Inverno sombrio

Ameaça do coronavírus, votação do impeachment de Trump, tempestade Dennis, prisão do magnata de Hollywood Harvey Weinstein por casos de abuso sexual, Brexit... A temporada internacional de desfiles chega ao fim depois de um mês conturbado - no qual a maioria das coleções de inverno refletiu, de alguma forma, essa atmosfera sombria que acompanhou o noticiário. Se do lado de fora dos desfiles os acessórios mais vistos foram as máscaras hospitalares, nas passarelas os estilistas lidaram com o caos, cada um à sua maneira - alguns evocando a esperança de dias melhores, outros mergulhados em cenários apocalípticos ou usando a moda como canal de deboche e ironia.

Marcada por cancelamentos e uma fila A que ganhava mimos em forma de miniembalagens de álcool em gel, o coronavírus mudou a dinâmica dessa indústria gigantesca que representa mais de US$ 2.5 trilhões (de acordo com um report da McKinsey dado pela Forbes). O desfile da Giorgio Armani, em Milão, por exemplo aconteceu a portas fechadas em um teatro vazio e foi transmitido online; enquanto a designer francesa Agnès B assim como cinco marcas chinesas - Shiatzy Chen, Masha Ma, Uma Wang, Calvin Luo e Maison Mai - cancelaram totalmente suas apresentações em Paris.

Na apresentação da Gucci, em Milão, o grande circo da moda foi exposto com dramaticidade. A começar pela apresentação que exibia os bastidores do desfile, com modelos sendo maquiadas e aprontadas em frente ao público e o staff de criação flanando uniformizado pelo palco. Essa foi uma coleção repleta de contrastantes e pequenas subversões, com laçarotes, sapatos-boneca, ternos xadrez desconjuntados, calças curtas, saias com babados dramáticos.

Na Balenciaga, uma tempestade sinistra alagou a passarela fazendo com que os modelos andassem na água escura com suas capas laqueadas totalmente teatrais. Conhecido pelos desfiles performáticos, o estilista da marca, Demna Gvasalia, veio da Geórgia para se tornar um dos nomes de vanguarda da moda parisiense. Depois de emplacar modelagens superamplas e misturar elementos esportivos à alfaiataria, ele agora se inspirou na austeridade da religião ortodoxa (de seu país de origem) para apresentar um minimalismo com longas capas que lembram batinas, paletós de ombros pontiagudos e peças brilhantes de veludo ou vinil com ares fetichistas.

Para Kanye West, só nos resta rezar. O rapper norte-americano armou um verdadeiro show de louvor no domingo, 1º, em Paris, com 120 cantores gospel vestindo a nova coleção da Yeezy. Na segunda, mais uma apresentação, e dessa vez quem cantou foi a sua filha North West, de 6 anos.

Segundo Vanessa Friedman, editora de moda do The New York Times, todas essas notícias alarmantes acabaram praticamente tirando do radar a fervente discussão sobre o papel da moda na mudança climática e deixando o assunto de lado durante as últimas semanas. Sorte que temos Stella McCartney, a estilista inglesa que desde 2001 produz uma moda livre de couro, peles e penas. Nesta temporada, ela reverenciou a natureza com bijuterias no formato de animais selvagens.

Outro suspiro de esperança que nos faz crer em uma moda possível foi dado por John Galliano na Maison Margiela, que revelou que enviou sua equipe para brechós e mercados de caridade para encontrar peças antigas que podem ser restauradas e retrabalhadas, criando ali uma nova vida a partir do antigo.

Segundo ele, as peças terão uma etiqueta especial com local e período de origem daquele item. O estilista virou o restaurador de arte!

Maria Grazia Chiuri, primeira designer mulher a assumir o comando da maison Dior, coincidentemente apresentou sua coleção no dia seguinte à condenação de Harvey Weinstein. O feminismo e as mulheres fortes estão presentes na passarela, claro. Afinal moda está sempre espelhando o contexto - mesmo que de modo estilizado e altamente glamourizado.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.