tempo e o que menos o encorajou a continuar com o excesso de remédios foi o doutor Nick, que é sempre considerado o mais culpado pela saúde de Elvis. Ele foi o único dos médicos de Elvis que tentou livrá-lo do vício em remédios. Não quero retratá-lo como herói, mas é irônico que seja sempre considerado o grande culpado por tudo o que aconteceu com Elvis. Então, os anos 1970, especialmente de 73 em diante, foram terríveis para Elvis, mas por esses motivos.

Elvis não recebeu ajuda das pessoas a sua volta?

Não era fácil oferecer ajuda a ele. Muita gente tentou, mas não era fácil. As pessoas do entorno de Elvis tentaram intervir. O Coronel tentou várias vezes. Seu pai tentou. O doutor Nick tentou. Mas todas estas pessoas — e outras mais — estavam na folha de pagamento de Elvis, incluindo seu pai. E Elvis era uma pessoa muito direta. Se ele não gostava de algo que alguém dissesse, ele falava: "A porta está aberta”. E ele disse isso ao doutor Nick, a seu pai, ao Coronel. No fim, a visão das pessoas é a de que o Coronel colocava Elvis para fazer turnês para ganhar dinheiro e pagar suas dívidas com jogos de azar [Parker era viciado em cassinos]. E nada está mais longe da verdade do que isso. É engraçado dizer isso, mas nem Elvis nem o Coronel estavam nisso por causa do dinheiro. O coronel estava tentando proteger Elvis e sua saúde.

Então, tentaram ajudar Elvis, e ele é que não aceitava?

Muitas pessoas tentaram ajudar Elvis a encarar seus problemas. O doutor Nick chegou a levar um psiquiatra até Elvis, mas ele não estava equilibrado nessa época. Por causa de uma desavença durante uma residência no hotel Hilton, Elvis acabou demitindo o Coronel. Eles foram e voltaram algumas vezes e, no fim, voltaram a trabalhar juntos. Isso foi por volta de 1976, nos anos finais, quando ficou claro que Elvis estava tendo cada vez mais dificuldades para fazer shows, inclusive tendo que cancelar algumas apresentações, coisa que nunca havia feito antes.

Os anos 1970%2C especialmente de 73 em diante%2C foram terríveis para Elvis

(Peter Guralnick)

E Elvis nunca quis parar com os shows?

Ele teve problemas terríveis nesse período [75, 76, 77]. Foi nessa época que o Coronel tentou convencer Elvis a parar com as turnês até que sua saúde melhorasse. Mas Elvis sempre voltava e dizia: “Eu estou bem agora, estou ótimo, pronto para fazer o show”. Não estou querendo culpar Elvis por fazer tantos shows, mas o Coronel também não foi o culpado. Ele era o menos interessado em dinheiro. Ele não tinha nenhuma preocupação em perder milhões de dólares nas roletas dos cassinos ou onde quer que fosse. Mas Elvis torrava seu dinheiro e teve enormes problemas financeiros ao longo dos anos simplesmente porque gastava demais. O Coronel, por sua vez, sempre deixava separado, para Elvis, 1 milhão de dólares para sempre ter à mão caso houvesse uma necessidade. Não sua necessidade, mas a de Elvis. Tanto é que, quando morreu, Elvis tinha exatamente 1 milhão de dólares no banco. Enfim, o resumo disso tudo é que ninguém forçava Elvis a fazer turnês, ele mesmo é quem queria isso. Principalmente porque precisava do dinheiro, porque gastava muito dando carros às pessoas, casas etc. Ele gastava muito.

Você mencionou o doutor Nick. As pessoas e a mídia tendem a vê-lo como vilão e até mesmo culpá-lo pela morte de Elvis. Você concorda com essa ideia?

Sabe, na vida não existem muitos vilões. Atualmente a gente tem visto alguns vilões na arena política, mas não vou entrar nisso [risos]. Mas a pior coisa que pode ser dita no caso do doutor Nick é que ele se permitiu entrar na folha de pagamento e ficar financeiramente dependente de Elvis. Mas o doutor Nick mostrou um grande cuidado e empatia com Elvis. Particularmente em 1973, quando percebeu que Elvis estava viciado em Demerol. O doutor o levou para o hospital, cuidou dele e levou dois psiquiatras. Foi nessa época que foi identificado que Elvis tinha glaucoma também. Nick passou a tratar Elvis com placebos, para livrá-lo do vício. Enfim, não gosto de parecer ser o advogado do doutor Nick, mas nenhum dos médicos de Elvis fez isso. Seu médico em Las Vegas fez coisas terríveis. O de Los Angeles também. Não o doutor Nick. E, se ele não era um vilão, também não foi um herói. Tinha boas intenções, mas fez maus julgamentos.

Também nos anos 1970, Elvis foi acusado de ser um informante do governo americano a respeito de ações supostamente subversivas no meio artístico. O que você sabe sobre isso?

Como ele poderia ser um informante dentro daquele círculo pequeno em que vivia? Ele se voluntariou para ser um agente. Na verdade, para combater as drogas. Isso é mais uma anomalia, uma peculiaridade vinda de alguém que estava tomando tantas drogas, mesmo que farmacêuticas. Mas acho que Nixon [presidente dos EUA em parte dos anos 1970] nem nenhuma outra autoridade levava Elvis a sério nessa questão do combate às drogas. Fala-se muito sobre Elvis ser um agente secreto, mas quem ele iria combater? Ele era cercado por apenas um grupo de pessoas que ficavam todas dentro do mundo dele. O máximo que Elvis poderia fazer seria denunciar alguns de seus próprios amigos. Ou a si mesmo [risos]. Isso não faz sentido. Mas é verdade que ele se voluntariou para lutar contra as drogas.

Como você acha que a mídia e a imprensa em geral enxergavam Elvis três ou quatro anos antes de sua morte?

Acho que o viam se comportando de uma maneira cada vez mais errática, principalmente em relação às suas apresentações. Ele não era mais ele mesmo, estava sob a influência de alguma outra coisa. Cada vez mais, a partir de 1973, era visível que estava depressivo e que tinha um sentimento de desesperança. E, a partir de 73, ele parou de se desenvolver artisticamente, foi ficando cada vez mais difícil para ele entrar no estúdio de gravação. Eu não acho que os fãs desistiram dele, mas Elvis acabou se tornando praticamente uma paródia de si mesmo. Faziam piadas das jumpsuits [trajes que o cantor usava nos anos 1970], criticavam-no por ter feito 40 anos, por ganhar peso, por ter um comportamento errático. Esse foi um dos desafios que eu tive quando comecei a escrever O Último Trem para Memphis, porque eu queria escrever um livro que levasse Elvis a sério. Como um artista que formatou seu estilo artístico, que são coisas em que eu acreditava naquela época e acredito até hoje. E eu senti esse descaso com Elvis quando comecei a conversar com editoras para lançar meu livro. Acabei encontrando o editor que lançou o livro do jeito que eu queria, mas tive que nadar muito contra a maré para isso acontecer. Elvis era um personagem caricato quando lancei o livro, e acho que consegui mudar um pouco essa imagem.

Você acha que Elvis pode ser considerado um artista decadente nos dois ou três anos antes de sua morte?

Eu não diria decadente, eu diria que ele era uma alma perdida. Quer dizer, ele não era capaz de focar sua arte. Quando ele cantava canções, acho que as gravadas nas sessões de 1972, como Separate Ways, acho que ele foi brilhante, mas ele mesmo não gostava desta. Ele se sentia desconsolado. Nessa época, ele não tinha mais uma motivação artística, parece que queria fugir de si mesmo. Ele entrou em depressão e nunca mais conseguiu sair dela. No fim, ele não foi capaz de encarar seus medos, sua depressão. Não foi se tratar com um psiquiatra. Ele nunca faria isso. Então, ficou por conta própria. Ele preferiu ficar por conta própria. E não tinha mais contato com o mundo externo além das pessoas que o cercavam. Vivia confinado em seu próprio mundo.

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