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Entre Pets e Beijos
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Ho, ho, ho! Adote um bom velhinho neste Natal!

Pets idosos têm pelos esbranquiçados e sentidos não tão apurados, mas o amor continua novinho em folha

Entre Pets e Beijos|Do R7 e Lidiane Shayuri Hayashi


Adotamos uma 'boa velhinha'
Adotamos uma 'boa velhinha'

Pego-me escrevendo este texto sentada na cadeira de um avião. Férias. Saí com a minha família do Brasil e seguimos rumo a Cartagena. Há um mês, eu estaria com saudade apenas dos "patutos" Amora e Salomão. Hoje também penso na dona Isabel.

Para contextualizar de maneira rápida, dona Isabel literalmente surgiu em nossa vida no dia 12 de novembro. Eu e meu marido estávamos no carro preparados para buscar a filhota Sarah na prova do Enem. No meio do caminho avistamos veículos freando bruscamente, outros desviando, ônibus buzinando e motos tirando “fina” daquele animal esquelético e prostrado.

Nos aproximamos e eu desci. Espantei o bichinho para a calçada. Entrei no carro e o vimos de novo seguir para a pista. O perigo rondava e, com sorte, lhe restariam alguns minutos de vida naquela movimentação caótica de veículos. O conduzi para a calçada de novo, de novo e mais uma vez. Perguntamos aos moradores da região se conheciam o animal. Fomos até um morador em situação de rua acampado por ali e nada.

Aproximei-me e notei que se tratava de uma cadela. Com medo, ela se agachou e fez xixi no meio da rua. Atordoada e aparentemente sem temer nenhuma outra atrocidade que pudesse lhe acontecer, ela tentava seguir no meio dos carros.

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Assim que a retiramos da rua
Assim que a retiramos da rua

Virei para meu marido e questionei sobre o que fazer. Minha mente e coração sabiam, mas eu queria que ele sentisse a responsabilidade de um resgate. Ele sinalizou que a pegássemos e depois resolveríamos o que fazer. Assim foi. A abracei e a acomodei no meu colo.

Idosa, com a pele da barriga e das patas bem irritada, falhas gigantescas no pelo, desidratada e cheia de calosidades — a falta de comida se prolongou o suficiente para os ossos em contato com o chão encherem aquele corpo frágil e senil de cicatrizes.

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Sem os dentinhos da parte inferior frontal e exalando um cheiro absurdamente ruim (acho que pela primeira vez na vida senti o cheiro forte e real da tristeza do abandono), ela seguiu no meu colo na mais pura paz. Era como se nos conhecêssemos.

No veterinário
No veterinário

Buscamos nossa filha e depois fomos ao veterinário. Era preciso dar um nome. No hospital, uma funcionária sugeriu Isabel, um nome forte para que ela tivesse sorte na vida a partir dali, e eu gostei. Nossas vidas já haviam se entrelaçado e eu nem desconfiava.

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Exames colhidos, constatamos que ela era castrada (indício forte de que já teve um tutor) e tinha aproximadamente seus 12, 13 anos. Dona Isabel ficou na internação para observação por um dia. Tomou banho e seguiu para a lavanderia da minha casa. Com cama acolchoada e potes de comida, a cachorra permaneceu sem se movimentar muito pelos primeiros três dias. Quando ficava em pé, olhava para a porta pedindo para sair.

Saíamos e ela fazia xixi e cocô, sempre lá fora. O olhar cabisbaixo às vezes era lançado em minha direção, de forma fixa dentro dos meus olhos. Aquelas jabuticabas pareciam não acreditar que alguém se importava, e isso me emocionava. Quieta, não esboçava reação nem latido, nada de rabo abanando. Ela apenas seguia.

Difícil para comer, dona Isabel recusou legumes, arroz e carne. O pouco de frango que havia comido no primeiro dia foi descartado por ela no dia seguinte. Comida úmida hiperproteica também não foi aceita. Agora se achou que me venceria com a vontade de se entregar, ela se enganou!! Parti para o ataque! Ela não resistiu ao fígado cozido. Comeu feliz. E, quando ameaçou não comer mais, peguei a papinha com colher e mandei ver naquela boquinha desdentada. Acho que ela percebeu que, se não tinha forças para lutar pela própria vida, eu estava ali para isso!

No terceiro dia, eu a levei para fazer ultrassom. Descobrimos um nódulo na glândula adrenal — responsável pela produção de hormônios. Era preciso passar por um endocrinologista e investigar.

No quarto dia, ela abanou o rabo e latiu ao me ver logo cedo! Festa no coração da família inteira. Mais ativa, ela começou a andar dentro do pouco espaço e atiçar a curiosidade dos outros cachorros. Em qualquer outra época, a tentativa de adaptação seria impossível, pela falta de tempo e disponibilidade em ter alguém em casa para supervisionar a convivência dos três cachorros. Mas nem essa dificuldade havia desta vez. Eu havia acabado de entrar em férias…

Permiti que a dona Isabel perambulasse também pela cozinha, separada por portões dos outros cães. Ela não esboçava reação ao observar os outros curiosos, latindo. Os passeios seguiam, a alimentação havia aumentado, a ingestão de água e a medicação também.

A pele melhorou nitidamente, e era hora de arriscar. Peguei Amora e dona Isabel para um passeio longo. Cansadas, eu as soltei no quintal. Ninguém se aproximou de ninguém. Não teve amizade, mas também não teve rebelião — o que é puro lucro em se tratando de Amora.

O contato com Salomão, por incrível que pareça, me causou mais preocupação. Ele é grande e desengonçado e já a abordou cheirando e a emparedando com seu corpo pesado. O saldo da primeira experiência foi bem positivo.

Separados de novo, dia seguinte, novos períodos de aproximação. Dona Isabel manteve a rotina passeando, se aproximando dos outros e dormindo isolada até o sétimo dia. Naquela noite, ao apagarmos as luzes, ela se revoltou. A velhinha se pôs a latir. Queria companhia. Liberamos a passagem.

Amora, como de costume, dormiu dentro do nosso quarto, e ela e Salomão poderiam escolher onde dormir. Sofá, camas pet no corredor, no sótão... Os latidos pararam e a paz reinou. Foi uma noite tranquila. Ao acordar, vi que ela tinha voltado à lavanderia para dormir. Ela só queria mesmo a garantia de não estar presa.

Foi hora de soltar todo mundo e observar. Salomão, brincalhão, tentou passar por cima dela para pegar um brinquedo e ela se defendeu. Depois foi a vez de ela se aproximar do pote de comida dele e teve "uma discussão".

Nova matilha
Nova matilha

A convivência continua cada vez melhor. Ter um pet idoso demanda atenção, disposição, mas proporciona a contemplação de um ser tão sábio e com capacidade infinita de amar.

Descobrimos que dona Isabel é surda, e mais uma vez percebo quão a natureza é sábia. Se ela ouvisse, talvez tivesse revidado as "rosnadas" que recebeu. Não ouvir neste caso a ajudou a absorver apenas o que realmente é imprescindível para que ela se adaptasse a nossa rotina.

Olhar aquele corpo frágil, agitado e, às vezes, desequilibrado, abanando o rabo para me saudar, emociona, ensina que a vida é incrível. Enxergo na dona Isabel a materialização das lições que devemos aprender na vida: não perder as esperanças, coisas incríveis podem acontecer num piscar de olhos na nossa vida. E, se você pensa que minha filha a resgatou e salvou a vida dessa idosinha, digo mais: pelo menos na minha percepção, dona Isabel não veio com laço de presente nem em embalagem bonita, mas o olhar amoroso que devemos tentar manter sempre nos faz ver além. Eu e minha família ganhamos, e com antecedência, o melhor presente de Natal de todos os tempos — a oportunidade real de fazer o bem a um ser necessitado.

Termino o texto de volta das férias. A hospedagem dos cachorros foi concluída com sucesso. Rotina retomada e todo mundo ainda mais feliz e cuidando da saúde.

Se esse relato o fez refletir e considerar a adoção de um pet idoso, saiba que a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap) está com a campanha Adote um Bom Velhinho na capital paulista. Acesse o perfil @saudeprefsp e veja os detalhes.

Nas próximas semanas, vamos falar sobre a caixinha de surpresas que é a dona Isabel! Para quem lê este texto, desejo que se sinta abraçado, acolhido e expanda esse movimento a todos que puder! Feliz Natal e, se possível (e eu acredito que sempre é), adote um pet, não compre! 

Ho, ho, ho! Por aqui, ninguém solta a pata de ninguém!

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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