Música de Sérgio Ricardo vaiada em festival foi inspirada em Garrincha

Cantor e compositor morreu aos 88 anos no Rio de Janeiro. Ele ficou famoso por atirar violão contra plateia que o vaiava no Festival da Record de 1967

Cantor Sérgio Ricardo ergue o violão antes de atirar contra a plateia no Festival da Record de 1967

Cantor Sérgio Ricardo ergue o violão antes de atirar contra a plateia no Festival da Record de 1967

Reprodução/Record TV

O cantor Sérgio Ricardo, que morreu nesta quinta-feira (23) aos 88 anos, no Rio, ficou famoso por quebrar o violão e atirar contra a platéia que o vaiava durante o Festival da Record de 1967. A cena histórica daquele festival mostra Sérgio Ricardo tentando silenciar o público para poder cantar a canção "Beto Bom de Bola". Sem muito êxito, ele começou a cantar debaixo de vaias (e alguns aplausos), e seguiu assim até quase o fim.

A música que ele tentou cantar (e quase ninguém ouviu) era inspirada na vida do jogador de futebol Garrincha, bicampeão mundial nas Copas de 1958 e 1962, e que vivia no final dos anos 60 as consequências de uma carreira marcada por problemas de contusões, familiares e do alcoolismo. O Beto Bom de Bola era, na verdade, Mané Garrincha.

Leia também: Cantor e compositor Sérgio Ricardo morre aos 88 anos

"Vocês ganharam! Vocês ganharam!", gritou Sérgio Ricardo para a plateia, antes de quebrar o violão e atirar contra o público.

Em entrevista a Reinaldo Gottino no Balanço Geral em 2014, Sérgio Ricardo explicou o que aconteceu naquela noite de 21 de outubro de 1967. O público não gostou que Sérgio Ricardo mudou o arranjo da música e começou a vaiar. Por causa de sua atitude, o cantor foi eliminado da disputa. A canção vencedora daquele festival foi 'Ponteio', interpretada por Edu Lobo e Marília Medalha.

(veja no vídeo abaixo):

"Teve todo um movimento político de transformação e eu era de certa forma um inaugurador da música de protesto no Brasil", disse Sérgio Ricardo. "Eu resolvi mostrar uma canção sobre o Garrincha, fiz um samba demonstrando o lado triste da história dele. Mas no final das contas ninguém ouviu a música. Só vaiaram."

Segundo ele disse na entrevista, o episódio foi um marco. Porque a partir dali a cultura brasileira começou a cair.

A letra da música "Beto Bom de Bola" é dividida em duas partes. A primeira conta a história do jogador que era bom de bola "e foi pra Copa buscar a glória, e fez feliz a nação, no maior lance da história".

A segunda parte, no entanto, mostra a decadência do craque. 

"E foi-se a Copa e foi-se a glória/E a nação se esqueceu do maior craque da história", dizia a letra.

"Quando bate a nostalgia, bate noite escura/Mãos no bolso e a cabeça baixa, sem procura/ Beto vai chutando pedra, cheio de amargura, num terreno tão baldio o quanto a vida é dura/Onde outrora foi seu campo de uma aurora pura, chão batido pé descalço, mas sem desventura/Contusão, esquecimento, glória não perdura/Mas, se por um lado o bem se acaba, o mal também tem cura".

Chegada de Mané Garrincha ao Corinthians, em 1966, ao lado de Elza Soares

Chegada de Mané Garrincha ao Corinthians, em 1966, ao lado de Elza Soares

Corinthians/Divulgação

Na época do Festival da Record de 1967, Garrincha tinha acabado de ter uma passagem frustrada pelo Corinthians, em 1966, e começava a perambular de clube em clube. Portuguesa Santista, Flamengo, Novo Hamburgo, Rio-Grandense e Olaria, onde parou de jogar profissionalmente em 1972. Nos dez anos seguintes, Garrincha participou de jogos-exibição. Ele morreu em 20 de janeiro de 1983.

Já Sérgio Ricardo seguiu trabalhando fazendo músicas para trilhas sonoras de filmes compôs músicas para as trilhas sonoras como "Deus e o diabo na terra do Sol" e "Terra em transe", de Glauber Rocha. Também escreveu livros e poesias.