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O mosquitinho clariceano já te picou?

Eles podem não entender direito a obra de Clarice, mas questionam mesmo assim

Se eu fosse eu|Do R7 e Renata Chiarantano

Quando se é jovem, se tem tudo. Pelo menos nos sonhos. Efervescência, inquietude, questionamentos. O sangue que pulsa no corpo jovem é mais vermelho. O desviar de veias e do perigo guiado pela ousadia. Copacabana, 1974. No alto da juventude sonhadora, pouco transviada, o escritor José Castello então com 23 anos, procurou Clarice Lispector. Tomou coragem e enviou um conto que acabara de escrever para o apartamento dela no Leme, no Rio de Janeiro. Dias depois, véspera de Natal e o telefone toca. “Clarrrrrrice Lispectorrrrrrr”. “Estou telefonando para falar do seu conto. Só tenho uma coisa para lhe dizer: você é um homem muito medroso. E com medo ninguém escreve.” Desligou.

Ele era jovem e medroso. Aquilo marcou José para sempre. Tornou-se escritor, profundamente influenciado pela obra dela. O tal do mosquitinho clariceano quando pica a gente, transgride por todo o corpo. Ele mesmo, José Castello, anos mais tarde, como repórter, conseguiu entrevistar a escritora no apartamento dela. “Por que você escreve?”. Ela respondeu com outra pergunta: “Por que você bebe água?”.

José Castello, escritor
José Castello, escritor José Castello, escritor

Clarice gostava dos desafios e os jovens esbanjam isso no olhar. Hermética e conflituosa, grande parte não entende as três páginas que ela escreve. Outra parte se esforça tanto que o mosquitinho clariceano nunca a abandona. É preciso ler Clarice em silêncio. Ela escrevia pra dentro. Mas como não compreendo? Se sou pura emoção? Para os que se perguntam tanto e nada entendem, Clarice não sabe e nem quer explicar. “Ou toca ou não toca”, costumava dizer.

Ela, que defendeu estudantes em passeatas, em 1968. Ela, que se orgulhava de dizer que a jovem de 17 anos tinha A Paixão Segundo G.H. como livro de cabeceira. O sangue vermelho escarlate do lado da cama. Ela provoca. Provoca tanto que convoca a releitura. Os que decidem mergulhar, nunca mais a abandonam. Os que não foram picados, talvez nunca sejam tocados. Os olhinhos que brilham ao pensar nela.... como são fáceis de notar.

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Eu mesma ouvi o tal do mosquitinho clariceano numa sala de aula cheia de estudantes, tamanho silêncio ali. O silêncio que é preciso ter para encarar Clarice. Mesmo num auditório cheio de hormônios e questionamentos suados. Senti orgulho de ouvir o mosquitinho clariceano naquele ambiente, sempre tão barulhento. De só ouvir a minha própria voz falando dela para jovens de 15, 16 anos.

Clarice ao fundo com os filhos Pedro e Paulo e estudantes atentos.
Clarice ao fundo com os filhos Pedro e Paulo e estudantes atentos. Clarice ao fundo com os filhos Pedro e Paulo e estudantes atentos.
No fundo, Geni, a cozinheira de Clarice com o cachorro Ulisses no colo
No fundo, Geni, a cozinheira de Clarice com o cachorro Ulisses no colo No fundo, Geni, a cozinheira de Clarice com o cachorro Ulisses no colo

Ela escreveu o primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, com 23 anos. Era a juventude cheia de devaneios, como deve ser. Ela sabia que o primeiro contato com a obra dela costumava ser com pouca idade. As cicatrizes são pra vida toda. A gente carrega na alma. Afinal, todos somos jovens na essência. Ninguém quer envelhecer mal. Vaidosa, Clarice buscou eternamente a jovialidade. A obra dela é para jovens, para adultos, é para todos e está viva. Eternamente viva. Pulsa no sangue. Sempre à espera do tal mosquitinho clariceano. Se ele aparecer, deixa picar. Deixa tocar.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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