Abordando assédio, Nenhum de Nós garantiu contrato na década de 80
Sucesso de 1987, "Camila, Camila" falava sobre o assunto em momento de abertura democrática e quando pouco se tocava no assunto
Música|Helder Maldonado, do R7

Em 1987, com pouco menos de dois anos após o Brasil superar o período de Ditadura Militar, quase não se falava sobre pautas que abrangiam assédio e violência contra a mulher. Muito menos na música pop.
Mas foi exatamente por ousar com uma letra com essa temática em Camila, Camila que o Nenhum de Nós chamou atenção da gravadora BMG Ariola e fechou contrato para lançar o primeiro disco da carreira.
Thedy Correa, líder da banda gaúcha, comenta que a música foi inspirada em um caso real, baseado na história que uma amiga em comum dos integrantes enfrentou em um relacionamento. "Ao tomar conhecimento dessa situação, resolvemos escrever uma canção que abordasse o tema em tom de denúncia", comenta o cantor.
Desde então, a letra serve como inspiração para muitas fãs da banda denunciarem relacionamentos abusivos. "Ao entender do que se trata a letra, pessoas que passavam pelo mesmo problema percebiam que não estavam sós, pois se a música fazia tanto sucesso, era sinal que muita gente também sentia-se tocada pelo tema. Já ouvimos muitos depoimentos contundentes, e isso vem acontecendo com maior freqüência", explica.
Em entrevista ao R7, Thedy comenta o que está por trás da canção e como abordar um tema tabu durante a abertura democrática impactou no sucesso do Nenhum de Nós no começo da carreira.
R7 — A música teve inspiração em algum caso real?
Thedy Correa — Sim. Uma garota que nós conhecíamos do tempo de escola estava vivendo uma relação abusiva, com episódios de violência e constrangimento em público. Ao tomar conhecimento dessa situação, resolvemos escrever uma canção que abordasse o tema em tom de denúncia, mas não de forma direta. O uso das metáforas foi uma opção poética.
R7 — Na época em que a letra foi feita, pouco se debatia sobre a questão da violência contra a mulher e o assédio. O que fez vocês escolherem um tema tabu como esse para uma música?
Thedy Correa — Vivíamos um período pós-ditadura, onde vários temas que ficaram arquivados puderam vir à tona. A geração do rock dos anos 80 vinha fazendo isso de forma brilhante, então sentíamos na obrigação de dar nossa contribuição. Como a questão chegou até nós de forma natural, nos inspiramos a também cumprir esse papel de retomada de consciência que vinha caracterizando nossa geração.

R7 — Houve algum tipo de resistência por parte da gravadora para lançar essa música como single?
Thedy Correa — De maneira nenhuma. Na real, nem sei se eles sacaram do que se tratava. Acharam a canção forte e resolveram contratar a banda por causa dela. Nunca nos pediram para atenuar nada, até porque o discurso era bem subjetivo.
R7 — Até por conta dessa temática, vocês acreditavam que ela se tornaria em um dos hits e clássicos da banda?
Thedy Correa — Nunca imaginamos que ela teria a dimensão que tomou, mas sabíamos que ela era uma canção forte. Desde a primeira vez que tocamos, no ensaio, percebemos que ela tinha algo de muito especial, mas daí a imaginar que ela seria uma das mais tocadas do País naquele ano...
R7 — Desde sempre, se normatizou o abuso e a violência em temas de músicas. E mesmo hoje, com o assunto tão em voga, temos letras que insistem nessa abordagem. Como encara isso?
Thedy Correa — Não creio que esse tema tenha sido suficientemente debatido na nossa música. Temos uma permissividade vergonhosa em determinados estilos e manifestações. Vejo que apenas nos dias de hoje, em pleno 2018, é que estamos assumindo a nossa omissão em certos casos, colocando o dedo na ferida. Muita gente achava engraçadinho "um tapinha não dói". Hoje já é evidente que não tem graça alguma.
R7 — No caso de Camila, houve quem desse testemunhos para vocês dizendo que a música serviu de alerta ou ajudou alguém a sair de um relacionamento tóxico?
Thedy Correa — Desde o início ouvimos inúmeras vezes a frase "sou uma Camila da vida real". Hoje as pessoas aprofundam mais esse depoimento, falando de uma relação de apoio com a canção. Ao entender do que se trata a letra, pessoas que passavam pelo mesmo problema percebiam que não estavam sós, pois se a música fazia tanto sucesso, era sinal que muita gente também sentia-se tocada pelo tema. Já ouvimos muitos depoimentos contundentes, e isso vem acontecendo com maior freqüência. Com uma maior tomada de consciência da sociedade, as vítimas estão perdendo o medo ou a vergonha de abordar sua triste situação.