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Patricia Lages

Ciência promissora para reverter paralisia perde espaço para polêmica ideológica

Em vez de discutir avanço biomédico, jornalista esvazia a notícia e prioriza tensão ideológica

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Em entrevista, a primeira pergunta a Tatiana Sampaio, bióloga e pesquisadora, é sobre polêmica religiosa e não sobre os avanços de seus estudos - Foto: reprodução/TV Cultura Só Notícia Boa

Na edição da última segunda-feira, 23, o programa Roda Viva recebeu a bióloga e pesquisadora da UFRJ, Tatiana Sampaio, para tratar de um tema que, por si só, deveria concentrar toda a atenção: estudos envolvendo a proteína polilaminina e seu potencial na regeneração de lesões na medula espinhal.

Em termos simples, a pesquisa investiga mecanismos biológicos capazes de estimular a reconexão de neurônios, algo que pode representar um avanço real na reversão de paralisias em casos específicos.


Trata-se de ciência aplicada, com impacto direto na vida de milhares de pessoas. Porém, o jornalista Jairo Marques, da Folha de S.Paulo – cadeirante desde a infância – tentou desviar o foco para uma controvérsia periférica.

Marques citou postagens nas redes sociais replicando uma fala da pesquisadora, na qual ela afirma que a estrutura molecular da proteína tem formato de cruz, fato que estaria levando as pessoas a chamarem a polilaminina de “proteína divina”.


Segundo ele, pessoas com deficiência já são “cobradas por fé” e que, se passar na porta de uma igreja “meio desavisado, você pode ser captado ali para poder rezar mais e melhorar.”

E então veio a pergunta, que não aborda metodologia, evidência clínica, reprodutibilidade ou estágio de testes, além de ignorar o potencial de um estudo de ciência aplicada, com impacto direto na vida de milhares de pessoas. O que preocupa Marques é se a eventual apropriação simbólica, feita por terceiros, não criaria um “problema” ao associar ciência de “questões religiosas”.


A resposta da cientista foi objetiva: “A laminina tem uma forma de cruz. Isso é um fato, não tem como evitar que seja assim.” Quanto às interpretações religiosas, Sampaio afirmou que não cabia a ela julgá-las.

O episódio expõe um problema recorrente no jornalismo contemporâneo, em que, frequentemente, a pauta deixa de ser a informação central para se tornar palco de disputa ideológica. Em vez de aprofundar o potencial terapêutico da pesquisa, o jornalista optou por tensionar a relação entre ciência e fé, como se uma invalidação simbólica da descoberta fosse mais urgente do que a possibilidade concreta de reverter uma paralisia.


Paralelo histórico, hipocrisia de sempre

Para mim, é inevitável o paralelo entre o que ocorreu no programa e alguns relatos bíblicos. Os evangelhos citam as críticas frequentes com que fariseus e saduceus atacavam Jesus pelas curas que realizava aos sábados. Para eles, não importava o fato de as pessoas estarem sendo libertas de suas mazelas e doenças, pois não tinham o menor interesse no bem-estar delas.

O foco dos religiosos, chamados de hipócritas inúmeras vezes pelo próprio Jesus, estava em diminuir os milagres que testemunhavam com os próprios olhos, para que continuassem a manipular as pessoas e não perdessem seu status de “representantes de Deus”.

Quando o jornalismo abandona a centralidade do fato para priorizar militância, repete-se a lógica em que o benefício coletivo perde espaço para uma polêmica descabida. A pergunta que fica é: quem ganha quando o foco sai da esperança terapêutica e se desloca para a controvérsia ideológica?

É uma pena que o jornalismo, que tanto pode fazer pela população de um país, esteja reduzido a uma militância que só enxerga o próprio umbigo e tenta dividir cada vez mais as pessoas que diz ter a missão de informar.

No fim, quem perde não é a pesquisadora, nem a fé (pois as pessoas não vão trocar suas crenças pela visão isolada de alguém), nem a ciência, que continuará fazendo seu trabalho, apesar de a imprensa raramente lhe conferir o devido valor.

Quem perde é o público, que poderia receber uma lufada real de esperança em relação à paralisia, mas é conduzido a mais um capítulo de uma guerra cultural que já cansou quem tem, pelo menos, um par de neurônios.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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